13.4.10

Sem vontade




Os dias andam estranhos. Toma-me de assalto esta vontade de não ter vontade. As ideias chegam soltas, perdem-se como areia que tento segurar entre os dedos, na imensidão das coisas que faço sem dar conta delas. São fotografias perdidas, em que escapa o momento porque o queremos guardar e não recordamos, porque entrincheirados naquele pequeno visor, perdemos tudo o resto que o tempo levou.
A memória já me trai, parece uma gaiola de porta aberta onde os pássaros escapam e não voltam. Percebo que as memórias antigas são mais plácidas e ternas, amaciadas como cachorros aninhados no colo do dono, pedindo apenas que as deixemos ficar.
Dou comigo rodeado de palavras, como gente junta que não se conhece nem se percebe, apenas se juntam e se repetem, para formar cordões que se explicam pela torrente e força que movem. São pedaços de ferro que aqueço em sangue quente, sem molde, dando-lhes a cor das veias, fantasia do tempo das chuvas, onde nada se semeia, apenas se espera e se lava o chão sujo de lembranças escritas.
São os dias ocos, torpes, destas horas que mirram, encaixadas na escuridão de cada noite longa, onde as rugas se vincam e o sono escapa a cada momento.
Estou sem vontade, como se esgotada, me fizesse ser o que não quero, como se o esforço me compense de mim próprio, como se me instalasse em qualquer varanda e observasse tudo o que eu mesmo faço ou não faço. Os sonhos incomodam-me, falam de outros dias, falam de coisas que não acontecem fora, são pedaços de dentro que vomito na minha realidade, e o Mundo é do meu tamanho, como é a dor e a alegria, e como os teus olhos que me ocupam o coração a tempo todo.
Os dias são os mesmos, o Mundo tem o tamanho que o meu ser abarca e é feito do tempo e de cada circunstância, sem “ses” que lhe amesquinhem o direito de ser diferente de tudo o que quero, posso e mando. A minha vontade nasce e morre ao mesmo instante, voa desordenada direito a essa luz que ofusca e me embebeda, a minha vontade hibernada e dolorida que nada diz, nem escreve. Hoje levantou-se e disse que nada é sempre assim pela vida fora.

1 comentário:

b ú z i o disse...

astenia primaveril em alma de poeta...de resto, tudo vive em ti, com sensibilidade e paixão.

como é bom ler-te...pena que assim desvitalizado...

bj grnd de força e estima, ana