14.2.15

Notas presas




















as notas (as palavras) tocam afinadas
as frases falam do assunto de todos os meus dias – de ti
pela janela a chuva diz-me que estou bem aqui dentro
a música fala comigo
aquece os meus dedos
mesmo que fujas
mesmo que deixes o meu ombro se encostar ao teu
as histórias que eu invento e procuro
são tão diferentes das tuas
as ruas levam mais água que gente
e os candeeiros parados
foscos
alumiam a noite dos teus olhos
desta distância cavada entre nós
do que quero dar e no que arriscas aceitar
eu poema e tu prosa
eu baile e tu dança
eu onda e tu mar
eu beijo tu um corpo inteiro
na inocência das amizades rejeitadas
que a paixão não sabe conceder
deixa que o meu murmúrio se levante
e que os lábios trementes balbuciem
que é de ti que sempre falarei
mesmo que as notas (as palavras) se calem desafinadas.


12.2.15

Histórias de amor


Histórias de amor

 












encontro-me contigo
no meio das coisas que não são nossas
sem ramos de flores acabados
o sol nasce vagamente
ocultos dos teus olhos irradiando estrelas
intensos
amo a tua pele
falo com ela a linguagem muda
as paixões perenes
são gargalhadas sisudas de quem anda pela vida
e os impulsos travam as mãos de quem te quer toda
e se dá
a tempo de se preservar e se deixar despir
somos e deixamos de ser nus
como se tudo viesse do nada
e do nada tudo viesse
se apenas tudo fosse como no poema
e pudesse proclamar a cada pedaço do teu corpo
o meu amor
e a tua cabeça se aquietasse no meu peito
dizendo que me queres
as histórias perder-se-iam
e voltariam a achar-nos quando não as quiséssemos contar.

Amo-te


 
















Amo-te pela simples razão de me perder em ti
Amo-te porque em ti me encontro
Amo-te pela profundidade dos teus olhos
Amo-te nas nossas linguagens cúmplices escondidas
Amo-te sem saber quanto isto representa
Amo-te sem saber como isto diz mais que aquilo que digo
Amo-te no toque gentil
Amo-te no desejo negado do teu beijo
Amo-te imaginando-te nua
Amo-te na minha cama
Amo-te mesmo nos dias em que te esqueço que te vi ao longe
Amo-te como se tudo bastasse
Quando te amo

29.1.15

Não sou daqui


 













não sou daqui,
o meu corpo é empecilho
nesta viagem
só os sonhos me sustentam
a visão regular dos amanheceres
de todos os dias que chegam e vão
repetidos, certos
dão respostas por trás da porta
não posso
já é tarde
venha depois
é do que não tenho que sigo
por onde não sou
do que ainda não fui
de ti
de cada poro teu que ainda não me pertence
e dum beijo macio
que não me entregaste
que as coisas pequenas não me movem
como, bebo, como se o amanhã
não pudesse chegar
e apenas o teu corpo
me sacia
e esta fome que tenho
soubesse aos teus seios
e ao cheiro desse teu cabelo
preso nos meus pulsos
quando te amo sem saber se amanhã
serás ainda minha
não sou daqui
desta cama vaga longa e branca
não sei onde pousar os pés
nem deixo marcas no teu tapete
sei que sou da viagem
e dos dias incertos
sou daqui
deste poema
que só sabe falar de ti.

17.1.15

Ouvir de guerra











oiço o troar de cada palavra metálica
como um obus
ou uma matraca
oiço e não entendo
quantos jazem no chão de cara desfeita
membros perdidos decepados
oiço gritos frescos adormecidos
as casas destronadas
antigos reinos
onde já não reinam as brincadeiras legítimas
das idades
dos que serão sempre senhores
das razões soberanas
e das verdades maiores que os olhos
avermelhados roxos
dos panos de gaza
da Manchúria e dos desertos
onde corre o sangue fresco
das gentes de pé
e dos que impõe o silêncio
aos que se prostram no sim
mesmo que o não lhes traga outro sol
para que as lágrimas não corram
na tua face meu amor
e me dês um sorriso de manhã

28.12.14

Excomungado


















Há em ti
um pequeno pecado que me torna
excomungado
um desejo abençoado
como semente lançada ao teu corpo
que não me deixa repousar
desta noite quente onde transpira o meu peito
como um eterno fio de água
que se torna mar imenso
sempre uma vastidão para além de ti
onde já não posso chegar
um azul transparente rebelde
da cor que já não importa
como se outra cor fosse ou importasse
hoje que as minhas mãos me deixam esquivo
ao teu toque
ao teu aprender
de não me quereres
das mãos perdidas
apartadas
das escolhas simples
das minhas
onde longe navegas
e não te sei alcançar


30.9.14

AMOR DE TODOS OS DIAS















Na placidez dos beijos enfurecidos
pergunto-me a que sabem os teus
senão à tua boca
a que cheiram
senão à carne da tua língua
abraçando a minha
nem será importante que o saiba
hoje
quando soluças ou estremeces
nos teus orgasmos plenos
férteis
os nossos corpos encontrados a meio do outono
simples
nús
como sempre serenamente me soubeste fazer feliz
e por isso sempre a ti volto
sempre de novo desejando-te
porque os teus seios se decalcam no meu peito
e os nossos lábios têm falas próprias, destinadas
a nada dizer
se o que sentimos porventura nada diz
como as árvores que nascem onde querem nascer
como os meus dedos
no teu sexo
verdadeiro
e os teus sussurros pronunciados
que me nomeiam teu
na nossa cama
porto velho
onde atracamos no fim das jornadas
o nosso único navio
cheio das gargalhadas e dos sorrisos
junto às trouxas de lágrimas
dos dias vencidos
dos poemas feitos de olhos fechados
no calor do teu corpo exausto
contra as minhas costas suadas coladas
que me fazem teu
amovível
sem carnes nem contornos novos
que as cicatrizes marcam fronteiras
num amor sem olhos que o veja
como um poço sem fundo
onde tudo guardamos
no entusiasmante encontro veterano
dos gestos juvenis que vão nascendo
nos encontros dos dias
da velha casa
velho tecto conhecido
meu abrigo novo

meu amor de todos os dias

25.8.14

Agora

agora que o calor abranda
depois dos dias descansarem
a tarde abraça-nos
é agora que te recebo no peito
e o meu braço te circunda
quando o cheiro do teu pescoço nú
me diz o quanto nos temos
mesmo à entrada da porta
onde o chão se torna cúmplice
e o meu delírio são as tuas pernas
os gestos tremem
na gratidão do teu corpo
de cada beijo sôfrego sufocado
agora que a vida se deixa ficar sem outra razão
que não a tua blusa largada
perdida
e os meus lábios colados
em cada ponta dos teus seios
é neste momento que sei que a paixão
lê no mesmo livro
que o amor
entoando as letras
numa espécie de canto vivo
quando os olhos se fecham e tudo
vive por detrás da nossa pele
agora agora mesmo enquanto rolas por mim
agora que as tuas coxas deixam o seu sabor
em cada poro
um canto final baixinho livre
procura o teu ouvido
e murmura num agora
a única expressão que pode ser dita
sem coragem de mentir
agora somos nós
agora amamos
agora tudo vem
te dou
te recebo

2.8.14

Deixas-me












o que me deixas quando partes
para além do gosto dos teus lábios
das marcas de ti
no meu peito
o que deixas
além do cheiro do teu lenço esquecido
e dos teus poemas e desenhos espalhados pelos cantos
da casa
deixas dentro dos meus dedos
a vontade de te retomar
fazer-te mulher
na nossa cama
deixas os meus olhos tateando
nas memórias
achando-te
em cada sítio onde me beijaste
e as tuas mãos e braços
me rodearam e me aqueceram
deixas a ousadia de passeares nua
de janelas abertas
deixas a ternura das tuas lágrimas lendo
os meus dias e os meus poemas
deixas o teu sorriso
quando vestes a minha camisa da véspera
e me deixas amante
das tuas coxas longas
estupendas
o que me deixas quando partes
tem o tom dos silêncios
e uma música doce, pequena
que me sussurra
que me deixas para que te ame mais

17.7.14

Razão de te querer

















não há mais razões para que não te queira
não há mais histórias para que troque a tua pele pelos sentidos
não há mais dias de chuva para que chegue atrasado
nem as noites são longas para que tenha de voltar
fico aqui debaixo do teu corpo 
desconforme
e a imaginação é curta quando subo por ti
e deixo os meus lábios desventrando os teus
mordendo-os na angústia da fome
que faz de nós um tronco só
a epiderme é um tapete acetinado por onde deslizam
as tuas mãos de feiticeira
fazendo magia em cada contorno
deste desenho que riscamos nesta cama
enorme
gigante
onde os lençóis se amortalham
e os desejos se compõem
não há histórias de destinos
nem os teus olhos são fatalmente
fatais
apenas se ouve o sussurrar dos outros
passando sem que nos entendam
e da tua pele e da minha
há conversas que não se traduzem
quando caminhamos juntos
nos becos estreitos das Lisboas encontradas
e da sede do sol que espreita
apenas nos cantos escondidos
ocultos das sombras
onde o beijo
traz o teu corpo apertado no meu
aqui neste dia de todos os dias
a razão não existe
apenas te quero.

3.7.14

Sons e sentidos
















não quero ver os sons sem os olhar primeiro
as mulheres loucas
assustam-me
quando correm esbracejando nas
avenidas límpidas, direitas
dizendo impropérios
antes fossem homens estropiados
loucos semi – nus coléricos naturais
não quero deixar de lado o que vejo
embora dentro de mim
tudo seja tão claro
e hajam palavras antigas de que me recordo
os cheiros
e músicas que me levam pela mão
inadequados, enganos
os sons que vejo
são memórias dispendiosas
cristais pendurados
heranças de família
pressinto e não quero olhar
e quando vejo
o tempo que gasto a ver
cansa-me
e volto dentro de mim
e esta casa, minha
destelhada, sem portas
onde a esperança são dois vãos de
escada
e a entrada se faz por todos os olhos
que me vigiam
recuso ficar sentado, mesmo que o céu
esteja na beira da minha loucura
antes partir
e deixar de ouvir os meus sentidos
antes sair e trazer de novo os sons
os mais fracos aguados
como as chuvas veraneias
fruto do tempo
onde as marés mandam
e o sol nasce sem saber o que vestir
fico à beira do lugar onde sempre soube
encontrar-te
não te espero por te ouvir chegar
olho-te e sei que chegarás.

4.4.14

Solilóquio

















olho todos os que me querem
por aquilo que tenho
amo, os que me querem
por quem sou, quero-os.
desprezo o meu nome
em listas, agendas, ficheiros
dos que podem, gritam
de quem manda.
a minha vida assenta
em papel e num lápis
em poder desenhar estas letras
que me abraçam e sorvem a alma
e explicam a parte real do que sou.
reparo em tudo o que quero
nesse abraço que vem por trás da nuca
como lenço de cetim
mimando
querendo o que os outros possuem e eu já vi,
o que raramente entendo, o que eles são.
são horas demasiado longas
companheiro de mim
irmão de cárcere
sem escolha, compartilho catre e um prato
cinzento de metal, frio
de tudo o que digo, verdade e mentira
sou a solidão de todos os momentos
e murmúrios de solilóquios
onde apenas falo à minha própria paixão
e por fim deixo que o teu nome
me percorra
guardo-o como um tesouro em relicário
brilhando entre o vazio
de tudo o que não me serve.
da distância perplexa
da vontade
minha e tua e dos teus pés
para onde caminha um horizonte azul, longínquo
por um homem que sabe a saudade
na secura da boca
esvaziada. 

25.1.14

Vento na praça

O vento toca a praça
as bandeiras e as golas dos casacos
juntam-se ao coro dos protestos
passam as nuvens em corrida
com as gaivotas, lestas
a chuva parou,
como eu,
sentado num qualquer lugar
atrás dos vidros
plasmado
dizendo que te vi
quando o vento toca a praça.

16.1.14

Nunca










Nunca me ames
da maneira que te peço
nunca me queiras
quando não me lembrar
das flores já prometidas
ou do caminho da tua porta.
nunca me ames
se o sabor dos nossos beijos
souber a carne e sangue frios,
ou os nossos abraços
não saciarem a fome
dos teus olhos apertados
nunca me queiras
quando os lençóis te quiserem
e o teu corpo não se incendiar
nunca me ames
quando não ler o teu livro
e não souber dizer-te o poema
fresco, como o nascer da manhã
quando acordar o teu corpo ao meu lado.
nunca me ames
quando cavalgarmos à solta
sem destino
com palavras incontidas
no delírio do teu corpo
nú.
nunca deixes de me amar
nunca deixes de me querer
sempre que te lembres de mim.


15.1.14

Guitarra de pássaro



os pássaros voam picado
nos lençóis de água levantados
uma tormenta toda adivinhada
um clamor de lágrimas
batendo nas rochas sem escolha
salgadas, desamparadas.

os meus dedos tocam as cordas
de aço marcante
na ponta da tarde escurecida
uma guitarra antiga, preciosa
que não guarda as melodias
e me obriga a repetir
os pássaros continuados
que vão e voltam
aos ninhos sem morada,
desconhecidos
que me entendem
pedindo que voe sem medida

e num gesto de tosco entorpecido
desnudo a guitarra
que toca sozinha e alto
e oiço o peso da canção de voar
leve e picada
rente ao chão seco
que nunca olhou o mar. 

31.12.13

Mil dias



















Há mil dias
que o sol não descansa, o brilho foge aos poucos, esmorece
a luz foge entre as farpas
das madeiras fracas, ocres, escuras.

Olho-te e nada vejo…

Já não és o primeiro dia
nem as tuas lágrimas me surpreendem.
os teus beijos, por vezes calam-me
e o teu toque sabe ao toque dos deuses
que suaviza e reclama os ventos,
como o mar que cheira aos teus cabelos
e se deixa ficar, liso, salgado.

Há mil dias que deixo os meus pés por aí
descalços, sem meias
sem nada que me desfaça da vontade.
Há mil dias
que o tempo das horas morreu,
mil dias sem o teu colo

mil dias sem descansar.

Modo


 
Estranho o modo
como as coisas se passam e acontecem,
como os quadros se pintam dentro dos meus olhos.
‘inda agora a água caía dos céus, diluviana.
Agora tiro o casaco,
arregaço as mangas afogueado,
e passo a mão no cabelo, molhado
deste sol que abrasa.
Ainda agora as tuas palavras me beijavam,
e sentia a seda dos sons.
De cada esboço pequeno, dos teus lábios.
Pela noite longa e solta,
fazia que me levantasse e escrevesse todos os poemas
que rasgavam o meu peito
e me doíam de contidos
onde nunca poderiam ser aprisionados.
Hoje, as palavras
tomam a cor do gelo, brancas.
Espalham-se
e prendem os regatos
por onde saltavas descalça, seminua.
Estranho o modo
como tu não estares,
me faz escrever
o que eu antes nunca saberia escrever
nem dizer, do meu próprio modo. 

14.11.13

Anjo




















Em cada raio quente
que o sol deposita no teu rosto
um novo sol se acende
iluminando teus olhos.
Devolves em sorrisos
o calor das manhãs caladas,
e debruçada nos beirais
beijas as rosas
que te desconcertam em perfumes raros
e falam das aragens cálidas
que te amam em cada pétala
que te beija o rosto.
Em cada pedaço dos teus gestos
há um bailado novo
e uma promessa de um passo
leve e terno
como o cetim da tua pele
onde quero poisar,
pássaro do lado errado,
para te poder deixar
um poema breve
que te traga a mim.
Em ti,
há um anjo que atravessa as ruas
do lado dos dias
e ilumina a larga noite
trauteando a canção
de uma dor esquecida
num braço estendido, solto
que me abraça e diz
aqui estou,
e permanece sorrindo
iluminando,
até que a manhã volte
outra vez.





11.11.13

Vem

Cada vez que os sonhos acordarem
chega-te bem perto
naufraga, afunda estas dúvidas
cala os meus receios
e deixa que seja teu
nas promessas
que os corpos cumprem
quando na cama
os riachos se tornam
mar cheio
alteroso, inquieto.
Vem
traz-me os sinais
das espigas maduras
que os prados loiros pariram,
traz-me o sabor de um pão
trincado,
e serei teu
saciando a fome nesses teus seios
e no teu corpo
tatuado no meu
como um sereno pôr-do-sol
sem mar nem céu
vem
que me sabe bem

saber que vens.

29.9.13

Pétalas















As pétalas caem ainda brancas
nem tocam o chão
entregues ao vento
partem como pássaros, num voo de ida
sem sortes de regressos.
As sombras permanecem
nestes caules espinhosos
que a terra agarra
mesmo saindo o sol em viagem
estendendo a passadeira aos dias cinzentos
e a noites pálidas, lúgubres.
Os rostos dos fantasmas atendem sentidos
cata-ventos
de perfumes emigrados
memórias pesadas, carregadas às costas
arranhando a pele.
Somos vivos
como as pétalas
fragmentos da flor
que me lembra de ti
dos meus lábios secos, viajantes
dum café demorado
numa praça de um qualquer sítio
sabor desses olhos
que sorriem
ao ver uma pétala tocar o chão.