17.7.14

Razão de te querer

















não há mais razões para que não te queira
não há mais histórias para que troque a tua pele pelos sentidos
não há mais dias de chuva para que chegue atrasado
nem as noites são longas para que tenha de voltar
fico aqui debaixo do teu corpo 
desconforme
e a imaginação é curta quando subo por ti
e deixo os meus lábios desventrando os teus
mordendo-os na angústia da fome
que faz de nós um tronco só
a epiderme é um tapete acetinado por onde deslizam
as tuas mãos de feiticeira
fazendo magia em cada contorno
deste desenho que riscamos nesta cama
enorme
gigante
onde os lençóis se amortalham
e os desejos se compõem
não há histórias de destinos
nem os teus olhos são fatalmente
fatais
apenas se ouve o sussurrar dos outros
passando sem que nos entendam
e da tua pele e da minha
há conversas que não se traduzem
quando caminhamos juntos
nos becos estreitos das Lisboas encontradas
e da sede do sol que espreita
apenas nos cantos escondidos
ocultos das sombras
onde o beijo
traz o teu corpo apertado no meu
aqui neste dia de todos os dias
a razão não existe
apenas te quero.

3.7.14

Sons e sentidos
















não quero ver os sons sem os olhar primeiro
as mulheres loucas
assustam-me
quando correm esbracejando nas
avenidas límpidas, direitas
dizendo impropérios
antes fossem homens estropiados
loucos semi – nus coléricos naturais
não quero deixar de lado o que vejo
embora dentro de mim
tudo seja tão claro
e hajam palavras antigas de que me recordo
os cheiros
e músicas que me levam pela mão
inadequados, enganos
os sons que vejo
são memórias dispendiosas
cristais pendurados
heranças de família
pressinto e não quero olhar
e quando vejo
o tempo que gasto a ver
cansa-me
e volto dentro de mim
e esta casa, minha
destelhada, sem portas
onde a esperança são dois vãos de
escada
e a entrada se faz por todos os olhos
que me vigiam
recuso ficar sentado, mesmo que o céu
esteja na beira da minha loucura
antes partir
e deixar de ouvir os meus sentidos
antes sair e trazer de novo os sons
os mais fracos aguados
como as chuvas veraneias
fruto do tempo
onde as marés mandam
e o sol nasce sem saber o que vestir
fico à beira do lugar onde sempre soube
encontrar-te
não te espero por te ouvir chegar
olho-te e sei que chegarás.

4.4.14

Solilóquio

















olho todos os que me querem
por aquilo que tenho
amo, os que me querem
por quem sou, quero-os.
desprezo o meu nome
em listas, agendas, ficheiros
dos que podem, gritam
de quem manda.
a minha vida assenta
em papel e num lápis
em poder desenhar estas letras
que me abraçam e sorvem a alma
e explicam a parte real do que sou.
reparo em tudo o que quero
nesse abraço que vem por trás da nuca
como lenço de cetim
mimando
querendo o que os outros possuem e eu já vi,
o que raramente entendo, o que eles são.
são horas demasiado longas
companheiro de mim
irmão de cárcere
sem escolha, compartilho catre e um prato
cinzento de metal, frio
de tudo o que digo, verdade e mentira
sou a solidão de todos os momentos
e murmúrios de solilóquios
onde apenas falo à minha própria paixão
e por fim deixo que o teu nome
me percorra
guardo-o como um tesouro em relicário
brilhando entre o vazio
de tudo o que não me serve.
da distância perplexa
da vontade
minha e tua e dos teus pés
para onde caminha um horizonte azul, longínquo
por um homem que sabe a saudade
na secura da boca
esvaziada. 

25.1.14

Vento na praça

O vento toca a praça
as bandeiras e as golas dos casacos
juntam-se ao coro dos protestos
passam as nuvens em corrida
com as gaivotas, lestas
a chuva parou,
como eu,
sentado num qualquer lugar
atrás dos vidros
plasmado
dizendo que te vi
quando o vento toca a praça.

16.1.14

Nunca










Nunca me ames
da maneira que te peço
nunca me queiras
quando não me lembrar
das flores já prometidas
ou do caminho da tua porta.
nunca me ames
se o sabor dos nossos beijos
souber a carne e sangue frios,
ou os nossos abraços
não saciarem a fome
dos teus olhos apertados
nunca me queiras
quando os lençóis te quiserem
e o teu corpo não se incendiar
nunca me ames
quando não ler o teu livro
e não souber dizer-te o poema
fresco, como o nascer da manhã
quando acordar o teu corpo ao meu lado.
nunca me ames
quando cavalgarmos à solta
sem destino
com palavras incontidas
no delírio do teu corpo
nú.
nunca deixes de me amar
nunca deixes de me querer
sempre que te lembres de mim.


15.1.14

Guitarra de pássaro



os pássaros voam picado
nos lençóis de água levantados
uma tormenta toda adivinhada
um clamor de lágrimas
batendo nas rochas sem escolha
salgadas, desamparadas.

os meus dedos tocam as cordas
de aço marcante
na ponta da tarde escurecida
uma guitarra antiga, preciosa
que não guarda as melodias
e me obriga a repetir
os pássaros continuados
que vão e voltam
aos ninhos sem morada,
desconhecidos
que me entendem
pedindo que voe sem medida

e num gesto de tosco entorpecido
desnudo a guitarra
que toca sozinha e alto
e oiço o peso da canção de voar
leve e picada
rente ao chão seco
que nunca olhou o mar. 

31.12.13

Mil dias



















Há mil dias
que o sol não descansa, o brilho foge aos poucos, esmorece
a luz foge entre as farpas
das madeiras fracas, ocres, escuras.

Olho-te e nada vejo…

Já não és o primeiro dia
nem as tuas lágrimas me surpreendem.
os teus beijos, por vezes calam-me
e o teu toque sabe ao toque dos deuses
que suaviza e reclama os ventos,
como o mar que cheira aos teus cabelos
e se deixa ficar, liso, salgado.

Há mil dias que deixo os meus pés por aí
descalços, sem meias
sem nada que me desfaça da vontade.
Há mil dias
que o tempo das horas morreu,
mil dias sem o teu colo

mil dias sem descansar.

Modo


 
Estranho o modo
como as coisas se passam e acontecem,
como os quadros se pintam dentro dos meus olhos.
‘inda agora a água caía dos céus, diluviana.
Agora tiro o casaco,
arregaço as mangas afogueado,
e passo a mão no cabelo, molhado
deste sol que abrasa.
Ainda agora as tuas palavras me beijavam,
e sentia a seda dos sons.
De cada esboço pequeno, dos teus lábios.
Pela noite longa e solta,
fazia que me levantasse e escrevesse todos os poemas
que rasgavam o meu peito
e me doíam de contidos
onde nunca poderiam ser aprisionados.
Hoje, as palavras
tomam a cor do gelo, brancas.
Espalham-se
e prendem os regatos
por onde saltavas descalça, seminua.
Estranho o modo
como tu não estares,
me faz escrever
o que eu antes nunca saberia escrever
nem dizer, do meu próprio modo. 

14.11.13

Anjo




















Em cada raio quente
que o sol deposita no teu rosto
um novo sol se acende
iluminando teus olhos.
Devolves em sorrisos
o calor das manhãs caladas,
e debruçada nos beirais
beijas as rosas
que te desconcertam em perfumes raros
e falam das aragens cálidas
que te amam em cada pétala
que te beija o rosto.
Em cada pedaço dos teus gestos
há um bailado novo
e uma promessa de um passo
leve e terno
como o cetim da tua pele
onde quero poisar,
pássaro do lado errado,
para te poder deixar
um poema breve
que te traga a mim.
Em ti,
há um anjo que atravessa as ruas
do lado dos dias
e ilumina a larga noite
trauteando a canção
de uma dor esquecida
num braço estendido, solto
que me abraça e diz
aqui estou,
e permanece sorrindo
iluminando,
até que a manhã volte
outra vez.





11.11.13

Vem

Cada vez que os sonhos acordarem
chega-te bem perto
naufraga, afunda estas dúvidas
cala os meus receios
e deixa que seja teu
nas promessas
que os corpos cumprem
quando na cama
os riachos se tornam
mar cheio
alteroso, inquieto.
Vem
traz-me os sinais
das espigas maduras
que os prados loiros pariram,
traz-me o sabor de um pão
trincado,
e serei teu
saciando a fome nesses teus seios
e no teu corpo
tatuado no meu
como um sereno pôr-do-sol
sem mar nem céu
vem
que me sabe bem

saber que vens.

29.9.13

Pétalas















As pétalas caem ainda brancas
nem tocam o chão
entregues ao vento
partem como pássaros, num voo de ida
sem sortes de regressos.
As sombras permanecem
nestes caules espinhosos
que a terra agarra
mesmo saindo o sol em viagem
estendendo a passadeira aos dias cinzentos
e a noites pálidas, lúgubres.
Os rostos dos fantasmas atendem sentidos
cata-ventos
de perfumes emigrados
memórias pesadas, carregadas às costas
arranhando a pele.
Somos vivos
como as pétalas
fragmentos da flor
que me lembra de ti
dos meus lábios secos, viajantes
dum café demorado
numa praça de um qualquer sítio
sabor desses olhos
que sorriem
ao ver uma pétala tocar o chão.




14.9.13

Tu, vida…



Soube que o dia tem sempre um começo novo na noite que passa. Como quando te deixo e parto, olhando para ti, e me largo na aventura certa que não sei nem me importa como vai acabar.
Discordo da discórdia entre o que dizes e o que tu mesma representas, no teu dizer dos olhos, da tua boca, de ti toda vestida e sempre nua.
Avassalador, é sempre o momento todo das vidas com mil estórias contigo, de onde nunca soube estar. Apenas porque te olho e entendo esta adição, este vício de ti, ébrio da contemplação fútil, novelesca. És bela e basta-me. Como sempre, sublime, estás, apenas estás, sentada como se nada houvesse que te pudesse perturbar, como se o calor da minha mão, ou a agudez dos meus olhos não existissem, quando suborno a aragem ligeira para que libere a tua saia e transponha o teu joelho, e no simples prazer do deleite tudo baste.
No mundo, todos os poderes têm a circunstância de apenas serem poderes. Absolutos; fechados; efémeros. Todos morrem e se circunscrevem. Mesmo a terra, é um pequeno e simples átomo de um universo incomensurável, onde nem os mais entendidos em métricas são capazes.
Assim tu me possuis, nesse anteparo dos sentidos, nessa jaula onde entro, onde a água e a ração que me depositas todos os dias, são razão de vida e subsistência.
Percebo-te por detrás do meu ombro, o teu respirar quente, o teu cheiro perseguindo os movimentos, como um gato caçando moscas. Um dia sou o teu sacerdote, o imolador dos teus rituais, pedindo a tua graça e protecção, outras o teu escravo que imolas e te serve sem um amanhã que respire liberdade.
Por fim, as correntes caem, por fim sou eu olhando-te de longe, sou eu sem casaco e tu um ser frágil e belo, sempre belo, de que me largo, somos corpos nus e voláteis dizendo coisas sem sentido, e o teu cabelo apanhado, liso, a porta por onde saio livre e sem mais que o desejo de perder as memórias nas ruas onde não passarei jamais.
Um dia, um dia que ainda não existe nem adivinho, escreverei o poema mais cru, selvagem e profundo que existe, falando de mim e deste desejo que ancorado neste porto de onde sairei, te possa levar no meu barco, e no meio de um mar sem volta poder dizer-te de cor, olhando-te nos olhos o quanto hoje apenas és um breve pássaro no horizonte das coisas que existem.



7.8.13

Momentos contigo




















Por fim, toquei o teu corpo, quando num aceno breve do teu rosto, deixaste que o meu peito se colasse ao teu, e na explosão e no amplexo deste momento, como um fogo que vem do nada, o calor do teu corpo me disse ser verdade. Como se sentisse que o final de todos os dias começaria agora, como se um mundo novo acabasse de ser descoberto.
O sol bateu dentro de mim, como a um gato estendido nas lajes do alpendre. Os olhos fechados guardaram cada átomo, cada milésimo de segundo precioso, quando me deixaste entrar, e te olhando vi tudo o que podia olhar, e os teus olhos como duas esmeraldas doces disseram apenas sim, e me pediram apenas que te dissesse sim, sem passado nem futuro, apenas ali.
Os livros que encontro por ti a dentro, são pensamentos confundidos, são apenas actos de sentir e  ler, e Eugénio e Cesário abraçam-se na escrevaninha, Camus no peitoril da janela, espreita os pedaços do sol que morrem pela tarde dentro. Pessoa, o Joaquim, está junto às tesouras e à fita-cola, em cima de cadernos onde te encontro solta, folheada em trechos frescos dos teus próprios poemas, e os teus braços que me puxam, são ainda mais longos e fortes que a ponte vermelha que nos olha da tua varanda. E amamo-nos
Somos apenas corpo e um desejo só, sem palavras, sem mais que te ter e saber que me tens. E quando repousamos lado a lado, a tua mão rodopia no meu peito como bailarina, dançando em pontas, dizendo coisas que todo o tempo quis ouvir apenas de ti. Levantas-te, nua, linda, mulher. 
E as lágrimas escapam-se dos meus olhos para te seguir.

18.7.13

Nós e novelos

imagino-me nos olhos dos outros,
sou apenas o reflexo da luz,
a minha vontade e os meus desejos
recolhem-se neste casulo,
neste novelo de nós atados e desatados,
não desvendo nem percebo
o que os outros percebem e vêem,
apenas cheiro de palavras e gestos
amontoados que falam para, e de mim.
somos a confusão dos nós e dos novelos
miramo-los de ombros baixos, caídos.
e as pontas paradas não desfiam a vida
e os nós são montanhas enormes
transponíveis
fáceis
quando sei quem sou
quando torço a vontade
e no espelho imagino que me vês assim,
olhando-me
e te estendo a mão generosa
e num sorriso sei
que estou nos teus olhos certo
do meu lado.


3.7.13

Traço















Onde foi,
nem sei se foi de dia,
que vimos a luz branca da alvorada,
sei que vestias um sorriso
que se projectava em todas as sombras
mesmo nas esquinas onde o sol
nada dizia.
vi-te desnudar
na dádiva simples de qualquer
flor
no ardor que o meu peito abraçou
e da areia que os livros deixaram
escapar.
e quando desceste sobre o chão
e desenhaste com os dedos
um pequeno fragmento do teu desejo
foi o mar que o levou
e o escondeu nas rochas
num traço cavado
como este amor
indelével, indizível
eterno,

até que o deixes voar.

27.6.13

Solidão



A solidão
agita-se nos dias mais sós
quando não tem tempo
para escolher estar só.
a solidão quebra-me
a palavra-passe das memórias
faz-me navegar nas prateleiras dos livros
enfarinhados, sábios
entabulado em corredores,
abrir todos os cofres
e todas as salas
onde me deixo esquecer
molhado, enlutado
com mãos cheias de fotos
passados registados
a preto e branco
de um ténue risco
outrora lábio
semi-lua inexpressiva
brinco de um nariz sem razão
que a rosa já cresceu e murchou
que o tato assim me cega
por todos os que cruzo
e não sinto.

Certa Incerteza


















Há quem não entenda
o que falta às palavras
para serem verdade,
e quem se perca
a pensar como se respira
quando o vento sopra,
mesmo quem tenha medo dos lobos
sem perceber o código das alcateias;
há quem ame o amanhã
no desprezo dos rios que correm
e banham os pés
e do que os olhos vêem na sua frente.
Apenas tu, porque te amo
sabes o quanto é bom roubar cada palavra
e pendurá-las nos muros altos;
apenas tu sabes, porque sempre te amarei
como é bom ler em voz alta
a profunda incerteza
de cada verso que sou.

17.6.13

Em ti















No mistério de te sentir,
no teu sorriso pleno,
no teu rosto que me penetra as noites
brilha
daqui deste pequeno porto onde fico
ancorado
a espera por ti,
deste meu dia, a vontade
que atravessa os mares
enchendo redes das tuas palavras
guardando-as uma a uma
como pérolas
arrancadas dum mar profundo
desses teus olhos
onde me aconchego
meu tesouro
meu tempo
meu último dia

navegando

10.6.13

As mulheres

 




















as mulheres são bonitas
tanto tempo
em dezembros de algodão
nos janeiros das tardes cinza
nos regaços generosos por onde passo
nas marés deitadas a vento norte
nos olhos azuis que brilham
na aurora e nas madrugadas
e nas mãos atentas que embalam
e nos deixam meninos,
as mulheres são sempre belas
quando se destapam
e se abrem ao nosso desejo
sem mais desejar que ser desejadas,
quando são rios inconquistados
e orvalhos ousados
das manhãs que surpreendem.
as mulheres são sempre belas
quando os junhos chegam semeados de papoilas
e no agosto que nos deixa as camas
em lençóis estendidos e revoltos.
as mulheres são sempre belas
quando sorriem ternas
e choram no silêncio dos perdões
reprimidos
as mulheres são sempre belas.


28.5.13

Sal



Neste dia em que a chuva me beija
há um manto cinza que me tapa,
a praia lisa e o frio aconchegante
distraem-me
do frio
que greta os meus lábios
brancos
sabendo ao sal.
Os olhos encharcados
deste vento que ensurdece
leva espantados
todos os pensamentos
do teu ninho
onde já não sei poisar.
o mar passa por mim depressa
repete-me num trautear louco
as ondas que chegam e morrem
como a esperança,
que chegues
e me abraces e beijes.
Cheiro e sinto que és tu
no caminho
onde me deito a andar
apenas querendo
que o fim regresse mais cedo
e me encontre na memória
como se nunca me deixasses
a tempo de te explicar
que o amor passou de perto