15.5.16

Incomensurável




















há uma incomensurável
razão
para não te saber explicar
para me emocionar
para não te saber ESCREVER
no afloramento ténue à tua carne
na prova doce da tua língua
que me espera em casa
doce
e de te lembrar
percorre-me um tremor violento
assustador
na força que cresce em mim por te possuir
e dos teus olhos mais que azuis
infinitos
que me deixam pálido
de não te saber explicar

há uma história rude
que a minha pele não sabe suportar
como cada batida intensa
física
me exaurisse
e tu e eu
não entendêssemos que a sede tem fim
quando nos sorvemos
e tu és a minha água
o meu rio
e o oceano dos poemas não sabe nada
nem te sabe explicar
há muito mais que um desejo
há um barco à vela
há um saco de sal derramado
e os nossos corpos esquecidos no chão
molhado
de um cais antigo
onde ouvimos a CANÇÃO quente
noturna
e trauteamos um lálálá
no ritmo das artérias vermelhas
das mãos unas
dos nossos desejos
e dos olhos

que não sabem olhar para trás.

Dou por mim...



















dou por mim
de olhos abertos
murmurando teu nome
sussurrando
como um mantra
repetidamente sem resistir
aceito o quanto te quero
o quanto me fazes bem
como álcool ardendo nas feridas
abertas
dos teus dentes cravados nos meus lábios
dou por mim
na volta dos dezasseis anos
abraçado nos cinquenta e tantos
dou por mim
a queimar os passos nos círculos da espera
enquanto a sede chega
e o futuro passa de perto
dou por mim
sem saber se quer quem és
quando entras na minha casa
e saqueias o sangue
deste coração gasto batendo incessante
na tua procura

14.2.16

Momentos



















não te trouxe nada
como me pediste
os meus olhos calam-se num vago silêncio
e as noites que hão-de
ser
extremas
sumptuosas
são os nossos corpos juntos
macios
deixas a janela aberta
o vento balança as cortinas
os teus papéis
acusam-se em pequenos voos
arriscados
da tua mesa ao chão
espalhados
não te vejo
apenas te sinto quente
inteira
espero o teu beijo
espero-te
e pela tua letra doce
derramada das folhas brancas
o meu nome a lápis
é a palavra que espera lugar
no meio do teu poema inacabado.

4.2.16

O tempo


















Porque eu sei que o tempo sempre anda
como uma pequena ave rumo aonde só ela sabe
que vai
deixo que o destino transpareça nas tuas mãos
e a cor do teu rosto
tenha a vontade de sempre ires
onde queres chegar

esta tua cidade
dentro dos muros
para lá de cada colina onde estiveste
esta casa onde o tempo se agacha
e contempla vagamente o crepitar laranja
da lareira
é aqui que sabe bem despir o casaco
descalçar os sapatos
e aninhar-me
como se o mundo fosse do tamanho
donde nós cabemos

as histórias alargam-se
e falam das memórias e dos desejos
do futuro que a magia prediz
enfeitiçada do nosso beijo
e dum peito cheio a rebentar do desejo
do teu corpo

o resto tanto me faz
são afagos de detalhes breves
são as tuas mãos no meu peito
e o teu cabelo em desalinho
colado nas costas
nos movimentos desritmados
nos desenlaces prolongados
e no som seco das costas batendo na cama
no ar entrecortado das nossas gargantas secas
dos nossos lábios húmidos
e deste poema sempre inacabado
como o tempo
infinito para além de nós.