22.2.19

Exato




é do sabor das ruas
dos espaços cheios
de tudo e de todos
que prenuncio o riso das tuas gargalhadas
fazendo-me feliz
o teu corpo exato
cabe na minha maneira de amar
como se uma peça única formasse
a tua medida
emudecendo-me
os pedaços íntimos dos teus sussurros
os pequenos detalhes de ti
que escrevo em cada folha branca
as dores destas mãos vazias
cheias da tua ausência
do teu toque
como um luar que me roça a pele
e o arrepio das janelas semiabertas
largadas à noite
chamando-te
que regresses
é do teu lado
que o silêncio inanimado
ressuscita
e apenas te procuro
para que te deixes estar por aqui
e no teu tempo
escolhas
dizer o meu poema em voz alta
para saber que outro poema nasce

12.1.19

Dança
















é deste calor ténue
que o meu corpo se alimenta
quando o sol irrompe pelos vidros
e se desnuda
no afago breve de te sentir tão perto
o calor dos teus lábios
dois passos de dança ágeis
e a tua cintura fina nas minhas mãos
voando
é da forma inexata como me expresso
que a angústia salta do meu peito
e as palavras têm tão pouco a dizer
apenas tua fronte encostada ao meu pescoço
o calor dos teus lábios no meu peito
o sentir sem tempo
dois corpos que não se unem
e gritam
doendo
sós
como este poema custa a escrever
e se perde
no alvor das primeiras horas

11.12.18

Pedes-me


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pedes-me que te negue
o que nunca ousaste pedir
como um rio preguiçoso
que tarda a foz
invadindo recantos esquecidos
espraiando-se
onde o sol queima
e o chão se incendeia
largas pelo chão a minha camisa
que nunca vestes
provocando-me nua
ao saíres da tua cama
pelo teu próprio pé
faminta
como um leopardo descendo
dum imbondeiro
insolente
no disfarce da tarde caindo
pela noite
voltas
deitas-te ao meu lado
as tuas coxas são a minha casa
que fechas à chave
sorrindo
saboreando a chuva
que não acontece
perpetuando o mistério
do teu não
do meu sim
de nós nunca sermos
mais do que não fomos.

11.10.18

Sol























hoje a manhã está da tua cor
da tua velha camisola que te conforta
do teu olhar feliz que o sol acaricia
das tuas ancas à minha vista
perfeitas
acordo e te contemplo
em contraluz
e saboreio os teus beijos
espalhados pelo meu corpo
hoje a manhã está outra vez acesa
e o meu peito cheio e imprevisível
um mar silencioso e calmo
onde só tu navegas
onde só tu sabes navegar
hoje há uma história
nos teus olhos que se voltam
e me apanham olhando-te
e nos desejamos outra vez
na brevidade do encalço
onde nos amamos
e nos temos
sem precisar do amanhã
nem perguntar pelo passado
hoje só
quando te amo
e me respondes nua
que me amas mais ainda
os nossos corpos doendo
fatigados
se tornam nesta palavra cheia
generosa
das manhãs feitas poema
onde a luz volta
e o sol se deixa ficar
iluminando