4.2.16

O tempo


















Porque eu sei que o tempo sempre anda
como uma pequena ave rumo aonde só ela sabe
que vai
deixo que o destino transpareça nas tuas mãos
e a cor do teu rosto
tenha a vontade de sempre ires
onde queres chegar

esta tua cidade
dentro dos muros
para lá de cada colina onde estiveste
esta casa onde o tempo se agacha
e contempla vagamente o crepitar laranja
da lareira
é aqui que sabe bem despir o casaco
descalçar os sapatos
e aninhar-me
como se o mundo fosse do tamanho
donde nós cabemos

as histórias alargam-se
e falam das memórias e dos desejos
do futuro que a magia prediz
enfeitiçada do nosso beijo
e dum peito cheio a rebentar do desejo
do teu corpo

o resto tanto me faz
são afagos de detalhes breves
são as tuas mãos no meu peito
e o teu cabelo em desalinho
colado nas costas
nos movimentos desritmados
nos desenlaces prolongados
e no som seco das costas batendo na cama
no ar entrecortado das nossas gargantas secas
dos nossos lábios húmidos
e deste poema sempre inacabado
como o tempo
infinito para além de nós.

12.1.16

Depois de nos amarmos


depois de nos termos
quando a linha dos nossos corpos se desvanece
colados pelos meus lábios
depois de nos amarmos
inundado do teu cheiro
despeço as palavras
para te amar em silêncio
esculpindo a dois
as pequenas esculturas
que os nossos dedos entrelaçados
criam
olhos semicerrados
sentindo o cheiro húmido
do prazer
deixando adormecer nos nossos braços
o mundo
que é tão pequeno
quando te amo pelos olhos dentro
e te peço que fiques
e me voltes a amar
como os dias e as noites
voltam
num ciclo eterno
na pequena forma esculpida
dum amor que se deixa estar.

De manhã

















encostada no meu peito
estás aqui
a minha nuca descansa junto à parede da nossa cama
rasa
sinto que dormes
e dos meus olhos nascem as lágrimas confusas
deste sentir dos dias todos
quando o meu peito foi deserto
o teu respirar brando
abranda o meu tempo
destapa-me os pés gelados
sem vontade de me mexer
para que não te acorde
no calor dos teus lábios balbuciando
coisas que não entendo
está a verdade de te ter comigo
o sorriso indesmentível do amor que te tenho
e a volúpia dos teus olhos
que me disseram três vezes que me amas
os pássaros brancos das asas grandes voam em volta da janela
quase oiço as margaridas abrindo amarelas
e as folhas dos freixos mais frescos
compõem melodias perfeitas
silêncios do orvalho da manhã
e dum sol plácido contido
para que permaneças nua toda
minha
neste grito que sai do alto da montanha
do fundo do peito
deste poema que cheira a ti
fiel

amante

Ver-te

















se eu te pudesse ver daqui donde estou
desta linha do horizonte
onde o mar se põe à tua hora
e as sereias repousam bebendo taças de vinho branco
frio
vejo-te claramente
nos teus traços que te definem
e na definição dos traços 
que fazem o teu rosto diferente
das viagens que já fiz
e dos sorrisos trocados entre pão e flores
entre o cheiro do teu cabelo molhado
e a chuva dos dias primaveris
imaginados
como imagino as neves brancas onde não chego
ou os teus braços onde não estou
se eu te pudesse ver daqui
donde sempre estou
não poderia ver mais
do que aquilo que sou

Perfeito



















busco como o Cesário
a perfeição das coisas
sabendo que hei-de morrer
no dia mais perfeito
passado já morto
e o presente
há-de ser sempre entre ti
e a sede do futuro
que não se adivinha
nem chega
entre ti
e as adivinhações das feiticeiras cegas
e a música trauteada
encostada aos muros castanhos
de qualquer casa onde nunca
entrei
busco a indigência feliz dos vagabundos
e o meu manto da noite
hão-de ser sempre os teus braços
a navegar por fora das orlas
num toque suave
único
perfeito

Amo-te II
















amo-te religiosamente
amo-te como as orações certas e na incerteza que sejam ouvidas
amo-te delicadamente
amo-te indecentemente
amo-te intensamente
amo-te como todas as palavras adverbias que te possam amar
amo-te
e na singeleza profunda das coisas sem explicação
torno a amar-te sempre
quando vejo as ruas cheias
e as oliveiras velhas cheias de flores amarelas
quando os meus olhos se fecham e inspiram a melodia
quando o espelho reflete o que sou sem ti
e o que sou
amo-te nas tardes de verão de cada domingo
e de cada outro dia onde tudo se passa entre as nossas mãos
amo-te no espaço do ascensor apertado
amo-te quando me estendes o livro
e me dás as frases mais simples a ler
amo-te
depois das palavras
depois de ti
amo-te
depois do silêncio chegar.

Entendimento
















se entenderes
o milagre do sol que volta
a nascer todos os dias
e entenderes como as ruas ligam o mundo
de uma ponta a outra
se entenderes
o modo como me perturbas
e entenderes que me amas
conta-me
todas as formas estranhas
das expressões mais breves
e dos desejos apascentados
nas praças onde não nos vemos
e sentimos perto
de todos os beijos
que são letras
e compõe as paixões
e dos cantos
nas azinhagas das fotos a preto e branco
onde me deixas as explicações claras
sobre a razão de seres a mais bela nos meus olhos
e da sede insaciável de te desejar
de me guardar para ti
como o vinho velho se guarda
para a grande festa
e sim
também a inestimável angústia
da respiração contida
da pele arrepiada e tensa
e da boca aberta
como uma flor se abre ao amanhecer
por te ver chegar
tal qual o sol
de todos os dias.

7.1.16

Não me deixes assim

Não me deixes assim, as tuas palavras desamparam-me, tornam estranhas as minhas, não se misturam, como gente cruzando as avenidas em noites de verão.
O dia nem está nublado, as andorinhas fazem loopings arriscados, assustadores por todos os lugares, e o vento tem um ritmo que só as árvores e o teu cabelo traduzem.
Não me deixes, como se nada tivesse havido, como se o prenúncio dos beijos fosse imaterial, como se mesmo o beijo que não houve, já não tivesse nascido e ficasse guardado na indelével vontade dos desejos mudos.
Hoje, que as marés se reservam para mais tarde, na areia que é chão de mar mais logo, o meu caminhar é órfão da tua mão, dos sorrisos e das voltas sobre nós mesmos em abraços divertidos, do teu ombro que me toca,  dos nossos olhos em paralelo lendo o mesmo infinito dum mar onde nunca entrámos juntos.
É por isso que invento e crio este amor de todos os dias, que desencanto as palavras sem querer saber se erradas ou certas, gordas ou magras, negras como as noites deste inverno gelado nas pontas dos dedos ou alvas como as madrugadas onde acordo para pensar em ti.
Não me deixes com as minhas palavras que sempre me acompanham, as gaivotas gritam como se soubessem de algo, e areia escreve coisas que o mar leva sem resposta.
Não me deixes com estas palavras que me desafiam, me batem às vezes, me transtornam quando me levam perto dos copos de tinto maduro, onde contigo um sorriso bastava para saciar os meus lábios.
Não me deixares, é deixar que te apanhe na porta da mesma estação onde chegas todos os dias, é essa boca rasgada de felicidade quando me chamas louco e aceitas as flores roubadas aos canteiros. Não me deixares são os meus ouvidos cheios das tuas gargalhadas e os teus vestidos de alças, de roda dançando com os teus cabelos lisos plenos de chuva no meio dos miradouros mais altos de Lisboa, quando tu brilhas mais que a cidade.
Não me deixares, é o poema que te entrego de manhã, quando adormeces plena e segura e eu sou apenas o teu homem que te fez feliz.