11.12.18

Pedes-me


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pedes-me que te negue
o que nunca ousaste pedir
como um rio preguiçoso
que tarda a foz
invadindo recantos esquecidos
espraiando-se
onde o sol queima
e o chão se incendeia
largas pelo chão a minha camisa
que nunca vestes
provocando-me nua
ao saíres da tua cama
pelo teu próprio pé
faminta
como um leopardo descendo
dum imbondeiro
insolente
no disfarce da tarde caindo
pela noite
voltas
deitas-te ao meu lado
as tuas coxas são a minha casa
que fechas à chave
sorrindo
saboreando a chuva
que não acontece
perpetuando o mistério
do teu não
do meu sim
de nós nunca sermos
mais do que não fomos.

11.10.18

Sol























hoje a manhã está da tua cor
da tua velha camisola que te conforta
do teu olhar feliz que o sol acaricia
das tuas ancas à minha vista
perfeitas
acordo e te contemplo
em contraluz
e saboreio os teus beijos
espalhados pelo meu corpo
hoje a manhã está outra vez acesa
e o meu peito cheio e imprevisível
um mar silencioso e calmo
onde só tu navegas
onde só tu sabes navegar
hoje há uma história
nos teus olhos que se voltam
e me apanham olhando-te
e nos desejamos outra vez
na brevidade do encalço
onde nos amamos
e nos temos
sem precisar do amanhã
nem perguntar pelo passado
hoje só
quando te amo
e me respondes nua
que me amas mais ainda
os nossos corpos doendo
fatigados
se tornam nesta palavra cheia
generosa
das manhãs feitas poema
onde a luz volta
e o sol se deixa ficar
iluminando


22.1.18

Por ti









são apenas dois ou três momentos
que me fazem pensar em ti
as palavras traem-me
repetidas
antes nascessem novas
e soubessem ao novo clarear das manhãs
irrepetíveis
como se ao olhar provasse o som
de tudo o que ainda nunca dissera
e a forma
tivesse o cheiro a novo
puro e virgem
e provasse que apenas nasce
de te querer
como um peito velho ardendo de novo
contido
na mansidão aparente
do meu olhar sobre ti
nunca anunciado
nunca descoberto
porque ousar é repetir
quando a minha mão te toca a tua
na passagem de todas as portas
no adocicar da voz
num desenho de um sorriso
em dois ou três momentos
só para ti.

Esperança














dias há
despidos de esperança
dormem na procura vã
sabem ao ar metálico dos
ventos selvagens
os passos doridos
lentos
na pressa de atravessar
de chegar ao fim dos campos desapossados
lúgubres
áridos
há procuras sem razão de procurar
porque os olhos não se sabem erguer
e é dentro de mim
que o peito se avassala
tremendo
triste
da ínfima distância do teu olhar
onde permaneces
como o sol debruando as searas
como o teu cabelo
à beira das minhas mãos

fossem meus olhos sentinelas
para te achar na escuta
de cada pequeno detalhe
nos pequenos sinais com que sussurras
o teu desejo
e me perguntas com teus olhos
quando vens?

10.10.17

Velhos




















importa que saibas
que tudo o que acontece
para além dos meus olhos
para dentro dos meus olhos
não se vê melhor
que na memória do teu perfume
em todas as tardes
de que me lembro
estendido ao teu lado
no chão que a terra oferece
rindo da chuva
celebrando o sol
importa que as palavras não rimem
para te deixarem em paz
e que sintas os meus beijos
dessedentando esta história
a nossa história
de frente como se olha o infinito
impresso nas perguntas
que são apenas respostas e mais respostas
caindo das nossas bocas
amaciando o que a vida conta
provocando os abraços das tardes
quando por fim o frio chega
e nos olhamos velhos
nos álbuns cheios da vida recolhida
sorrindo
cúmplices
do que apenas podemos dizer

sorrindo