23.4.07

A Foto


foto de Hugo Amador

Folheava aquele livro que nunca mais conseguia acabar. Reli a contracapa, e distraído deixei-o cair, numa das minhas noites em claro, pedindo ao sono que me levasse. Uma foto bem antiga, caíu de dentro, mal revelada, disforme, confusa. Percebi-te nela, relembrei o momento e o local. Lembrei-me porque a tinha guardado, ao percebermos que era só nossa, que só nós a entenderíamos.
Tu, com aquela blusa que eu gostava de te despir, nos fins das tardes, quando voltavamos ao nosso quarto pequeno, naquela pequena pensão, que mais ninguem sabia conhecer, a nossa janela redonda, bafa, onde espreitávamos as gaivotas voando de encontro ao vento. As nossas tardes e os nossos banquetes de vinho e queijo com as bolachas roubadas da cozinha da Dª Lucília.
Lembrei-me de tudo, do teu rosto que ria, nas palavras que me oferecias como beijos, incessantes, quentes, lentos, infindáveis. Olhei a foto, porque já nada se percebia, desfocado, o teu rosto tinha a aparência dos dias de hoje, dos dias em que já não estavas, das memórias atraiçoadas pelo caminho onde as nossas vidas se voltaram a descruzar.
Olho outra vez a nossa foto, percebo teus braços que me chamam, que não se querem separados por memórias, que agora percebo, nunca vencem o tempo. Percebo a foto, e as histórias que sempre ficam, apenas escritas, apenas fotos, desfocadas do tempo, difíceis de guardar, como as nossas vidas, que um dia caíram do livro, já antigas, já passadas, mas vivas.
A tua foto, sem ti, está já num envelope, o teu nome escrito a negro, quem sabe, se um dia o abrirás de novo, e te lembres e te encontres comigo, junto às gaivotas que continuam a voar de encontro ao vento.
Não esqueças o vinho. - o queijo e as bolachas hão-de arranjar-se.

4 comentários:

Anónimo disse...

Passei no supermercado, mas o teu queijo preferido estava esgotado... restou-me o vinho. Levei-o para casa. Abri a garrafa e deixei que o aroma de ti inundasse a minha sala. Servi-me do vermelho tinto que me lembra as lágrimas que derramei de saudade. Saudade de ti... saudade de nós... Encostei o copo aos meus lábios e senti o teu beijo quente, veludo...
Quantos anos passaram? Quantos corpos passaram entre nós? Perdi a conta. Mas, é o teu beijo que sinto ainda. De ti pouco me resta. Nem uma foto devorada pelo tempo, nem uma carta meio amarelada. O teu beijo, apenas. O teu beijo que repousa nos meus lábios e teima em não desvanecer.
lá fora as gaivotas reunem como se trocassem segredos. Como me apetecia correr pelo meio delas e roubar-lhes as confidências. Será que sabem de ti? Ainda olhas para elas como fazíamos outrora? Talvez, hoje, nem te lembres de mim... nem te lembre de nós...
Às vezes, sinto uma vontade quase incontrolável de abrir a janela e gritar, gritar, gritar... deixar que a dor me abandone na forma do teu nome. Mas, antes, fico aqui, inerte, deliciada com o teu beijo...

Roxanne W. disse...

Lindo Jorge...não sei que mais dizer companheiro de viagens pelas fogueiras e pelas páginas que voam com a brisa...Lindo!

PoesiaMGD disse...

Uma prosa de ler de um trago! Belíssima! Um beijo

Vera disse...

Saudade de ti... saudade de nós...

Às vezes, sinto uma vontade quase incontrolável de abrir a janela e gritar, gritar, gritar... deixar que a dor me abandone na forma do teu nome. Mas, antes, fico aqui, inerte, deliciada com o teu beijo...

Frases marcantes, como a tua escrita!

Beijo