3.12.09

Razões de Ti (4)



Abres-me a porta, entro, com a cumplicidade que os silêncios sabem dizer melhor que mil palavras inventadas. na tua expressão quase inexpressiva, nesse vestido que nunca despes, na franqueza da vida aberta a cada bala que o tempo teima em disparar. Percebo a rotina dos dias, sou eu que chego e parto e te deixo pelos lados das paredes onde te penduro como memória de cada dia somado, de cada cama desfeita, dos beijos violentos e doces, irrepetíveis.
Quase que te percebo os nãos na ponta de cada lágrima, mascarada de um breve sorriso com que me guardas o casaco, com que me guardas. As tuas mãos penetram-me, bem dentro de mim, e fecho os olhos pronto para cada carícia, esse calor inenarrável que sinto quando me afagas os cabelos e deixas que o meu rosto se cole aos teus seios.
Na janela, na nossa janela por onde espreitamos a esquina de uma rua larga e esventrada, sabemos que o mundo passa, não pela vista, mas por sairmos e a procurarmos. São dela os passos de quem a calcorreia, e cada rosto leva no peito o Sol e o Vento que a rua empresta; não nos tocamos, apenas passamos do lado dos outros, como um exército aprumado de gente igual nas fardas, nos olhos que julgam ver da mesma cor. A janela está aberta, vem um som demasiado fraco para que o reconheça, ajuda-me a não te ouvir, tu calada e distante, afagando os meus cabelos, dando-me o colo que não passa, escutando outros ruídos.
Reergo-me com a vontade de terminar este amor que não começa, porque não foi feito para acabar, somos apenas eu e tu, mais tu que eu, porque tens o corpo pesado e doído desses barcos que sempre aproam; olho-te e já não te vejo. partiste dalgum lugar para me procurares onde já não estou; somos dois e nenhum, porque marquei lugar donde agora vieste e chego tarde, sem chave, batendo devagar.
Acordas e abres-me a porta.

4 comentários:

Anónimo disse...

Queria ter palavras para "deixar" aqui. Não tenho! Deixo a minha ternura! Deixo um brilho que me fica nos olhos e um sorriso que me afaga.

Vanda Paz disse...

Existem razões que vão muito além das palavras mas estas são o teu forte. Mais um belo texto que nos deixas.

Beijo

Dri Viaro disse...

oi, passei pra desejar boa semana e conhecer o blog
bjsss

aguardo sua visita :)

Anónimo disse...

Realmente a vida é feita de acasos... e de enormes surpresas...
Efectivamente, estava eu a ler a crónica da prova do G. P. de Natal do meu amigo Aristides quando, por um dos tais acasos, deparo com um comentário do "amigo" Jorge.
A curiosidade, própria do ser humano, fez o resto... cliquei no "blogger" e eis que me deparo no meio de um blog repleto de peças literárias que considero de elevadíssima qualidade!!!
Apesar do relacionamento que vamos mantendo, fruto deste nosso vício pelas "voltinhas ao coreto", não podia imaginar ter tão "ilustre" companheiro de corridas.
Claro que já "devorei" uns quantos textos, todos eles carregados de sentimentos e, sem excepção, com uma qualidade literária que me apraz registar e que me farão retornar aqui regularmente.
Um grande abraço, boas corridas e melhores "escritas".

M. Proença