20.3.08

Hoje

foto de Lia Pansy

Hoje meu amor
não te digo nada,
apenas calo
e olho perdido, absorto,
as ruas estendidas
diante dos meus passos.
Hoje meu amor,
o vento trouxe
o odor da carne queimada,
derretida, nas mãos ensebadas
do unto dos gordos,
dos que tudo guardam
dos secos que tudo secam,
dos cegos que nada vêem
dos surdos que nada escutam,
macacos do
circo geral,
dos bancos circulares,
tábuas gastas,
onde me sento
e observo.
Hoje meu amor,
sou apenas terreiro
onde as batalhas
se perfilam
e fuzilam os raios
do sol,
sou um regaço árido
onde
nada nasce,
e os rios fogem
cinzentos, cor do nada
nauseabundos
dos meus restos,
caminho dos navios fantasmas
que me levam a
nenhures.
Hoje por fim,
escondo o rosto
e arrefeço as mãos
neste
grito
das vozes caladas, simples
dos lamentos de mães
das dores e
volúpias pagas
das pegas
que custam mais que o pão
que não tenho nem
como.
Hoje meu amor
não te acordo
neste desabafo,
apenas fico e
retrato
o que não entendo
nem faço.

5 comentários:

T u r t l e M o o n disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
T u r t l e M o o n disse...

"Hoje, agarro-te nas palavras, para que não caias na loucura da solidão.
Quero que te sintas vivo, esquivo apenas dos contornos da realidade que mais te atormentam e conduzem nos penosos caminhos da saudade e da recordação...
É bom ver-te a dançar, à desfilada.»
bjs,fica bem

PoesiaMGD disse...

Um poema forte e incisivo!
Um abraço

Vera disse...

Um poema belo, para ler Hoje e reler todos os dias!

Beijo

sweepstakes disse...

If im in the situation of the owner of this blog. I dont know how to post this kind of topic. he has a nice idea.