15.5.16

Dou por mim...



















dou por mim
de olhos abertos
murmurando teu nome
sussurrando
como um mantra
repetidamente sem resistir
aceito o quanto te quero
o quanto me fazes bem
como álcool ardendo nas feridas
abertas
dos teus dentes cravados nos meus lábios
dou por mim
na volta dos dezasseis anos
abraçado nos cinquenta e tantos
dou por mim
a queimar os passos nos círculos da espera
enquanto a sede chega
e o futuro passa de perto
dou por mim
sem saber se quer quem és
quando entras na minha casa
e saqueias o sangue
deste coração gasto batendo incessante
na tua procura

14.2.16

Momentos



















não te trouxe nada
como me pediste
os meus olhos calam-se num vago silêncio
e as noites que hão-de
ser
extremas
sumptuosas
são os nossos corpos juntos
macios
deixas a janela aberta
o vento balança as cortinas
os teus papéis
acusam-se em pequenos voos
arriscados
da tua mesa ao chão
espalhados
não te vejo
apenas te sinto quente
inteira
espero o teu beijo
espero-te
e pela tua letra doce
derramada das folhas brancas
o meu nome a lápis
é a palavra que espera lugar
no meio do teu poema inacabado.

4.2.16

O tempo


















Porque eu sei que o tempo sempre anda
como uma pequena ave rumo aonde só ela sabe
que vai
deixo que o destino transpareça nas tuas mãos
e a cor do teu rosto
tenha a vontade de sempre ires
onde queres chegar

esta tua cidade
dentro dos muros
para lá de cada colina onde estiveste
esta casa onde o tempo se agacha
e contempla vagamente o crepitar laranja
da lareira
é aqui que sabe bem despir o casaco
descalçar os sapatos
e aninhar-me
como se o mundo fosse do tamanho
donde nós cabemos

as histórias alargam-se
e falam das memórias e dos desejos
do futuro que a magia prediz
enfeitiçada do nosso beijo
e dum peito cheio a rebentar do desejo
do teu corpo

o resto tanto me faz
são afagos de detalhes breves
são as tuas mãos no meu peito
e o teu cabelo em desalinho
colado nas costas
nos movimentos desritmados
nos desenlaces prolongados
e no som seco das costas batendo na cama
no ar entrecortado das nossas gargantas secas
dos nossos lábios húmidos
e deste poema sempre inacabado
como o tempo
infinito para além de nós.

12.1.16

Depois de nos amarmos


depois de nos termos
quando a linha dos nossos corpos se desvanece
colados pelos meus lábios
depois de nos amarmos
inundado do teu cheiro
despeço as palavras
para te amar em silêncio
esculpindo a dois
as pequenas esculturas
que os nossos dedos entrelaçados
criam
olhos semicerrados
sentindo o cheiro húmido
do prazer
deixando adormecer nos nossos braços
o mundo
que é tão pequeno
quando te amo pelos olhos dentro
e te peço que fiques
e me voltes a amar
como os dias e as noites
voltam
num ciclo eterno
na pequena forma esculpida
dum amor que se deixa estar.

De manhã

















encostada no meu peito
estás aqui
a minha nuca descansa junto à parede da nossa cama
rasa
sinto que dormes
e dos meus olhos nascem as lágrimas confusas
deste sentir dos dias todos
quando o meu peito foi deserto
o teu respirar brando
abranda o meu tempo
destapa-me os pés gelados
sem vontade de me mexer
para que não te acorde
no calor dos teus lábios balbuciando
coisas que não entendo
está a verdade de te ter comigo
o sorriso indesmentível do amor que te tenho
e a volúpia dos teus olhos
que me disseram três vezes que me amas
os pássaros brancos das asas grandes voam em volta da janela
quase oiço as margaridas abrindo amarelas
e as folhas dos freixos mais frescos
compõem melodias perfeitas
silêncios do orvalho da manhã
e dum sol plácido contido
para que permaneças nua toda
minha
neste grito que sai do alto da montanha
do fundo do peito
deste poema que cheira a ti
fiel

amante