12.1.16

Ver-te

















se eu te pudesse ver daqui donde estou
desta linha do horizonte
onde o mar se põe à tua hora
e as sereias repousam bebendo taças de vinho branco
frio
vejo-te claramente
nos teus traços que te definem
e na definição dos traços 
que fazem o teu rosto diferente
das viagens que já fiz
e dos sorrisos trocados entre pão e flores
entre o cheiro do teu cabelo molhado
e a chuva dos dias primaveris
imaginados
como imagino as neves brancas onde não chego
ou os teus braços onde não estou
se eu te pudesse ver daqui
donde sempre estou
não poderia ver mais
do que aquilo que sou

Perfeito



















busco como o Cesário
a perfeição das coisas
sabendo que hei-de morrer
no dia mais perfeito
passado já morto
e o presente
há-de ser sempre entre ti
e a sede do futuro
que não se adivinha
nem chega
entre ti
e as adivinhações das feiticeiras cegas
e a música trauteada
encostada aos muros castanhos
de qualquer casa onde nunca
entrei
busco a indigência feliz dos vagabundos
e o meu manto da noite
hão-de ser sempre os teus braços
a navegar por fora das orlas
num toque suave
único
perfeito

Amo-te II
















amo-te religiosamente
amo-te como as orações certas e na incerteza que sejam ouvidas
amo-te delicadamente
amo-te indecentemente
amo-te intensamente
amo-te como todas as palavras adverbias que te possam amar
amo-te
e na singeleza profunda das coisas sem explicação
torno a amar-te sempre
quando vejo as ruas cheias
e as oliveiras velhas cheias de flores amarelas
quando os meus olhos se fecham e inspiram a melodia
quando o espelho reflete o que sou sem ti
e o que sou
amo-te nas tardes de verão de cada domingo
e de cada outro dia onde tudo se passa entre as nossas mãos
amo-te no espaço do ascensor apertado
amo-te quando me estendes o livro
e me dás as frases mais simples a ler
amo-te
depois das palavras
depois de ti
amo-te
depois do silêncio chegar.

Entendimento
















se entenderes
o milagre do sol que volta
a nascer todos os dias
e entenderes como as ruas ligam o mundo
de uma ponta a outra
se entenderes
o modo como me perturbas
e entenderes que me amas
conta-me
todas as formas estranhas
das expressões mais breves
e dos desejos apascentados
nas praças onde não nos vemos
e sentimos perto
de todos os beijos
que são letras
e compõe as paixões
e dos cantos
nas azinhagas das fotos a preto e branco
onde me deixas as explicações claras
sobre a razão de seres a mais bela nos meus olhos
e da sede insaciável de te desejar
de me guardar para ti
como o vinho velho se guarda
para a grande festa
e sim
também a inestimável angústia
da respiração contida
da pele arrepiada e tensa
e da boca aberta
como uma flor se abre ao amanhecer
por te ver chegar
tal qual o sol
de todos os dias.

7.1.16

Não me deixes assim

Não me deixes assim, as tuas palavras desamparam-me, tornam estranhas as minhas, não se misturam, como gente cruzando as avenidas em noites de verão.
O dia nem está nublado, as andorinhas fazem loopings arriscados, assustadores por todos os lugares, e o vento tem um ritmo que só as árvores e o teu cabelo traduzem.
Não me deixes, como se nada tivesse havido, como se o prenúncio dos beijos fosse imaterial, como se mesmo o beijo que não houve, já não tivesse nascido e ficasse guardado na indelével vontade dos desejos mudos.
Hoje, que as marés se reservam para mais tarde, na areia que é chão de mar mais logo, o meu caminhar é órfão da tua mão, dos sorrisos e das voltas sobre nós mesmos em abraços divertidos, do teu ombro que me toca,  dos nossos olhos em paralelo lendo o mesmo infinito dum mar onde nunca entrámos juntos.
É por isso que invento e crio este amor de todos os dias, que desencanto as palavras sem querer saber se erradas ou certas, gordas ou magras, negras como as noites deste inverno gelado nas pontas dos dedos ou alvas como as madrugadas onde acordo para pensar em ti.
Não me deixes com as minhas palavras que sempre me acompanham, as gaivotas gritam como se soubessem de algo, e areia escreve coisas que o mar leva sem resposta.
Não me deixes com estas palavras que me desafiam, me batem às vezes, me transtornam quando me levam perto dos copos de tinto maduro, onde contigo um sorriso bastava para saciar os meus lábios.
Não me deixares, é deixar que te apanhe na porta da mesma estação onde chegas todos os dias, é essa boca rasgada de felicidade quando me chamas louco e aceitas as flores roubadas aos canteiros. Não me deixares são os meus ouvidos cheios das tuas gargalhadas e os teus vestidos de alças, de roda dançando com os teus cabelos lisos plenos de chuva no meio dos miradouros mais altos de Lisboa, quando tu brilhas mais que a cidade.
Não me deixares, é o poema que te entrego de manhã, quando adormeces plena e segura e eu sou apenas o teu homem que te fez feliz.

Não sou daqui



o meu corpo é empecilho
nesta viagem
só os sonhos me sustentam
a visão regular dos amanheceres
de todos os dias que chegam e vão
repetidos
certos
dão respostas por trás da porta
não posso
já é tarde
venha depois
é do que não tenho que sigo
por onde não sou
do que ainda não fui
de ti
de cada poro teu que ainda não me pertence
e dum beijo macio
que não me entregaste
que as coisas pequenas não me movem
como
bebo
como se o amanhã
não pudesse chegar
e apenas o teu corpo
me sacia
e esta fome que tenho
soubesse aos teus seios
e ao cheiro desse teu cabelo
preso nos meus pulsos
quando te amo sem saber se amanhã
serás ainda minha
não sou daqui
desta cama vaga longa e branca
não sei onde pousar os pés
nem deixo marcas no teu tapete
sei que sou da viagem
e dos dias incertos
sou daqui
deste poema
que só sabe falar de ti

4.9.15

Um café para tomar


 









Temos um café para tomar
ou outra desculpa ainda mais vulgar
adiado todas as vezes
hoje eu
amanhã tu
não posso
não podes
talvez outro dia daqueles onde não chove
ou o vento baila menos
como se a memória do cheiro que ficou
de todos os outros cafés
ou da contemplação do teu peito
chegado a mim
ou dos teus lábios castanhos
arábica uns dias
robusta outros
ou dos dedos clandestinos
ousando tocarem-se
ou de um beijo roubado
longe dos passos que nos surpreendam
não nos faça desviar e entrar
na tua mesa
bem à janela
onde os teus olhos profundos
doces
dizem tudo
quando coram escarlate
ou te escondes na madeixa mais escura
desse teu cabelo
que te torna azul
mar nessa chávena quente
presa entre as tuas mãos
no teu sorriso
sem açúcar
apenas os teus lábios
e um pouco de canela
e o nosso café
pode ser outra vez

21.7.15

Onde andas

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onde andas
que é feito deste curto espaço
onde mora este mundo pequeno
onde nunca estás
onde nunca te toco
onde andam as nossas conversas
e a sensação dos risos intermináveis
que nos deixam exaustos
felizes
onde andam os poemas que me prometeste escrever
e as ruas deixadas sós
para nos recolhermos
na beira do teu colo
e despedirmos a noite entrelaçados
não há bancos de jardim perfeitos
incólumes
e o teu rosto
tem a textura dos viajantes apressados
mudos
agora mesmo que passas
e tanto queria saber de ti
e das palavras que te deixam nua
e do teu corpo pleno
como um imbondeiro
num qualquer sítio
ao fim duma tarde estival incandescente
onde andas
agora que todos os anos se gastam depressa
e tu
resplandeces bela
inenarrável
como um abrir de manhã
na varanda mais ao sul
onde
senão neste peito cavado
a terra se junta
e germina em cada dia
por este amor que ainda não sei dizer de ti.


18.7.15

Momento

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apaziguo a alma
no final das tardes tranquilas
na serenidade dos teus braços
frescos
neste sabor inesquecível
de nos pertencermos e ficarmos os dois
quando se desprende este silêncio sedutor
quebrado pelo toque dos meus lábios
no teu pescoço
pelo murmurar do teu desejo no meu ouvido
e ainda assim por aqui ficarmos
pois o olhar vai para além do sol
que se deita ao longe calmamente
como as notas da melodia mais bela
como os teus pés entrelaçados nos meus
como o cheiro dos teus cabelos
perdidos no meu rosto
desta memória que pára o tempo
e nos deixa abraçados
nos deixa vivos.