
Soube que o dia tem sempre um começo novo na noite que passa. Como quando
te deixo e parto, olhando para ti, e me largo na aventura certa que não sei nem
me importa como vai acabar.
Discordo da discórdia entre o que dizes e o que tu mesma representas,
no teu dizer dos olhos, da tua boca, de ti toda vestida e sempre nua.
Avassalador, é sempre o momento todo das vidas com mil estórias contigo,
de onde nunca soube estar. Apenas porque te olho e entendo esta adição, este
vício de ti, ébrio da contemplação fútil, novelesca. És bela e basta-me. Como sempre,
sublime, estás, apenas estás, sentada como se nada houvesse que te pudesse
perturbar, como se o calor da minha mão, ou a agudez dos meus olhos não
existissem, quando suborno a aragem ligeira para que libere a tua saia e
transponha o teu joelho, e no simples prazer do deleite tudo baste.
No mundo, todos os poderes têm a circunstância de apenas serem poderes.
Absolutos; fechados; efémeros. Todos morrem e se circunscrevem. Mesmo a terra,
é um pequeno e simples átomo de um universo incomensurável, onde nem os mais
entendidos em métricas são capazes.
Assim tu me possuis, nesse anteparo dos sentidos, nessa jaula onde
entro, onde a água e a ração que me depositas todos os dias, são razão de vida
e subsistência.
Percebo-te por detrás do meu ombro, o teu respirar quente, o teu cheiro
perseguindo os movimentos, como um gato caçando moscas. Um dia sou o teu
sacerdote, o imolador dos teus rituais, pedindo a tua graça e protecção, outras
o teu escravo que imolas e te serve sem um amanhã que respire liberdade.
Por fim, as correntes caem, por fim sou eu olhando-te de longe, sou eu
sem casaco e tu um ser frágil e belo, sempre belo, de que me largo, somos
corpos nus e voláteis dizendo coisas sem sentido, e o teu cabelo apanhado,
liso, a porta por onde saio livre e sem mais que o desejo de perder as memórias
nas ruas onde não passarei jamais.
Um dia, um dia que ainda não existe nem adivinho, escreverei o poema
mais cru, selvagem e profundo que existe, falando de mim e deste desejo que
ancorado neste porto de onde sairei, te possa levar no meu barco, e no meio de
um mar sem volta poder dizer-te de cor, olhando-te nos olhos o quanto hoje
apenas és um breve pássaro no horizonte das coisas que existem.