23.3.13

Chove em Lisboa
















            
foto de www.pensarlisboa.com             


Chove em Lisboa,
adoro quando chove,
e esta cidade se ilumina,
Lisboa é uma mulher linda,
de cabelos escorridos,
que corre livre                                                                                              
pelas ruas
cheirando ao silêncio que a chuva traz.
Os cheiros molhados, despertam
e os cães continuam o seu caminho
imperturbáveis,
só os gatos se escondem
por trás dos vidros embaciados.
Chove                                                                      
e o tejo diz coisas às gaivotas
que eu não percebo
os barcos sorriem da pacatez
dos marinheiros
deixados em terra.
Chove em Lisboa
distinta chuva
de outro qualquer lugar,
tem o riso adolescente
dos beijos sem vergonha
no meio da rua
e as poças de água
e as calçadas polidas
traiçoeiras.
Chove em todos os lados,
nos cabazes da fruta
e as goteiras das casas
inventam melodias
cantam do arco-íris
que afaga a cidade
e lhes fala do sol
que está à porta, chegando sem pressa
que a cuva cai, doce
amante.

17.1.13

Memórias de borboletar…


     







A noite está clara, nem choveu como anunciaram. O candeeiro de luz branca anuncia-se por cima do teclado, e há um violoncelo que me acompanha num trecho de Bartok. Do fundo dos dedos rompo as estradas de tudo o que o dia me trouxe, para chegar aqui.

Na nostalgia dos sons mudos, o coração borbulha em impaciência pelo dia fosco que a madrugada há-de trazer.

O tempo vai rompendo pelas esquinas da sala, o cão dorme sem pressa. Sou apenas eu a sentir-me, sem mais que eu, neste mundo gigante, de postais coloridos que colecciono em memórias, sem nenhum tipo de arranjo, que o que imagino se mistura com o que vi e pensei, e a verdade é uma roleta de feira, enorme e cheia de números que são sempre os que não escolhi. Afinal não é a verdade que levo, apenas um prémio e mesmo assim, só caso acertasse, que o homem da roleta é mercador e sedutor – repetindo em tons largos e quentes um “ vá lá, jogue mais uma vez – vá lá!” Sempre com o sorriso de quem sabe que, seja qual for o número que saia, um dia o prémio partirá.

     Viajo pelas feiras e pelas procissões, torno-me menino vestido de anjo, e das avós babadas, que sem ser assim, nunca teria ganho meia dúzia de bolos doces e grandes, daqueles que só se ganham nestes dias, quando o calor arde por baixo dos fatos que picam e fazem comichão.
E de repente a memória, como borboleta, salta o tempo e voa, e já estou crescido, e já sou homem dando gritos por ti, que me calas e espantas e me deixas sem ar só de te ver, as mãos fechadas e esses olhos desconfiados, vermelhos de raiva, que eu amava antes, aos domingos, quando a missa já me enfadava e tu me enchias o meu ser e o meu tudo.

Ainda não, volto atrás; a borboleta saltita, esvoaça como chama de vela na varanda, ainda me deixo fugir e afundar no sofá das tias gordas, que me empapam de gemadas e paposecos de chouriço e manteiga, cheios, bons. E deixo-me nesses momentos de rei, ficar apenas saboreando, os olhos fechados e o conforto de um útero onde fui feliz lá dentro, amado, refém de coisa nenhuma, no escuro das janelas, dos cheiros a salas com veludos e carmins, e o capilé que vem depois para me deixar consolado. Só queria que já fosse outra vez dia de repetir este dia. Aperto os olhos e sou apenas como estou – bem, muito bem.

E se me desperto, e se olho bem cá da frente, é apenas para sorrir e saber que já foi o ontem e o muito ontem, sem volta e sem remédio, e que daqui, daqui donde vejo, só há caminho para andar. O coração pode sangrar, como as canelas, nos campos de futebol improvisados nas calçadas, nas pedras das ruas, onde eu era rapaz e tu, sempre tu, de cabelo escovado e laço azul, te chegavas ao mundo como se saísse dos figurinos que a minha tia gorda, costureira mostrava às freguesas.

Passo pelas ruas, sou já homem, o cabelo puxado para trás, colado da brilhantina, um fato cinzento de domingo, e sorrio, porque as casas velhas sorriem, no sorriso triste que os velhos emprestam à nostalgia. Só me lembro dos caminhos de terra por onde eu corria e fugia de tudo e me sentia livre e só. Era ali que as minhas histórias nasciam e eu podia falar alto e só, e cada muro era apenas um castelo do meu reino, e o meu cavalo trotava, paus de vassoura roubados nos quintais ermos, canas da ribeira onde apavorava as rãs, mas debaixo das minhas pernas, sem mais que os olhos fechados, acreditando que tudo podia ser verdade e diferente, o meu reino era o portão da casa dos avós, onde os braços enormes e o riso largo me acolhiam sem me perguntar mais nada, apenas apertavam.
Não vás borboleta, esvoaça sem destino, não me deixes velho, que eu tenho medo de esquecer as histórias, e o primeiro beijo com que as mãos abriram outro reino, e te ofereci o meu por esse sorriso e pela tua mão. 

7.12.12

Ontem




ontem foste tu
nas grandes e nas pequenas voltas
desse chão onde te amo,
soltaste teu tempo
e deixaste o meu, parado
apenas para ser teu.
ontem
o teu perfume acordou
as minhas histórias sem heróis
despertou
as fábulas dos que voam
para chegar a um ponto de partida
e os teus olhos disseram
todas as palavras que não profiro
para que o medo não oiça.
ontem
mesmo antes de hoje
amei-te
no toque leve, violento
de um abraço,
e do calor da tua nuca
encostada a mim.
ontem as canções tocaram cá dentro
apenas cantadas para ti
na tua varanda
onde ainda não chego
mesmo antes de hoje
voltar.

4.12.12

Livre


















Quando me liberto, canto;
quando me liberto, danço;
livre, sou um corpo em movimento
livre, sou maestro de todos os meus átomos
e células, uma a uma.
sou sol de raízes profundas
percorro-me livre
e acho-me no meio
desta terra que cheira a chuva
desta estrada grande
donde não quero saber o fim
livre, tenho as asas brancas
das garças
sorrindo
em cada pedaço do caminho.

26.11.12

Sem mais














Não gosto das coisas previsíveis
constantes
dá-me para trocar um lençol morno
e uma perna certa,
por um olhar fortuito
doce
e duas fatias de pão com manteiga.
aconchego-te a roupa
apenas para que durmas
e acordes despida
destapada
comigo em chamas.
adoro os prenúncios de que vens chegando
apenas para inventar uma banda
de músicos verdes
que te cantam no pescoço
uma aurora de chuva
onde o sol vem nos teus olhos.

Apetece-te























Não me apetece ler os poemas,
apetece-me que te apeteça
que os leia
que queiras que os escreva e
que diga
os meus e os do Pina
e os do Eugénio
e depois que te apeteçam
os meus braços
e que peças os meus beijos
lambuzados das palavras que te disse,
e as folhas soltas
fiquem esquecidos nesse teu chão
onde te apetece
tomar-me
como se diz um poema
completo e nu
teu
apetecido.

16.11.12

Sem razão















Sem nenhuma razão,
por nenhuma razão,
nem caminho.
sou apenas pensamentos,
e o teu calor
queima,
as dores esquecidas
análgicas,
e os meus olhos -
- dois milhafres negros
ao longe,
sem nenhuma razão
voo sobre as folhas
e tinjo-as de letras
que apenas dizem de ti
o que sei
e não sei de ti,
como apenas sinto e descrevo
como te acomodas no meu poema,
inexplicavelmente
como a razão morresse
no brilho dos meus lábios
que me sabem a ti. 

12.11.12

Na sala de espera de um consultório

















Não se vêem olhos nem faces reluzentes,
antes o bafo, sentados, como convém, doentes.
o verbo solta-se, cheira, inunda
espera-se na soleira por uma voz profunda.

Há traços imprecisos nas faces lábeis,
os lábios quase colados, finos, roxos
murmuram das vidas, em meneios hábeis
das vidas que adivinham, dos decrépitos e dos coxos.

Solilóquios aos cantos da sala, disputados, eremitas
reparam-se nos dedos, nas mãos inquietas que mexem
ininterruptas
e as nucas, sempre as nucas que arranham as paredes
como a espera das prostitutas.
e os guardanapos que tapam dignamente as marmitas.

nem se imaginam, se mentem,
secam-se os desgostos nos folhados
e nos depósitos de orelhas amigas, vazias
queixas, histórias, funerais anunciados

e os lábios são tambores rufando, soprando
o desgosto de por ali se entreterem, a sopa
ficou por casa, não está feita, e a roupa,
e os telefones, são músicas de aleluia chegando

em conversas de códigos, que sim, está para durar
já todos foram chamados,
falto eu,
sou eu agora, adeusinho. Já me estão a chamar.

25.10.12

Fosse eu














Se eu pudesse escrever poemas
do tamanho do quanto eu te amo,
se eu voasse pelas asas do pássaro grande
e as lágrimas
que o vento provoca
pudessem levar a água às terras secas,
se eu pudesse mostrar como o peito rebenta
no milagre da tua presença,
e todos os que amam
se levantassem em guerra
pelo amor que se perde pelas frestas
dos muros levantados.
se eu soubesse cantar as músicas que me quebram
e diante de ti,
a minha expressão te seduzisse
e as letras que formam as palavras
fossem os soldados
que falam nas praças grandes,
 e os lábios da cor dos cravos
apenas beijassem
e o valor de um sorriso
tivesse dentro a medicina das curas
milagrosas.
E se o meu piano
fosse este teclado negro e branco
e cada frase em tom menor
tivesse à lapela um som maior.
se eu fosse todas as rodas de dança
e tu
um corpete onde adivinho a noite.
se tudo fosse…,
deixaria os poemas dormir
e nos teus olhos recitaria eternamente
este meu querer.

15.10.12

Cantos das folhas






Escrevo nos cantos das folhas
os versos que não sei dizer,
embaraço cada letra em novelos
e jogo no ar
as pingas de chuva
que nunca me dessedentam.




Não sei se algum dia
o sol me entenderá
ou se os pássaros deixarão de fugir
quando os contemplo
apenas parado a ouvir.

Sou corpo
de mãos secas,
das palmas das mãos gretadas
de tanto mar
que passa nestes tempos
do silêncio
e das areias que se metem
por todos os poros.

Escrevo num propósito
exorcizo a magia
de te ter por aqui.

Momentos



olho-te
do fundo duma sala longa,
chega-me a magia da tua voz
que apenas conheço das palavras
e sabes-me à chuva que me bate de frente
ao cheiro da terra húmida;
sabes-me às novidades frescas
das surpresas,
e no meu peito
rebenta a loucura das palavras
encantadas e generosas.
Lanço-te um sorriso
basta que olhes
basta que sintas.
Afinal sempre sorriste.

8.10.12

A dança do piano















hoje escrevi-te como se tocasse num poema
e cada palavra fosse o som da melodia nova.
entendo-te e escrevo-te em cada som
componho o teu corpo
como numa peça de ballet
onde sou coreógrafo
e tu em saia de tule
em pontas,
bailas para mim sem parar
pedindo a nova canção.
as notas trauteiam
repetem-se
 e o meu corpo escreve-te
retorcido nesta banqueta
aspirando teu modo, 
respirando exausto.
sinto-te nos rodopios, nos saltos
fecho os olhos
és sal, 
espuma de maresia fresca
selvagem,
nesses teus braços
que sobem  e descem dos céus
como cheiros das uvas maduras
da terra molhada.
e o piano toca
e tu danças
e eu toco apenas palavras
toscas e ténues
que eu entendo
no que sempre querem dizer.

Silêncios


















os silêncios
são as observações do espelho,
são rugas que não parecem minhas
são ausências de olhares perdidos
no que a vida se escapa

os silêncios
perseguem as palavras
ofuscam e abafam
por fora dos olhos´

os silêncios
deixam ouvir as folhas caindo
no valor exato da sua importância

os silêncios
cerram a boca impetuosa
e o vento pode dizer tudo
o que aprouver

os silêncios amam
e choram

os silêncios
fazem do silêncio
o som exato deste poema