26.11.12

Sem mais














Não gosto das coisas previsíveis
constantes
dá-me para trocar um lençol morno
e uma perna certa,
por um olhar fortuito
doce
e duas fatias de pão com manteiga.
aconchego-te a roupa
apenas para que durmas
e acordes despida
destapada
comigo em chamas.
adoro os prenúncios de que vens chegando
apenas para inventar uma banda
de músicos verdes
que te cantam no pescoço
uma aurora de chuva
onde o sol vem nos teus olhos.

Apetece-te























Não me apetece ler os poemas,
apetece-me que te apeteça
que os leia
que queiras que os escreva e
que diga
os meus e os do Pina
e os do Eugénio
e depois que te apeteçam
os meus braços
e que peças os meus beijos
lambuzados das palavras que te disse,
e as folhas soltas
fiquem esquecidos nesse teu chão
onde te apetece
tomar-me
como se diz um poema
completo e nu
teu
apetecido.

16.11.12

Sem razão















Sem nenhuma razão,
por nenhuma razão,
nem caminho.
sou apenas pensamentos,
e o teu calor
queima,
as dores esquecidas
análgicas,
e os meus olhos -
- dois milhafres negros
ao longe,
sem nenhuma razão
voo sobre as folhas
e tinjo-as de letras
que apenas dizem de ti
o que sei
e não sei de ti,
como apenas sinto e descrevo
como te acomodas no meu poema,
inexplicavelmente
como a razão morresse
no brilho dos meus lábios
que me sabem a ti. 

12.11.12

Na sala de espera de um consultório

















Não se vêem olhos nem faces reluzentes,
antes o bafo, sentados, como convém, doentes.
o verbo solta-se, cheira, inunda
espera-se na soleira por uma voz profunda.

Há traços imprecisos nas faces lábeis,
os lábios quase colados, finos, roxos
murmuram das vidas, em meneios hábeis
das vidas que adivinham, dos decrépitos e dos coxos.

Solilóquios aos cantos da sala, disputados, eremitas
reparam-se nos dedos, nas mãos inquietas que mexem
ininterruptas
e as nucas, sempre as nucas que arranham as paredes
como a espera das prostitutas.
e os guardanapos que tapam dignamente as marmitas.

nem se imaginam, se mentem,
secam-se os desgostos nos folhados
e nos depósitos de orelhas amigas, vazias
queixas, histórias, funerais anunciados

e os lábios são tambores rufando, soprando
o desgosto de por ali se entreterem, a sopa
ficou por casa, não está feita, e a roupa,
e os telefones, são músicas de aleluia chegando

em conversas de códigos, que sim, está para durar
já todos foram chamados,
falto eu,
sou eu agora, adeusinho. Já me estão a chamar.

25.10.12

Fosse eu














Se eu pudesse escrever poemas
do tamanho do quanto eu te amo,
se eu voasse pelas asas do pássaro grande
e as lágrimas
que o vento provoca
pudessem levar a água às terras secas,
se eu pudesse mostrar como o peito rebenta
no milagre da tua presença,
e todos os que amam
se levantassem em guerra
pelo amor que se perde pelas frestas
dos muros levantados.
se eu soubesse cantar as músicas que me quebram
e diante de ti,
a minha expressão te seduzisse
e as letras que formam as palavras
fossem os soldados
que falam nas praças grandes,
 e os lábios da cor dos cravos
apenas beijassem
e o valor de um sorriso
tivesse dentro a medicina das curas
milagrosas.
E se o meu piano
fosse este teclado negro e branco
e cada frase em tom menor
tivesse à lapela um som maior.
se eu fosse todas as rodas de dança
e tu
um corpete onde adivinho a noite.
se tudo fosse…,
deixaria os poemas dormir
e nos teus olhos recitaria eternamente
este meu querer.

15.10.12

Cantos das folhas






Escrevo nos cantos das folhas
os versos que não sei dizer,
embaraço cada letra em novelos
e jogo no ar
as pingas de chuva
que nunca me dessedentam.




Não sei se algum dia
o sol me entenderá
ou se os pássaros deixarão de fugir
quando os contemplo
apenas parado a ouvir.

Sou corpo
de mãos secas,
das palmas das mãos gretadas
de tanto mar
que passa nestes tempos
do silêncio
e das areias que se metem
por todos os poros.

Escrevo num propósito
exorcizo a magia
de te ter por aqui.

Momentos



olho-te
do fundo duma sala longa,
chega-me a magia da tua voz
que apenas conheço das palavras
e sabes-me à chuva que me bate de frente
ao cheiro da terra húmida;
sabes-me às novidades frescas
das surpresas,
e no meu peito
rebenta a loucura das palavras
encantadas e generosas.
Lanço-te um sorriso
basta que olhes
basta que sintas.
Afinal sempre sorriste.

8.10.12

A dança do piano















hoje escrevi-te como se tocasse num poema
e cada palavra fosse o som da melodia nova.
entendo-te e escrevo-te em cada som
componho o teu corpo
como numa peça de ballet
onde sou coreógrafo
e tu em saia de tule
em pontas,
bailas para mim sem parar
pedindo a nova canção.
as notas trauteiam
repetem-se
 e o meu corpo escreve-te
retorcido nesta banqueta
aspirando teu modo, 
respirando exausto.
sinto-te nos rodopios, nos saltos
fecho os olhos
és sal, 
espuma de maresia fresca
selvagem,
nesses teus braços
que sobem  e descem dos céus
como cheiros das uvas maduras
da terra molhada.
e o piano toca
e tu danças
e eu toco apenas palavras
toscas e ténues
que eu entendo
no que sempre querem dizer.

Silêncios


















os silêncios
são as observações do espelho,
são rugas que não parecem minhas
são ausências de olhares perdidos
no que a vida se escapa

os silêncios
perseguem as palavras
ofuscam e abafam
por fora dos olhos´

os silêncios
deixam ouvir as folhas caindo
no valor exato da sua importância

os silêncios
cerram a boca impetuosa
e o vento pode dizer tudo
o que aprouver

os silêncios amam
e choram

os silêncios
fazem do silêncio
o som exato deste poema

3.10.12

Dialeto

















Queria encontrar um dialeto
só nosso,
códigos que dissessem tudo
sem ter de me demorar a dizer
que te amo.
E que os teus olhos sorrissem
quando me demoro
dentro da tua boca;
e fosses sempre lua e sol
na lonjura dos dias sem ti.
quanto queria que abrisses asas
e fosses meu pássaro
quando galgo as ruas
e me desfaço em água
apenas porque me apresso
a chegar a ti.
e nos barcos que cruzam o tejo,
que fosses a maré sublime
forte e poderosa
que me empurra ao mar aberto
e apenas tu me salvasses
deste destino
que me afoga
numa dor sem texto
onde apenas recito teu nome.
e no teu corpo
a marca
dos meus dentes nas tuas coxas,
fosse por fim desta melodia
que me cavalga o peito
e me deixa teu,
em cada átomo de tempo
em cada pedaço de ti.

26.9.12

Bem no fundo de mim.














O meu corpo embaraça-se
de tanto te querer,
por mais que a minha boca te diga adeus.
Fogem-me estes pés,
descalços, pedindo descanso,
e os meus poros, a minha pele toda
arrepia-se
do cheiro que marcaste em cada pedaço
de mim.
Há um tempo de força
e de um não vincado
de olhar na praça a mudança das folhas
e de perceber as sombras das árvores
mais altas e mais baixas,
Há um tempo de aninhar-me nas coisas comuns
como se a vida já chegasse
quando me bate de frente
e me pede juízo,
como se o meu corpo não existisse
e este frémito
grande, turbulento
que me jorra dos olhos
e me dilata as narinas
não me trouxesse sempre a lembrança
desse teu corpo
dos teus olhos
dessa primeira vez em que te senti,
e me leste o poema
e dançaste, perto de mim.
Porque nada há a dizer
e me deixo ficar
aqui,
a chuva cai de agrado
contra a minha janela,
e as minhas lágrimas são testemunha
do quanto o amor
pode apenas ser
um caminho e a distância
de te ter ao longe
bem no fundo de mim.



Lume vivo














e na noite onde o rasto das gaivotas
se perde
há um pequeno fogo ao longe
que me deixa quente
quando me toca os olhos
e lhe sinto o poder
da luz que à volta incendeia.
e da terra dos caminhos
agora que a chuva serenou o pó
levanta-se uma linha direita
onde te dou a mão
e do lado onde a seara é mais farta
colho uma papoila fresca
que te aconchego no cabelo
perto de chegarmos
a esta roda de lume
onde nos quedamo sentados
apertados
na enormidade de um beijo.

19.9.12

Se fosses assim

Não fujas,
ainda não inventaram os dicionários
que te possam explicar.
tu és uma bruma fresca e cinzenta
cheia de manhãs mágicas,
que apenas amo.

Sei que és bruma,
nada mais sei.
respiro os teus abraços
apertados, longos
como maresia
atrevida e salgada
como manhãs acordadas na praia,
onde as carícias se trocam
sem nada mais que as recompense.

Adivinho esse teu lado
onde queres um beijo,
arrisco no teu corpo
os desejos que faço
por aprender.
e o medo fica de lado
quando estendes o teu braço
e as tuas mãos caem no meu peito
e sorriem. 
Se apenas fosse assim
e os poemas se fizessem
de dois seixos
que revolvem na maré.
se bastasse amar
como uma canção
recordada... 
se tu fosses
assim.