8.10.12

A dança do piano















hoje escrevi-te como se tocasse num poema
e cada palavra fosse o som da melodia nova.
entendo-te e escrevo-te em cada som
componho o teu corpo
como numa peça de ballet
onde sou coreógrafo
e tu em saia de tule
em pontas,
bailas para mim sem parar
pedindo a nova canção.
as notas trauteiam
repetem-se
 e o meu corpo escreve-te
retorcido nesta banqueta
aspirando teu modo, 
respirando exausto.
sinto-te nos rodopios, nos saltos
fecho os olhos
és sal, 
espuma de maresia fresca
selvagem,
nesses teus braços
que sobem  e descem dos céus
como cheiros das uvas maduras
da terra molhada.
e o piano toca
e tu danças
e eu toco apenas palavras
toscas e ténues
que eu entendo
no que sempre querem dizer.

Silêncios


















os silêncios
são as observações do espelho,
são rugas que não parecem minhas
são ausências de olhares perdidos
no que a vida se escapa

os silêncios
perseguem as palavras
ofuscam e abafam
por fora dos olhos´

os silêncios
deixam ouvir as folhas caindo
no valor exato da sua importância

os silêncios
cerram a boca impetuosa
e o vento pode dizer tudo
o que aprouver

os silêncios amam
e choram

os silêncios
fazem do silêncio
o som exato deste poema

3.10.12

Dialeto

















Queria encontrar um dialeto
só nosso,
códigos que dissessem tudo
sem ter de me demorar a dizer
que te amo.
E que os teus olhos sorrissem
quando me demoro
dentro da tua boca;
e fosses sempre lua e sol
na lonjura dos dias sem ti.
quanto queria que abrisses asas
e fosses meu pássaro
quando galgo as ruas
e me desfaço em água
apenas porque me apresso
a chegar a ti.
e nos barcos que cruzam o tejo,
que fosses a maré sublime
forte e poderosa
que me empurra ao mar aberto
e apenas tu me salvasses
deste destino
que me afoga
numa dor sem texto
onde apenas recito teu nome.
e no teu corpo
a marca
dos meus dentes nas tuas coxas,
fosse por fim desta melodia
que me cavalga o peito
e me deixa teu,
em cada átomo de tempo
em cada pedaço de ti.

26.9.12

Bem no fundo de mim.














O meu corpo embaraça-se
de tanto te querer,
por mais que a minha boca te diga adeus.
Fogem-me estes pés,
descalços, pedindo descanso,
e os meus poros, a minha pele toda
arrepia-se
do cheiro que marcaste em cada pedaço
de mim.
Há um tempo de força
e de um não vincado
de olhar na praça a mudança das folhas
e de perceber as sombras das árvores
mais altas e mais baixas,
Há um tempo de aninhar-me nas coisas comuns
como se a vida já chegasse
quando me bate de frente
e me pede juízo,
como se o meu corpo não existisse
e este frémito
grande, turbulento
que me jorra dos olhos
e me dilata as narinas
não me trouxesse sempre a lembrança
desse teu corpo
dos teus olhos
dessa primeira vez em que te senti,
e me leste o poema
e dançaste, perto de mim.
Porque nada há a dizer
e me deixo ficar
aqui,
a chuva cai de agrado
contra a minha janela,
e as minhas lágrimas são testemunha
do quanto o amor
pode apenas ser
um caminho e a distância
de te ter ao longe
bem no fundo de mim.



Lume vivo














e na noite onde o rasto das gaivotas
se perde
há um pequeno fogo ao longe
que me deixa quente
quando me toca os olhos
e lhe sinto o poder
da luz que à volta incendeia.
e da terra dos caminhos
agora que a chuva serenou o pó
levanta-se uma linha direita
onde te dou a mão
e do lado onde a seara é mais farta
colho uma papoila fresca
que te aconchego no cabelo
perto de chegarmos
a esta roda de lume
onde nos quedamo sentados
apertados
na enormidade de um beijo.

19.9.12

Se fosses assim

Não fujas,
ainda não inventaram os dicionários
que te possam explicar.
tu és uma bruma fresca e cinzenta
cheia de manhãs mágicas,
que apenas amo.

Sei que és bruma,
nada mais sei.
respiro os teus abraços
apertados, longos
como maresia
atrevida e salgada
como manhãs acordadas na praia,
onde as carícias se trocam
sem nada mais que as recompense.

Adivinho esse teu lado
onde queres um beijo,
arrisco no teu corpo
os desejos que faço
por aprender.
e o medo fica de lado
quando estendes o teu braço
e as tuas mãos caem no meu peito
e sorriem. 
Se apenas fosse assim
e os poemas se fizessem
de dois seixos
que revolvem na maré.
se bastasse amar
como uma canção
recordada... 
se tu fosses
assim.






Por ti


Adio o inadiável
tento acreditar na improbabilidade
não morro
nesta gesta
de me julgar imortal
apenas por te ter de frente a mim
e os teus olhos brilharem
e o vento que te beija a face
romper por entre teus cabelos
manso e doce
e me beijar a mim.

12.9.12

Ser teu


Deixa-me ser teu
pertencer-te de inteiro
como os silêncios são das comtemplações
e as neves eternas dos cumes mais altos
Deixa  pegar-me a ti
como o verão se pega à pele
e as sementes se afundam na terra:
deixa-me voar à tua volta
como crisálida
à volta da chama,
e deste risco
saborear o sorriso incauto
de te sentir assim tão perto.
sei que estou perdido
e por isso, sei e basta-me.
as ruas têm cheiro a fresco
lavadas, despejadas do pó vespertino
e da sujeira dos passos que passaram,
e eu perdido na tua procura
oiço um piano em tom menor
desprendido de uma janela semi-aberta
onde uma mulher de cabelo ruivo
com um laço verde,
canta
num improviso de jazz. e baila
num movimento perfeito
quase imperceptível,
e sorri de gozo...
quase paro.

Deixa que volte, mesmo perdido
vou lembrar o teu rosto
como mapa das minhas memórias
dos dias de dentro
onde tudo repassa a vontade
de te ter.
deixa que fique
sentado na soleira da tua porta
deixa que te ame, assim
como eu fosse apenas teu.

11.9.12

Na minha casa


No meu peito, aberto
existe um lugar onde só tu sabes entrar,
onde só tu adivinhas o lugar da chave
que escondi
para abrires quando quiseres.
Na minha casa, castanha
de madeira velha
deixo sempre uma limonada
a lareira acesa
e um livro do Eugénio
marcado e riscado
de tanto o ler.
Na minha mala levo sempre
um lápis
e um caderno
e o teu nome escrito em todas as folhas
por teimosia
e por amor,
e o bilhete de volta
para regressar
esperando a porta aberta
para te olhar e descobrir
os teus olhos chorando
debruçada sobre um poemas de Eugénio,
as mãos quentes da lareira
sempre acesa,
e um copo de limonada doce
com que os teu lábios frescos
me dizem olá.

10.9.12

Dou por mim


Dou por mim
de olhos abertos
murmurando teu nome
És o meu mantra
eternamente repetido.
nem resisto
aceito que te quero
que me fazes bem.

Dou por mim
de volta aos quinze anos
na volta dos cinquenta e um,

Dou por mim
sabendo que não és quem quero
nem quero que sejas
apenas estás
assim, 
linda
entrando na minha casa
saqueando todo o sangue
que o meu coração possui
batendo incessante
à tua procura
quando ouve a tua voz
pelo teu corpo

Dou por mim
dentro de ti.

5.9.12

Em mim


Na praça vazia
fecho os meus olhos vazios e
um som repetidamente belo
enche-me até o detestar.

na pequena viela onde tudo se estreita
amalgo os meus dedos em punho
e olho-o
como se de mim não fosse
e empunho este punho
e posso pela primeira vez
apenas rir dele.

na tua janela
onde me deixaste
da parte de dentro desse teu quarto
na parte de fora da tua cama
os ombros gelados da patética
camisola de alças,
adulo este cigarro que te roubei
(há tanto tempo os deixara)
e percebo que apenas estou
na parte de dentro de uma janela
com vista paa as ruas largas.

não existem dias sem ti
como
uma paragem de autocarro
por onde quero estar
quando passares e me deixares
entrar
ainda não sei onde.

de olhos fechados
na praça
saboreando os silêncios
de quando as melodias se calarem
olhando as janelas fechadas
os autocarros que passam
sorrio, quase sem expressão,
com toda a paixão
de me saber aqui,
nú, inteiro.

Rapport














Olhas - olho;
sorris - sorrio;
a tua mão estende-se -
a minha mão, paralela, acompanha-a;
moves-te - movo-me;
dizes, e nas frases que eu digo
solto as tuas palavras.
Somos sempre dois,
quando me percebes
e eu sigo o teu sentido
e nos colamos
na verdade do calor que desprendemos
e no livro que lemos
a dois;
e o teu mundo
é a minha casa,
e a minha casa
teu alpendre onde te estendes
e bebemos um chá verde
gelado, em pequenos golos,
saboreias – saboreio;
e és tu - e sou eu,
e os nossos desenhos
e as nossas palavras
e as nossas músicas
brincam aos nossos pés.
falas baixo, calma
e calmo e em tom baixo
é a minha vez de te dizer
amo-te
e tu olhas
e tu sentes
e dizes-me
amo-te.
Nada mais
Tudo isto
E muito mais que isto,
Entendo-te – entendes-me.

Significância














Um barco
pode ser mais que um barco
e ter na alma a viagem e a distância,
ou uma vela ser mais que um pano
e ser asa de voo longo,
como os teus olhos
que são mais que um olhar,
oceanos disfarçados
de turquesas gémeas
feitiços;
teus ombros enrolados
fechados
são mais que uma estátua
a abrirem na aventura do gozo
de respirar livre e livre se sentir.
Uma estrada, pode ser mais que um caminho
ser um livro
uma história
uma dor contida da saudade
da ausência
como as tuas mãos abertas
são mais que dedos estendidos
são perdão
são carícias
dizem coisas sussurradas
artesãs.
uma boca aberta
pode ser mais que um respirar
e trazer fome
e gritar por alguém
e ser favo de mel
consumido
ser traço de pastel desenhado
no quadro que te guarda
apenas no meu peito
como o teu corpo
lido em cada passo dessa dança
que constróis
e tudo diz
que eu leio,
e choro
e rio
e te modelo
nos meus olhos, bailando contigo
apenas quieto
apenas dançando
em tudo o podemos dizer.