5.9.12

Em mim


Na praça vazia
fecho os meus olhos vazios e
um som repetidamente belo
enche-me até o detestar.

na pequena viela onde tudo se estreita
amalgo os meus dedos em punho
e olho-o
como se de mim não fosse
e empunho este punho
e posso pela primeira vez
apenas rir dele.

na tua janela
onde me deixaste
da parte de dentro desse teu quarto
na parte de fora da tua cama
os ombros gelados da patética
camisola de alças,
adulo este cigarro que te roubei
(há tanto tempo os deixara)
e percebo que apenas estou
na parte de dentro de uma janela
com vista paa as ruas largas.

não existem dias sem ti
como
uma paragem de autocarro
por onde quero estar
quando passares e me deixares
entrar
ainda não sei onde.

de olhos fechados
na praça
saboreando os silêncios
de quando as melodias se calarem
olhando as janelas fechadas
os autocarros que passam
sorrio, quase sem expressão,
com toda a paixão
de me saber aqui,
nú, inteiro.

Rapport














Olhas - olho;
sorris - sorrio;
a tua mão estende-se -
a minha mão, paralela, acompanha-a;
moves-te - movo-me;
dizes, e nas frases que eu digo
solto as tuas palavras.
Somos sempre dois,
quando me percebes
e eu sigo o teu sentido
e nos colamos
na verdade do calor que desprendemos
e no livro que lemos
a dois;
e o teu mundo
é a minha casa,
e a minha casa
teu alpendre onde te estendes
e bebemos um chá verde
gelado, em pequenos golos,
saboreias – saboreio;
e és tu - e sou eu,
e os nossos desenhos
e as nossas palavras
e as nossas músicas
brincam aos nossos pés.
falas baixo, calma
e calmo e em tom baixo
é a minha vez de te dizer
amo-te
e tu olhas
e tu sentes
e dizes-me
amo-te.
Nada mais
Tudo isto
E muito mais que isto,
Entendo-te – entendes-me.

Significância














Um barco
pode ser mais que um barco
e ter na alma a viagem e a distância,
ou uma vela ser mais que um pano
e ser asa de voo longo,
como os teus olhos
que são mais que um olhar,
oceanos disfarçados
de turquesas gémeas
feitiços;
teus ombros enrolados
fechados
são mais que uma estátua
a abrirem na aventura do gozo
de respirar livre e livre se sentir.
Uma estrada, pode ser mais que um caminho
ser um livro
uma história
uma dor contida da saudade
da ausência
como as tuas mãos abertas
são mais que dedos estendidos
são perdão
são carícias
dizem coisas sussurradas
artesãs.
uma boca aberta
pode ser mais que um respirar
e trazer fome
e gritar por alguém
e ser favo de mel
consumido
ser traço de pastel desenhado
no quadro que te guarda
apenas no meu peito
como o teu corpo
lido em cada passo dessa dança
que constróis
e tudo diz
que eu leio,
e choro
e rio
e te modelo
nos meus olhos, bailando contigo
apenas quieto
apenas dançando
em tudo o podemos dizer.

Na serenidade de um passo

I
Na serenidade de um passo, viaja a voluptuosa sombra de um abraço imenso. De repente cai sobre mim, a tua forma graciosa, como garça de asas estendidas, pairando, e no desenho de um sorriso, a tua cintura fina poisa na minha mão, e ao levantar-te, num salto a dois, somos a figura incontornável do dia sem fim, que resta das coisas boas e do mar aberto onde a linha do horizonte tem a cor dos duetos felizes.
II
Na penumbra, quando descansas e relaxas no meu peito, quando o sol desceu para descansar e as ruas cinzentas brilham na conversa com a lua, chego-me a ti, e depois segredo no teu ouvido as coisas do dia todo, e deixo no ar, as margaridas que passaram perto das minhas mãos e que não colhi por me lembrar de ti. deixo os segredos do frio das sombras magnificas e como me deixei partir na vontade de te abraçar e abrir tua blusa soletrando todo um poema feito de carne e de ti.
Deixo teus lábios chegarem em múrmurios, dizerem coisas que bailam, são bailarinos em palco, expressam-se, rodopiam, fantasiam e depois num ligeiro passo de magia são o pas-de-deux perfeito que nos alucina e cavalga nas nuvens em que me embriago de ti, do teu toque, do teu cheiro, dos teus olhos que me vergam e me seduzem. tu apenas olhas, nesses olhos de que não me canso, desses teus olhos que me mostram quanto um soldado tem de caminhar e vencer as trincheiras... quanto as lágrimas se saboreiam e sabem bem.
III
Sou o teu soldado, a farda vermelha e dourada tem um laço cor de sol que bordaste com as tuas mãos, e onde deixaste teu toque e o teu perfume. Hoje voltei das batalhas, e chamei-te mesmo debaixo da tua varanda, quis-te como um soldado quer a sua bailarina. Hoje foi dia de passar no mercado e roubar um lírio para te entregar. Ganhei um sorriso solto debaixo das melenas do teu cabelo ruivo. Hoje ganhei o mundo e as batalhas perderam-se no teu regaço, e nos sorrisos dos gaiatos que jogam à bola pelo meio dos carros e dos caixotes. Hoje, vi-te com a tua saia de pregas rodopiando, e destes-me as mãos e olhaste-me como uma ideia feita vida, como um feitiço de encantar. E nesta rua que se chama mundo, fomos longe, ao fundo da rua, e roubei-te um beijo, na esquina onde se vira a outro mundo, na rua da imaginação e do sonho, onde tudo se permite e não há soldados, nem bailarinas, apenas nós e a rua que nos deixa passear, a rua onde podes ter todos os sóis e todas as luas, onde te posso cantar as baladas que invento e te sentas nos no chão para te recitar um ultimo poema. Hoje estou feliz.
IV
A noite passa arrepiada na gola do meu casaco, a brilhantina secou no cabelo, e o livro do Eugénio que trouxe para ti, descansa apalermado no degrau da porta, junto à umbreira onde o meu ombro se colou, ainda os pombos debicavam na calçada negra, saltando contentes.
Olho a cada instante e todos os sons são o gemido da tua janela a abrir lentamente para me deixar entrar. Como soldado, sou sentinela atento, e os joelhos e as pernas permanecem calados, cumprindo seu dever sem queixas nem azedumes. Hoje não apareces, não há sinal de ti, e mesmo assim deixo-me ficar como se a distância tivesse a lonjura de um oceano e nada mais tivesse que a memória como companhia. O teu sorriso aberto, leva-me às gargalhadas que fabricamos na alegria de nos darmos, na plasticidade dos nossos corpos juntos, nos nossos silêncios apáticos em que deixo cair as lágrimas de te olhar, no teu braço que se estende enternecido, teu rosto roçando o braço encostado ao teu ombro, os teus olhos escondidos por detrás do teu cabelo, o teu corpo como uma folha alva, onde quero ser teu poema e escrever-te tal qual te sinto. Lembro-me que sempre dizes – Vem!
O vento acorda-me e sinto teus seios no meu tronco, aquecendo-me. Já não sei se é verdade que estejas aqui. O teu beijo confunde-me e trinca meus lábios. És tu, e estás aqui, onde sempre estarás. Basta que estejas, basta que os teus olhos se abram, azuis, e me digam – vem.



17.7.12

Sol novo

















Andamos pelo mundo como cirandássemos perdidos pelos campos de batalha. Nem lutámos. Apenas estamos, perdidos, de visão turva sobre o campo, outrora verde, hoje rubro. Os corpos são o rescaldo, frios, nem importa, porque nada importa.
Os corpos não têm alma, decepados, enterrados na terra e no sangue, outros de faces lívidas parecendo sonhar. Eu caminho, como um autómato, busco apenas o que quero, busco e nada encontro, e cada rosto, desconhecido, faz-me feliz por não ser quem quero.
Os corpos perpetuam o silêncio das cidades cheias, onde nada conheço, onde nada sou. Os estandartes caídos não erguem exércitos. Paro, reclamo de mim mesmo, sou aquilo que tenho nas mãos vazias, cheirando a terra, enxutas do sangue.
O mundo é um reportório de gentes zangadas, é um desenho a solo de cada par de olhos, uma história antiga de quem cresce e se mantém antigo, na luta pela sobrevida a uma morte anunciada. Somos a geração urbana, dos civis civilizados, dos que se mantêm calados e não incomodam, dos que dizem bom dia e não cheiram a cheiros, dos que se desculpam ao tocar-se. Cada um é a propriedade, e cada propriedade é mais sua que a bondade e a solidária certeza de amar.
Hoje quis ser outro e soube que a escolha é minha, e que o campo de batalha será sempre mais que um campo de mortos e de silêncios. Haverá sempre o milagre de um gemido, haverá sempre um joelho para poisar na terra. E todos os dias o espanto novo do sol que nasce outra vez.

Os dias acendem-se


Os dias acendem-se já ao cair da noite, baralhados no calendário. Falo da vida, como se a vida fosse minha senhoria e vivesse em casa arrendada ameaçado a cada momento de despejo. Ligo o rádio, procuro as melodias tristes e sinto-me triste, a alma lancinante rebenta de incompreensão, pare a cada momento as lágrimas que os olhos fechados emprestam. Basta querer estar como estou, e estou.
Pego nos dias, olho cada um deles, dou-lhes nome e ordem, amonto-os certinhos, e apenas olho um de cada vez, a alma amotinada, descansa e relaxa, olho a vida e tomo-a como criança de colo, afinal, não eram dentes afiados, não eram mais que sombras agitadas do lado de lá da cortina, apenas vento e uma janela aberta.
Sei que o caminho é de cores e de texturas variadas, já quase os corri todos, sei que paro e atraso a corrida quando o medo me toma, sei que voo, quando o peito rebenta da confiança de me querer e de crer que sou capaz. Gozo, não a chegada, porque é gémea da partida, sei que é dos caminhos que respiro, sei que é no caminho que te encontro, meu amor de toda a vida, que é nos sorrisos e nos códigos das mãos que se tocam, dos ombros amparados, do teu gesto doce quando me tocas o cabelo ou me ajeitas a gola, sei que é daqui que parto sempre à espera de um novo passo.
Não me perguntem qual o passo, não me perguntem quando o darei, apenas vos quero ao lado, aos amigos, aos que me trazem novas histórias, aos que me oferecem canetas e folhas para escrever novos poemas, aos que me deixam sentar aos pés e aprender novas lições, aos que me deixam errar e ficar feliz por aprender. Sei que vou dar um outro passo, não me importa qual.
E do peito, e de dentro de mim, ofereço sem mágoa o futuro, deixo o passado arrumado em gavetas largas, onde não volto, e penso na música que me agarra ao presente, que canta feliz comigo, em escalas simples, em olhares grandiosos, em colos magnânimos, e passo ao dia seguinte, num sorriso jovial, num ar de despeito, que está na hora de acordar e ao pôr os pés no chão, gritar – deixa-te de merdas – a escolha é larga, a escolha é minha.

5.7.12

Do lado neutro













saio de ao pé de mim
deixo-me e vejo-me de longe
por perto
sorrio e observo
como se o mar se deixasse prender
ou o milhafre pairasse por momentos
nos meus olhos.
vejo-me de mãos arregaçadas
com ritmos disruptivos
canções espantadas,
vejo-me de chinelos
nas passadeiras de veludo
colado a velcro.
volto à casa de partida
com a imaculada virtude de voltar a mim
como se de mim nunca tivesse saído,
trago um saco cheio de sorrisos
e rosas frescas.
os perfumes que se apanham
sabem a ontem
e volto e retorno
cada vez que me quiser
e aponto os teus olhos
no meu caderno amarelo
como memória do amor
que quero pintar em cada poema
guardado.
pronuncio o óbvio - amo-te daqui mesmo
do lado neutro
onde nunca estou sem a convicção
de voltar a mim.
marcho como soldado de farda nova
na minha guerra privada
de fuzil prateado,
e ergo-me e escolho
e sou eu
e sou o mundo
e sou tanto mais, tanto mais que isso.

22.6.12

O teu nome não me sai da cabeça


 





















O teu nome não me sai da cabeça
nem a vontade incessante de o dizer
de soletrar nas pedras da calçada
letra a letra
cada mínimo detalhe sobre ti.
Não me sai da pele esse teu cheiro
que me tolda os dias quase todos
que me traz tuas histórias
como os sonhos com que acordo de manhã.
Não me sai dos olhos o teu rosto
nem me cruzo com a alma de ninguém
sem que saiba que os teus olhos
doces,
me adoçam o prazer de te ver.
Não me sai do peito esta saudade
de ser teu
nas camas em que pousámos
nem sai da vida esta certeza
de que tu
serás sempre o meu bem.

19.6.12

Sou
















Sou do sol,
mesmo quando me olho na sombra
e permaneço em mim,
na sombra que também me pertence.
Sou fruto das lições que colho,
e da plena vontade
de estender as mãos
dum olhar centrado,
dentro de mim,
que me olha
que se cola
à minha pele
tatuagem clara
dum mundo de pertenças
dos afectos genuínos
das maçãs vermelhas com cheiro
dos cães de focinho molhado
de tudo o que me ocorre e penso
da força serena de um mosteiro
da simplicidade de cada terreiro
pleno de gente
e de árvores com mães abraçadas
e das canções com ritmos
respirações de cada átomo
de um corpo meu e teu
de ser melhor e me sentir crescer
como o vento chegando à tarde
como o meu próximo passo
que já segue a caminho.

31.5.12

Por dentro de mim


Hoje o dia sabe-me mal. Trinco a poeira do caminho. A estrada estafada e quente, o sol encostado ao tecto a queimar-me. Os passos doem, as solas das botas caminheiras, descolam-se, lambem o chão como cães de caça, línguas soltas, e eu vou seguindo sem me importar onde vou chegar.
Há no caminho bancos de pedra, onde repouso com o prazer das pernas doídas, aliviadas. Pedra fria, deixa que o silêncio fale com a sabedoria imprópria dos que por lá se sentam, papagueando.
Há gente sentada no chão – invejo-os. Quero aquela vontade de me estender e a paz dos olhos fechados sem medo.
O caminho chama-me. O tempo do meu relógio é velho, apressado. Os ponteiros giram arrependidos e marcam na pele cicatrizes que apenas morrem e não ressuscitam. Nada conta, nada traz que eu não permita.
Apanho na beira da estrada uma vara velha, castanha, usada, acompanha-me desde aí até que a queira deitar fora, por agora, adoça-me os passos. Leio os nós e as marcas de outras mãos que se serviram e deixaram histórias de pauladas, de vencedores e vencidos, de mãos maceradas, de compassos e de riscos e vincos, e de números que se escrevem a metal, marcando datas, inscrições de quem a usou e lhe falou no caminho.
Ergo-me com a vara que não há-de ser minha, deixo o meu lugar, olho longe no caminho, e por um instante volto-me, para olhar esta ladeira donde venho, que já não me custa, porque passou, e nela encontro a força do impulso orgulhoso que me faz olhar o que ainda há por passar. Ganho a força das escolhas que me fazem avançar.
Começo a entender que não há árvores nuas, mesmo no inverno. Os pássaros nascem e partem, são os frutos do ar onde as árvores deveriam estar.
A tarde decidiu ficar fresca e serena. O vento amainou. Nada digo, nada desejo, sou apenas caminhante que sente e deseja sem voz.
Um cão passeia, a trote. Um dia quero ter um cão assim, magro, altivo, que coma à minha mão. Nunca vi um cão chorar. Queria saber o que me falta para os entender. Para falarmos. Gosto de os ver, de faro aguçado, de quem não confia apenas nos olhos e cheira e escuta, soerguendo as orelhas, empurrando o nariz mais longe. Apenas querem ser cães e nada mais querem que o que têm.
Deixei de vez a minha vontade de me sentar nos bancos que o caminho traz, sigo em frente, aprecio os desvios como aventuras que me servem em bandeja. Ao longe a cidade começa a preparar-se para dormir, exactamente quando as luzes se acendem na rua. Os carros guincham da pressa dos seus hospedeiros. Olho pares de gente, olhos comprometidos, exangues do pecado em que crêem, saindo das pensões cinzentas, onde se aqueceram um par de horas, aliviados do gelo das escolhas antigas a que retornam apressados, mornos nas renúncias negociadas antes das mãos se soltarem até ao próximo dia.
Excomungo os meus pensamentos, tomo as dores do mundo e rio em gargalhadas escancaradas. O mundo não me dá confiança nem me autoriza a que o tome em mim. Os caminhos mudam de piso apenas se nos mexermos.
Gostava de ter um botão incrustado em mim, apenas de ligar e desligar, um “on-off”, que me ligasse e desligasse desta corrente louca dos pensamentos, dos ses, destas torrentes de epifanias que como ondas de uma praia se levantam e morrem.
Desisto de partir, tomo o manto de caminheiro, e com ele hei-de dormir e comer, e ter-te a ti meu amor, nas lajes frias e nas camas de caruma onde nos deitarmos para amar. Hei-de ter este manto vestido cada vez que nascer e dentro do esquife onde repousarei de olhos fechados, sem medo. Hei-de vestir.me de caminheiro no meio dos bandos de pássaros e recolhido nas árvores vestidas. Hei-de ser caminheiro em cada página deste calendário circular e contínuo, onde em cada momento saberei quando estar nú.

17.5.12

Vou-me demorar




Não me esperem hoje,
vou demorar nos sítios onde já estive
vou procurar as músicas que deixei de lado
vou amar as fotografias
onde perdi teu sorriso.
Não me esperam não,
vou aspirar o fumo dos meus cigarros
os mesmos
de sempre e os outros de que não dei conta,
e vou voltar atrás sem pressa de apanhar
o tal comboio
que não passa outra vez.
Vou-me demorar
na contemplação do espelho
de ter tempo para rir de mim,
e dos dias divididos na agenda
em tempo útil e tempo livre.
As folhas que risco
terão forma de piano
e cada letra, uma tecla
onde as melodias chegam
e os meus dedos negam tudo
o que meu próprio corpo diz.

Não me esperem hoje,
sigam,
quando lá chegarem,
estarei por lá.

Poema em silêncio



Tenho os ouvidos doridos
cansado deste barulho ininterrupto
desleal
das palavras que não param.

Antes só visse…
os olhos fechados
apenas vendo
o que o escuro me deixasse espreitar.
e se a terra parasse para escutar
e se apenas ficasse de mãos dadas
contigo, comigo
entenderia  tudo o que trazes dentro,
e se eu te pudesse mostrar
que o sangue ferve
que os olhos raiam de traços escarlates
apagados por lágrimas
que me sugam o corpo
e desta dor que lancina feroz
um peito que não respira.

Tenho os ouvidos cheios
amontoados de conselhos
amontoados de rasuras
e penas
e nãos e sins
e sins e nãos.

Antes só saboreasse
teu pescoço nu
teus lábios frescos
como num filme antigo
mudo, a preto e branco
onde pudesse escutar
a melodia repetida
nas teclas de um piano
solista, e o vento assobiasse baixinho
nas pregas do teu corpo
na minha vontade
de apenas te sentir
de apenas te tocar
levemente
como me convém
em dias turvos
em dias sonoros
onde os poemas se escrevem
em silêncio