31.5.12

Por dentro de mim


Hoje o dia sabe-me mal. Trinco a poeira do caminho. A estrada estafada e quente, o sol encostado ao tecto a queimar-me. Os passos doem, as solas das botas caminheiras, descolam-se, lambem o chão como cães de caça, línguas soltas, e eu vou seguindo sem me importar onde vou chegar.
Há no caminho bancos de pedra, onde repouso com o prazer das pernas doídas, aliviadas. Pedra fria, deixa que o silêncio fale com a sabedoria imprópria dos que por lá se sentam, papagueando.
Há gente sentada no chão – invejo-os. Quero aquela vontade de me estender e a paz dos olhos fechados sem medo.
O caminho chama-me. O tempo do meu relógio é velho, apressado. Os ponteiros giram arrependidos e marcam na pele cicatrizes que apenas morrem e não ressuscitam. Nada conta, nada traz que eu não permita.
Apanho na beira da estrada uma vara velha, castanha, usada, acompanha-me desde aí até que a queira deitar fora, por agora, adoça-me os passos. Leio os nós e as marcas de outras mãos que se serviram e deixaram histórias de pauladas, de vencedores e vencidos, de mãos maceradas, de compassos e de riscos e vincos, e de números que se escrevem a metal, marcando datas, inscrições de quem a usou e lhe falou no caminho.
Ergo-me com a vara que não há-de ser minha, deixo o meu lugar, olho longe no caminho, e por um instante volto-me, para olhar esta ladeira donde venho, que já não me custa, porque passou, e nela encontro a força do impulso orgulhoso que me faz olhar o que ainda há por passar. Ganho a força das escolhas que me fazem avançar.
Começo a entender que não há árvores nuas, mesmo no inverno. Os pássaros nascem e partem, são os frutos do ar onde as árvores deveriam estar.
A tarde decidiu ficar fresca e serena. O vento amainou. Nada digo, nada desejo, sou apenas caminhante que sente e deseja sem voz.
Um cão passeia, a trote. Um dia quero ter um cão assim, magro, altivo, que coma à minha mão. Nunca vi um cão chorar. Queria saber o que me falta para os entender. Para falarmos. Gosto de os ver, de faro aguçado, de quem não confia apenas nos olhos e cheira e escuta, soerguendo as orelhas, empurrando o nariz mais longe. Apenas querem ser cães e nada mais querem que o que têm.
Deixei de vez a minha vontade de me sentar nos bancos que o caminho traz, sigo em frente, aprecio os desvios como aventuras que me servem em bandeja. Ao longe a cidade começa a preparar-se para dormir, exactamente quando as luzes se acendem na rua. Os carros guincham da pressa dos seus hospedeiros. Olho pares de gente, olhos comprometidos, exangues do pecado em que crêem, saindo das pensões cinzentas, onde se aqueceram um par de horas, aliviados do gelo das escolhas antigas a que retornam apressados, mornos nas renúncias negociadas antes das mãos se soltarem até ao próximo dia.
Excomungo os meus pensamentos, tomo as dores do mundo e rio em gargalhadas escancaradas. O mundo não me dá confiança nem me autoriza a que o tome em mim. Os caminhos mudam de piso apenas se nos mexermos.
Gostava de ter um botão incrustado em mim, apenas de ligar e desligar, um “on-off”, que me ligasse e desligasse desta corrente louca dos pensamentos, dos ses, destas torrentes de epifanias que como ondas de uma praia se levantam e morrem.
Desisto de partir, tomo o manto de caminheiro, e com ele hei-de dormir e comer, e ter-te a ti meu amor, nas lajes frias e nas camas de caruma onde nos deitarmos para amar. Hei-de ter este manto vestido cada vez que nascer e dentro do esquife onde repousarei de olhos fechados, sem medo. Hei-de vestir.me de caminheiro no meio dos bandos de pássaros e recolhido nas árvores vestidas. Hei-de ser caminheiro em cada página deste calendário circular e contínuo, onde em cada momento saberei quando estar nú.

17.5.12

Vou-me demorar




Não me esperem hoje,
vou demorar nos sítios onde já estive
vou procurar as músicas que deixei de lado
vou amar as fotografias
onde perdi teu sorriso.
Não me esperam não,
vou aspirar o fumo dos meus cigarros
os mesmos
de sempre e os outros de que não dei conta,
e vou voltar atrás sem pressa de apanhar
o tal comboio
que não passa outra vez.
Vou-me demorar
na contemplação do espelho
de ter tempo para rir de mim,
e dos dias divididos na agenda
em tempo útil e tempo livre.
As folhas que risco
terão forma de piano
e cada letra, uma tecla
onde as melodias chegam
e os meus dedos negam tudo
o que meu próprio corpo diz.

Não me esperem hoje,
sigam,
quando lá chegarem,
estarei por lá.

Poema em silêncio



Tenho os ouvidos doridos
cansado deste barulho ininterrupto
desleal
das palavras que não param.

Antes só visse…
os olhos fechados
apenas vendo
o que o escuro me deixasse espreitar.
e se a terra parasse para escutar
e se apenas ficasse de mãos dadas
contigo, comigo
entenderia  tudo o que trazes dentro,
e se eu te pudesse mostrar
que o sangue ferve
que os olhos raiam de traços escarlates
apagados por lágrimas
que me sugam o corpo
e desta dor que lancina feroz
um peito que não respira.

Tenho os ouvidos cheios
amontoados de conselhos
amontoados de rasuras
e penas
e nãos e sins
e sins e nãos.

Antes só saboreasse
teu pescoço nu
teus lábios frescos
como num filme antigo
mudo, a preto e branco
onde pudesse escutar
a melodia repetida
nas teclas de um piano
solista, e o vento assobiasse baixinho
nas pregas do teu corpo
na minha vontade
de apenas te sentir
de apenas te tocar
levemente
como me convém
em dias turvos
em dias sonoros
onde os poemas se escrevem
em silêncio

Bernardo

Bernardo deixa que o teu piano
me acorde ao som de um sol maior,
e que na saudade dos sons mais triste,
fique sempre uma sinfonia incompleta,
um epitáfio adiado,
porque a vida com sentido
não se pode resumir à partida sem sentido,
e os teus sons rebentarão,
como os dias da primavera
eternamente tocando.

15.5.12

Demasiado




















Quando a boca se fecha
encarcera as palavras
deixando uma linha direita, seca
onde te faço entender, meu amor
o peso do demasiado,
da noite que nem sempre chega
viajante
do mar que nem sempre traz
o azul tranquilo
das marés temperadas.
O meu poema
é um piano atormentado
nas teclas que martelo
apalpando cada som de palavra
que é mais que um sentido
que é mais que a terra donde voa
porque traz sangue e dor colada
quando sinto que os braços
desfalecem
e se amparam noutros beirais
de um rés-do-chão
com janelas inexplicáveis
e o cheiro do jantar
que me massaja as costas
voltadas a uma televisão
cansada e surda.
Percebes-me sentado,
farto deste demasiado que me agarra,
dos coices de um animal
que nada mais quer que liberdade,
e o teu jeito terno
de me sorrires
e me desatares os nós
do novo poema
que há-de surgir de um sonho
onde nunca me lembrarei
de acordar

11.5.12

Bernardo Sasseti morreu...


A morte anda a passar perto de mim, tocou-me hoje de pertinho, quando ouvi o nome de um pianista que me dava alma no tom apaixonado como desenhava as suas melodias e as entregava.
A morte inexorável, brusca e violenta que ceifa no caminho, que nos leva também em fracções maiores ou mais pequenas. Esta morte estúpida e egoísta que não nos ensina nada, e tudo guarda e encerra.
A morte é escura, bafienta, revoltante porque nunca é a nossa - essa nunca a vemos. Falamos dela como se nossa fosse, e afinal somos nós que nos mantemos vivos e lhe damos sentido.
A morte peca sempre por chegar cedo ou chegar tarde. Nunca aparece no tempo certo, quando precisamos dela. Podemos dizer sempre mal dela, ela não se importa, nada reclama - nada, apenas nos acompanha e nos leva à porta do vazio, da falta, da saudade, do irrepetível.
Eu estou pronto para chegar à fala com ela, sem constrangimentos, de forma frontal, procurando que o inadiável seja apenas esse momento.
E se porventura tiver que viajar com ela, porque nunca se pode viver com medo dela,  que deixe” in memoriae” dois ou três poemas que me recordem com a mesma gratidão com que agradeço ao Bernardo Sasseti, poder escrever enquanto o oiço ao piano tocando por uma Alice que não chegou… ainda.

7.5.12

Momento

















Há preciosos momentos
perdidos no espaço
em que a vida não conta.

Há olhos que nunca se abrirão
por medo da luz
e do sal das lágrimas
que nada mais pedem
que um lenço, simples de pano.

Tudo o que resta
é deste mundo,
abraça-me do lado de fora
tem a solenidade dos génios
fruto de circunstâncias,
tem a sobriedade das vidas
e dos sorrisos
infantilidades das melancolias
alimento do passado
venda do presente.

Há em todos os momentos
uma pergunta a que não respondo,
uma expressão de um louco
que acredita que todos os momentos
não passam desta tarde
onde o Sol nascerá em qualquer lugar.

28.3.12

Hoje











As sombras esfumam-se com o apagar das velas,
os medos despem as vestes negras no raiar do dia
os fantasmas perdem seu brilho pintados de cores
e os dragões deixam as cavernas arrastados pela trela.
Expulso as minhas sombras desta casa velha
onde me deixo ficar menino refém das cicatrizes
tapadas pelas calças com que me faço homem
depois dos trinta e três que afinal desditoso não morri.
Faço do caminho que se traça da beira da porta
sementeira, meu pomar, meu eirado, meu moinho,
e dou comigo nas canções que se cantam às manhãs
trauteando teu nome - esperança feita da vontade
meu soberbo dia que é sempre hoje
o melhor tempo para se escrever o meu poema.

21.3.12

O meu pássaro















Um pássaro de asas enormes
rasa em voo planado os meus desejos
traz-me notícias sem encomenda
bica-me as mãos
procurando o pão dos restos dos manjares
de outros dias.
dos meus olhos
nem água ofereço,
sou um olhar pequeno, turvado,
tenho o pescoço frio
dos ventos que sopram a todo o pano
e engelho a vista
evitando a poeira dos dias cinzentos.
a solidão aos meus pés,
a tristeza a espreitar dos cortinados.
o meu pássaro recolheu as asas
empoleirado no banco que divide comigo
olha em frente
preparando o novo momento
donde sairá sem nada dizer,
e por isso que deixo que um sorriso
me escorra ao canto do lábio
e os meus ombros se assomem
e o destino se estenda na ponta dos meus dedos,
me torne outro
e pinte da escolha dos dias
a cor do pássaro
que sempre voa para onde quer.

12.3.12

Para sempre




















Os teus olhos fitam,
nem pestanejam,
são rios de água que correm, azuis,
mas nada me dizem.
Há outras mulheres perfiladas, nuas,
que me invadem,
despertam-me, não me acordam
sem ruído, sem palavras.
vestem-se nas minhas costas,
formas distraídas, acácias sugadoras.
- olho e rio,
rolo no chão, caio na ponta dos dedos,
nem me importam os desenhos,
nem os apago, tudo passa
sobre o que fiz,
em tudo o que fui,
em tudo o que quero.
engulo os contratempos e revelo
teu corpo aos meus sentidos,
não me importa se envelheces,
sou teu macho
sou o teu dia,
e a minha noite vem das tuas coxas
reluzentes,
acesas,
iluminando a estrada por onde me perco.
dando corpo às memórias
aquecidas em álbuns de fotografias
que são tão vivas
como os teus beijos que me deixas
quando acordamos juntos,
e somos cúmplices de chinelos e pijamas
bebendo um leite morno
e um pão aquecido, torrado.
Há códigos secretos
onde a palavra passe és tu.
há rugas que me adoçam
e a vida passa,
eternamente dia a dia,
na louca calma dos entardeceres.

8.3.12

Mulher






 


 
Abres-te
como uma janela em dia soalheiro;
abres teu peito
e sou um bebé enroscado
fazendo ninho do teu colo
teu rebento nutrido, cheio.
abres-me teus olhos
e fazes que eu veja o mundo,
perceba o cheiro da terra,
e do sangue que cai sem sentido,
que conte a história das letras
e some as contas e os números;
abres-me teu ventre
saio de ti
pisando chão firme
dás-me a mão,
chamas-me filho;
abres-me as pernas
incendeias meu desejo
abres-me a boca
e deixas nela teu beijo marcado,
de amante,
feminina,
menina fêmea
mulher
aberta, ferida
sempre rainha
nesta janela onde o horizonte
se faz.