Bernardo deixa que o teu piano
me acorde ao som de um sol maior,
e que na saudade dos sons mais triste,
fique sempre uma sinfonia incompleta,
um epitáfio adiado,
porque a vida com sentido
não se pode resumir à partida sem sentido,
e os teus sons rebentarão,
como os dias da primavera
eternamente tocando.
As palavras, revelam pensamentos. Os pensamentos revelam a alma, e cada alma, o verdadeiro ser que faz deste mundo um constante devir...
17.5.12
15.5.12
Demasiado
Quando a boca se fecha
encarcera as palavras
deixando uma linha direita,
seca
onde te faço entender, meu
amor
o peso do demasiado,
da noite que nem sempre
chega
viajante
do mar que nem sempre traz
o azul tranquilo
das marés temperadas.
O meu poema
é um piano atormentado
nas teclas que martelo
apalpando cada som de
palavra
que é mais que um sentido
que é mais que a terra donde
voa
porque traz sangue e dor
colada
quando sinto que os braços
desfalecem
e se amparam noutros beirais
de um rés-do-chão
com janelas inexplicáveis
e o cheiro do jantar
que me massaja as costas
voltadas a uma televisão
cansada e surda.
Percebes-me sentado,
farto deste demasiado que me
agarra,
dos coices de um animal
que nada mais quer que
liberdade,
e o teu jeito terno
de me sorrires
e me desatares os nós
do novo poema
que há-de surgir de um sonho
onde nunca me lembrarei
de acordar
11.5.12
Bernardo Sasseti morreu...
A morte anda a passar perto de mim, tocou-me hoje de
pertinho, quando ouvi o nome de um pianista que me dava alma no tom apaixonado
como desenhava as suas melodias e as entregava.
A morte inexorável, brusca e violenta que ceifa no caminho,
que nos leva também em fracções maiores ou mais pequenas. Esta morte estúpida e
egoísta que não nos ensina nada, e tudo guarda e encerra.
A morte é escura, bafienta, revoltante porque nunca é a
nossa - essa nunca a vemos. Falamos dela como se nossa fosse, e afinal somos
nós que nos mantemos vivos e lhe damos sentido.
A morte peca sempre por chegar cedo ou chegar tarde. Nunca
aparece no tempo certo, quando precisamos dela. Podemos dizer sempre mal dela,
ela não se importa, nada reclama - nada, apenas nos acompanha e nos leva à
porta do vazio, da falta, da saudade, do irrepetível.
Eu estou pronto para chegar à fala com ela, sem
constrangimentos, de forma frontal, procurando que o inadiável seja apenas esse
momento.
E se porventura tiver que viajar com ela, porque nunca se
pode viver com medo dela, que deixe” in memoriae” dois ou três poemas que me
recordem com a mesma gratidão com que agradeço ao Bernardo Sasseti, poder
escrever enquanto o oiço ao piano tocando por uma Alice que não chegou… ainda.
7.5.12
Momento
Há preciosos
momentos
perdidos no
espaço
em que a
vida não conta.
Há olhos que
nunca se abrirão
por medo da
luz
e do sal das
lágrimas
que nada
mais pedem
que um
lenço, simples de pano.
Tudo o que
resta
é deste
mundo,
abraça-me do
lado de fora
tem a
solenidade dos génios
fruto de
circunstâncias,
tem a
sobriedade das vidas
e dos
sorrisos
infantilidades
das melancolias
alimento do
passado
venda do
presente.
Há em todos
os momentos
uma pergunta
a que não respondo,
uma
expressão de um louco
que acredita
que todos os momentos
não passam
desta tarde
onde o Sol
nascerá em qualquer lugar.
28.3.12
Hoje
As sombras
esfumam-se com o apagar das velas,
os medos
despem as vestes negras no raiar do dia
os
fantasmas perdem seu brilho pintados de cores
e os
dragões deixam as cavernas arrastados pela trela.
Expulso as
minhas sombras desta casa velha
onde me
deixo ficar menino refém das cicatrizes
tapadas
pelas calças com que me faço homem
depois dos
trinta e três que afinal desditoso não morri.
Faço do caminho
que se traça da beira da porta
sementeira,
meu pomar, meu eirado, meu moinho,
e dou
comigo nas canções que se cantam às manhãs
trauteando
teu nome - esperança feita da vontade
meu soberbo
dia que é sempre hoje
o melhor tempo
para se escrever o meu poema.
21.3.12
O meu pássaro
Um pássaro
de asas enormes
rasa em voo
planado os meus desejos
traz-me
notícias sem encomenda
bica-me as
mãos
procurando o
pão dos restos dos manjares
de outros
dias.
dos meus olhos
nem água
ofereço,
sou um olhar
pequeno, turvado,
tenho o
pescoço frio
dos ventos
que sopram a todo o pano
e engelho a
vista
evitando a
poeira dos dias cinzentos.
a solidão
aos meus pés,
a tristeza a
espreitar dos cortinados.
o meu
pássaro recolheu as asas
empoleirado
no banco que divide comigo
olha em
frente
preparando o
novo momento
donde sairá
sem nada dizer,
e por isso
que deixo que um sorriso
me escorra
ao canto do lábio
e os meus
ombros se assomem
e o destino se
estenda na ponta dos meus dedos,
me torne
outro
e pinte da
escolha dos dias
a cor do
pássaro
que sempre
voa para onde quer.
12.3.12
Para sempre
Os teus
olhos fitam,
nem
pestanejam,
são rios de
água que correm, azuis,
mas nada me
dizem.
Há outras mulheres
perfiladas, nuas,
que me
invadem,
despertam-me,
não me acordam
sem ruído,
sem palavras.
vestem-se
nas minhas costas,
formas
distraídas, acácias sugadoras.
- olho e
rio,
rolo no
chão, caio na ponta dos dedos,
nem me
importam os desenhos,
nem os apago,
tudo passa
sobre o que
fiz,
em tudo o
que fui,
em tudo o
que quero.
engulo os
contratempos e revelo
teu corpo
aos meus sentidos,
não me
importa se envelheces,
sou teu
macho
sou o teu
dia,
e a minha
noite vem das tuas coxas
reluzentes,
acesas,
iluminando a
estrada por onde me perco.
dando corpo
às memórias
aquecidas em
álbuns de fotografias
que são tão
vivas
como os teus
beijos que me deixas
quando
acordamos juntos,
e somos
cúmplices de chinelos e pijamas
bebendo um
leite morno
e um pão
aquecido, torrado.
Há códigos
secretos
onde a
palavra passe és tu.
há rugas que
me adoçam
e a vida
passa,
eternamente
dia a dia,
na louca
calma dos entardeceres.
8.3.12
Mulher
Abres-te
como uma janela em dia soalheiro;
abres teu
peito
e sou um bebé enroscado
fazendo ninho do teu colo
teu rebento nutrido, cheio.
abres-me
teus olhos
e fazes que eu veja o mundo,
perceba o cheiro da terra,
e do sangue que cai sem sentido,
que conte a história das letras
e some as contas e os números;
abres-me teu
ventre
saio de ti
pisando chão firme
dás-me a mão,
chamas-me filho;
abres-me as
pernas
incendeias meu desejo
abres-me a
boca
e deixas nela teu beijo marcado,
de amante,
feminina,
menina fêmea
mulher
aberta,
ferida
sempre
rainha
nesta janela
onde o horizonte
se faz.
Subscrever:
Mensagens (Atom)





