8.3.12

Mulher






 


 
Abres-te
como uma janela em dia soalheiro;
abres teu peito
e sou um bebé enroscado
fazendo ninho do teu colo
teu rebento nutrido, cheio.
abres-me teus olhos
e fazes que eu veja o mundo,
perceba o cheiro da terra,
e do sangue que cai sem sentido,
que conte a história das letras
e some as contas e os números;
abres-me teu ventre
saio de ti
pisando chão firme
dás-me a mão,
chamas-me filho;
abres-me as pernas
incendeias meu desejo
abres-me a boca
e deixas nela teu beijo marcado,
de amante,
feminina,
menina fêmea
mulher
aberta, ferida
sempre rainha
nesta janela onde o horizonte
se faz.

29.2.12

Dias de passagem




Este domingo a vida mostrou-me mais uma vez a sua sabedoria. Nos Trilhos de Sicó, aos 20 KM, o meu corpo disse-me para parar. Insisti, porque a dor é inevitável mas o sofrimento não é, como me ensinou o Pedro Vieira. Afinal era altura de parar, tão simplesmente, porque há alturas em que parar é apenas ter a sabedoria de poder seguir depois mais à frente. Mas escolhi seguir neste domingo, agora recupero de uma rotura. Uma escolha, um ensinamento. Afinal apenas escolhas. Parar, como seguir, como qualquer problema, não é o problema, antes o contexto em que o abordo. 

Falo-vos disto, porque desde que saí da Bayer,  afinal são apenas 180 dias que multiplicados por 24 horas se transformam numa constelação de horas onde me tornei alguém diferente. Mais que ser, aprendi que apenas estou, e que o controlo deste estado é meu e só meu. Não sou um desempregado, apenas estou desempregado. Apenas estou numa situação que tem tudo para ser efémera, afinal é a mim que me cabe decidir o que estou – a fazer… decidi que não estou desempregado, estou a iniciar uma vida como decisor de mim próprio, com a minha própria empresa, com a minha própria vontade. Esta é a minha história, desenhada minuto a minuto, nas conversas, nas reuniões, nos contatos. O que sou, sou na mesma como sempre fui: Apaixonado, teimoso, persistente, anti - procrastinado, não porque me pareça bem, mas porque sou assim. Como dizia a minha boa amiga Helena Couras, sou um sortudo, porque tenho uma constelação de pessoas fantásticas à minha volta, porque tenho os recursos todos dentro de mim para usar, porque tenho uma linda e fantástica família,até um cão que me adora, tenho tanto para dar aos outros e tenho tanto daquilo que os outros me dão.

O tempo renova-se, regenera-se, bate-me à porta e diz-me que venha e o siga. Leva-me pelas praças, estende-me todas as ruas de possibilidades, de controlar aquilo que eu quero, aquilo que é a minha vontade. Largo os “devo”, agarro os “quero”.

Quero estar feliz, quero realizar os meus sonhos, quero dar tempo ao tempo, quero escutar os amigos e encher as taças generosas com que brindo de olhos nos olhos a vida.

Obrigado a todos os amigos que estão pelo caminho, obrigado a todos os que me dão a mão nestes dias, e a todos os que me viraram as costas, porque também aprendo com eles, e a todos que continuarão a me dar e a receber as minhas mãos pela estrada e pelo resto dela. Afinal estes dias, são dias de um caminho mais longo.

Donde venho?




Donde vem esta canção
que me agarra a alma
e me sufoca?
donde vens tu
que me tomas o caminho
e me abres templos
percorridos de pés descalços
no mármore frio, cruel?
donde vem este sonho
que me acorda de madrugada
e continua a olhar-te
como se fosses bruma ao longe,
chuva que não chega
deste inverno seco e destemperado?
donde venho eu
que deixei teus lábios
calados, húmidos?
onde deixei o poema
por escrever,
estropício
de palavras que não pago?
onde deixei esta viagem
que me parou numa casa sem porta?
donde vem este poema
que não se verga
às rimas contidas
aflitivas?
donde venho eu
senão de dentro de mim
se não de dentro

14.2.12

Para Ti




Hoje,
quando o sol se despedir,
dorme comigo nos teus lábios,
envolve-me
nas tuas palavras mais profundas
e acaricia o meu nome
na quentura da tua pertença.
Hoje
peço-te o colo
dos dias chuvosos e frios
onde as mantas
nos juntam
e as gargalhadas nos encolhem
para as meninices
que apenas os teus olhos entendem,
quando nos fitamos
despidos de receios
e te digo que te amo
sem reservas
sem rasuras
numa escolha plena
de me deixar perder em ti.






9.2.12

Do teu lado


Do teu lado,
quando te percebo aí
pela quentura do toque,
porque me doem as têmporas
de aspirar teu cheiro,
e me arrebata o silêncio
de te sentir calada
dizendo todas as coisas
que sempre preciso ouvir.
Não existem nãos.
o que me separa de ti
donde quero chegar
é deixar que amanhã seja ainda maior
esta distância.
É do teu lado,
quando em todas as línguas estrangeiras
te entendo e te solto as palavras
que a verdade nos aconchega
como manta de inverno.
Do teu lado
sou um pássaro migrante
desafiando o caminho
por uma chegada aonde sempre torno.
Do teu lado,
nu,
sentindo-te nua
desejando-te ardendo,
em teus olhos vítreos, vagos
em teu movimento ritmado
amante
plena;
desse teu lado
arriscava a vida
para sempre me sentir assim.






27.1.12

Estou










No alpendre,
deixo o meu saco pendurado,
cheio do nada que os passos
precisam para encetar o caminho.
A cada momento
desembaraço-me dos dias
expludo em múltiplos segundos,
numa força surda, escondida
atiçando-me aos meus próprios cães.
sou escultura, inquieta
desmontável
sou da areia das praias
das marés únicas
onde nada é igual
percebo as mãos que são minhas
e me moldam
pretexto de histórias iguais
que não passam do próprio passado.
já salto
para o hoje das novas casas
pontes
onde tu és o outro,
e dou conta das janelas em frente
onde lábios se movem
e os cotovelos assentam
olhando o mar, e os barcos
onde repouso estas âncoras
sobre mares protelados.
Sou um hóspede deste tempo
que me alberga
e me traz os dias
olhando os rios que deixam as águas correr
e esperam pelas novas torrentes
renovadas,
somo as distâncias
repto da minha força
embalo
entre o negro e o brilho
dos meus olhos desfocados
néscio deste caminho
sábio de um destino,
o mapa
guardado na algibeira.

17.1.12

Preciso de Luz



O breu cai em farrapos
adormece-me,
enevoa a minha vontade,
sou peregrino de um destino
que não decidi escolher.
pergunto-me das razões que me acolhem
sem respostas límpidas
sem prenúncio
de novas histórias,
caminho com a autómata sina
dos condenados.
percebo-me e olho-me
de longe de mim.
não me quero, nem me deixo
agarro-me pelos meus próprios ombros
dói-me
quando me olho aos espelhos
e não me conheço.
sou um velho
da cor que tudo é, e nada diz,
sou o cinzento dos dias
que se olham por trás das janelas,
dos dias em que sou prisioneiro
de tudo o que não domino.
sou desculpas
sou motivos
sou a razão que lacrimeja,
sou uma casa fechada
o cárcere das palavras revoltadas
destes tempos
para os quais a luz
arranjará tempo.