28.3.12

Hoje











As sombras esfumam-se com o apagar das velas,
os medos despem as vestes negras no raiar do dia
os fantasmas perdem seu brilho pintados de cores
e os dragões deixam as cavernas arrastados pela trela.
Expulso as minhas sombras desta casa velha
onde me deixo ficar menino refém das cicatrizes
tapadas pelas calças com que me faço homem
depois dos trinta e três que afinal desditoso não morri.
Faço do caminho que se traça da beira da porta
sementeira, meu pomar, meu eirado, meu moinho,
e dou comigo nas canções que se cantam às manhãs
trauteando teu nome - esperança feita da vontade
meu soberbo dia que é sempre hoje
o melhor tempo para se escrever o meu poema.

21.3.12

O meu pássaro















Um pássaro de asas enormes
rasa em voo planado os meus desejos
traz-me notícias sem encomenda
bica-me as mãos
procurando o pão dos restos dos manjares
de outros dias.
dos meus olhos
nem água ofereço,
sou um olhar pequeno, turvado,
tenho o pescoço frio
dos ventos que sopram a todo o pano
e engelho a vista
evitando a poeira dos dias cinzentos.
a solidão aos meus pés,
a tristeza a espreitar dos cortinados.
o meu pássaro recolheu as asas
empoleirado no banco que divide comigo
olha em frente
preparando o novo momento
donde sairá sem nada dizer,
e por isso que deixo que um sorriso
me escorra ao canto do lábio
e os meus ombros se assomem
e o destino se estenda na ponta dos meus dedos,
me torne outro
e pinte da escolha dos dias
a cor do pássaro
que sempre voa para onde quer.

12.3.12

Para sempre




















Os teus olhos fitam,
nem pestanejam,
são rios de água que correm, azuis,
mas nada me dizem.
Há outras mulheres perfiladas, nuas,
que me invadem,
despertam-me, não me acordam
sem ruído, sem palavras.
vestem-se nas minhas costas,
formas distraídas, acácias sugadoras.
- olho e rio,
rolo no chão, caio na ponta dos dedos,
nem me importam os desenhos,
nem os apago, tudo passa
sobre o que fiz,
em tudo o que fui,
em tudo o que quero.
engulo os contratempos e revelo
teu corpo aos meus sentidos,
não me importa se envelheces,
sou teu macho
sou o teu dia,
e a minha noite vem das tuas coxas
reluzentes,
acesas,
iluminando a estrada por onde me perco.
dando corpo às memórias
aquecidas em álbuns de fotografias
que são tão vivas
como os teus beijos que me deixas
quando acordamos juntos,
e somos cúmplices de chinelos e pijamas
bebendo um leite morno
e um pão aquecido, torrado.
Há códigos secretos
onde a palavra passe és tu.
há rugas que me adoçam
e a vida passa,
eternamente dia a dia,
na louca calma dos entardeceres.

8.3.12

Mulher






 


 
Abres-te
como uma janela em dia soalheiro;
abres teu peito
e sou um bebé enroscado
fazendo ninho do teu colo
teu rebento nutrido, cheio.
abres-me teus olhos
e fazes que eu veja o mundo,
perceba o cheiro da terra,
e do sangue que cai sem sentido,
que conte a história das letras
e some as contas e os números;
abres-me teu ventre
saio de ti
pisando chão firme
dás-me a mão,
chamas-me filho;
abres-me as pernas
incendeias meu desejo
abres-me a boca
e deixas nela teu beijo marcado,
de amante,
feminina,
menina fêmea
mulher
aberta, ferida
sempre rainha
nesta janela onde o horizonte
se faz.