9.2.12

Do teu lado


Do teu lado,
quando te percebo aí
pela quentura do toque,
porque me doem as têmporas
de aspirar teu cheiro,
e me arrebata o silêncio
de te sentir calada
dizendo todas as coisas
que sempre preciso ouvir.
Não existem nãos.
o que me separa de ti
donde quero chegar
é deixar que amanhã seja ainda maior
esta distância.
É do teu lado,
quando em todas as línguas estrangeiras
te entendo e te solto as palavras
que a verdade nos aconchega
como manta de inverno.
Do teu lado
sou um pássaro migrante
desafiando o caminho
por uma chegada aonde sempre torno.
Do teu lado,
nu,
sentindo-te nua
desejando-te ardendo,
em teus olhos vítreos, vagos
em teu movimento ritmado
amante
plena;
desse teu lado
arriscava a vida
para sempre me sentir assim.






27.1.12

Estou










No alpendre,
deixo o meu saco pendurado,
cheio do nada que os passos
precisam para encetar o caminho.
A cada momento
desembaraço-me dos dias
expludo em múltiplos segundos,
numa força surda, escondida
atiçando-me aos meus próprios cães.
sou escultura, inquieta
desmontável
sou da areia das praias
das marés únicas
onde nada é igual
percebo as mãos que são minhas
e me moldam
pretexto de histórias iguais
que não passam do próprio passado.
já salto
para o hoje das novas casas
pontes
onde tu és o outro,
e dou conta das janelas em frente
onde lábios se movem
e os cotovelos assentam
olhando o mar, e os barcos
onde repouso estas âncoras
sobre mares protelados.
Sou um hóspede deste tempo
que me alberga
e me traz os dias
olhando os rios que deixam as águas correr
e esperam pelas novas torrentes
renovadas,
somo as distâncias
repto da minha força
embalo
entre o negro e o brilho
dos meus olhos desfocados
néscio deste caminho
sábio de um destino,
o mapa
guardado na algibeira.

17.1.12

Preciso de Luz



O breu cai em farrapos
adormece-me,
enevoa a minha vontade,
sou peregrino de um destino
que não decidi escolher.
pergunto-me das razões que me acolhem
sem respostas límpidas
sem prenúncio
de novas histórias,
caminho com a autómata sina
dos condenados.
percebo-me e olho-me
de longe de mim.
não me quero, nem me deixo
agarro-me pelos meus próprios ombros
dói-me
quando me olho aos espelhos
e não me conheço.
sou um velho
da cor que tudo é, e nada diz,
sou o cinzento dos dias
que se olham por trás das janelas,
dos dias em que sou prisioneiro
de tudo o que não domino.
sou desculpas
sou motivos
sou a razão que lacrimeja,
sou uma casa fechada
o cárcere das palavras revoltadas
destes tempos
para os quais a luz
arranjará tempo.

4.1.12

Chão de chuva














Porque os teus olhos
me procuram
onde sempre estou

porque teimas em me entender
nas minhas próprias razões

porque percorres os caminhos
que calcorreio de cor.

é por mim

que não me encontras
que nunca me entendes
que nunca me segues

cerra teus olhos,
encontra-me no breu
dos sítios sem nome

abraça-me
escuta meu peito
falando em línguas estranhas

percorre-me
nos caminhos
onde o chão cheira
a terra de chuva fresca
sem fim
nem beira onde descansar.

aqui me encontras
aqui me entendes
aqui serás minha.

30.12.11

Como te amo

















 amar-te
pode ser razão duma oração,

amar-te
nos nossos corpos,
o teu e o meu, entregues
suados, exaustos,
chegados.

amar-te
pode apenas ser o que descrevo
e não sair senão de mim – sem ti.

amar-te
apenas um segundo
ou uma vida inteira
ou amar-te uma vida,
inteiro.

amar-te
pode ser estrada sem caminho
onde procuro os contornos
do teu rosto, doce.
(um caminho pode ter amor sem estrada)
e teus cabelos sugarem-me
sem mais que ser teu
na repetição dos gestos de todos os dias.

amar-te
apertado
num estado de não estar sem ti
num querer sem escrever
e o teu peito ser meu livro
onde tudo aprendo
e nada sei.

apenas razão
apenas viagem

amar-te.

15.12.11

Meu mundo


 













Sou um Mundo dentro de mim
colho e semeio.
nem sempre o que colho vem da minha sementeira –
nem sempre o que semeio é colhido por mim.

de tantos pais e tantas gerações
dou por mim, filho de mim mesmo,
descalço
os outros já se recolhem em seus caminhos
os outros, são vultos de barcos escondidos
são retas imensas a tinta-da-china
linhas de horizonte – tracejadas.

o que me retém deixa-me acordado

Tenho dores destas palavras paridas
contraponto
de sabores que a boca não percebe
das coisas que quero dizer e não se descaem.
Sou o que sou e ainda mais o que ocupo
mas também sou o não sou
e o não - espaça
o tu e os teus nãos.

Culpo-me de cada desculpa que dou
para me culpar.
e este vazio é o vazio
assassino,
cúmplice das mordaças de bocas surdas
das vendas de olhos que já não se abrem
das cordas que atam e estropiam,
das flores em ramos de respostas devolvidas
de um mundo onde faço por partir.
Na amargura das decisões tardias.

É doce a minha escolha,
o corpo reflete, aceita
a estória é de amor e recontada, onde
a paz me visita
e me empurra ao minuto seguinte.
olho-te e nos meus olhos que o espelho devolve
segue um abraço e uma saca de viagem.

14.12.11

Outono










Nestes dias
castanhos
o sol beija-me profundamente
aproveita as viagens
dum outono passageiro.
os meus versos, rebeldes
teimam em perder-se
nas lembranças de traços
que nunca soube desenhar.
sorvo este tempo
inspiro este ar da manhã
sublime
e fundo-me em gotas
do orvalho resistente
que permanece para além
da madrugada.
agora, basta que o vento me leve,
leve, como o vento.

6.12.11

Poema de um sim




O meu poema tem um sim
tem o cheiro das cores de outono
ocres, intensas
como a chávena de café que te pouso nas mãos
e os prazeres que te afagam os olhos
nesse teu sorriso
de barco zarpando.

Tenho um sim
de veias cingidas
das mãos gretadas do sal
de um punho fechado
e um peito que não se cala e quer ser livre.

O meu poema tem o sim
dos ventos que não dormem
e das noites
em que te espero, lua redonda
e me beijas nos olhos
dizendo que o sim
já seguiu
à frente
alumiando a vida.