6.12.11

Poema de um sim




O meu poema tem um sim
tem o cheiro das cores de outono
ocres, intensas
como a chávena de café que te pouso nas mãos
e os prazeres que te afagam os olhos
nesse teu sorriso
de barco zarpando.

Tenho um sim
de veias cingidas
das mãos gretadas do sal
de um punho fechado
e um peito que não se cala e quer ser livre.

O meu poema tem o sim
dos ventos que não dormem
e das noites
em que te espero, lua redonda
e me beijas nos olhos
dizendo que o sim
já seguiu
à frente
alumiando a vida.

Nada me diz que venhas


Nada me diz que venhas,
aproximo-me de ti,
sopro ao teu ouvido palavras
escolhidas, ensaiadas.
sou um reportório de compêndios
ensinados,
já sei como estar
e as mãos suam, medos
da vida que foge
e da que regressa pouco a pouco.
nada me diz que venhas,
apenas eu estou cá
decidido a partir,
olhos abertos
que a vida é maior que tu.

Esperança

 
Nos olhos que vêem para além das sombras
ressaltam os detalhes das marés
e das profundezas de mãos sublimes
os gestos são ternas carícias
que desenham sorrisos abertos
e adormecem em paz
os espíritos inquietos atormentados
já repousados
já em paz
que o humano ser tem a força
de um milagre simples
de uma vida.

4.11.11

O Medo













Os olhos abrem-se ao medo,
trago de dentro de mim
o que não me pertence,
mistura das memórias
e das pertenças,
das recusas
das impaciências e dos desfavores.

As cores dos teus pastéis quentes
misturam-se
há telas esbatidas, tristes cinzentos
pretos escuros destinados ao nada.
Há quem tenha medo das guerras
e quem tenha “apenas” medo de perder o que tem;
o meu medo repousa no olhar
que desvio de ti
na coragem que se rasga e se perde
de te dizer que te amo.
sou eu e um mundo
que apenas eu conheço
nesta relativa relatividade
dos outros mundos
onde nunca estarei,
como por isso és única
dentro de mim e do que sou
das palavras que digo
e das que guardo
dos gestos que abro
e dos que contenho.
o medo
vão, soluça
o medo
infecta, prolifera,
o medo gela
e torna mais nobre
cada gesto
quando te guardo a mão
colada ao meu peito,
perdido do medo.

17.10.11

O novo acordar




Conheço
os acordares demorados
quando a pertença se desfaz
e os olhares são tristes -
os ombros pesam
derrubam
num caminhar mortiço;
o vento tem uma aragem
quente, queima.
percorro a vontade de içar
os olhos
nem te vejo meu amor
por detrás do espelho
quando os pelos cinzentos
duma barba desalinhada
pedem a cosmética dos dias iguais.
Estou perdido amor
fora dos teus braços
nestas filas
das madrugadas humilhantes
que nos inventam e reduzem
e nos matam por dentro.
Estou por aqui
com o coração rasgado
os braços abertos,
a vida sobrando
amputado, e só tu ficas
na recordação do futuro
e do que ainda haverá de ser.