17.10.11

O novo acordar




Conheço
os acordares demorados
quando a pertença se desfaz
e os olhares são tristes -
os ombros pesam
derrubam
num caminhar mortiço;
o vento tem uma aragem
quente, queima.
percorro a vontade de içar
os olhos
nem te vejo meu amor
por detrás do espelho
quando os pelos cinzentos
duma barba desalinhada
pedem a cosmética dos dias iguais.
Estou perdido amor
fora dos teus braços
nestas filas
das madrugadas humilhantes
que nos inventam e reduzem
e nos matam por dentro.
Estou por aqui
com o coração rasgado
os braços abertos,
a vida sobrando
amputado, e só tu ficas
na recordação do futuro
e do que ainda haverá de ser.

10.10.11

Tempo




Tardas
porque a minha pressa me sufoca
não porque demores,
afinal quero-te no teu ritmo
nesse teu passo, pisado, marcado.
Chegas
anacrónica,
quando tudo se esquece
porque te quero viver
no momento preciso, neste…
seria bom esquecer-me
que vais voltar a partir.

(Como morrer decorra da vida que nasce.)

… esta dor
fica
revolve cada hora
magoa
e partes,
porque partes sempre mais cedo
que o tempo
em que tardo em te amar
e em cada entardecer, o meu tempo
não é o teu
onde sempre
necessariamente não partes.

Pedaços de lua


Há pedaços de lua na beira do meu prato,
aqui donde se vê o céu,
nesta mesa deixada ao relento,
Não há frio,
a noite fresca e lúcida
sobra, derretida em cada pedaço
de gelo
na água que brilha dos teus olhos, e
o teu corpo marcado
na impressão natural
de cada átomo de ti.
Ferra-se no meu desejo
onde se tu me pudesses ver,
debruçado nesta mesa
entenderias
como eu me quereria mostrar
de peito rasgado
sem palavra que pare e se equilibre,
acanalhando-se
com copos encardidos de aguardente
com as sementes paridas do medo
patéticas
com esta urgência de já ser outro,
e de ser o mesmo
diferente por todos os dias
porque não sei me ver
nos teus olhos
fechados.

21.9.11

Os outros dias
















Amanhece,
todos os dias amanhecem
com uma consecutiva
dor,
com a consequência
da imaginação e sonhos.
Amanhece
e eu não adormeço
por não saber onde dormir.
sei que o sol volta,
dizem-me,
nas manhãs de todos os dias
de todos os tons,
de todas as temperaturas.
Chove, por vezes chove,
como todos os dias há gente
que ama e odeia
e dentro dos dias repetidos
a não repetibilidade
das marés cheias
é a mesma do que não volta,
dos tempos
que apenas a marca dos passos
decalca no chão seco.
As primaveras surgem
em todos os invernos
como sempre surgem
acasos
como sempre se espera no ocaso
que o brilho dos teus olhos,
meu amor
seja a felicidade razoável.

Crónica de uma despedida




uma lâmina crua
gelada
saliva prazenteira
pelo meu pescoço
livre
limpo.
a espada cai sem som
sem aviso
atravessa num baque surdo
tremendo,
separa-me de mim
meus olhos
meus sentidos
obliterados
das mãos e dos pés
que se mexem, fogem.
a lâmina é fina
toma côr
escarlate, roxa do frio
depressa se lava
depressa escorre
A minha cabeça eleva-se
sou outro dia,
passado cortado - mas inteiro
trazem-me as mãos
para que veja
os olhos choram
não escuto o seu gume
que rasa as minhas têmporas.
os meus cabelos
são um monte fino de neve
vespertino
o gelo guilhotina as cores
e a boca
tem a língua enrolada
incrédula
diz e nada se ouve.
a memória não dói.
quando a espada veio
quando a sorte se disse
já não me disse a mim
já não foi a mim,
que de mim, apenas eu disse
eu sou.

5.9.11

Quando não te tenho















Quando não te tenho ao pé de mim,
morro nas folhas dos poemas que fui escrevendo,
ou no cheiro desta brisa que desassossega.

Quando não te tenho
e ando pelo mundo sem te encontrar,
nas marés altas que Setembro transfigura,
ou nos girassóis desafiando o sol em bandos largos e impávidos,
sou pássaro sem asa, rochedo de maré baixa.

Quando não te tenho junto aos ouvidos
e a música me fere na impaciência da solidão,
e só recordo os teus lábios trauteando,
embalando os riscos fundos das minhas rugas
que se abrem em sorrisos.
quando não te tenho,  
a madrugada gela escura, 
na sombra dos dias intermináveis,

meu corpo acaba e desfaz-se.

Quando não te tenho,
tenho o silêncio e o vazio,
tenho um nada cheio,
no frio gélido que o vento Norte arrasta,
levando cumplicidades
as memórias desfeitas e gastas
do tempo que perco sem ti.

Quando não te tenho
os cães arrojam-se ao chão e desfiguram de olhos mortiços
os sulcos cavam mais fundo os rostos dos velhos
e há gente que morre sem que eu dê por isso.
Quando não te tenho
a agonia tem vómitos e dores cavas
e os meus braços têm o tamanho de rios
longos sem foz.

Quando não te tenho
Não me tenho a mim.

25.8.11

Preço










Tudo o que me traz nesta dormencia
de verão
sabe ao cheiro
de quando saio de ti,
e dos livros
com que entro no Mundo, são linhas
tracejadas
estradas que me conduzem
vagamente certo
de chegar outra vez
e pedir que me ames.
Arredondo as contas que faço
deste preço exagerado
que a paixão
não me deixa repousar.