15.12.11

Meu mundo


 













Sou um Mundo dentro de mim
colho e semeio.
nem sempre o que colho vem da minha sementeira –
nem sempre o que semeio é colhido por mim.

de tantos pais e tantas gerações
dou por mim, filho de mim mesmo,
descalço
os outros já se recolhem em seus caminhos
os outros, são vultos de barcos escondidos
são retas imensas a tinta-da-china
linhas de horizonte – tracejadas.

o que me retém deixa-me acordado

Tenho dores destas palavras paridas
contraponto
de sabores que a boca não percebe
das coisas que quero dizer e não se descaem.
Sou o que sou e ainda mais o que ocupo
mas também sou o não sou
e o não - espaça
o tu e os teus nãos.

Culpo-me de cada desculpa que dou
para me culpar.
e este vazio é o vazio
assassino,
cúmplice das mordaças de bocas surdas
das vendas de olhos que já não se abrem
das cordas que atam e estropiam,
das flores em ramos de respostas devolvidas
de um mundo onde faço por partir.
Na amargura das decisões tardias.

É doce a minha escolha,
o corpo reflete, aceita
a estória é de amor e recontada, onde
a paz me visita
e me empurra ao minuto seguinte.
olho-te e nos meus olhos que o espelho devolve
segue um abraço e uma saca de viagem.

14.12.11

Outono










Nestes dias
castanhos
o sol beija-me profundamente
aproveita as viagens
dum outono passageiro.
os meus versos, rebeldes
teimam em perder-se
nas lembranças de traços
que nunca soube desenhar.
sorvo este tempo
inspiro este ar da manhã
sublime
e fundo-me em gotas
do orvalho resistente
que permanece para além
da madrugada.
agora, basta que o vento me leve,
leve, como o vento.

6.12.11

Poema de um sim




O meu poema tem um sim
tem o cheiro das cores de outono
ocres, intensas
como a chávena de café que te pouso nas mãos
e os prazeres que te afagam os olhos
nesse teu sorriso
de barco zarpando.

Tenho um sim
de veias cingidas
das mãos gretadas do sal
de um punho fechado
e um peito que não se cala e quer ser livre.

O meu poema tem o sim
dos ventos que não dormem
e das noites
em que te espero, lua redonda
e me beijas nos olhos
dizendo que o sim
já seguiu
à frente
alumiando a vida.

Nada me diz que venhas


Nada me diz que venhas,
aproximo-me de ti,
sopro ao teu ouvido palavras
escolhidas, ensaiadas.
sou um reportório de compêndios
ensinados,
já sei como estar
e as mãos suam, medos
da vida que foge
e da que regressa pouco a pouco.
nada me diz que venhas,
apenas eu estou cá
decidido a partir,
olhos abertos
que a vida é maior que tu.

Esperança

 
Nos olhos que vêem para além das sombras
ressaltam os detalhes das marés
e das profundezas de mãos sublimes
os gestos são ternas carícias
que desenham sorrisos abertos
e adormecem em paz
os espíritos inquietos atormentados
já repousados
já em paz
que o humano ser tem a força
de um milagre simples
de uma vida.