10.10.11

Pedaços de lua


Há pedaços de lua na beira do meu prato,
aqui donde se vê o céu,
nesta mesa deixada ao relento,
Não há frio,
a noite fresca e lúcida
sobra, derretida em cada pedaço
de gelo
na água que brilha dos teus olhos, e
o teu corpo marcado
na impressão natural
de cada átomo de ti.
Ferra-se no meu desejo
onde se tu me pudesses ver,
debruçado nesta mesa
entenderias
como eu me quereria mostrar
de peito rasgado
sem palavra que pare e se equilibre,
acanalhando-se
com copos encardidos de aguardente
com as sementes paridas do medo
patéticas
com esta urgência de já ser outro,
e de ser o mesmo
diferente por todos os dias
porque não sei me ver
nos teus olhos
fechados.

21.9.11

Os outros dias
















Amanhece,
todos os dias amanhecem
com uma consecutiva
dor,
com a consequência
da imaginação e sonhos.
Amanhece
e eu não adormeço
por não saber onde dormir.
sei que o sol volta,
dizem-me,
nas manhãs de todos os dias
de todos os tons,
de todas as temperaturas.
Chove, por vezes chove,
como todos os dias há gente
que ama e odeia
e dentro dos dias repetidos
a não repetibilidade
das marés cheias
é a mesma do que não volta,
dos tempos
que apenas a marca dos passos
decalca no chão seco.
As primaveras surgem
em todos os invernos
como sempre surgem
acasos
como sempre se espera no ocaso
que o brilho dos teus olhos,
meu amor
seja a felicidade razoável.

Crónica de uma despedida




uma lâmina crua
gelada
saliva prazenteira
pelo meu pescoço
livre
limpo.
a espada cai sem som
sem aviso
atravessa num baque surdo
tremendo,
separa-me de mim
meus olhos
meus sentidos
obliterados
das mãos e dos pés
que se mexem, fogem.
a lâmina é fina
toma côr
escarlate, roxa do frio
depressa se lava
depressa escorre
A minha cabeça eleva-se
sou outro dia,
passado cortado - mas inteiro
trazem-me as mãos
para que veja
os olhos choram
não escuto o seu gume
que rasa as minhas têmporas.
os meus cabelos
são um monte fino de neve
vespertino
o gelo guilhotina as cores
e a boca
tem a língua enrolada
incrédula
diz e nada se ouve.
a memória não dói.
quando a espada veio
quando a sorte se disse
já não me disse a mim
já não foi a mim,
que de mim, apenas eu disse
eu sou.

5.9.11

Quando não te tenho















Quando não te tenho ao pé de mim,
morro nas folhas dos poemas que fui escrevendo,
ou no cheiro desta brisa que desassossega.

Quando não te tenho
e ando pelo mundo sem te encontrar,
nas marés altas que Setembro transfigura,
ou nos girassóis desafiando o sol em bandos largos e impávidos,
sou pássaro sem asa, rochedo de maré baixa.

Quando não te tenho junto aos ouvidos
e a música me fere na impaciência da solidão,
e só recordo os teus lábios trauteando,
embalando os riscos fundos das minhas rugas
que se abrem em sorrisos.
quando não te tenho,  
a madrugada gela escura, 
na sombra dos dias intermináveis,

meu corpo acaba e desfaz-se.

Quando não te tenho,
tenho o silêncio e o vazio,
tenho um nada cheio,
no frio gélido que o vento Norte arrasta,
levando cumplicidades
as memórias desfeitas e gastas
do tempo que perco sem ti.

Quando não te tenho
os cães arrojam-se ao chão e desfiguram de olhos mortiços
os sulcos cavam mais fundo os rostos dos velhos
e há gente que morre sem que eu dê por isso.
Quando não te tenho
a agonia tem vómitos e dores cavas
e os meus braços têm o tamanho de rios
longos sem foz.

Quando não te tenho
Não me tenho a mim.

25.8.11

Preço










Tudo o que me traz nesta dormencia
de verão
sabe ao cheiro
de quando saio de ti,
e dos livros
com que entro no Mundo, são linhas
tracejadas
estradas que me conduzem
vagamente certo
de chegar outra vez
e pedir que me ames.
Arredondo as contas que faço
deste preço exagerado
que a paixão
não me deixa repousar.

O Elogio da Dor











 
Há uma dor desesperada a crescer. Mal a sinto e já me dói. Vem de mansinho, afaga-me e envolve-me, cresce como se fosse um pensamento, aos poucos cercando-me. Vêm com ela as memórias pequenas das coisas grandes que passaram. São como fotos passando na frente dos meus olhos, embriagando, depois agoniando do espaço e do vazio - escuro.
 E desta  dor que aparece, e desta dor que me toma, pressinto que a conheço e já a decorei, sei qual o lado onde me dói, sei o seu nome, e desenho-a esculpindo os seus traços, deixando seu nome no roda-pé da folha, onde apareces e  olho teus olhos como se nunca os conhecesse.
No espaço do tempo que me traz a hoje, ferem-me os dias que foram ontem e nunca deveriam ser passado, porque não os encontro na procura dos caminhos. O meu destino traça-se na cama onde choro, e no chão para onde caio e rebolo no transtorno de me faltares. No lacinante desespero deste vazio, é como a loucura entrasse e me despisse. As memórias são gente de bata branca com agulhas nas mãos, aliviando por momentos a dor que sabem vai voltar. Mas agora estou calado, e tudo se cala. Na espera da próxima cólica, hão-de me agarrar com cordas a uma maca de urgência, e os gritos terão o teu nome na ponta, dando-te de culpada a todo um corredor longo, nú e despido de gentes que não me percebem nem te conhecem.
Insisto nesta dor que vem, o medo vem com ela de braço dado, vergasta-me porque não sei viver sem ela. O medo que a traz, também a leva, ri-se na minha cara. Conhece-te tão bem.
 A dor trava a morte e o fim é sempre o desejo, mas a dor ensina e atrai, aprendo a viver com ela como irmã e deixo que se torne meu alimento e consumo-a muito mais que ela própria me consome.

27.7.11

De Ti











Não tenho memórias,
perdi-te,
lembro-me apenas do teu cheiro.
As memórias rasuraram-se
porque também elas
 se vão e dissipam.
permanecem nos traços e desenhos
reinventados
promessas nos olhos
com que espero o próximo
dia.
Da tua ausência,
deste estranho vazio que me enche
escolho, entre um drama e
a gargalhada
por onde recomeço
e donde chego
como falcão
desafiando os céus
amedrontando os medos
entre as águas rebentando
e o futuro a nascer.

... e no teu cheiro que permanece
fica este vazio tão cheio de ti

Antes assim











Há em cada um dos meus dias
uma forma curva
que me faz olhar o chão,
tristeza incontornavel
que me obtura os sorrisos,
me transfigura
traçando sulcos profundos
neste semblante que evito no espelho.

Há em cada um dos meus dias
viagens longas a uma terra só minha
onde todos estão
mas apenas eu sei de cada um,
nesta minha terra de gelo
de cores
de destinos e encruzilhadas
onde todos chegam e partem.

- Antes tudo fosse claro
e submisso
na vontade que os sonhos albergam,
antes o sol só me acordasse
junto à noite
e o vento soprasse
no gáudio das tardes quentes
insuportáveis.
- Antes escrevesse o amor
que nunca se cala no meu peito,
- antes se calasse este barulho
que me aturde e confunde
na confusão das vozes dispensáveis.
- Antes cada um dos meus dias
fosse pretérito mais que perfeito
onde me encontrasse
na forma ereta
com que olho o céu de frente.