4.11.11

O Medo













Os olhos abrem-se ao medo,
trago de dentro de mim
o que não me pertence,
mistura das memórias
e das pertenças,
das recusas
das impaciências e dos desfavores.

As cores dos teus pastéis quentes
misturam-se
há telas esbatidas, tristes cinzentos
pretos escuros destinados ao nada.
Há quem tenha medo das guerras
e quem tenha “apenas” medo de perder o que tem;
o meu medo repousa no olhar
que desvio de ti
na coragem que se rasga e se perde
de te dizer que te amo.
sou eu e um mundo
que apenas eu conheço
nesta relativa relatividade
dos outros mundos
onde nunca estarei,
como por isso és única
dentro de mim e do que sou
das palavras que digo
e das que guardo
dos gestos que abro
e dos que contenho.
o medo
vão, soluça
o medo
infecta, prolifera,
o medo gela
e torna mais nobre
cada gesto
quando te guardo a mão
colada ao meu peito,
perdido do medo.

17.10.11

O novo acordar




Conheço
os acordares demorados
quando a pertença se desfaz
e os olhares são tristes -
os ombros pesam
derrubam
num caminhar mortiço;
o vento tem uma aragem
quente, queima.
percorro a vontade de içar
os olhos
nem te vejo meu amor
por detrás do espelho
quando os pelos cinzentos
duma barba desalinhada
pedem a cosmética dos dias iguais.
Estou perdido amor
fora dos teus braços
nestas filas
das madrugadas humilhantes
que nos inventam e reduzem
e nos matam por dentro.
Estou por aqui
com o coração rasgado
os braços abertos,
a vida sobrando
amputado, e só tu ficas
na recordação do futuro
e do que ainda haverá de ser.

10.10.11

Tempo




Tardas
porque a minha pressa me sufoca
não porque demores,
afinal quero-te no teu ritmo
nesse teu passo, pisado, marcado.
Chegas
anacrónica,
quando tudo se esquece
porque te quero viver
no momento preciso, neste…
seria bom esquecer-me
que vais voltar a partir.

(Como morrer decorra da vida que nasce.)

… esta dor
fica
revolve cada hora
magoa
e partes,
porque partes sempre mais cedo
que o tempo
em que tardo em te amar
e em cada entardecer, o meu tempo
não é o teu
onde sempre
necessariamente não partes.

Pedaços de lua


Há pedaços de lua na beira do meu prato,
aqui donde se vê o céu,
nesta mesa deixada ao relento,
Não há frio,
a noite fresca e lúcida
sobra, derretida em cada pedaço
de gelo
na água que brilha dos teus olhos, e
o teu corpo marcado
na impressão natural
de cada átomo de ti.
Ferra-se no meu desejo
onde se tu me pudesses ver,
debruçado nesta mesa
entenderias
como eu me quereria mostrar
de peito rasgado
sem palavra que pare e se equilibre,
acanalhando-se
com copos encardidos de aguardente
com as sementes paridas do medo
patéticas
com esta urgência de já ser outro,
e de ser o mesmo
diferente por todos os dias
porque não sei me ver
nos teus olhos
fechados.

21.9.11

Os outros dias
















Amanhece,
todos os dias amanhecem
com uma consecutiva
dor,
com a consequência
da imaginação e sonhos.
Amanhece
e eu não adormeço
por não saber onde dormir.
sei que o sol volta,
dizem-me,
nas manhãs de todos os dias
de todos os tons,
de todas as temperaturas.
Chove, por vezes chove,
como todos os dias há gente
que ama e odeia
e dentro dos dias repetidos
a não repetibilidade
das marés cheias
é a mesma do que não volta,
dos tempos
que apenas a marca dos passos
decalca no chão seco.
As primaveras surgem
em todos os invernos
como sempre surgem
acasos
como sempre se espera no ocaso
que o brilho dos teus olhos,
meu amor
seja a felicidade razoável.