21.9.11

Os outros dias
















Amanhece,
todos os dias amanhecem
com uma consecutiva
dor,
com a consequência
da imaginação e sonhos.
Amanhece
e eu não adormeço
por não saber onde dormir.
sei que o sol volta,
dizem-me,
nas manhãs de todos os dias
de todos os tons,
de todas as temperaturas.
Chove, por vezes chove,
como todos os dias há gente
que ama e odeia
e dentro dos dias repetidos
a não repetibilidade
das marés cheias
é a mesma do que não volta,
dos tempos
que apenas a marca dos passos
decalca no chão seco.
As primaveras surgem
em todos os invernos
como sempre surgem
acasos
como sempre se espera no ocaso
que o brilho dos teus olhos,
meu amor
seja a felicidade razoável.

Crónica de uma despedida




uma lâmina crua
gelada
saliva prazenteira
pelo meu pescoço
livre
limpo.
a espada cai sem som
sem aviso
atravessa num baque surdo
tremendo,
separa-me de mim
meus olhos
meus sentidos
obliterados
das mãos e dos pés
que se mexem, fogem.
a lâmina é fina
toma côr
escarlate, roxa do frio
depressa se lava
depressa escorre
A minha cabeça eleva-se
sou outro dia,
passado cortado - mas inteiro
trazem-me as mãos
para que veja
os olhos choram
não escuto o seu gume
que rasa as minhas têmporas.
os meus cabelos
são um monte fino de neve
vespertino
o gelo guilhotina as cores
e a boca
tem a língua enrolada
incrédula
diz e nada se ouve.
a memória não dói.
quando a espada veio
quando a sorte se disse
já não me disse a mim
já não foi a mim,
que de mim, apenas eu disse
eu sou.

5.9.11

Quando não te tenho















Quando não te tenho ao pé de mim,
morro nas folhas dos poemas que fui escrevendo,
ou no cheiro desta brisa que desassossega.

Quando não te tenho
e ando pelo mundo sem te encontrar,
nas marés altas que Setembro transfigura,
ou nos girassóis desafiando o sol em bandos largos e impávidos,
sou pássaro sem asa, rochedo de maré baixa.

Quando não te tenho junto aos ouvidos
e a música me fere na impaciência da solidão,
e só recordo os teus lábios trauteando,
embalando os riscos fundos das minhas rugas
que se abrem em sorrisos.
quando não te tenho,  
a madrugada gela escura, 
na sombra dos dias intermináveis,

meu corpo acaba e desfaz-se.

Quando não te tenho,
tenho o silêncio e o vazio,
tenho um nada cheio,
no frio gélido que o vento Norte arrasta,
levando cumplicidades
as memórias desfeitas e gastas
do tempo que perco sem ti.

Quando não te tenho
os cães arrojam-se ao chão e desfiguram de olhos mortiços
os sulcos cavam mais fundo os rostos dos velhos
e há gente que morre sem que eu dê por isso.
Quando não te tenho
a agonia tem vómitos e dores cavas
e os meus braços têm o tamanho de rios
longos sem foz.

Quando não te tenho
Não me tenho a mim.

25.8.11

Preço










Tudo o que me traz nesta dormencia
de verão
sabe ao cheiro
de quando saio de ti,
e dos livros
com que entro no Mundo, são linhas
tracejadas
estradas que me conduzem
vagamente certo
de chegar outra vez
e pedir que me ames.
Arredondo as contas que faço
deste preço exagerado
que a paixão
não me deixa repousar.

O Elogio da Dor











 
Há uma dor desesperada a crescer. Mal a sinto e já me dói. Vem de mansinho, afaga-me e envolve-me, cresce como se fosse um pensamento, aos poucos cercando-me. Vêm com ela as memórias pequenas das coisas grandes que passaram. São como fotos passando na frente dos meus olhos, embriagando, depois agoniando do espaço e do vazio - escuro.
 E desta  dor que aparece, e desta dor que me toma, pressinto que a conheço e já a decorei, sei qual o lado onde me dói, sei o seu nome, e desenho-a esculpindo os seus traços, deixando seu nome no roda-pé da folha, onde apareces e  olho teus olhos como se nunca os conhecesse.
No espaço do tempo que me traz a hoje, ferem-me os dias que foram ontem e nunca deveriam ser passado, porque não os encontro na procura dos caminhos. O meu destino traça-se na cama onde choro, e no chão para onde caio e rebolo no transtorno de me faltares. No lacinante desespero deste vazio, é como a loucura entrasse e me despisse. As memórias são gente de bata branca com agulhas nas mãos, aliviando por momentos a dor que sabem vai voltar. Mas agora estou calado, e tudo se cala. Na espera da próxima cólica, hão-de me agarrar com cordas a uma maca de urgência, e os gritos terão o teu nome na ponta, dando-te de culpada a todo um corredor longo, nú e despido de gentes que não me percebem nem te conhecem.
Insisto nesta dor que vem, o medo vem com ela de braço dado, vergasta-me porque não sei viver sem ela. O medo que a traz, também a leva, ri-se na minha cara. Conhece-te tão bem.
 A dor trava a morte e o fim é sempre o desejo, mas a dor ensina e atrai, aprendo a viver com ela como irmã e deixo que se torne meu alimento e consumo-a muito mais que ela própria me consome.

27.7.11

De Ti











Não tenho memórias,
perdi-te,
lembro-me apenas do teu cheiro.
As memórias rasuraram-se
porque também elas
 se vão e dissipam.
permanecem nos traços e desenhos
reinventados
promessas nos olhos
com que espero o próximo
dia.
Da tua ausência,
deste estranho vazio que me enche
escolho, entre um drama e
a gargalhada
por onde recomeço
e donde chego
como falcão
desafiando os céus
amedrontando os medos
entre as águas rebentando
e o futuro a nascer.

... e no teu cheiro que permanece
fica este vazio tão cheio de ti

Antes assim











Há em cada um dos meus dias
uma forma curva
que me faz olhar o chão,
tristeza incontornavel
que me obtura os sorrisos,
me transfigura
traçando sulcos profundos
neste semblante que evito no espelho.

Há em cada um dos meus dias
viagens longas a uma terra só minha
onde todos estão
mas apenas eu sei de cada um,
nesta minha terra de gelo
de cores
de destinos e encruzilhadas
onde todos chegam e partem.

- Antes tudo fosse claro
e submisso
na vontade que os sonhos albergam,
antes o sol só me acordasse
junto à noite
e o vento soprasse
no gáudio das tardes quentes
insuportáveis.
- Antes escrevesse o amor
que nunca se cala no meu peito,
- antes se calasse este barulho
que me aturde e confunde
na confusão das vozes dispensáveis.
- Antes cada um dos meus dias
fosse pretérito mais que perfeito
onde me encontrasse
na forma ereta
com que olho o céu de frente.

4.7.11

Pontos

Os pontos tocam-se
riscam o mundo,
eu e tu.
E nos traços finos
nas rugas de todos os
dias
encontramo-nos.
Às vezes
a vida corre paralela,
outras,
tocamo-nos
e enchemo-nos de prazeres
e desejos
misturados de risos
lavando as tristezas.
Os pontos tocam-se
como os silêncios
onde apenas o teu olhar
me diz tudo.
A vida toca-me
afortunadamente vivo
sei que posso tocar-te
ser um ponto, que se risca
ao encontro de ti.

28.6.11

Mistério














Nas memórias dos tempos que somo,
no correr dos dias,
há um mistério
que me traz ao presente,
esta força que me aperta o peito
e me traz zurzido
as rugas marcadas
os lábios secos,
há um mistério
que nenhum livro soube escrever
que a água da chuva
não lava.
há um mistério indelevel
uma luz que não se apaga,
são os teus beijos
e a minha vontade de os ter,
como se a única comida
que me sacia
que me inquieta,
este mistério louco, estranho
de não saber viver sem ti.

24.6.11

Caminhos


















Compartilho estradas
faço o caminho,
ganhando crostas que o pó aduz,
vestido da dureza que me cobre
viajante
de dores nos pés, passante
olhos inchados, atentos;
- meus olhos vêem por dentro de mim
choram,
e na água fresca
que brota
dessedentam sonhos;
já não vejo, apenas olho,
torno-me mais leve
alivio-me de dilúvios,
lembrando tempos secos
de tantas milhas de deserto,
e de mãos que não se largam
porque o caminho
se desce também de noite
e se sobe nas alvoradas,
quando o gelo invernoso
derrete na primavera.
- Daqui, do meu caminho,
sinto o rio caudaloso
abrigado dos ventos
que fustigam
esta gente que sobra, parada;
velhos vestidos de ocaso
retrato tirado aos sorrisos de gentes pequenas
vivendo os momentos grandes
afagando-nos o peito
tocando-nos.
- Brotam oásis
no retempero deste espaço
nas sombras das alfarrobeiras
que fazem cair no trigo
nossos corpos
escondidos do caminho que se espalha
da vontade de nos reerguermos
e caminhar
ao longo do caminho.

Balanço












Agora que me vou lembrando
do percurso dos anos e dos minutos
do que trago em mim
no tempo que tenho,
e de dentro de mim
nos passados escondidos
impenetráveis,
apenas as minhas mãos,
sabem de tudo
e nos meus pés
as certezas frágeis de avançar
e dos recuos automáticos, indomáveis.

É na escrita que me desalinha
Que abraço tudo o que me chega
e procuro nos detalhes
a beleza do pormenor,
preciosos pormaiores
delicados como os gestos das princesas
das coisas piedosas
sem porquês.
Só o homem faz do mesmo acto
alegria e tristeza,
silêncio e berraria.

Antes fosse um pintor de paredes claras
antes tivesse nas mãos
as aguarelas de Lisboa,
onde o cheiro das lágrimas
não entrasse
e a dor, e a fome
fossem de pão.

Mas sou aquilo que invento,
tenho este traje colado
deste amor que me diz
e da falta dele que me cinge,
e é neste caminho que sigo
sem volta
que o amor também se faz caminhando.

O meu olhar em ti













Demoro o meu olhar, mais que humanamente aceitável, em ti. Olho-te, debruçada estendendo a roupa no varal, vazio, onde brilham as lágrimas duma madrugada fresca que já passou e não se despediu.
No sol que se alarga na faina do seu próprio brilho, ouvem-se ao longe as vozes dos que o acordaram. Hão-de chegar às casas nas horas vespertinas, onde os miúdos brincarão e os seus braços esguios se hão-de esticar na procura do que resta de um dia longo, no peito dos que regressam.
Há mulheres em cada fogão, e o cheiro das panelas paira vagamente, como a fome, adiada.
Tu não. No varal da roupa, percorres-me, o teu peito é um lençol de algodão estendido, alfazema que se entranha nos meus sentidos e me delicia, e louco procuro no teu olhar o sinal da verdade que não mude.
Desvendo sorrisos misteriosos, como se houvessem memórias em cada peça da tua roupa que estendes ao vento e ao sol. Sinto a tua pele dando corpo aos lençóis que se hão-de deitar contigo, e nasce o desejo de te ter, encontrando nos teus pulsos a força de te agarrar e rolar em cada pedaço de erva fresca.
O teu corpo, em movimentos de deusa, separa-se da tua blusa, e os teus seios descobertos, abrem-me a boca e calam-me como se nada mais houvesse a ver – como se os desejos tudo toldem, tudo expliquem. Se tudo fosse mais fácil e simples…
Demoro um segundo mais o meu olhar em ti, a viagem longa, já me traz quase de volta, e os meus dias contigo, são já a história de epílogos. Os cheiros e os gestos fazem parte deste novo manual de sedução e amor que são já nossos, tudo se consente nesta história, como noutras que hão-de chegar. Há o silêncio inquieto da tarde, o vento que brinca em sons, como o barulho surdo e oco da roupa que dança segura das molas, e os pássaros que são folhas verdes a cantar. 
Nada mais me detém, apenas vou, apenas te deixo, como se nada mais importasse, apenas tu, enredada nos teus tecidos, absorta, linda, olhando de frente a roupa que te prende, que os olhares há muito os perdeste por cima dos varais, onde o ocaso desce.