18.2.11

O meu desejo


o meu desejo,
é ter-te, inteira
toda.
ainda que nem sejas minha,
- não há pertença
neste desejo.
ter-te assim completa,
é apenas
poder entrar
pela porta
aberta
sem perguntar se estás
sem chamar pelo teu nome;
o meu desejo
vem da tua vontade,
do verbo querer,
vem dos teus sinais
e da chama dos teus olhos
incendiando
- da cama aberta
do teu corpo tatuado nos lençóis
que já conheço de cor.
o meu desejo
traz a noite inteira
a vontade de estarmos inteiros
na próxima manhã,
ao acordar.

16.2.11

Os teus poemas










Os teus poemas
não são feitos das palavras,
são desenhos imaculados
páginas brancas
que o teu corpo molda
e na clareza com que o fazes
arrasas os compêndios
e os manuais
das regras e das físicas.
Somos o olhar,
e cada beijo que trocamos
sabe a silêncio
e goza-se o estalido
dos nossos lábios humedecidos
colando-se
descolando-se
no final de cada dia.
As memórias
são tempo de cama
de indizíveis gestos
e do teu cheiro
que me invade e permanece
como tinta indelével
assinando o meu dia
adicto de ti


O teu nome








O teu nome ocupa-me
preenche-me,
Não como um sinal
Ortográfico, tinta…
código!
É o teu nome,
a tua marca,
O teu ser.
É esse teu nome
Que paira e se senta
No gosto que tenho de te pensar.
Amo dizer teu nome
dizê-lo sincopado letra a letra
soprá-lo
escrevo-o em letras redondas
na casca dos carvalhos velhos
nos muros de cal mole
fresca.
O teu nome acode-me na memória
frugal
O teu nome
que sempre me resta
mesmo quando não és mais
que a vã madrugada
encoberta pela bruma.


Raiva


Os poros vomitam a força da raiva
gelam-me nas têmporas

o vento seca-me a face
os olhos não
que as lágrimas são da vontade
do tempo
de me revoltar

12.1.11

Molecularmente




Nos meus dias percebidos
reclamo do mundo
respostas
pergunto-me dos silêncios
mais que apenas visões próximas
diferenças perplexas
entre cada molécula
de um todo global.
Afirmo-me na realidade virtual
perene,
unidade de um corpo donde olho
e que me olha
com destino e papel marcado
- serei esta enormidade de que me contento?
ou infeliz e simples
parte
de algo que nunca sequer
ousarei ser.
E da imaginação
e de ser mais do que penso
assim me levo em conta
assim me levo
até ao dia
até à morte.

26.11.10


E se este mundo fosse apenas um lugar onde todos fossem apenas um pedaço de vida e soubessem que à morte voltavam.
E se este lugar fosse apenas receptáculo de beijos dados e recebidos.
E se este lugar de onde tudo se traz e tudo se leva apenas fosse uma mão aberta onde se escolhem os grãos para lançar à terra.
E se este lugar, nascesse a cada segundo, novo inocente e gritando a plenos pulmões a vontade de penetrar na vida.
E se este lugar ganhasse a força com que um caixão baixa na cova e os prantos irrompem sem vergonha nem gestos contidos.

Eu quero ser dum lugar onde a poesia sejam olhos abertos e amantes beijando-se.
Eu quero que as palavras se revelem dentro de cada coração que bate, e na força dos peitos que querem explodir, se componham melodias e o desenho de uma alegria incontida de viver.
Eu quero ser dum lugar onde cada um conte a história dos outros, e as sardinheiras da tua janela valham mais que as pedras que ferem e matam cada toupeira humana que os procura.
Eu quero que neste lugar nunca faltem os livros e os mapas, e que as linhas não dividam vidas e irmãos.

E das lágrimas secas, dos rebentos de uma velha árvore, das mãos abertas e estendidas, dos punhos erguidos vencendo o desespero, de ti e do amor incontido, hei-de um dia escrever o poema que dirá tudo o que a vida pode ser.

25.11.10

O meu tempo é tempo de ti.


Aquieta-te no meu colo, deixa
que os meus braços te pertençam
como um manto quente de algodão
escuta a pequena melodia
que o mar nos traz
na pacatez de um recanto de areia
deixa as marés bravas, invernosas
soltarem a espuma
e murmurarem de volta
a paz solta dos teus olhos húmidos
envergonhados
o meu tempo é tempo de ti
quando colo os lábios
nos teus cabelos
e sorvo este teu cheiro
que persisto e não quero esquecer.
há nestes momentos
um raio de sol a abrir
uma página solta que se alimenta
do te olhar interminavelmente.
e saborear esse teu doce ar
de paz
como se eu fosse teu ninho
donde ainda nem sabes voar

23.11.10

Na praia


No encontro

dos dois,

passos em paralelo

encontram-se as palavras,

o vento

descobre as janelas

solta os panos

levanta a poeira,

revela-se quando os rostos

se voltam

e nós revelamo-nos

nos gestos

nos olhos

no que dizemos

e no que resta

e se junta

na fadiga dos passos

mas a vida

fica sempre

mais junta

4.11.10

A noite dos sons


Ainda agora era dia, quando dei por mim de luz acesa, a noite a correr como um fio de azeite, contínuo, como um rio escancarado, desaguando em rituais de sempre.
Há velhos desdobrando pijamas, cópias das roupas diurnas. Batem de leve, sem certezas, nas almofadas que os ampararão, despertam o berço onde nascerá mais uma noite sem sono, sem sonhos.
No meio dos silêncios que os sons agarram, aguçam-se os ouvidos nas paredes dos vizinhos. Ouve-se tudo o que o dia esconde. Os bebés pungem em choros nocturnos, agudos.
O volupto arfar de uma mulher só, canta a solidão de mãos que dão a cor a quem nada compartilha.
Há quem sorria, e dos sorrisos escancarados me leve à ironia de sorrir também, sem que saibam nem suspeitem o quanto perto é cúmplice as circunstâncias que a vida impõe. Nas gargalhadas de um prazer normal, rompe a aguda angústia que fere.
Nas vidas repartidas que me chegam, cada momento regurgita a inconsistência do tempo, discursos incondicionais, do eu seria, do eu faria, e se eu fugisse, e se fosse e se voltasse, e se estivesse apenas contigo e os sons se calassem e apenas te ouvisse junto ao meu ouvido, pedindo que te amasse.
Ainda agora era dia, e a noite espalha esta luz que teima em ficar, estes momentos precisos em que o tempo não conta.
Depois, quando a madrugada nos exaure, quando o medo da noite já não assusta, e a verdadeira luz chega, é que me amarro nesta almofada companheira e largo o livro onde nada escrevo, tudo sinto, que os sons nada dizem, são apenas sentidos apurados a calar na noite a própria voz que não queremos ouvir.

29.10.10

Memórias perdidas


A memória trai-me
como gaiola de porta aberta
onde nenhuma ave
se aquieta.
as ideias soltam-se
perdem-se
areia escapando-se dos dedos.
as palavras vestem-se
sem explicarem
porque vão…
sinto o cheiro dos dias ocos
cadáveres que mirram
no vazio das páginas brancas
zombies de olhares vagos.

… lá fora
há janelas que se ouvem
ao fechar das persianas.

24.9.10

Pássaro


foto de Jose d'Almeida I&D

Queria ser um pássaro
peregrino
voaria mil horas – seguidas
cairia por certo exangue
na terra dos pássaros
que voam mais de mil horas
e emprestaria as minhas asas
à ciência que descobre
como demoram a passar mil horas.
Nas memórias
dos voos seguidos, contínuos
apareceria,
escrita em letra de imprensa
negrito – são as asas de um pássaro,
e nas fotos,
permanecerá
o pó dos afectos e da pele
dos que toquei
pelo caminho
e em cada pena arrancada
um abraço
e as lágrimas
das dores que se branqueiam
num bater de asa perpétuo,
neste caminho
onde os voos e as horas
não pertencem ao céu
ilimitado,
e a vontade de planar é desejo
de quem só precisa
deste chão
para nunca aterrar.


10.9.10

Poemas de ti (25)


Há nos murmúrios
no final do resto dos dias
um delicado silêncio
uma frágil penumbra que me sossega
e me diz que amanhã
voltarei a amar-te
como se os dias fossem apenas
feitos de ti.

Amo-te




Na repetição de uma única expressão – Amo-te -, como se sempre fosse única, nova, irrepetível, assim foi que sempre nos entregámos e nos prometemos incondicionalmente, como o vento soprando nas primaveras ao fim da tarde, ou os solstícios que anunciam cada fim de verão.
No suave torpor dos nossos olhares que se demoram toda uma eternidade, estendidos um sobre o outro, a pele escaldando, transpirando, colada, as mãos te tocando no fino recorte de cada dedo que se passeia por ruas já descobertas, despimos os sentidos que se espalham pelos lençóis, nas madrugadas que duram para lá do sol.
Há um cheiro doce que vem dos teus seios, reluzem desnudos, como nunca pudessem ser cobertos, e o meu peito rompe por entre os teus braços e atraca neles como batel indefeso te pedindo guarida.
Nestas madrugadas mornas, neste entendimento da tua nudez, da tua pele quente, entranho-me em ti e percorro cada poro dessa tua estrada, sorvo e respiro o encantamento desse teu perfume antigo e franqueio a tua boca às palavras imperceptíveis, deixando que tudo se resuma aos olhos onde nos achamos e nos lemos, orfãos dos nossos gestos.
E na ausência, quando apenas a tua presença é memória, quando os nossos braços se apartam, e te trago e tu me levas, há sempre uma página em branco onde nos escrevemos, onde marcamos memórias e assinamos a irrepetível palavra que nos prende: Amo-te.