
As vidas são traços feitos em paralelo, cada um traça a sua própria linha e segue em frente, paralelo às outras, e é nos sentidos e nas emoções, que todas as linhas se podem desviar e embater nas que lhe estão próximas. Somos caminhos que por vezes se tocam, tangentes às vezes tão ténues, que não damos por elas, somos traços sublinhados que suportam outros traços mais finos e frágeis, somos por vezes manchas escuras, novelos de traços fundidos, inexpressivos, sem nada que distinga e lhe confira individualidade. Há traços que adquirem as suas próprias cores, uns passam por estes caminhos como o céu que nos envolve, apenas presente sem reclamar da sua própria infinidade, outros são cores violentas, agridem e fazem com que fechemos os olhos aos caminhos onde nunca nos queremos cometer.
Os traços geram traços e assim se prolonga a linha da vida, como um enorme fio que não se quebra e sempre se desenrola, e com ele se geram memórias e com ele o futuro que se torna presente a todo o momento garante o meu traço que se desvia e amarra outros traços, companheiros desta estrada desenhada em mapas onde nunca sabemos a partida e o destino, apenas sabemos onde estamos.
E na nossa vida surgem artistas, linhas elegantes, desenhadas à mão, assinaturas que nos mostram a vida de formas diferentes, belas, esculpidas na imaginação de quem nunca se limita a ser apenas um traço na horizontal, no assumir da sua verticalidade e nos desenhos que nos traçam outros modelos, outros quadros e nos enchem de céu e mar, e no meio dos seus traços, abraçam rostos e paisagens em linhas que mal se distinguem e nos dão outros olhos. São as mãos que percebemos no calor das tintas que vivificam cada linha, cada ponto. és tu, nessa tua fronteira que marcas em traços fortes para que ninguém entre, são tracejados hesitantes desses teus lábios onde nunca se repousa, são o quadro onde me deixas escrever o teu poema, são pontos e linhas juntas que se transformam em escrita, e onde tudo é possível traçar.