25.11.10

O meu tempo é tempo de ti.


Aquieta-te no meu colo, deixa
que os meus braços te pertençam
como um manto quente de algodão
escuta a pequena melodia
que o mar nos traz
na pacatez de um recanto de areia
deixa as marés bravas, invernosas
soltarem a espuma
e murmurarem de volta
a paz solta dos teus olhos húmidos
envergonhados
o meu tempo é tempo de ti
quando colo os lábios
nos teus cabelos
e sorvo este teu cheiro
que persisto e não quero esquecer.
há nestes momentos
um raio de sol a abrir
uma página solta que se alimenta
do te olhar interminavelmente.
e saborear esse teu doce ar
de paz
como se eu fosse teu ninho
donde ainda nem sabes voar

23.11.10

Na praia


No encontro

dos dois,

passos em paralelo

encontram-se as palavras,

o vento

descobre as janelas

solta os panos

levanta a poeira,

revela-se quando os rostos

se voltam

e nós revelamo-nos

nos gestos

nos olhos

no que dizemos

e no que resta

e se junta

na fadiga dos passos

mas a vida

fica sempre

mais junta

4.11.10

A noite dos sons


Ainda agora era dia, quando dei por mim de luz acesa, a noite a correr como um fio de azeite, contínuo, como um rio escancarado, desaguando em rituais de sempre.
Há velhos desdobrando pijamas, cópias das roupas diurnas. Batem de leve, sem certezas, nas almofadas que os ampararão, despertam o berço onde nascerá mais uma noite sem sono, sem sonhos.
No meio dos silêncios que os sons agarram, aguçam-se os ouvidos nas paredes dos vizinhos. Ouve-se tudo o que o dia esconde. Os bebés pungem em choros nocturnos, agudos.
O volupto arfar de uma mulher só, canta a solidão de mãos que dão a cor a quem nada compartilha.
Há quem sorria, e dos sorrisos escancarados me leve à ironia de sorrir também, sem que saibam nem suspeitem o quanto perto é cúmplice as circunstâncias que a vida impõe. Nas gargalhadas de um prazer normal, rompe a aguda angústia que fere.
Nas vidas repartidas que me chegam, cada momento regurgita a inconsistência do tempo, discursos incondicionais, do eu seria, do eu faria, e se eu fugisse, e se fosse e se voltasse, e se estivesse apenas contigo e os sons se calassem e apenas te ouvisse junto ao meu ouvido, pedindo que te amasse.
Ainda agora era dia, e a noite espalha esta luz que teima em ficar, estes momentos precisos em que o tempo não conta.
Depois, quando a madrugada nos exaure, quando o medo da noite já não assusta, e a verdadeira luz chega, é que me amarro nesta almofada companheira e largo o livro onde nada escrevo, tudo sinto, que os sons nada dizem, são apenas sentidos apurados a calar na noite a própria voz que não queremos ouvir.

29.10.10

Memórias perdidas


A memória trai-me
como gaiola de porta aberta
onde nenhuma ave
se aquieta.
as ideias soltam-se
perdem-se
areia escapando-se dos dedos.
as palavras vestem-se
sem explicarem
porque vão…
sinto o cheiro dos dias ocos
cadáveres que mirram
no vazio das páginas brancas
zombies de olhares vagos.

… lá fora
há janelas que se ouvem
ao fechar das persianas.

24.9.10

Pássaro


foto de Jose d'Almeida I&D

Queria ser um pássaro
peregrino
voaria mil horas – seguidas
cairia por certo exangue
na terra dos pássaros
que voam mais de mil horas
e emprestaria as minhas asas
à ciência que descobre
como demoram a passar mil horas.
Nas memórias
dos voos seguidos, contínuos
apareceria,
escrita em letra de imprensa
negrito – são as asas de um pássaro,
e nas fotos,
permanecerá
o pó dos afectos e da pele
dos que toquei
pelo caminho
e em cada pena arrancada
um abraço
e as lágrimas
das dores que se branqueiam
num bater de asa perpétuo,
neste caminho
onde os voos e as horas
não pertencem ao céu
ilimitado,
e a vontade de planar é desejo
de quem só precisa
deste chão
para nunca aterrar.


10.9.10

Poemas de ti (25)


Há nos murmúrios
no final do resto dos dias
um delicado silêncio
uma frágil penumbra que me sossega
e me diz que amanhã
voltarei a amar-te
como se os dias fossem apenas
feitos de ti.

Amo-te




Na repetição de uma única expressão – Amo-te -, como se sempre fosse única, nova, irrepetível, assim foi que sempre nos entregámos e nos prometemos incondicionalmente, como o vento soprando nas primaveras ao fim da tarde, ou os solstícios que anunciam cada fim de verão.
No suave torpor dos nossos olhares que se demoram toda uma eternidade, estendidos um sobre o outro, a pele escaldando, transpirando, colada, as mãos te tocando no fino recorte de cada dedo que se passeia por ruas já descobertas, despimos os sentidos que se espalham pelos lençóis, nas madrugadas que duram para lá do sol.
Há um cheiro doce que vem dos teus seios, reluzem desnudos, como nunca pudessem ser cobertos, e o meu peito rompe por entre os teus braços e atraca neles como batel indefeso te pedindo guarida.
Nestas madrugadas mornas, neste entendimento da tua nudez, da tua pele quente, entranho-me em ti e percorro cada poro dessa tua estrada, sorvo e respiro o encantamento desse teu perfume antigo e franqueio a tua boca às palavras imperceptíveis, deixando que tudo se resuma aos olhos onde nos achamos e nos lemos, orfãos dos nossos gestos.
E na ausência, quando apenas a tua presença é memória, quando os nossos braços se apartam, e te trago e tu me levas, há sempre uma página em branco onde nos escrevemos, onde marcamos memórias e assinamos a irrepetível palavra que nos prende: Amo-te.

Faltas-me



Faltas-me
como o ar,

faltas-me
como a chuva

faltas-me
como o mar

faltas-me

e dói
como um fado
ao canto de uma esquina
triste
de lisboa
e dói
como as palavras
de despedida
e as das saudades
e dói
como um amanhã incerto
dois olhos negros, encovados
das crianças
dos gestos vagos
e chamo-te
no lado vazio
onde me cheira ainda a ti
na tua boca fechada
na tua inexpressão

faltas-me
e dói.

18.8.10

Verão, quente Verão


O estio seca a boca,
as palavras secam de maduras
repetidas
não há poemas paridos.
as histórias permanecem
sabemo-las de cor,
não há lugar nos bancos por baixo
das cerejeiras
há pernas nuas estendidas
e os colarinhos expulsam as gravatas
ofendidas
os rostos entumecidos, rubros
os esgares da pressa pela noite
e as brisas dos becos escuros
são delícias
surpresas novas por agora.
o verão queima
o meu peito murcha
na espera das regas vespertinas
a erva não cresce
amarelada
só as crianças permanecem
só elas brincam
e aproveitam os dias grandes
deste sol de Agosto
irmão do luar que alumia
noites de insónia,
onde nem os poemas cabem
mãos suadas, pegam-se ao papel
empardecido, onde a lua se espelha
e me beija
neste estio seco
de que me quero livrar.

8.7.10

Traços


As vidas são traços feitos em paralelo, cada um traça a sua própria linha e segue em frente, paralelo às outras, e é nos sentidos e nas emoções, que todas as linhas se podem desviar e embater nas que lhe estão próximas. Somos caminhos que por vezes se tocam, tangentes às vezes tão ténues, que não damos por elas, somos traços sublinhados que suportam outros traços mais finos e frágeis, somos por vezes manchas escuras, novelos de traços fundidos, inexpressivos, sem nada que distinga e lhe confira individualidade. Há traços que adquirem as suas próprias cores, uns passam por estes caminhos como o céu que nos envolve, apenas presente sem reclamar da sua própria infinidade, outros são cores violentas, agridem e fazem com que fechemos os olhos aos caminhos onde nunca nos queremos cometer.
Os traços geram traços e assim se prolonga a linha da vida, como um enorme fio que não se quebra e sempre se desenrola, e com ele se geram memórias e com ele o futuro que se torna presente a todo o momento garante o meu traço que se desvia e amarra outros traços, companheiros desta estrada desenhada em mapas onde nunca sabemos a partida e o destino, apenas sabemos onde estamos.
E na nossa vida surgem artistas, linhas elegantes, desenhadas à mão, assinaturas que nos mostram a vida de formas diferentes, belas, esculpidas na imaginação de quem nunca se limita a ser apenas um traço na horizontal, no assumir da sua verticalidade e nos desenhos que nos traçam outros modelos, outros quadros e nos enchem de céu e mar, e no meio dos seus traços, abraçam rostos e paisagens em linhas que mal se distinguem e nos dão outros olhos. São as mãos que percebemos no calor das tintas que vivificam cada linha, cada ponto. és tu, nessa tua fronteira que marcas em traços fortes para que ninguém entre, são tracejados hesitantes desses teus lábios onde nunca se repousa, são o quadro onde me deixas escrever o teu poema, são pontos e linhas juntas que se transformam em escrita, e onde tudo é possível traçar.

11.6.10

Farol




no medo da noite
caída
dos caminhos que entendo
mas não vejo,
das sortes lançadas
pelos búzios
feitiços
palavras mágicas
certeiras,
no medo desta noite
que todos os dias
me acha,
e destes caminhos que o dia não me ensina
há sempre um farol
que derrama a luz
generosa
abraçando o meu medo
como mãe
que empresta seu colo
e me guarda destes rochedos,
das vidas negras
onde sempre se naufraga.
Farol
Desenhado à mão
que me conduz
me guia
na chegada ao porto
onde sou teu.
Meu beijo
Meu abraço
Meu sol

Encruzilhada



Num pequeno ponto desta Terra, há uma encruzilhada que passa por mim, e me pede todos os dias que decida. Nas placas que anunciam os caminhos, pinturas de guerra das novas tribos, confundem e tapam a clareza que outrora a força dos dias me emprestava.
Sentado num pequeno tronco, cadáver de uma frondosa árvore já esquecida, vejo os caminhantes passando, levam nas mãos tisnadas, a sua própria sina, e em cada rosto a sua própria história.
Cruzam-se as dores e as alegrias, as vaidades e os imortais que tombam, passam por mim barcos e velas que me fazem lembrar o vento que corta e a doçura dos agasalhos que nos consolam, passam por mim bandos de garças brancas e mulheres com palavras e sorrisos e com os traços desenhados, os olhos azuis e as barrigas cheias dos filhos que nos tomam por outros caminhos.
Há quem me olhe e me censure, e me odeie com o ódio de quem não se quer na sua própria pele.
Nas mãos dos amigos que passam devagar, sinto o calor dos dias duros, quando na pressa, têm o tempo para se sentar ou mesmo para apenas me oferecerem um olhar que me olha e me leva com eles. Na encruzilhada, onde o sol queima com mais força, e a sombra do meio dia se perde, os cães passam depressa cheirando e lambendo o chão que outros hão-de pisar.
Há alambiques de cores garridas, e uma mulher gorda e cheia, rebenta de rosas e cravos no alarido dos pregões. Passam padres e frades, e dois corvos que limpam a estrada no sossego entre quem passa.
Há pouco, constante e repetido, passam os pensamentos, que voltam e se falam, perguntam-me onde chegar. Não lhes respondo, porque outros chegam e o som é tão alto, que me remeto ao silêncio, os dedos afundados nos ouvidos, os olhos são como dois riscos de tão fundos que se aninham. Deixo que cada um se perfile e me possa falar. Sou fêmea parideira, ninhadas de pequenos pensamentos são paridos a todo o tempo, belos e novos. Todos passam todos andam à beira desta encruzilhada de tantos caminhos.
Restas tu, tu que passas e voltas, sempre na mesma elegância e beleza, que me fazes levantar e seguir, e os teus olhos, sempre da cor do mar, porque são imensidão e procura, e são o chão onde descanso os olhos, e porque são o céu onde ponho os olhos, são o olhar que me conduz e me enternece, e onde cada palavra tem sentido, porque é de ti que respiro e me alimento, porque é de ti que sou feito em cada poema que imagino.
São assim os tempos das encruzilhadas, sem final de história, sem morais nem definições, são apenas os dias que se cruzam, entre mim e este caminho que um dia hei-de escolher.

27.5.10

A TERRA DA IMAGINAÇÃO


foto de Lina Batista

Hoje acordei no meio dos sonhos, piscando os olhos, uma luz ténue chamava-me do outro lado das persianas, brancas.
Havia um silêncio que ressoava dentro de mim, deixando todo o espaço ao convite para o tornar a minha sala de estar, o meu lugar.
Chamou-me um ser sem forma, completamente estranho, sem palavra que o definisse, apenas ser. Abriu-me a janela, as persianas tinham desaparecido, e eu não distinguia nem pés nem mãos, apenas via e cheirava e ouvia o silêncio como um todo natural. Na minha frente, uma terra sem cor, os meus dedos eram lápis de cera, quentes e coloridos, as cores ocres cheiravam a terra depois da chuva e os tons verdes aclaravam-me os sentidos e as memórias do musgo do Natal e dos presépios inocentes. Ergui o indicador, azul, de todos os tons azuis, sem céu nem mar, como se em cada pequeno risco se espalhasse sem limite nem fronteira o lugar onde eu quisesse chegar.
No meio deste meu acordar, percebi um pequeno dizer, num daqueles marcos brancos que ainda aparecem nas terras antigas, colecção de pontos que nos levavam da ida à chegada nas viagens longas e intermináveis, dizia apenas: TERRA DA IMAGINAÇÃO.
Vesti-me, enfiei os sapatos de toda a vida, aqueles que sempre nos cabem nos pés, que não se sentem e nos levam a todo o lado, deixei-me cair na relva e soube onde estava. Nada me doía, nada me comandava, apenas fruía desta mágica terra onde apenas sou eu.
E sonhando, sonhei contigo, desenhei-te, e vesti-te com a roupa com que sempre te quis ver, no toque da seda, e das tuas costas nuas onde a minha mão se sente feliz. Mais do que te disse, eras tu agora que dizias, e sorrimos as vezes que quisemos, e a música tinha os sons que escrevi, e a tua boca em tons carmins, brilhando, repetia incansavelmente “eu te amo”.
À minha frente, um bosque de carvalhos e duas alamedas de freixos e olmos davam directamente para paredes cheias de estantes. Os livros com vida própria entravam e saíam, cumprimentavam-se e sorriam-me, deixando palavras agradáveis e pensantes. Na Terra da Imaginação, um coreto largo, com o chão de almofadas de veludo, chamava-me, e deixei-me cair apenas ouvindo a melodia de um violino que estava de serviço aquela hora.
Caminhei, depois corri, com o gozo de pernas que não me transportavam, apenas correndo, o vento beijando-me a cara, e cheguei ao ponto mais alto desta Terra. Um banco, e uma tela com todas as paisagens que me fazem chorar e agradecer os olhos com que as vejo, esperavam por mim.
Sentado, quieto, dono de mim, os pensamentos e as ideias, eram agora soberanas. Uma folha de papel, irresistivelmente virgem acomodou-se no meu colo, e eu sorrindo ao ser que não tinha nome nem forma, escrevi uma única palavra no meio dela – Liberdade.