10.9.10

Amo-te




Na repetição de uma única expressão – Amo-te -, como se sempre fosse única, nova, irrepetível, assim foi que sempre nos entregámos e nos prometemos incondicionalmente, como o vento soprando nas primaveras ao fim da tarde, ou os solstícios que anunciam cada fim de verão.
No suave torpor dos nossos olhares que se demoram toda uma eternidade, estendidos um sobre o outro, a pele escaldando, transpirando, colada, as mãos te tocando no fino recorte de cada dedo que se passeia por ruas já descobertas, despimos os sentidos que se espalham pelos lençóis, nas madrugadas que duram para lá do sol.
Há um cheiro doce que vem dos teus seios, reluzem desnudos, como nunca pudessem ser cobertos, e o meu peito rompe por entre os teus braços e atraca neles como batel indefeso te pedindo guarida.
Nestas madrugadas mornas, neste entendimento da tua nudez, da tua pele quente, entranho-me em ti e percorro cada poro dessa tua estrada, sorvo e respiro o encantamento desse teu perfume antigo e franqueio a tua boca às palavras imperceptíveis, deixando que tudo se resuma aos olhos onde nos achamos e nos lemos, orfãos dos nossos gestos.
E na ausência, quando apenas a tua presença é memória, quando os nossos braços se apartam, e te trago e tu me levas, há sempre uma página em branco onde nos escrevemos, onde marcamos memórias e assinamos a irrepetível palavra que nos prende: Amo-te.

Faltas-me



Faltas-me
como o ar,

faltas-me
como a chuva

faltas-me
como o mar

faltas-me

e dói
como um fado
ao canto de uma esquina
triste
de lisboa
e dói
como as palavras
de despedida
e as das saudades
e dói
como um amanhã incerto
dois olhos negros, encovados
das crianças
dos gestos vagos
e chamo-te
no lado vazio
onde me cheira ainda a ti
na tua boca fechada
na tua inexpressão

faltas-me
e dói.

18.8.10

Verão, quente Verão


O estio seca a boca,
as palavras secam de maduras
repetidas
não há poemas paridos.
as histórias permanecem
sabemo-las de cor,
não há lugar nos bancos por baixo
das cerejeiras
há pernas nuas estendidas
e os colarinhos expulsam as gravatas
ofendidas
os rostos entumecidos, rubros
os esgares da pressa pela noite
e as brisas dos becos escuros
são delícias
surpresas novas por agora.
o verão queima
o meu peito murcha
na espera das regas vespertinas
a erva não cresce
amarelada
só as crianças permanecem
só elas brincam
e aproveitam os dias grandes
deste sol de Agosto
irmão do luar que alumia
noites de insónia,
onde nem os poemas cabem
mãos suadas, pegam-se ao papel
empardecido, onde a lua se espelha
e me beija
neste estio seco
de que me quero livrar.

8.7.10

Traços


As vidas são traços feitos em paralelo, cada um traça a sua própria linha e segue em frente, paralelo às outras, e é nos sentidos e nas emoções, que todas as linhas se podem desviar e embater nas que lhe estão próximas. Somos caminhos que por vezes se tocam, tangentes às vezes tão ténues, que não damos por elas, somos traços sublinhados que suportam outros traços mais finos e frágeis, somos por vezes manchas escuras, novelos de traços fundidos, inexpressivos, sem nada que distinga e lhe confira individualidade. Há traços que adquirem as suas próprias cores, uns passam por estes caminhos como o céu que nos envolve, apenas presente sem reclamar da sua própria infinidade, outros são cores violentas, agridem e fazem com que fechemos os olhos aos caminhos onde nunca nos queremos cometer.
Os traços geram traços e assim se prolonga a linha da vida, como um enorme fio que não se quebra e sempre se desenrola, e com ele se geram memórias e com ele o futuro que se torna presente a todo o momento garante o meu traço que se desvia e amarra outros traços, companheiros desta estrada desenhada em mapas onde nunca sabemos a partida e o destino, apenas sabemos onde estamos.
E na nossa vida surgem artistas, linhas elegantes, desenhadas à mão, assinaturas que nos mostram a vida de formas diferentes, belas, esculpidas na imaginação de quem nunca se limita a ser apenas um traço na horizontal, no assumir da sua verticalidade e nos desenhos que nos traçam outros modelos, outros quadros e nos enchem de céu e mar, e no meio dos seus traços, abraçam rostos e paisagens em linhas que mal se distinguem e nos dão outros olhos. São as mãos que percebemos no calor das tintas que vivificam cada linha, cada ponto. és tu, nessa tua fronteira que marcas em traços fortes para que ninguém entre, são tracejados hesitantes desses teus lábios onde nunca se repousa, são o quadro onde me deixas escrever o teu poema, são pontos e linhas juntas que se transformam em escrita, e onde tudo é possível traçar.

11.6.10

Farol




no medo da noite
caída
dos caminhos que entendo
mas não vejo,
das sortes lançadas
pelos búzios
feitiços
palavras mágicas
certeiras,
no medo desta noite
que todos os dias
me acha,
e destes caminhos que o dia não me ensina
há sempre um farol
que derrama a luz
generosa
abraçando o meu medo
como mãe
que empresta seu colo
e me guarda destes rochedos,
das vidas negras
onde sempre se naufraga.
Farol
Desenhado à mão
que me conduz
me guia
na chegada ao porto
onde sou teu.
Meu beijo
Meu abraço
Meu sol

Encruzilhada



Num pequeno ponto desta Terra, há uma encruzilhada que passa por mim, e me pede todos os dias que decida. Nas placas que anunciam os caminhos, pinturas de guerra das novas tribos, confundem e tapam a clareza que outrora a força dos dias me emprestava.
Sentado num pequeno tronco, cadáver de uma frondosa árvore já esquecida, vejo os caminhantes passando, levam nas mãos tisnadas, a sua própria sina, e em cada rosto a sua própria história.
Cruzam-se as dores e as alegrias, as vaidades e os imortais que tombam, passam por mim barcos e velas que me fazem lembrar o vento que corta e a doçura dos agasalhos que nos consolam, passam por mim bandos de garças brancas e mulheres com palavras e sorrisos e com os traços desenhados, os olhos azuis e as barrigas cheias dos filhos que nos tomam por outros caminhos.
Há quem me olhe e me censure, e me odeie com o ódio de quem não se quer na sua própria pele.
Nas mãos dos amigos que passam devagar, sinto o calor dos dias duros, quando na pressa, têm o tempo para se sentar ou mesmo para apenas me oferecerem um olhar que me olha e me leva com eles. Na encruzilhada, onde o sol queima com mais força, e a sombra do meio dia se perde, os cães passam depressa cheirando e lambendo o chão que outros hão-de pisar.
Há alambiques de cores garridas, e uma mulher gorda e cheia, rebenta de rosas e cravos no alarido dos pregões. Passam padres e frades, e dois corvos que limpam a estrada no sossego entre quem passa.
Há pouco, constante e repetido, passam os pensamentos, que voltam e se falam, perguntam-me onde chegar. Não lhes respondo, porque outros chegam e o som é tão alto, que me remeto ao silêncio, os dedos afundados nos ouvidos, os olhos são como dois riscos de tão fundos que se aninham. Deixo que cada um se perfile e me possa falar. Sou fêmea parideira, ninhadas de pequenos pensamentos são paridos a todo o tempo, belos e novos. Todos passam todos andam à beira desta encruzilhada de tantos caminhos.
Restas tu, tu que passas e voltas, sempre na mesma elegância e beleza, que me fazes levantar e seguir, e os teus olhos, sempre da cor do mar, porque são imensidão e procura, e são o chão onde descanso os olhos, e porque são o céu onde ponho os olhos, são o olhar que me conduz e me enternece, e onde cada palavra tem sentido, porque é de ti que respiro e me alimento, porque é de ti que sou feito em cada poema que imagino.
São assim os tempos das encruzilhadas, sem final de história, sem morais nem definições, são apenas os dias que se cruzam, entre mim e este caminho que um dia hei-de escolher.

27.5.10

A TERRA DA IMAGINAÇÃO


foto de Lina Batista

Hoje acordei no meio dos sonhos, piscando os olhos, uma luz ténue chamava-me do outro lado das persianas, brancas.
Havia um silêncio que ressoava dentro de mim, deixando todo o espaço ao convite para o tornar a minha sala de estar, o meu lugar.
Chamou-me um ser sem forma, completamente estranho, sem palavra que o definisse, apenas ser. Abriu-me a janela, as persianas tinham desaparecido, e eu não distinguia nem pés nem mãos, apenas via e cheirava e ouvia o silêncio como um todo natural. Na minha frente, uma terra sem cor, os meus dedos eram lápis de cera, quentes e coloridos, as cores ocres cheiravam a terra depois da chuva e os tons verdes aclaravam-me os sentidos e as memórias do musgo do Natal e dos presépios inocentes. Ergui o indicador, azul, de todos os tons azuis, sem céu nem mar, como se em cada pequeno risco se espalhasse sem limite nem fronteira o lugar onde eu quisesse chegar.
No meio deste meu acordar, percebi um pequeno dizer, num daqueles marcos brancos que ainda aparecem nas terras antigas, colecção de pontos que nos levavam da ida à chegada nas viagens longas e intermináveis, dizia apenas: TERRA DA IMAGINAÇÃO.
Vesti-me, enfiei os sapatos de toda a vida, aqueles que sempre nos cabem nos pés, que não se sentem e nos levam a todo o lado, deixei-me cair na relva e soube onde estava. Nada me doía, nada me comandava, apenas fruía desta mágica terra onde apenas sou eu.
E sonhando, sonhei contigo, desenhei-te, e vesti-te com a roupa com que sempre te quis ver, no toque da seda, e das tuas costas nuas onde a minha mão se sente feliz. Mais do que te disse, eras tu agora que dizias, e sorrimos as vezes que quisemos, e a música tinha os sons que escrevi, e a tua boca em tons carmins, brilhando, repetia incansavelmente “eu te amo”.
À minha frente, um bosque de carvalhos e duas alamedas de freixos e olmos davam directamente para paredes cheias de estantes. Os livros com vida própria entravam e saíam, cumprimentavam-se e sorriam-me, deixando palavras agradáveis e pensantes. Na Terra da Imaginação, um coreto largo, com o chão de almofadas de veludo, chamava-me, e deixei-me cair apenas ouvindo a melodia de um violino que estava de serviço aquela hora.
Caminhei, depois corri, com o gozo de pernas que não me transportavam, apenas correndo, o vento beijando-me a cara, e cheguei ao ponto mais alto desta Terra. Um banco, e uma tela com todas as paisagens que me fazem chorar e agradecer os olhos com que as vejo, esperavam por mim.
Sentado, quieto, dono de mim, os pensamentos e as ideias, eram agora soberanas. Uma folha de papel, irresistivelmente virgem acomodou-se no meu colo, e eu sorrindo ao ser que não tinha nome nem forma, escrevi uma única palavra no meio dela – Liberdade.

26.5.10

Poemas de Ti(24)


foto de Lina Batista
Desenho o esboço
do teu corpo
no meu modo imaginário
de ser,
doce
redondo
dado.
São traços da minha forma
de te querer,
detalhes
que as nossas cartas jogam
E do que sabes
e do que sei,
são as coisas que trocamos.
os traços seguem as linhas,
pecados desta linha
que nos separa,
nos torna virtuais.
E quando me pedes
que me dê de ti
é para mim que voltas
nesse amor frágil,
inconsolável
de te ter longe
aqui mesmo ao pé de mim.

7.5.10

Espero por ti no banco do costume


Espero por ti no banco do costume. Como sempre há uma impaciência idiota que me atravessa, como se não te merecesse, como se de um dia para o outro todas as certezas se afundassem e tudo se resumisse a este hiato de minutos que me separa de ti.
Há uma necessidade inata de querer o que não existe. Há uma existência que dói para manter a felicidade, como nossa, como se ela não fosse dona de si própria.
Chegas, porque tinhas e querias chegar, e eu quero que venhas e me olhes, e na serenidade de um olhar teu que me abraça, no teu perfume fresco dos dias quentes, nas madrugadas que espreitamos, quando a chuva nos fala e nos deixa juntos, no focinho dos bichos que se aninham nos teus joelhos, nos sons enfeitiçados das músicas que me arrepiam, nada mais se vê senão os olhos, e dentro dos olhos há um mundo de expressões e de sentimentos, há uma escrita nova que se desenha na tua língua, há a intensidade dos olhos que se fecham, porque este olhar não cabe dentro de nenhum olhar, e o toque e os corpos e o calor dos corpos não se sentem nem calibram, são chamas imensas ateadas, são minutos em que o mundo apenas é nosso, porque nada existe fora de nós, por isso queremos morrer nesse minuto e nesse minuto queremos ficar até morrer.
Nas paixões assim, intensas, dádivas amplas lembrando vulcões que renascem, rios incontroláveis, selvagens, multidões que sabem gritar a uma só voz sem que ninguém as ensine, crianças de berço que apenas querem o que lhes faz falta e choram apenas por isso, dores violentas de parto que choram na maior e imensa alegria, nestas paixões, está esta raça humana e diferente que me traz vivo.
Como posso num poema desenhar esta emoção e esta força que me exaure e me faz mais forte? Como me posso entender nesta violência que ciranda a cabeça e me confunde?
Como dizer-te isto apenas nas mãos apertadas?
Nada digo, e assim tudo posso, na imensa avenida que a largueza do coração consegue traçar.

Poemas de Ti(23)




Há na ausência
uma delicada cicatriz
que não me perturba
nem me lembra ao olhar.
É quando lhe toco,
que entendo o quanto sangra,
e como se torna fresca
e real
ao se abrir,
por te tocar.
Acordo estes sentidos
deitados noutras camas
alheados,
adormecidos,
e como que o vento
desperta de aluvião,
e agiganta as velas
brancas,
páginas de um diário
incompleto;
e é do meu peito de náufrago
que te desejo,
rocha
dura, íngreme
onde aporto
e te abraço,
farto deste mar que não me lava
deste barco onde não caibo,
deste gelo na barriga
que me diz
de onde venho,
e me torna imenso
só por te ter
por te achar,
na pequena cicatriz
muda
que nunca acaba por sarar.

27.4.10

Passagem




Os sentimentos são como cães vadios, vagueiam com uma inconstância quase constante, nada seguram nem guardam, passam e transformam-se como as cidades que mudam de lugar entre a ida e o regresso. Cada dia é o mesmo dia, bom e mau, como o passado e o presente que muda cada pétala, sem dor, entre nascer e morrer.
Olho-me ao espelho, com o mesmo olhar que os anos deixam, e nas rugas e nos traços maduros, denuncio as diferenças que me trazem igual de memórias pintado,
O bom e o mau, são o mesmo sim e o mesmo não. Há gente má que hoje é boa, e são os mesmos, os sorrisos e os choros que caem dos nossos dias a dois, são água da mesma fonte. A felicidade dos poderosos é a infelicidade de quem cai do pedestal, como o velho e o novo, sempre o mesmo homem. Somente a ilusão do tempo nos diz que tudo é igual.
Tenho este fato vestido há tempo de mais, e o passado abraça-me como se o presente não me quisesse, sinto meu corpo sendo arrancado bocado a bocado. O meu mundo é do tamanho do meu viver, e o meu viver é a sombra de todo o universo.
E nos tons das cores que me cercam, apenas a ilusão do tempo me separa deste entendimento, de que todas as estradas têm sentidos, e que para cada colina há o sacrifício da subida e o conforto da descida. Afinal só estou de passagem.

Poemas de Ti (22)





É no desejo que me arrecado,
nesta vontade de encontrar-te,
nos olhos que ardem
só de te olhar,
e querer no teu toque
esquecer tudo
perder-me.
Há presságios que te anunciam,
sinto-te, mesmo que o silêncio
te esconda,
cheiro-te pelo meio das rosas
e dos vidros dos perfumes,
e nos livros
nada entendo do que sentimos
mesmo quando nos cruzamos
nas palavras cortadas,
nas tuas mãos, ternas,
que me passam folha a folha
sem sumário nem fim,
nesta história,
nesta coragem de te beijar,
e de sermos apenas nós
nus.


13.4.10

Sem vontade




Os dias andam estranhos. Toma-me de assalto esta vontade de não ter vontade. As ideias chegam soltas, perdem-se como areia que tento segurar entre os dedos, na imensidão das coisas que faço sem dar conta delas. São fotografias perdidas, em que escapa o momento porque o queremos guardar e não recordamos, porque entrincheirados naquele pequeno visor, perdemos tudo o resto que o tempo levou.
A memória já me trai, parece uma gaiola de porta aberta onde os pássaros escapam e não voltam. Percebo que as memórias antigas são mais plácidas e ternas, amaciadas como cachorros aninhados no colo do dono, pedindo apenas que as deixemos ficar.
Dou comigo rodeado de palavras, como gente junta que não se conhece nem se percebe, apenas se juntam e se repetem, para formar cordões que se explicam pela torrente e força que movem. São pedaços de ferro que aqueço em sangue quente, sem molde, dando-lhes a cor das veias, fantasia do tempo das chuvas, onde nada se semeia, apenas se espera e se lava o chão sujo de lembranças escritas.
São os dias ocos, torpes, destas horas que mirram, encaixadas na escuridão de cada noite longa, onde as rugas se vincam e o sono escapa a cada momento.
Estou sem vontade, como se esgotada, me fizesse ser o que não quero, como se o esforço me compense de mim próprio, como se me instalasse em qualquer varanda e observasse tudo o que eu mesmo faço ou não faço. Os sonhos incomodam-me, falam de outros dias, falam de coisas que não acontecem fora, são pedaços de dentro que vomito na minha realidade, e o Mundo é do meu tamanho, como é a dor e a alegria, e como os teus olhos que me ocupam o coração a tempo todo.
Os dias são os mesmos, o Mundo tem o tamanho que o meu ser abarca e é feito do tempo e de cada circunstância, sem “ses” que lhe amesquinhem o direito de ser diferente de tudo o que quero, posso e mando. A minha vontade nasce e morre ao mesmo instante, voa desordenada direito a essa luz que ofusca e me embebeda, a minha vontade hibernada e dolorida que nada diz, nem escreve. Hoje levantou-se e disse que nada é sempre assim pela vida fora.