12.2.10

A Voz


Por fim o silêncio chegou, trouxe o barulho intenso daquela voz sussurrante que nunca me deixa e se mete em tudo e com tudo. Dei por ela a falar de mim, a olhar-me com a complacência de um juiz, julgadora de tudo o que sou, esta voz que me adoça e agride, a única que me conhece e a quem não consigo esconder nada, nem os pensamentos, nem as próprias intenções.
Antes fosse outra a nossa relação, se ao menos me pudesse desculpar, mas não: está sempre presente e fala mesmo que não a autorize, aconselha-me, dirige-me, sopra nos meus ouvidos como o vento na arriba das praias onde me sento e ela se senta sem pedir, mesmo quando quero ficar só.
Às vezes sonho que a perdi, é quando me sinto em paz, quando olho e percebo que tudo se cala, como se a maré subindo tapasse cada grão de areia e tornasse o silêncio num chão liso, perfeito, uniforme.
Logo chegas e mostras que estás viva, e me segredas que vivo e morro contigo ao lado, és tu que me fazes sofrer e me deixas inquieto nas horas onde me alegro e me apaixono.
Hoje, agora mesmo, quero que te sentes em frente a mim, que acordemos um plano de paz, vou dar-te tudo o que queiras e necessites e viajes para outro corpo, outro espírito. Vou fazer-te entender que tudo será mais fácil sem ti, sem as tuas considerações nem os teus remoques, que os meus braços ficarão livres para abraçar quem me eu queira e que me deixe abraçar sem que te interponhas e afugentes quem me quer.
Sorriste e olhaste para mim. Nada disseste, apenas fugiste e eu soube que fugiria contigo.

29.1.10

Poemas de ti (21)




Não me deixes
antes que o lado Sul do vento
me venha buscar,
fica e deixa-me contar
uma história
sobre as estradas
onde se escolhe o caminho,
de mãos agarradas
ao cajado,
livres,
de pés andarilhos
compassados do destino
que nasce de dentro
da força de cada jornada.
Não me deixes
enquanto fores amarra
deste cais
onde o meu barco
repousa, inquieto.
Não me deixes
que preciso dos teus beijos
e a minha boca
fala de dentro de ti
com o sabor das palavras
que te amam

21.1.10

Há tanto tempo que não namoro uma folha em branco.



Todos os dias penso nela, percebo-lhe a beleza escondida, o quanto crescemos quando nos envolvemos um no outro, quando nada nos perturba e o coração acelera de forma assustadora.
Quase nos perdemos em êxtase quando te percebo corada e te ofereço um ponto final que te deixa completa.
Pelo meio há memórias e sentimentos que repousam pelos teus cantos, palavras que são fotografias tirada da caixa de cartão, saudades antigas, ou apenas a partilha de algo que apanho do ar, que surge de te olhar e amar.
Nem sempre lidamos bem, são gritos e riscos, percebem-se as cicatrizes, há momentos de silêncio e até de abandono, quase te deixo com vontade de não voltar, transformo-te e transformamo-nos, perco a lisura, saímos amarrotados das noites tão longas onde nos deixamos esquecer.
Acabamos sempre por nos amar, deixo que durmas e toco-te outra vez, apareces vestida e sorridente, umas vezes és chita ou ganga, mas sabes vir de cetim ou de seda.
Peço sempre que voltes, deixa que dance contigo, que te ame em cada pequeno espaço, que sejas maré alta ou baixa, que à tua volta te sintas rainha e sejas a minha cara, eu todo, minha alma.
E quando deste amor nasce um poema, um texto, uma frase, ficamos, como amantes, ouvindo a presença de nos termos, completos.
Hoje vamos namorar.

18.12.09

Poemas de ti(20)




Sim, Amor
É o beijo que se acende
ergue-se vivo na minha boca
e declaro-me
na entrega do meu corpo
ao teu,
dou-me ao vento mistral
que me leve
sem condições
sem pactos,
sou a carne dos anos
por onde ando
nos desejos que não se cumprem
e na sede e na fome
morta a cada instante
nesse teu corpo -
travessa -
centro da mesa
onde me serves tua
e me aconchego
por fim
no sobranceiro gozo
de um licor final
e no momento que sobra
ainda intacto,
gozo a espera
de cada segundo
como se a eternidade
me condenasse
a entender-me apenas
em ti.

3.12.09

Razões de Ti (4)



Abres-me a porta, entro, com a cumplicidade que os silêncios sabem dizer melhor que mil palavras inventadas. na tua expressão quase inexpressiva, nesse vestido que nunca despes, na franqueza da vida aberta a cada bala que o tempo teima em disparar. Percebo a rotina dos dias, sou eu que chego e parto e te deixo pelos lados das paredes onde te penduro como memória de cada dia somado, de cada cama desfeita, dos beijos violentos e doces, irrepetíveis.
Quase que te percebo os nãos na ponta de cada lágrima, mascarada de um breve sorriso com que me guardas o casaco, com que me guardas. As tuas mãos penetram-me, bem dentro de mim, e fecho os olhos pronto para cada carícia, esse calor inenarrável que sinto quando me afagas os cabelos e deixas que o meu rosto se cole aos teus seios.
Na janela, na nossa janela por onde espreitamos a esquina de uma rua larga e esventrada, sabemos que o mundo passa, não pela vista, mas por sairmos e a procurarmos. São dela os passos de quem a calcorreia, e cada rosto leva no peito o Sol e o Vento que a rua empresta; não nos tocamos, apenas passamos do lado dos outros, como um exército aprumado de gente igual nas fardas, nos olhos que julgam ver da mesma cor. A janela está aberta, vem um som demasiado fraco para que o reconheça, ajuda-me a não te ouvir, tu calada e distante, afagando os meus cabelos, dando-me o colo que não passa, escutando outros ruídos.
Reergo-me com a vontade de terminar este amor que não começa, porque não foi feito para acabar, somos apenas eu e tu, mais tu que eu, porque tens o corpo pesado e doído desses barcos que sempre aproam; olho-te e já não te vejo. partiste dalgum lugar para me procurares onde já não estou; somos dois e nenhum, porque marquei lugar donde agora vieste e chego tarde, sem chave, batendo devagar.
Acordas e abres-me a porta.

18.11.09

Linha da Vida



Esta linha ténue
que divide os dois lados da vida,
atormenta-me e rompe-me as amarras,
crescem-me porquês
no meio dos braços
e o peito mudo
ri.

Este arame que atravessa a vida
e me desafia,
balança comigo
sem me deixar cair,
ténue e frágil
como todos os caminhos
estreitos
onde a luz demora a passar.

Nas caras com rostos fechados,
leio as rugas escritas
no sangue e no suor
dos pés que se escapam
de outras linhas
outros arames
onde se balançam,
onde há sempre feridos e mortos
contados na necrologia disfarçada
da folha do diário.

Nesta linha ténue
imprevisível
inevitavelmente frágil
perene
onde cruzamos nossa estrada
fica sempre um olhar
ensombrado
que me pergunta
onde está o lado
que não escolhi.

6.11.09

Razões de ti (3)





É no teu corpo que sinto que se passa algo de verdadeiramente normal. quando te abraço, e a tua recusa vem na defesa que fazes dos teus lábios, em ter de te buscar mais fundo, e amarrar ao meu corpo esse volume intenso e fresco dos teus seios presos, contidos.
Nem as minhas mãos se permitem a um inocente passeio na curiosidade do desejo cada dia mais forte.
Há uma promessa de que o destino virá para nos encontrar, e um dia haverá na calada de um qualquer lençol, a verdade das nossas vontades e desse calor imenso onde me permito ser culpado de sorriso nos lábios.
Somos cada um e as nossas vidas e a irrepetível sede de um momento em que nos separamos delas e somos assim – nus – apenas seres sem raiz, vagabundos de uma procura que não tem rosto, porque se enrola nessa mesma procura.
Não há amanhã nos retratos, são apenas fotos “á la minute”, que se guardam para explicar momentos e são partida de histórias que se contam, caladas.
Sinto no teu sorriso a tal vontade, o precioso sentido de um ligeiro calor que me roça os dedos, de um olhar que se entrega sem testemunhas, de um espaço de terra onde apenas aportamos e escondemos o nosso tesouro.
Depois, como falcão, vigio o teu horizonte, e espraio o olhar. Á minha frente, pressinto a espera e deixo que o entardecer caia, que o Sol volta todos os dias.

28.10.09

Poemas de Ti (19)




Do acordar de ti
serena
deslumbrante
nasce a incontida ternura
que se abre nos meus olhos.
quando acordo.

Sabe-me a ti,
e à mais simples e feliz
história,
que começa
no tremor
dos meus lábios,
e das palavras
que nunca serão
e se transformam
neste lento hábito
de me deixar ficar
dormindo
sabendo-me a ti..

23.10.09

Poemas de Ti (18)




No mistério dos afectos
inexplicáveis
que se debruçam sobre ti,
e te encontram
quase nua,
envolta em pequenos pedaços
de desejo,
é nesta breve cantata
de solene toque
sagrado,
que me dispo e me disponho
para ti;
e me imolo em teu altar
nu, - que o calor me guarda
sentindo no pulsar
das artérias, roxas,
onde aventuro,
ser teu e te querer
desenhado em poucos traços
neste lençol
onde nos pomos
à mão da louca sina
que nos talha
como amantes de outra vida,
donde viemos mesmo agora
que o futuro nos falou.

2.10.09

Coisas desta vida




No cirandar das coisas mais estranhas
que me envolvem,
serpentes lentamente me abraçando,
adivinho a certeza
dos teus braços que se estendem,
e agarram as minhas causas
mais profundas.
Há pormenores e detalhes
tão acesos
que tenho os olhos doridos,
apenas de abrir a alma
e os entender.
É como, se de um beijo se tratasse,
no recorte dos teus lábios tão perfeitos,
ondulando em sorrisos
naturais.
São fins de tarde quentes
sem final,
és tu
talvez sou eu,
nos livros que desfolho
arrepiado,
quando escuto na insónia
a canção,
parado, olhando, extasiado,
este mundo enorme
onde nascemos
com sentido;
mais forte, que a morte,
que há um banco em qualquer
estrada,
onde paramos
e ficamos à conversa com a vida.

30.9.09

Poema de ti (17)


Os momentos são da vida,
breves,
outros longos;
uns quentes,
outros que me atiram
de encontro à vontade de correr
sorvendo este vento
que me seca as lágrimas – invisíveis.
Perco de vista esses teus olhos
apenas os sinto
e imagino
como se podem dar da mesma forma
ingénua, apaixonada,
a outros momentos
que não os nossos.
No balcão – o café frio,
desistiu de me tentar,
devolvo-me ao sofá,
inerte, vazio
do teu espaço,
descontraído, grená.
Olho os meus pés
como se não me pertencessem,
decompostos;
já não quero correr,
nem iludir estes falsos momentos
onde os lamentos
me secam a alma,
recolho-os
espalho-os na mesa
e sorrio,
és sempre tu que sobressai
és sempre tu
num próximo momento.

Razões de ti (2)


Apanho as tuas palavras que voam na minha cabeça, não quero entendê-las, basta que as sinta, basta que elas permaneçam, e me envolvam, como o teu perfume, embriagando-me, soltando os desejos presos na couraça dos dias desbotados, das tardes frias e ventosas.
Devolvo-te o meu peito, onde foste soberana, rainha de um reino, agora vencido e perdido, e nada mais resta que o esqueleto de uma memória feliz.
Passas por mim, e olhas-me na certeza de um fim já decidido, retribuo com a frieza da aceitação e perturbo-me com a fortaleza da resignação.
Sento-me na minha mesa fiel, que me aceita em todos os momentos, e me oferece o refúgio onde pastoreio os meus rebanhos de pensamentos, palavras, actos e omissões, ladainhas brancas que se estendem pelas colinas pastando até ao pôr do sol.
Na vidraça, percebo o calor húmido destes dias quentes que me arrasam, queria a chuva forte esses aguaceiros de Outono que trazem o cheiro a terra misturado com o silêncio desta luz cinzenta do fim da tarde. Fecho os olhos e inspiro violentamente, percebo a razão das razões, um fio de sol chegou à beira dos meus dedos, sem o colher – impossível – aproveito-o enquanto há, sem futuro, sem passado, apenas quente, apenas assim.

21.8.09

Bastas tu


Basta que teus olhos me fitem
que a tua pele roce a minha
que a tua boca profira
a esperança de qualquer
coisa imperceptível,
que me dês um ínfimo
de tudo o que me deste,
que me estendas as tuas mãos
e me abraces,
que desperte outra vez o fogo
generoso das paixões incontidas,
dos sonhos postergados,
mas vivos.
Bastas tu…