18.12.09

Poemas de ti(20)




Sim, Amor
É o beijo que se acende
ergue-se vivo na minha boca
e declaro-me
na entrega do meu corpo
ao teu,
dou-me ao vento mistral
que me leve
sem condições
sem pactos,
sou a carne dos anos
por onde ando
nos desejos que não se cumprem
e na sede e na fome
morta a cada instante
nesse teu corpo -
travessa -
centro da mesa
onde me serves tua
e me aconchego
por fim
no sobranceiro gozo
de um licor final
e no momento que sobra
ainda intacto,
gozo a espera
de cada segundo
como se a eternidade
me condenasse
a entender-me apenas
em ti.

3.12.09

Razões de Ti (4)



Abres-me a porta, entro, com a cumplicidade que os silêncios sabem dizer melhor que mil palavras inventadas. na tua expressão quase inexpressiva, nesse vestido que nunca despes, na franqueza da vida aberta a cada bala que o tempo teima em disparar. Percebo a rotina dos dias, sou eu que chego e parto e te deixo pelos lados das paredes onde te penduro como memória de cada dia somado, de cada cama desfeita, dos beijos violentos e doces, irrepetíveis.
Quase que te percebo os nãos na ponta de cada lágrima, mascarada de um breve sorriso com que me guardas o casaco, com que me guardas. As tuas mãos penetram-me, bem dentro de mim, e fecho os olhos pronto para cada carícia, esse calor inenarrável que sinto quando me afagas os cabelos e deixas que o meu rosto se cole aos teus seios.
Na janela, na nossa janela por onde espreitamos a esquina de uma rua larga e esventrada, sabemos que o mundo passa, não pela vista, mas por sairmos e a procurarmos. São dela os passos de quem a calcorreia, e cada rosto leva no peito o Sol e o Vento que a rua empresta; não nos tocamos, apenas passamos do lado dos outros, como um exército aprumado de gente igual nas fardas, nos olhos que julgam ver da mesma cor. A janela está aberta, vem um som demasiado fraco para que o reconheça, ajuda-me a não te ouvir, tu calada e distante, afagando os meus cabelos, dando-me o colo que não passa, escutando outros ruídos.
Reergo-me com a vontade de terminar este amor que não começa, porque não foi feito para acabar, somos apenas eu e tu, mais tu que eu, porque tens o corpo pesado e doído desses barcos que sempre aproam; olho-te e já não te vejo. partiste dalgum lugar para me procurares onde já não estou; somos dois e nenhum, porque marquei lugar donde agora vieste e chego tarde, sem chave, batendo devagar.
Acordas e abres-me a porta.

18.11.09

Linha da Vida



Esta linha ténue
que divide os dois lados da vida,
atormenta-me e rompe-me as amarras,
crescem-me porquês
no meio dos braços
e o peito mudo
ri.

Este arame que atravessa a vida
e me desafia,
balança comigo
sem me deixar cair,
ténue e frágil
como todos os caminhos
estreitos
onde a luz demora a passar.

Nas caras com rostos fechados,
leio as rugas escritas
no sangue e no suor
dos pés que se escapam
de outras linhas
outros arames
onde se balançam,
onde há sempre feridos e mortos
contados na necrologia disfarçada
da folha do diário.

Nesta linha ténue
imprevisível
inevitavelmente frágil
perene
onde cruzamos nossa estrada
fica sempre um olhar
ensombrado
que me pergunta
onde está o lado
que não escolhi.

6.11.09

Razões de ti (3)





É no teu corpo que sinto que se passa algo de verdadeiramente normal. quando te abraço, e a tua recusa vem na defesa que fazes dos teus lábios, em ter de te buscar mais fundo, e amarrar ao meu corpo esse volume intenso e fresco dos teus seios presos, contidos.
Nem as minhas mãos se permitem a um inocente passeio na curiosidade do desejo cada dia mais forte.
Há uma promessa de que o destino virá para nos encontrar, e um dia haverá na calada de um qualquer lençol, a verdade das nossas vontades e desse calor imenso onde me permito ser culpado de sorriso nos lábios.
Somos cada um e as nossas vidas e a irrepetível sede de um momento em que nos separamos delas e somos assim – nus – apenas seres sem raiz, vagabundos de uma procura que não tem rosto, porque se enrola nessa mesma procura.
Não há amanhã nos retratos, são apenas fotos “á la minute”, que se guardam para explicar momentos e são partida de histórias que se contam, caladas.
Sinto no teu sorriso a tal vontade, o precioso sentido de um ligeiro calor que me roça os dedos, de um olhar que se entrega sem testemunhas, de um espaço de terra onde apenas aportamos e escondemos o nosso tesouro.
Depois, como falcão, vigio o teu horizonte, e espraio o olhar. Á minha frente, pressinto a espera e deixo que o entardecer caia, que o Sol volta todos os dias.

28.10.09

Poemas de Ti (19)




Do acordar de ti
serena
deslumbrante
nasce a incontida ternura
que se abre nos meus olhos.
quando acordo.

Sabe-me a ti,
e à mais simples e feliz
história,
que começa
no tremor
dos meus lábios,
e das palavras
que nunca serão
e se transformam
neste lento hábito
de me deixar ficar
dormindo
sabendo-me a ti..

23.10.09

Poemas de Ti (18)




No mistério dos afectos
inexplicáveis
que se debruçam sobre ti,
e te encontram
quase nua,
envolta em pequenos pedaços
de desejo,
é nesta breve cantata
de solene toque
sagrado,
que me dispo e me disponho
para ti;
e me imolo em teu altar
nu, - que o calor me guarda
sentindo no pulsar
das artérias, roxas,
onde aventuro,
ser teu e te querer
desenhado em poucos traços
neste lençol
onde nos pomos
à mão da louca sina
que nos talha
como amantes de outra vida,
donde viemos mesmo agora
que o futuro nos falou.

2.10.09

Coisas desta vida




No cirandar das coisas mais estranhas
que me envolvem,
serpentes lentamente me abraçando,
adivinho a certeza
dos teus braços que se estendem,
e agarram as minhas causas
mais profundas.
Há pormenores e detalhes
tão acesos
que tenho os olhos doridos,
apenas de abrir a alma
e os entender.
É como, se de um beijo se tratasse,
no recorte dos teus lábios tão perfeitos,
ondulando em sorrisos
naturais.
São fins de tarde quentes
sem final,
és tu
talvez sou eu,
nos livros que desfolho
arrepiado,
quando escuto na insónia
a canção,
parado, olhando, extasiado,
este mundo enorme
onde nascemos
com sentido;
mais forte, que a morte,
que há um banco em qualquer
estrada,
onde paramos
e ficamos à conversa com a vida.

30.9.09

Poema de ti (17)


Os momentos são da vida,
breves,
outros longos;
uns quentes,
outros que me atiram
de encontro à vontade de correr
sorvendo este vento
que me seca as lágrimas – invisíveis.
Perco de vista esses teus olhos
apenas os sinto
e imagino
como se podem dar da mesma forma
ingénua, apaixonada,
a outros momentos
que não os nossos.
No balcão – o café frio,
desistiu de me tentar,
devolvo-me ao sofá,
inerte, vazio
do teu espaço,
descontraído, grená.
Olho os meus pés
como se não me pertencessem,
decompostos;
já não quero correr,
nem iludir estes falsos momentos
onde os lamentos
me secam a alma,
recolho-os
espalho-os na mesa
e sorrio,
és sempre tu que sobressai
és sempre tu
num próximo momento.

Razões de ti (2)


Apanho as tuas palavras que voam na minha cabeça, não quero entendê-las, basta que as sinta, basta que elas permaneçam, e me envolvam, como o teu perfume, embriagando-me, soltando os desejos presos na couraça dos dias desbotados, das tardes frias e ventosas.
Devolvo-te o meu peito, onde foste soberana, rainha de um reino, agora vencido e perdido, e nada mais resta que o esqueleto de uma memória feliz.
Passas por mim, e olhas-me na certeza de um fim já decidido, retribuo com a frieza da aceitação e perturbo-me com a fortaleza da resignação.
Sento-me na minha mesa fiel, que me aceita em todos os momentos, e me oferece o refúgio onde pastoreio os meus rebanhos de pensamentos, palavras, actos e omissões, ladainhas brancas que se estendem pelas colinas pastando até ao pôr do sol.
Na vidraça, percebo o calor húmido destes dias quentes que me arrasam, queria a chuva forte esses aguaceiros de Outono que trazem o cheiro a terra misturado com o silêncio desta luz cinzenta do fim da tarde. Fecho os olhos e inspiro violentamente, percebo a razão das razões, um fio de sol chegou à beira dos meus dedos, sem o colher – impossível – aproveito-o enquanto há, sem futuro, sem passado, apenas quente, apenas assim.

21.8.09

Bastas tu


Basta que teus olhos me fitem
que a tua pele roce a minha
que a tua boca profira
a esperança de qualquer
coisa imperceptível,
que me dês um ínfimo
de tudo o que me deste,
que me estendas as tuas mãos
e me abraces,
que desperte outra vez o fogo
generoso das paixões incontidas,
dos sonhos postergados,
mas vivos.
Bastas tu…

28.7.09

Nas mãos desta cidade

Nas minhas mãos, escondo os teus sorrisos e os beijos que me pediste para guardar.

Na frente da janela, debruçado sobre as sardinheiras, contemplo o vazio azul deste rio que eternamente passa e se esquiva, calado, seguindo o seu destino. A rua tem o som triste da despedida, e o calor das casas, empurra-me para este banco onde me sento, os cotovelos doridos, o olhar perdido e errante na tua demanda.
Da rua, vem o cheiro das sardinhas no pequeno assador, onde o calor não tem corpo, e cada copo de vinho tinto escorre nas gargantas como o mote dos fados que hão-de vir mais tarde. Dois corpos entranham-se na parede caiada, colados pelos lábios, o mundo todo enredado nos braços. Sinto a nostalgia enfunar-se num sorriso, como um barco passando ao largo de um porto, sem pressa, sem vontade, vogando nas memórias, a bandeira do teu rosto desfraldada no vento.
Dou por mim cruzando as calçadas, mãos nos bolsos, o cigarro como leme, levando-me a cada taberna, a cada conversa sobre esta velha cidade, sobre o negro de cada casaco coçado e dos colarinhos desfeitos, desta gente que chega de sotaque, destes marinheiros que voltam a partir, e das conversas repetidas que acabam sempre com a mesma resposta – ninguém a vê, ninguém a viu.
Pelo meio da rua, acotovelo-me deste povo que acordou, os manjericos nas lapelas das pequenas casas onde ainda há traços de gente, o fumo dos cigarros conversando, os copos bailando ao som das gargalhadas, as pombas que já não se recolhem, confundidas desta noite que é mais dia, que os dias cinzentos que ficam na outra metade do relógio.
O meu mapa é certeiro no adivinhar das esquinas e das ruas por onde passeámos tantas vezes, nos dias em que a chuva beija a nossa cidade e as pedras da calçada são mais negras e brilhantes que os candeeiros acesos, transtornados desta luz nova que por ti passa em arrepio; e assim me chego outra vez a cada cantiga que me recorda os nossos beijos, a cada banco destes miradouros onde me perdi em silêncio, a este rio onde sempre cada homem desagua na procura incessante de um porto que nunca vai existir, porque já nasce dentro, cheio de redes, velas e cordame, que são esses teus olhos onde me sinto viajante, esses teus seios onde me amparo e imagino a tua pele macia e clara que me consola das vagas alterosas do tempo velho que nasce a cada dia.
E quando as luzes já não sobram, e os cotovelos rareiam, e os sons destes dias nos largam de mansinho, resta sempre uma pedra do cais para repousar os pés doridos, olhar as luzes do outro lado e perceber o calado de cada barco, de cada traineira trotando com as gaivotas, e sentir a tua mão doce e quente, que cabe à justa na palma da minha mão e tu inteira entras no meu coração, dando à cidade esta luz por onde sei o caminho por onde sempre me vou perder.

13.7.09

Àgua fresca


É de dentro desta terra
que me molda,
que jorra esta água fresca
inimitável
única, irrepetível.
Tal como os meus olhos
que te seguem,
e amam esse teu corpo
onde me dessedento
da tórrida claridade,
com que o tempo me escarnece,
e me mostra
do cimo das torres de marfim,
rios que não extravasam
dessas margens onde já correm
desde o dia
onde nascemos já escravos.
E hoje,
que os lábios se revoltam
e te pedem
que me estendas,
esse rio bravo e torrentoso
que guardas no profundo
do teu âmago,
é destes dias reclamados,
que faço do meu peito
a seara
onde te alimentas,
onde pronunciarás
sem medo,
o que sobrar dos nossos sentidos.

25.6.09

A saudade com que te desejo

foto de Lya Pansy


A minha saudade aumenta na proporção da intensidade com que te desejo. Há na interminável ausência de ti, uma impaciência violenta que me deixa perturbado, louco. Percebo a tua pele, no frio que alastra nos meus pulsos, nos meus olhos semi cerrados, insensíveis à luz que me vem dar os bons dias. Os meus livros estão espalhados pela casa, proscritos, indecifráveis das razões que tenho para os acariciar e lhes dar mimos, de lhes retribuir as palavras que me oferecem.
A irracional sede e fome dos humanos perfeitamente normais, não me pertence, prefiro lamber a humidade dos vidros, deixar a minha língua colada para que não perca a inigualável experiência de te ver chegar outra vez, assumo o meu estômago protestativo, implorando migalhas que o sustentem, como as migalhas do teu amor que caem por vezes dentro de mim.
É deste meu estado de ser que me mostro ao mundo, e nas ruas por onde penetro a cada dia, nas implacáveis rotinas que me aniquilam e nos olhos chorosos, emocionados, com que não entendo a dificuldade das mães que não beijam seus filhos ou de um pardal chapinhando sem mais razão que chapinhar; é dessa dificuldade que me livro nos versos deste não-tempo onde sonho com outras cores e outros sons, onde posso cantar sem abrir a boca e amar sem precisar de me justificar. Os homens saem das casa e das mulheres, o barulho das buzinas assola-me as orelhas, e o pão que falta já não é da mesma farinha de ontem. Hoje somos gente travestida de individualidade, de coisas únicas, de pertenças e valores que não são mais que códigos e juízos.
E é por isso que só te quero a ti, que te desejo nas cumplicidades de quem deixou os barcos, todos os barcos atracados e goza no porto de abrigo a sua paz de ficar. É por ti, que sou descrente dos templos onde olhamos todos para o mesmo lado, sem olhar os que nos estão ao lado, que configuro as minhas poucas palavras ao desejo de te sorver na boca todo o desejo que passa na forma como passeias as ancas e me entendes só pelo sentir. É por isso que tudo vem deste imaginário amor que me sustenta, que dá vida aos meus gestos, aos meus códigos, ao refrão de um poema único, sufragado nas ausências, perpetuado na minha vontade repetidamente cruel, de que quando deixares de não ser, já nem eu próprio saber quem eu sou.