30.9.09

Razões de ti (2)


Apanho as tuas palavras que voam na minha cabeça, não quero entendê-las, basta que as sinta, basta que elas permaneçam, e me envolvam, como o teu perfume, embriagando-me, soltando os desejos presos na couraça dos dias desbotados, das tardes frias e ventosas.
Devolvo-te o meu peito, onde foste soberana, rainha de um reino, agora vencido e perdido, e nada mais resta que o esqueleto de uma memória feliz.
Passas por mim, e olhas-me na certeza de um fim já decidido, retribuo com a frieza da aceitação e perturbo-me com a fortaleza da resignação.
Sento-me na minha mesa fiel, que me aceita em todos os momentos, e me oferece o refúgio onde pastoreio os meus rebanhos de pensamentos, palavras, actos e omissões, ladainhas brancas que se estendem pelas colinas pastando até ao pôr do sol.
Na vidraça, percebo o calor húmido destes dias quentes que me arrasam, queria a chuva forte esses aguaceiros de Outono que trazem o cheiro a terra misturado com o silêncio desta luz cinzenta do fim da tarde. Fecho os olhos e inspiro violentamente, percebo a razão das razões, um fio de sol chegou à beira dos meus dedos, sem o colher – impossível – aproveito-o enquanto há, sem futuro, sem passado, apenas quente, apenas assim.

21.8.09

Bastas tu


Basta que teus olhos me fitem
que a tua pele roce a minha
que a tua boca profira
a esperança de qualquer
coisa imperceptível,
que me dês um ínfimo
de tudo o que me deste,
que me estendas as tuas mãos
e me abraces,
que desperte outra vez o fogo
generoso das paixões incontidas,
dos sonhos postergados,
mas vivos.
Bastas tu…

28.7.09

Nas mãos desta cidade

Nas minhas mãos, escondo os teus sorrisos e os beijos que me pediste para guardar.

Na frente da janela, debruçado sobre as sardinheiras, contemplo o vazio azul deste rio que eternamente passa e se esquiva, calado, seguindo o seu destino. A rua tem o som triste da despedida, e o calor das casas, empurra-me para este banco onde me sento, os cotovelos doridos, o olhar perdido e errante na tua demanda.
Da rua, vem o cheiro das sardinhas no pequeno assador, onde o calor não tem corpo, e cada copo de vinho tinto escorre nas gargantas como o mote dos fados que hão-de vir mais tarde. Dois corpos entranham-se na parede caiada, colados pelos lábios, o mundo todo enredado nos braços. Sinto a nostalgia enfunar-se num sorriso, como um barco passando ao largo de um porto, sem pressa, sem vontade, vogando nas memórias, a bandeira do teu rosto desfraldada no vento.
Dou por mim cruzando as calçadas, mãos nos bolsos, o cigarro como leme, levando-me a cada taberna, a cada conversa sobre esta velha cidade, sobre o negro de cada casaco coçado e dos colarinhos desfeitos, desta gente que chega de sotaque, destes marinheiros que voltam a partir, e das conversas repetidas que acabam sempre com a mesma resposta – ninguém a vê, ninguém a viu.
Pelo meio da rua, acotovelo-me deste povo que acordou, os manjericos nas lapelas das pequenas casas onde ainda há traços de gente, o fumo dos cigarros conversando, os copos bailando ao som das gargalhadas, as pombas que já não se recolhem, confundidas desta noite que é mais dia, que os dias cinzentos que ficam na outra metade do relógio.
O meu mapa é certeiro no adivinhar das esquinas e das ruas por onde passeámos tantas vezes, nos dias em que a chuva beija a nossa cidade e as pedras da calçada são mais negras e brilhantes que os candeeiros acesos, transtornados desta luz nova que por ti passa em arrepio; e assim me chego outra vez a cada cantiga que me recorda os nossos beijos, a cada banco destes miradouros onde me perdi em silêncio, a este rio onde sempre cada homem desagua na procura incessante de um porto que nunca vai existir, porque já nasce dentro, cheio de redes, velas e cordame, que são esses teus olhos onde me sinto viajante, esses teus seios onde me amparo e imagino a tua pele macia e clara que me consola das vagas alterosas do tempo velho que nasce a cada dia.
E quando as luzes já não sobram, e os cotovelos rareiam, e os sons destes dias nos largam de mansinho, resta sempre uma pedra do cais para repousar os pés doridos, olhar as luzes do outro lado e perceber o calado de cada barco, de cada traineira trotando com as gaivotas, e sentir a tua mão doce e quente, que cabe à justa na palma da minha mão e tu inteira entras no meu coração, dando à cidade esta luz por onde sei o caminho por onde sempre me vou perder.

13.7.09

Àgua fresca


É de dentro desta terra
que me molda,
que jorra esta água fresca
inimitável
única, irrepetível.
Tal como os meus olhos
que te seguem,
e amam esse teu corpo
onde me dessedento
da tórrida claridade,
com que o tempo me escarnece,
e me mostra
do cimo das torres de marfim,
rios que não extravasam
dessas margens onde já correm
desde o dia
onde nascemos já escravos.
E hoje,
que os lábios se revoltam
e te pedem
que me estendas,
esse rio bravo e torrentoso
que guardas no profundo
do teu âmago,
é destes dias reclamados,
que faço do meu peito
a seara
onde te alimentas,
onde pronunciarás
sem medo,
o que sobrar dos nossos sentidos.

25.6.09

A saudade com que te desejo

foto de Lya Pansy


A minha saudade aumenta na proporção da intensidade com que te desejo. Há na interminável ausência de ti, uma impaciência violenta que me deixa perturbado, louco. Percebo a tua pele, no frio que alastra nos meus pulsos, nos meus olhos semi cerrados, insensíveis à luz que me vem dar os bons dias. Os meus livros estão espalhados pela casa, proscritos, indecifráveis das razões que tenho para os acariciar e lhes dar mimos, de lhes retribuir as palavras que me oferecem.
A irracional sede e fome dos humanos perfeitamente normais, não me pertence, prefiro lamber a humidade dos vidros, deixar a minha língua colada para que não perca a inigualável experiência de te ver chegar outra vez, assumo o meu estômago protestativo, implorando migalhas que o sustentem, como as migalhas do teu amor que caem por vezes dentro de mim.
É deste meu estado de ser que me mostro ao mundo, e nas ruas por onde penetro a cada dia, nas implacáveis rotinas que me aniquilam e nos olhos chorosos, emocionados, com que não entendo a dificuldade das mães que não beijam seus filhos ou de um pardal chapinhando sem mais razão que chapinhar; é dessa dificuldade que me livro nos versos deste não-tempo onde sonho com outras cores e outros sons, onde posso cantar sem abrir a boca e amar sem precisar de me justificar. Os homens saem das casa e das mulheres, o barulho das buzinas assola-me as orelhas, e o pão que falta já não é da mesma farinha de ontem. Hoje somos gente travestida de individualidade, de coisas únicas, de pertenças e valores que não são mais que códigos e juízos.
E é por isso que só te quero a ti, que te desejo nas cumplicidades de quem deixou os barcos, todos os barcos atracados e goza no porto de abrigo a sua paz de ficar. É por ti, que sou descrente dos templos onde olhamos todos para o mesmo lado, sem olhar os que nos estão ao lado, que configuro as minhas poucas palavras ao desejo de te sorver na boca todo o desejo que passa na forma como passeias as ancas e me entendes só pelo sentir. É por isso que tudo vem deste imaginário amor que me sustenta, que dá vida aos meus gestos, aos meus códigos, ao refrão de um poema único, sufragado nas ausências, perpetuado na minha vontade repetidamente cruel, de que quando deixares de não ser, já nem eu próprio saber quem eu sou.

11.6.09

50 anos

hoje,
que as palavras não me chegam,
e o múrmurio do cheiro
das coisas novas,
é apenas a novidade inparável
de cinquenta primaveras
conquistadas;
hoje que a surdez deste recato
me golpeou
e me olho no
espelho
incrédulo
descrente
inanimado
os meus olhos vêem tudo
sem diferença
apenas mais um dia
mais um pouco
deste rol de histórias
que pinto
na luz vespertina
do meu destino.

22.4.09

Poema de ti (XVI)



foto de YanMcline

Linda
como todas as mulheres devem ser,
o olhar distraído, enfrenta-me depois
penetrante
no entanto…
doce,
no suave perfil
de dois seios maduros
e dos teus gestos, gostos
onde me adivinho abraçado
onde me quero teu homem
e te devolvo na força
masculina – viril
essa tua essência
de mulher inteira.

Razões por ti



Há na vida, razões que me são estranhas, locais e paragens onde nunca irei, tempos que passam como se não passassem, e há dias que nasceram e morreram sem que acordasse do meu sono, e o sono fosse mais real no sonho que na realidade que omiti. Há na vida, gente que nunca se esquece, mesmo longe, mesmo na ausência dos olhares e das falas, gente que permanece guardada no coração, como se já não me pertencesse, gente que passa na vida e passa a vida sem que me toque. Depois existe a mágoa e a esperança, existem tempos e canções, existem as paixões cravadas no tempo e nas veias tingidas de um vermelho roxo, que me estremece e me confunde. Há no meu coração, uma mansão apalaçada de quartos e salas onde guardo cada uma das minhas memórias, mulheres de corpos inteiros e outros que apenas são lábios e seios, e há mulheres que são livros e outras que apenas são um poema bordado num pequeno papel de taberna, amarrotado com nódoas do vinho que bebeste. Nos quartos virados ao sol do amanhã, estás tu, olhos fechados, guardando o Sol que te enche, essa sensação inexplicável de mulher que sempre abre a porta a cada passo que dou, quando o coração me rói as entranhas e mergulho pelos cantos deste mundo que escrevo e sinto a cada minuto. Às vezes procuro-te, sempre sabendo que só tu me encontras, nesse teu jeito feliz de seres mulher, quando me deixas encaracolar teu cabelo nas minhas mãos, quando me ofereces os sorrisos das pequenas coisas que me dás, na ternura com que os teus nãos me parecem sins, no espanto de te esperar nas praças velhas, onde os sorrisos são verdadeiros e os velhos vivem o passado em presentes de paz e de paciência. Depois quando o mar chega na beira da minha procura, sinto-te veleiro onde quero arriscar uma bolina forte e sem terra à vista, e percebo que nunca serás porto de chegada, mas olharás as velas comigo entendendo o vento e as suas mudanças. Outras vezes és rio, e deixo-me conquistar, peço que me arrastes e ultrapasses e transponhas estas margens onde deixamos a pele agarrada. E é por ti, que me revolto e não me deixo desprender desta força rebelde, é por ti que as cidades continuam a ser verdade, e os passos dos homens têm sentido. È por ti, que escrevo, que as palavras transbordam desta razão pintada da solidão, dos pensamentos que não me respondem e das perguntas que fazem doer os braços, deste peso que a tua recusa me oferece. E é porque te entendo, que hoje te continuo a dar guarida, o teu quarto é sempre o que quiseres escolher.

28.3.09

Dôr

A minha dôr
doi-me,
perene, aguda,
impregna este ar
liberta
como o tempo
inesgotavel
e gasta-se
e gasta-me.
Antes fosse
estátua
de gesso branco e frio
impenetravel
de um gesto só.
a minha dor
é transparente
perfeita em seu mister
guardiã das minhas memórias
de me arranhar
cada pequeno pedaço
deste corpo desmembrado
orfão
onde a vontade jaz.
a minha dor é pombo de cidade
não voa nem se assoma
tem a violência
dos bruxedos
e nada faz
senão dor,
dor de doer.

Nua

Nua
tens a vulnerável aparência
que me faz fraco
Nua
os teus braços prendem-me
amarram-me
abraçam-me nesses teus grilhões
de desejo
e não sou mais que o teu barco
vogando
neste oceano de pele
e perfume - do teu cheiro.
Nua
olhas-me sabendo que te vejo
em corpo inteiro
e te saboreio no futuro
que vai sempre chegando
em cada gesto imaginado, não completo.
Nua
desenhas um traço nos teus lençóis
imaculados
fronteira dos pecados
por onde atravessas
a salto
os meus sentidos
que despertam e se ateiam em ti
Nua.

Perfeitamente igual

Este é um poema de amor
da cor dos outros
o mesmo formato
perfeitamente igual,
as palavras à volta
declarando-se, mudando
o Mundo
quando se escuta
e te percebo nos teus olhos.

Este é um poema de amor
perfeitamente igual
a todos os poemas de amor
e a todos os sons
desenhados no meio do teu peito.

Tem a imensidão de uma rua
que não se saberá jamais onde começa
e acaba,
tem a franqueza das gargalhadas
sem explicação - perfeitas
e é azul em todos os tons
de todos os mares
onde navegas.

Este é um poema de amor
perfeitamente unânime
dito em qualquer boca
que o quiser soltar

Este é apenas um poema
de amor
diferente -
que foi por ti que o escrevi.

18.3.09


Como se nada mudasse…

O Sol nasce todos os dias de forma diferente, o vento nunca nos beija com a mesma vontade nem com a mesma força, os dias nascem e morrem, sempre com indesmentíveis personalidades que os tornam únicos, até os nossos dedos têm uma marca que os distingue a todos, porém, eu quero que tudo se resolva na imutabilidade de um querer, de carregar até ao fim dos dias, como se nada mudasse, como se os cabelos e as rugas não se mexessem, que fôssemos sempre nós de forma permanente.
Quando digo quero, quero que se decrete a vontade na posse da minha absoluta autoridade, da minha independência, do que é meu – um meu de propriedade, registo de notário, força de lei – da minha própria lei. Travestido da exigência, sem perfumes, que o sabão azul e branco chega, mesmo que me queiras sorver a alma com um pequeno sorriso..
Peço como se desse ordens, declaro as opiniões, regalado no meu próprio silêncio, na minha cegueira. Vejo a todo o mundo e não me vejo a mim próprio. Sou mais cego que o obscuro breu dos becos onde nunca entrou um raio de sol..
Abro os olhos, esforço as pupilas, e apenas tu podes ser meu reflexo, meu lago calmo e vítreo que acompanha os meus movimentos, que me serve de eco e me fere os ouvidos. Antes me calasse. Antes te ouvisse e respondesse a mim próprio com a verdade dorida das feridas que não me cicatrizam.

17.2.09

Onde queres ir?


Estás à porta.
Abrando.
Paro.
Olhas-me.
Olho-te.
Entras.
Os meus olhos têm o desenho de uma interrogação.
Fico suspenso do teu som. Agudo. Pedindo que nada seja crónico.
Permito-me a esperar, a entender onde queres ir.
Vejo nas tuas mãos, escondidas, impacientes a frase mais injusta.
Apenas, tira-me daqui...
Arranco, sacudo-te.
Abro a janela, está fresco. Fecho - Não, abre, preciso de ar.
Repito, na minha impaciência - para onde vais?
Vejo nos teus olhos fechados, que estás a caminho do longe. Do não regresso.
És como um bebé deixado na porta, sem mensagem, sem destino, apenas deixado nos meus braços, na minha vida, sem mais que a minha vida, sem escolha.
Cheguei, onde sempre chego, quando parto sem destino, o rio sorri ao ver-me chegar, mostra-me as ondas, as rochas desdentadas e alegres conversam com as gaivotas, sem pressa.
Não tenho cigarros, não te abraço, não te ofereço perguntas. Sou apenas presença e tempo para que te amarres ao teu querer. Olhas-me e não me vês, não sabes o quanto já te amo, o quanto já me fundi na tua intensidade, na tua fuga, em quereres partir.
Se ao menos me dissesses onde te dói.
Ligo o rádio só para mim.
Pedes mais alto, e choras nos meus braços, ao início um choro baixo e envergonhado, depois pungente e soluçante, misericordiosamente retemperante.
Sorris.
Passou?
Não. Apenas pedes que volte, nada passou. Foi a chuva a parar.
Foi bom que a vida passasse.
Tudo tem um tempo, tudo tem uma explicação, um modo de ser. Abraço-te pelo momento, pela dádiva, pelo prazer de dar. Parto contigo e deixo-te no teu destino, nunca será ao teu destino, porque chorar, também precisa de viagens.