22.4.09

Razões por ti



Há na vida, razões que me são estranhas, locais e paragens onde nunca irei, tempos que passam como se não passassem, e há dias que nasceram e morreram sem que acordasse do meu sono, e o sono fosse mais real no sonho que na realidade que omiti. Há na vida, gente que nunca se esquece, mesmo longe, mesmo na ausência dos olhares e das falas, gente que permanece guardada no coração, como se já não me pertencesse, gente que passa na vida e passa a vida sem que me toque. Depois existe a mágoa e a esperança, existem tempos e canções, existem as paixões cravadas no tempo e nas veias tingidas de um vermelho roxo, que me estremece e me confunde. Há no meu coração, uma mansão apalaçada de quartos e salas onde guardo cada uma das minhas memórias, mulheres de corpos inteiros e outros que apenas são lábios e seios, e há mulheres que são livros e outras que apenas são um poema bordado num pequeno papel de taberna, amarrotado com nódoas do vinho que bebeste. Nos quartos virados ao sol do amanhã, estás tu, olhos fechados, guardando o Sol que te enche, essa sensação inexplicável de mulher que sempre abre a porta a cada passo que dou, quando o coração me rói as entranhas e mergulho pelos cantos deste mundo que escrevo e sinto a cada minuto. Às vezes procuro-te, sempre sabendo que só tu me encontras, nesse teu jeito feliz de seres mulher, quando me deixas encaracolar teu cabelo nas minhas mãos, quando me ofereces os sorrisos das pequenas coisas que me dás, na ternura com que os teus nãos me parecem sins, no espanto de te esperar nas praças velhas, onde os sorrisos são verdadeiros e os velhos vivem o passado em presentes de paz e de paciência. Depois quando o mar chega na beira da minha procura, sinto-te veleiro onde quero arriscar uma bolina forte e sem terra à vista, e percebo que nunca serás porto de chegada, mas olharás as velas comigo entendendo o vento e as suas mudanças. Outras vezes és rio, e deixo-me conquistar, peço que me arrastes e ultrapasses e transponhas estas margens onde deixamos a pele agarrada. E é por ti, que me revolto e não me deixo desprender desta força rebelde, é por ti que as cidades continuam a ser verdade, e os passos dos homens têm sentido. È por ti, que escrevo, que as palavras transbordam desta razão pintada da solidão, dos pensamentos que não me respondem e das perguntas que fazem doer os braços, deste peso que a tua recusa me oferece. E é porque te entendo, que hoje te continuo a dar guarida, o teu quarto é sempre o que quiseres escolher.

28.3.09

Dôr

A minha dôr
doi-me,
perene, aguda,
impregna este ar
liberta
como o tempo
inesgotavel
e gasta-se
e gasta-me.
Antes fosse
estátua
de gesso branco e frio
impenetravel
de um gesto só.
a minha dor
é transparente
perfeita em seu mister
guardiã das minhas memórias
de me arranhar
cada pequeno pedaço
deste corpo desmembrado
orfão
onde a vontade jaz.
a minha dor é pombo de cidade
não voa nem se assoma
tem a violência
dos bruxedos
e nada faz
senão dor,
dor de doer.

Nua

Nua
tens a vulnerável aparência
que me faz fraco
Nua
os teus braços prendem-me
amarram-me
abraçam-me nesses teus grilhões
de desejo
e não sou mais que o teu barco
vogando
neste oceano de pele
e perfume - do teu cheiro.
Nua
olhas-me sabendo que te vejo
em corpo inteiro
e te saboreio no futuro
que vai sempre chegando
em cada gesto imaginado, não completo.
Nua
desenhas um traço nos teus lençóis
imaculados
fronteira dos pecados
por onde atravessas
a salto
os meus sentidos
que despertam e se ateiam em ti
Nua.

Perfeitamente igual

Este é um poema de amor
da cor dos outros
o mesmo formato
perfeitamente igual,
as palavras à volta
declarando-se, mudando
o Mundo
quando se escuta
e te percebo nos teus olhos.

Este é um poema de amor
perfeitamente igual
a todos os poemas de amor
e a todos os sons
desenhados no meio do teu peito.

Tem a imensidão de uma rua
que não se saberá jamais onde começa
e acaba,
tem a franqueza das gargalhadas
sem explicação - perfeitas
e é azul em todos os tons
de todos os mares
onde navegas.

Este é um poema de amor
perfeitamente unânime
dito em qualquer boca
que o quiser soltar

Este é apenas um poema
de amor
diferente -
que foi por ti que o escrevi.

18.3.09


Como se nada mudasse…

O Sol nasce todos os dias de forma diferente, o vento nunca nos beija com a mesma vontade nem com a mesma força, os dias nascem e morrem, sempre com indesmentíveis personalidades que os tornam únicos, até os nossos dedos têm uma marca que os distingue a todos, porém, eu quero que tudo se resolva na imutabilidade de um querer, de carregar até ao fim dos dias, como se nada mudasse, como se os cabelos e as rugas não se mexessem, que fôssemos sempre nós de forma permanente.
Quando digo quero, quero que se decrete a vontade na posse da minha absoluta autoridade, da minha independência, do que é meu – um meu de propriedade, registo de notário, força de lei – da minha própria lei. Travestido da exigência, sem perfumes, que o sabão azul e branco chega, mesmo que me queiras sorver a alma com um pequeno sorriso..
Peço como se desse ordens, declaro as opiniões, regalado no meu próprio silêncio, na minha cegueira. Vejo a todo o mundo e não me vejo a mim próprio. Sou mais cego que o obscuro breu dos becos onde nunca entrou um raio de sol..
Abro os olhos, esforço as pupilas, e apenas tu podes ser meu reflexo, meu lago calmo e vítreo que acompanha os meus movimentos, que me serve de eco e me fere os ouvidos. Antes me calasse. Antes te ouvisse e respondesse a mim próprio com a verdade dorida das feridas que não me cicatrizam.

17.2.09

Onde queres ir?


Estás à porta.
Abrando.
Paro.
Olhas-me.
Olho-te.
Entras.
Os meus olhos têm o desenho de uma interrogação.
Fico suspenso do teu som. Agudo. Pedindo que nada seja crónico.
Permito-me a esperar, a entender onde queres ir.
Vejo nas tuas mãos, escondidas, impacientes a frase mais injusta.
Apenas, tira-me daqui...
Arranco, sacudo-te.
Abro a janela, está fresco. Fecho - Não, abre, preciso de ar.
Repito, na minha impaciência - para onde vais?
Vejo nos teus olhos fechados, que estás a caminho do longe. Do não regresso.
És como um bebé deixado na porta, sem mensagem, sem destino, apenas deixado nos meus braços, na minha vida, sem mais que a minha vida, sem escolha.
Cheguei, onde sempre chego, quando parto sem destino, o rio sorri ao ver-me chegar, mostra-me as ondas, as rochas desdentadas e alegres conversam com as gaivotas, sem pressa.
Não tenho cigarros, não te abraço, não te ofereço perguntas. Sou apenas presença e tempo para que te amarres ao teu querer. Olhas-me e não me vês, não sabes o quanto já te amo, o quanto já me fundi na tua intensidade, na tua fuga, em quereres partir.
Se ao menos me dissesses onde te dói.
Ligo o rádio só para mim.
Pedes mais alto, e choras nos meus braços, ao início um choro baixo e envergonhado, depois pungente e soluçante, misericordiosamente retemperante.
Sorris.
Passou?
Não. Apenas pedes que volte, nada passou. Foi a chuva a parar.
Foi bom que a vida passasse.
Tudo tem um tempo, tudo tem uma explicação, um modo de ser. Abraço-te pelo momento, pela dádiva, pelo prazer de dar. Parto contigo e deixo-te no teu destino, nunca será ao teu destino, porque chorar, também precisa de viagens.

10.2.09

A tua presença




Perturba-me
saber-te,
encontrar-te na interminável
persistência
com que desafias os meus sentidos
e tanges na minha pele
essa tua marca
pessoal e intransmissível
com que envolves
o nosso dia;
Não consigo disfarçar
a tua existência,
entras no minha quota
de oxigénio
e respiro-te
em qualquer sentido onde vá,
como se a contra mão,
não fosse senão um sinal
sem sentido,
a estrada que me leva
que me indica este destino
pleno
de um fado cantado
nas horas onde já me despedi
de mim.
Acabo sentado neste miradouro
donde me vejo
e percebo nesse rio onde cabemos
a força de me entrares
na garganta
e pronunciar mudo
o teu nome a tempo inteiro.

4.2.09

A Chuva


A chuva
vem com as nuvens,
rio que desagua
nos olhos,
cinzentos.
O sol acorda,
e sabe-me bem esfregar os olhos,
e perdurar no desejo
de me agarrar a esta luz
que amo - benfazeja.
Agarro os pedaços de luz
fugidos deste rio interminável
desaguado destas nuvens
cinzentas
carregadas,
O Inverno perdura,
indomável
a chuva dança com o vento
fustiga
depois sai de palco,
nem sei se volta,
nem me importa,
é água
sempre água.

23.1.09

Olhar


foto de Denise Savergnini

Olho o horizonte, longínquo
mas é dentro de mim
que vejo,
Os olhos ardem-me
desta insónia
longa, penetrante.
Queria dormir,
experimentar esquecer
num hiato
onde passe ao lado
das dores longas da vigília.
Tenho os nós dos dedos
marcados das memórias
do arrependimento
e carrego com eles
as mãos com que te deixei
partir.
Olho no profundo dos teus olhos
nada mexe,
nem o vento se desacorda;
percebo o teu olhar vestido
doutros olhares
o sol escaldando a tua pele
onde já fui pleno
homem
e te amei.
Olho-te
na proporção da dor
com que estás longe,
rebentam-me as águas
neste choro parido
do abandono.
Já sou eu outra vez,
recomposto
direito,
afinal, nada se passa,
foi só um olhar,
apenas olhar.

16.1.09

História


História

È na forma como te sentas junto a mim
no teu ombro que se funde no meu
no teu olhar quente que me trespassa,
que me torno contador
das histórias que te apetecem.
Não preciso inventar,
bastas-me tu e o teu rosto
de traços definidos e simples,
no gosto de te ver,
na ternura de estender meus dedos
e prender-te a mim.
Rodopio no teu corpo
na beira desse banco
onde nos temos,
apenas lábios presos
e mãos vagabundas
nem corpo
nem desejo,
somos a história mil vezes contada
sem música
nem chão,
apenas (às vezes) um pressentimento
uma leve brisa,
um momento sem âncora,
um movimento sem onda,
somos uma história
com a singela vontade
das coisas intermináveis,
onde morremos
sem destino,
sem caminho,
na borda desse banco
onde a história somos nós.

19.12.08

Declaro




Declaro-te o meu amor,
crio em ti o colo,
onde me recolho
e sossego,
porque sorriste
quando te disse – amo-te.
Nos meus olhos
soltou-se o brilho
das auroras
resplandecentes
e os meus braços
são pontes novas, abertas
para que as margens se beijem
interminavelmente.
Também te amo -
respondes
e beijas-me,
tocas-me, possuis-me
e no nascer de mais um momento
feliz.
reclamas de mim
a vontade de nos querermos
de reentregar
e entender
o quanto é bom
sabermos
amar.
E na simplicidade
dos mortais sem pressa,
assim permanecemos, sem mais.

Dia 25


foto de Lia Pansy

Um dia
um motivo -
um monstro
de olhos vermelhos
dissimulados
em sacos
em rostos de afogueio
coisas inúteis,
papéis, ilustrados.
E o senhor, o que deseja -
são os votos
sinceros
de vazios
do ano que passa
e do que vem;
e o mesmo desdém que não passa
da azia destes dias
de bolos e de tolos,
e do vinagre nas batatas
sem fio,
de uma consoada
reparada
por um dia
onde te deixo ficar
estendida
para além da hora certa.
um dia
um vinte e cinco
um Dezembro
sem neve
sem sol,
apenas dia
repetido - esquecido
que fere de tanto lembrar.
Nem me lembro
se foi por ti que passei,
apenas me lembrei
do teu presente
ausente,
deste motivo
deste sorriso
de um menino
que já velho se tornou.

4.12.08

Poemas de ti (15)


foto de José Almeida


Se ao bater na tua porta,
sentir os teus passos a
chegar;
e na luz que te empurra
para mim,
ouvir esta canção
que é só de ti.
Se eu souber escrever
as melodias
que vestem esta voz
que nunca fala,
direi tudo o que tu és -
sempre som,
da palavra amor -
soletrada.