21.10.08

Sentidos


Olho,
sinto,
penso
escuto,
não sou mais
que uma vela branca
pronta a perder-se
no teu fogo
que pressinto
que sopro
que guardo;
sou irmão de
uma bruma
que chega perdida
e se tolda
num cheiro húmido
matinal
clareando as rosas
que se deixam
cheirar;
sou todos os sentidos
colhidos num ramo
de flores
que compro numa praça
com cheiro a violetas.
saiu-me o dia
para te querer,
para me confundir
neste baptismo de orações
decoradas a ouvir
a música que
me lembra
dos nossos dias,
e das cidades desmaiadas
grossas - violências
que os avós deixaram aos netos
para jantarem sós.
quero os teus passos suaves no meu corpo
e um chão
em segredo
onde me deixe estar
e olhe,
sinta e pense e
nada mais escute
senão mil poemas
que falem de ti.

13.10.08

Não sei escrever sobre o amor


Não sei escrever senão sobre o amor, lamechas, confidente, pensado e louco, violento na sua amargura, perfeitamente doce e simétrico nas horas das mãos dadas e das palavras caladas que tudo dizem. Remeto-me ao inconsciente das palavras que procuro e percebo como é mais forte a ausência do amor.
Há uma continuidade no sofrimento do explicável, a sensação do vazio de quem não tem, a angustiante e agonizante revolta do que vemos e não temos, a revolta de não querermos daqueles que nos gostam e de querermos sempre de quem não nos gosta.
O Amor tem um Q maiúsculo agarrado, um Q de querer, de posse, como um alfinete de dama, pronto a não se deixar cair, nem a ventos nem a borrascas. O amor transforma-nos em fidalgos abastados, possuidores.
O nosso amor tem muitas vezes a figura dos rendeiros, que nos enchem e nos alimentam, e ao qual nada mais damos senão o coração para que o cultivem e reguem e façam brotar o trigo e o centeio verde, que logo se faz louro e pão e vida.
Por vezes detesto o Amor, de tão rigoroso e missionário, de tão verdadeiro. Como por vezes seria melhor apenas o sexo, apenas a carcaça que se usa ou se evita, apenas a vontade irresistível de despir e vestir quem por nós passa. O Amor assassina os voláteis e cobra à paixão, anos de escravidão, chama-lhe puta e vaca e não a deixa passar da porta. A paixão dorme no celeiro, com o cheiro das bestas, e o odor das saias de roda ainda quentes que se baixam quando o barulho de quem chega, surpreende e descobre.
O Amor é demasiado sério, é feito de carne e sangue e cheira aos neurónios afogados em entendimento e compreensão, em visões que mais ninguém percebe, em sons que nunca ninguém escutou.
De repente há palavras que passam, que me pressentem e viram os narizes apenas para dizer que passam. Vão para o colóquio no sítio mais fino da cidade das letras, levam com elas os textos sérios e importantes sobre o resto da vida. Comigo, bebendo um copo, acachapados nessas cadeiras de verga, sobre uma mesa de metal velha e enferrujada, ficam os versos lamechas, lavados na sabonária dos instintos, mal pensados, sem dormir, que me enchem esta vida, onde nunca consigo falar de Amor.

30.9.08

Poema de ti 13




Porque me faltas,
corre-me pelo rosto
a saudade,
chega-me aos lábios
o sal,
sabor da tua falta
que me queima
e me conserva
arrecadado em ti

Estás por aí
sinto-te
cheiro a tua presença
como um cego
que pressente teus lábios
encerrados.

As minhas mãos aguardam-te
como cais
aguardando
as marés que trarão
os barcos,
como as mães
rebolando nos leitos
esperando os filhos
que tardam da noite.

Resta a agonia do desejo
e o olhar endoidecido
de te olhar
e te roubar
esse sabor
com que não me esqueço
de ti.

Poema de ti (14)





A força com que te amo
e te desejo,
é como árvore de raízes fortes
e profundas,
que cresce e não se abate
e se soergue,
às ventanias mais agrestes,
que escancaram
e rompem as portadas -
profanando-as -
deixando ao deus
que usas com desvelo,
a tarefa fácil de te amar,
e me deixar
guardado
para quando levantares os olhos
ao chão donde
cresço,
apenas no desejo
de te pertencer.

18.9.08

Poemas de Ti XII



No dealbar dos dias
quando os botões
das flores púrpuras e amarelas
vacilam,
e se fecham à claridade intensa
da lua;
e o sol por
momentos
se pinta da cor
que nunca nos atrevemos
a dizer;
nas vésperas
da surdez recolhida,
e dos dedos negros
sujos das tintas dos missais
e das histórias amordaçadas
amedrontadas:
- é nesse preciso tempo
que me deixo ficar
sentado a um canto,
imperceptível,
da minha janela alta
recolhida,
e rio das lágrimas
que se soltam
deste olhar que chora
por não te ver.

Poemas de Ti (XI)





Toco-te
sinto a textura que conheço,
e não te sinto…
na distância breve
onde te entreténs
nas palavras que trocas
- não comigo,
percebo
o quanto és maré vaza,
reconheço
que as minhas mãos se afundam
nas crateras que estes
bolsos
representam,
e afasto-me dos teus olhos,
sem descolar de ti
esta palavra aberta nos meus lábios,
pela vontade repetida
de te querer sem vontade..
Já não sou feito dos minutos
que te esperam,
tenho o trago e a tez
de um vinho maduro
duma planície em Outono
depois da monda,
sou um velho repleto de vazios,
vestido das memórias
que as camas onde te deitei
cicatrizaram;
e na verdade do teu cheiro
e na saudade do teu corpo,
repouso esta vontade
outrora saciada
hoje re –desejada.

4.9.08

A força do amor




A força com que te amo
e te desejo,
é como árvore de raízes fortes
e profundas,
que cresce e não se abate
e se soergue,
às ventanias mais agrestes
que escancaram,
e rompem as portadas
onde espero,
entres sempre
e permaneças
como ar fresco,
que respiro
sem que o veja,
mas sempre que falta
me afoga
na premência de o ter
a toda a hora.

23.7.08

Agora


foto de José d'Almeida

Agora que o sol repousou
sobre um mar rendido
e que as flores se fecharam
abraçadas;
agora que as bruxas acordam
trocando feitiços,
e a chuva se esmaga nas vidraças
dançando elegante
como se o mundo todo chorasse.
Agora
que te vi percorrendo
cada rua
com um sorriso generoso
nesse rosto
inesquecível,
e que as tuas mãos
se oferecem a outro destino,
a outros abraços.
Agora que os velhos repousam
no esquecimento dos dias doridos
e o suor seca por si
escorrida das têmporas dos
que chegam e já partem,
agora que os livros se fecham
marcados num canto
deixando nas páginas cicatrizes
indeléveis;
agora que o tempo se esgota
num mundo sempre cheio de fins
de destinos sem roda,
de homens de cátedra
e de catres onde os homens se perdem;
agora que as mulheres se soltam
nas lantejoulas
que iluminam as vielas onde a vida
se ganha e perde.
Agora entendo,
Que há tempo para sempre ser agora.

16.7.08

Sombra



Digo das sombras
o que as sombras dizem de mim.
Olho-as sempre da mesma cor,
eu tenho as cores que a sombra vê
e a forma como elas deslizam,
e quando mexo
a sombra mexe comigo,
como uma consciência
um clone
uma história,
que arrastamos atrás
como mortos vivos
arrastando correntes,
a nossa memória.
Fecho os dedos
e o desenho da mão é um quadrado
e o meu chapéu
é cabeça
não tenho linhas
apenas limites sombreados,
e tudo o que junto
a mim
é a minha sombra -
não separa
não ordena
apenas é sombra,
antes reflexo
que é mais claro;
antes espelho
que é mais luz;
mas é sombra
é escuro
e é tudo o que sou
e que tenho
e que mexo
na vontade do sol,
só de dia
que na noite
a sombra sou mesmo eu.

15.7.08

O Medo


Não é da noite que tenho medo
mesmo cega,
mesmo muda,
mesmo que a geada tolha e quebre
o calor com que espero
o sol regresse.
Nem tenho medo do vento
mesmo quando aparece
desabrido
imprevisto
assolando o meu peito – violento,
rude e mortal.
Não temo os punhos fechados
abatendo-se na minha cabeça
rasgando-me os lábios
quebrando os ossos.
Não é das cidades fechadas
que me escondo,
das árvores moribundas
das ruas cobertas
de gente submissa, imprópria,
nem dos rostos tapados
que queimam os olhos mais claros
os que olham mais longe
e sabem chorar.
Do que tenho medo
e me apavora,
é de mim
quando te perco na bruma
densa
das palavras desentregues,
e não te acho
quando dou por mim acordado
a caminho de lugares
onde não chegas.
Do que tenho medo
é dos braços caídos
que te deixam ir embora
quando te agarram e levam
e tu vais, sem que eu diga não,
sem brigar com o medo.
Do que tenho medo
é apenas, de
não ter medo,
de te perder.

4.7.08

Os nossos momentos


É noite quando chegas, acabei de chegar também. Sinto o teu cheiro do fim do dia, sabe-me às manhãs acabadas de nascer. Ainda não olhei os teus olhos, e já não tenho vontade de olhar sem que os veja.
Por fim, estamos de olhos fitados, percebo que teus lábios se abrem, num ligeiro sorriso, fruto do mesmo prazer com que me entrego na tua boca. Foi bom deixarmos de fumar, dizes, na simplicidade das coisas que se dizem, quando já os olhos disseram o resto. Estamos frente a frente, as mãos estendidas e entregues. Não se escuta nada, o tempo parece perdido nestes minutos onde apenas estamos, como uma bolsa de ar encontrada quando parecemos já sufocar.
Ainda aí estás!? – perguntas, e o teu rosto inclina-se ao mesmo tempo, que os olhos brilham, o teu cabelo caindo a meio do rosto.
Não respondo, puxo-te para o meu peito, suavemente, sabendo que vens, e que o nosso abraço não tem fome nem sede, apenas é um abraço. Sem palavras, sem murmúrios, apenas porque precisamos. Na sala inundada de fotos, estão as nossas vidas, e assim, apoiado em teu ombro, tenho tempo de saber que a vida passa, e que sempre me surpreende, que o tempo é movimento disformemente acelerado, sem espaços de perdão, sem tempo para voltar.
Fazes-me falta, digo-te quando voltamos do abraço e te olho, e te vejo olhar.
Um banho a dois, já?
Sim, um banho que nos sacuda e acorde, e nos faça amar…
Os nossos momentos, dizes.
Os nossos momentos, repito.

12.6.08

Intensa solidão


foto de: Jorge Casais
Na intensa solidão que se espraia nestas ruas infinitas, descanso as mãos nas folhas brancas e entrego-me nas letras negras, elegantes, absolutas. Lembro-me de ti, das sensações tomadas por verdade, em cada cheiro, em cada memória, nas ternas imagens que persigo dos teus gestos quentes, do nosso passado projectado em dias vivos onde esperávamos a noite para estendermos nossos corpos e nos enlaçarmos, como esculturas perfeitas de um molde único.
Sou o poeta dos pequenos momentos, dando-lhes a cor das grandezas, das mulheres que são princesas quando ousam deixar-se fitar, e dizem com os olhos, que estão guardadas para quem as ame e as queira como mulheres.
Na imensidão dos segundos em que sossego e me repito de desejos, olho as janelas que me devolvem o negro da noite, e confio-lhes a acalmia estranha de quem convive com os dias que já chegaram e me deixaram mais velho. Não pertenço a nenhuma geração, nem sou da história, apenas invento a minha própria, inundada do que tenho e do que não me pertenço. As histórias passam atrás de nós, e pela frente, como sombras dançando com a luz, indo e regressando, como a dor e a alegria, o calor e o frio, tu e tu e mais tu.
Nem preciso que me abraces, apenas que digas que tens vontade de o fazer. Rodas diante de mim, a tua saia de roda baila, escondendo e revelando as tuas coxas esculpidas, apertando os teus seios nessa tua blusa que faz imaginar histórias ainda mais belas. Ás vezes apenas no prazer de contemplar. Ás vezes num poema que vai mais longe que as mãos e os olhos semi cerrados.
Ao fim, despeço-me das letras, sabendo que vou voltar a elas e enche-las de tudo o que passa à frente dos meus pensamentos, dos meus dias possuídos neste corpo que me traz por aqui, e donde saio para poder voar e ver-te, em todos os lados onde tu ficas, imensamente, esperando por mim…