4.9.08

A força do amor




A força com que te amo
e te desejo,
é como árvore de raízes fortes
e profundas,
que cresce e não se abate
e se soergue,
às ventanias mais agrestes
que escancaram,
e rompem as portadas
onde espero,
entres sempre
e permaneças
como ar fresco,
que respiro
sem que o veja,
mas sempre que falta
me afoga
na premência de o ter
a toda a hora.

23.7.08

Agora


foto de José d'Almeida

Agora que o sol repousou
sobre um mar rendido
e que as flores se fecharam
abraçadas;
agora que as bruxas acordam
trocando feitiços,
e a chuva se esmaga nas vidraças
dançando elegante
como se o mundo todo chorasse.
Agora
que te vi percorrendo
cada rua
com um sorriso generoso
nesse rosto
inesquecível,
e que as tuas mãos
se oferecem a outro destino,
a outros abraços.
Agora que os velhos repousam
no esquecimento dos dias doridos
e o suor seca por si
escorrida das têmporas dos
que chegam e já partem,
agora que os livros se fecham
marcados num canto
deixando nas páginas cicatrizes
indeléveis;
agora que o tempo se esgota
num mundo sempre cheio de fins
de destinos sem roda,
de homens de cátedra
e de catres onde os homens se perdem;
agora que as mulheres se soltam
nas lantejoulas
que iluminam as vielas onde a vida
se ganha e perde.
Agora entendo,
Que há tempo para sempre ser agora.

16.7.08

Sombra



Digo das sombras
o que as sombras dizem de mim.
Olho-as sempre da mesma cor,
eu tenho as cores que a sombra vê
e a forma como elas deslizam,
e quando mexo
a sombra mexe comigo,
como uma consciência
um clone
uma história,
que arrastamos atrás
como mortos vivos
arrastando correntes,
a nossa memória.
Fecho os dedos
e o desenho da mão é um quadrado
e o meu chapéu
é cabeça
não tenho linhas
apenas limites sombreados,
e tudo o que junto
a mim
é a minha sombra -
não separa
não ordena
apenas é sombra,
antes reflexo
que é mais claro;
antes espelho
que é mais luz;
mas é sombra
é escuro
e é tudo o que sou
e que tenho
e que mexo
na vontade do sol,
só de dia
que na noite
a sombra sou mesmo eu.

15.7.08

O Medo


Não é da noite que tenho medo
mesmo cega,
mesmo muda,
mesmo que a geada tolha e quebre
o calor com que espero
o sol regresse.
Nem tenho medo do vento
mesmo quando aparece
desabrido
imprevisto
assolando o meu peito – violento,
rude e mortal.
Não temo os punhos fechados
abatendo-se na minha cabeça
rasgando-me os lábios
quebrando os ossos.
Não é das cidades fechadas
que me escondo,
das árvores moribundas
das ruas cobertas
de gente submissa, imprópria,
nem dos rostos tapados
que queimam os olhos mais claros
os que olham mais longe
e sabem chorar.
Do que tenho medo
e me apavora,
é de mim
quando te perco na bruma
densa
das palavras desentregues,
e não te acho
quando dou por mim acordado
a caminho de lugares
onde não chegas.
Do que tenho medo
é dos braços caídos
que te deixam ir embora
quando te agarram e levam
e tu vais, sem que eu diga não,
sem brigar com o medo.
Do que tenho medo
é apenas, de
não ter medo,
de te perder.

4.7.08

Os nossos momentos


É noite quando chegas, acabei de chegar também. Sinto o teu cheiro do fim do dia, sabe-me às manhãs acabadas de nascer. Ainda não olhei os teus olhos, e já não tenho vontade de olhar sem que os veja.
Por fim, estamos de olhos fitados, percebo que teus lábios se abrem, num ligeiro sorriso, fruto do mesmo prazer com que me entrego na tua boca. Foi bom deixarmos de fumar, dizes, na simplicidade das coisas que se dizem, quando já os olhos disseram o resto. Estamos frente a frente, as mãos estendidas e entregues. Não se escuta nada, o tempo parece perdido nestes minutos onde apenas estamos, como uma bolsa de ar encontrada quando parecemos já sufocar.
Ainda aí estás!? – perguntas, e o teu rosto inclina-se ao mesmo tempo, que os olhos brilham, o teu cabelo caindo a meio do rosto.
Não respondo, puxo-te para o meu peito, suavemente, sabendo que vens, e que o nosso abraço não tem fome nem sede, apenas é um abraço. Sem palavras, sem murmúrios, apenas porque precisamos. Na sala inundada de fotos, estão as nossas vidas, e assim, apoiado em teu ombro, tenho tempo de saber que a vida passa, e que sempre me surpreende, que o tempo é movimento disformemente acelerado, sem espaços de perdão, sem tempo para voltar.
Fazes-me falta, digo-te quando voltamos do abraço e te olho, e te vejo olhar.
Um banho a dois, já?
Sim, um banho que nos sacuda e acorde, e nos faça amar…
Os nossos momentos, dizes.
Os nossos momentos, repito.

12.6.08

Intensa solidão


foto de: Jorge Casais
Na intensa solidão que se espraia nestas ruas infinitas, descanso as mãos nas folhas brancas e entrego-me nas letras negras, elegantes, absolutas. Lembro-me de ti, das sensações tomadas por verdade, em cada cheiro, em cada memória, nas ternas imagens que persigo dos teus gestos quentes, do nosso passado projectado em dias vivos onde esperávamos a noite para estendermos nossos corpos e nos enlaçarmos, como esculturas perfeitas de um molde único.
Sou o poeta dos pequenos momentos, dando-lhes a cor das grandezas, das mulheres que são princesas quando ousam deixar-se fitar, e dizem com os olhos, que estão guardadas para quem as ame e as queira como mulheres.
Na imensidão dos segundos em que sossego e me repito de desejos, olho as janelas que me devolvem o negro da noite, e confio-lhes a acalmia estranha de quem convive com os dias que já chegaram e me deixaram mais velho. Não pertenço a nenhuma geração, nem sou da história, apenas invento a minha própria, inundada do que tenho e do que não me pertenço. As histórias passam atrás de nós, e pela frente, como sombras dançando com a luz, indo e regressando, como a dor e a alegria, o calor e o frio, tu e tu e mais tu.
Nem preciso que me abraces, apenas que digas que tens vontade de o fazer. Rodas diante de mim, a tua saia de roda baila, escondendo e revelando as tuas coxas esculpidas, apertando os teus seios nessa tua blusa que faz imaginar histórias ainda mais belas. Ás vezes apenas no prazer de contemplar. Ás vezes num poema que vai mais longe que as mãos e os olhos semi cerrados.
Ao fim, despeço-me das letras, sabendo que vou voltar a elas e enche-las de tudo o que passa à frente dos meus pensamentos, dos meus dias possuídos neste corpo que me traz por aqui, e donde saio para poder voar e ver-te, em todos os lados onde tu ficas, imensamente, esperando por mim…

26.5.08

Desespero


foto de Regina Lafay

Tenho o desespero
à minha espera.
Arrumo na bagagem
memórias
destes dias em que o mundo
me entretém,
visões do que me falta
para partir.
Não está frio,
deixo a capa pendurada
e saio a porta
para um encontro
a cada hora anunciado.
Ainda é noite
ainda há tempo
para outro rumo
e os caminhos abrem-se
pedindo aos meus passos
que escolham.
Encosto-me na ombreira
da porta
olhando-te…
Volto a casa
o gelo na espinha
o gato fitando-me
a luz apagada,
sei de cor onde está a capa
pendurada…
O desespero espera.

21.5.08

No calor dos corpos colados

No calor dos corpos colados, no fim de nos termos, a tua pele carmesim, encosta-se a mim, o teu cheiro chega-se, embrenha-se na mistura dos dois. Sinto o doce toque da tua mão no meu corpo, e devolvo teu toque, tocando-te, sentindo teus poros arrepiados. No teu olhar, adivinho os teus segredos que me contas, disponível, dada. Na sala toca jazz, baixinho, adormecendo-nos. O teu corpo continua escaldante, meu. Olho-te irrepetivelmente e na doçura que cresce por entre nossos lábios, deixo os meus desejos, que cumpres, como ordens de um rei a quem te entregas vassala. Os teu riso contagia-me, somos felizes assim, rindo do que temos e do que somos, amando-nos e dando ao torpor dos nossos corpos a melodia singela de um amor que se prolonga em surdina. Depois adormeces, cansada, exausta, feliz… extasio-me na contemplação de ti, dormindo. E eu então adormeço, guardando-te em meu corpo, para depois acordar em teus lábios, que me chamam.

Dor



A Dor não tem peso nem medida,
a dor acolhe-se
em cada palácio
como em qualquer catre,
é de todos
e é só minha.
A dor
aparece às oito no jornal
e aparece quando não apareces
e sai à rua, e bebe uns copos
à conversa com a solidão.
A dor
é das bandeiras a meia-haste
e dos mudos
que se calam e a guardam.
A dor é parida e dói mais
dos filhos já partidos.
A dor
vem das guerras fardadas
dos títulos póstumos
nas medalhas penduradas
a dor vira as costas
à vitória
abraça a derrota
e jorra nas lágrimas
dos meninos
que a choram por fome
e dos que a choram sem saber
e dos que a não têm
por lhes faltar força para a segurar.
A dor está nas gargantas
que morrem à sede
e dos que morrem da água que jorra
sem cessar.
A dor é um poema inacabado
um desespero
um não
e um sim.
A dor fecha portas
a quem não tem dor e lhe dói,
a dor dói
na vastidão de um fim
que não se avista
e dos cegos que querem ver
e dos que vêem e nada são.
a dor permanece
e a cada um dá seu quinhão
nos amigos que se perdem
e de quem não os tem
a dor é a fatia de pão
a dor é só dor,
há-de passar

Ao teu lado


A teu lado…

Ao teu lado,
paralelo às tuas mãos
que me agarraram
outrora,
com a firmeza
que a paixão fortalece…
ao teu lado
percebo a infinita distância
que resta,
ao teu lado,
já não, do teu lado…

5.5.08

Tempo raro





Os sentidos enganam-me
levam-me a lugares
onde não estive,
relembram-me os dias
que são dos teus braços,
onde a brisa
passa pela tardinha
antes mesmo que escureça,
e o tempo
a que nos entregamos
é do tamanho do infinito,
raro
que não passa
nem se gasta
nem ousa morrer.

11.4.08

O meu não


Não,
dizes-me não, como se decidisses
o que o mundo tem a fazer.
Não me olhas nem percebes,
dizes e improperas
teus próprios sons.
De mim solta-se a raiva
que o desespero gera.
Queria ter o poder
que te fizesse não estar,
tenho os traços visíveis
de um tipo cansado,
da inépcia amarga,
gelo enrijecido
que deixa imóvel as vontades.
Já não te olho,
já não te sinto,
és corpo estranho e disforme
num odor de que me afasto
nefasto
execrável –
detesto-te!
…e fazes com que me deteste
por ficar aqui,
gemendo,
rebentando por dentro,
dessas mãos porcas
com que me tapas a boca
e manuseias a tua figura
limpa e contida,
que roça a minha vida
por aquilo que preciso.
por aquilo que me tenho
e não posso deixar
neste meu caminho.