4.7.08

Os nossos momentos


É noite quando chegas, acabei de chegar também. Sinto o teu cheiro do fim do dia, sabe-me às manhãs acabadas de nascer. Ainda não olhei os teus olhos, e já não tenho vontade de olhar sem que os veja.
Por fim, estamos de olhos fitados, percebo que teus lábios se abrem, num ligeiro sorriso, fruto do mesmo prazer com que me entrego na tua boca. Foi bom deixarmos de fumar, dizes, na simplicidade das coisas que se dizem, quando já os olhos disseram o resto. Estamos frente a frente, as mãos estendidas e entregues. Não se escuta nada, o tempo parece perdido nestes minutos onde apenas estamos, como uma bolsa de ar encontrada quando parecemos já sufocar.
Ainda aí estás!? – perguntas, e o teu rosto inclina-se ao mesmo tempo, que os olhos brilham, o teu cabelo caindo a meio do rosto.
Não respondo, puxo-te para o meu peito, suavemente, sabendo que vens, e que o nosso abraço não tem fome nem sede, apenas é um abraço. Sem palavras, sem murmúrios, apenas porque precisamos. Na sala inundada de fotos, estão as nossas vidas, e assim, apoiado em teu ombro, tenho tempo de saber que a vida passa, e que sempre me surpreende, que o tempo é movimento disformemente acelerado, sem espaços de perdão, sem tempo para voltar.
Fazes-me falta, digo-te quando voltamos do abraço e te olho, e te vejo olhar.
Um banho a dois, já?
Sim, um banho que nos sacuda e acorde, e nos faça amar…
Os nossos momentos, dizes.
Os nossos momentos, repito.

12.6.08

Intensa solidão


foto de: Jorge Casais
Na intensa solidão que se espraia nestas ruas infinitas, descanso as mãos nas folhas brancas e entrego-me nas letras negras, elegantes, absolutas. Lembro-me de ti, das sensações tomadas por verdade, em cada cheiro, em cada memória, nas ternas imagens que persigo dos teus gestos quentes, do nosso passado projectado em dias vivos onde esperávamos a noite para estendermos nossos corpos e nos enlaçarmos, como esculturas perfeitas de um molde único.
Sou o poeta dos pequenos momentos, dando-lhes a cor das grandezas, das mulheres que são princesas quando ousam deixar-se fitar, e dizem com os olhos, que estão guardadas para quem as ame e as queira como mulheres.
Na imensidão dos segundos em que sossego e me repito de desejos, olho as janelas que me devolvem o negro da noite, e confio-lhes a acalmia estranha de quem convive com os dias que já chegaram e me deixaram mais velho. Não pertenço a nenhuma geração, nem sou da história, apenas invento a minha própria, inundada do que tenho e do que não me pertenço. As histórias passam atrás de nós, e pela frente, como sombras dançando com a luz, indo e regressando, como a dor e a alegria, o calor e o frio, tu e tu e mais tu.
Nem preciso que me abraces, apenas que digas que tens vontade de o fazer. Rodas diante de mim, a tua saia de roda baila, escondendo e revelando as tuas coxas esculpidas, apertando os teus seios nessa tua blusa que faz imaginar histórias ainda mais belas. Ás vezes apenas no prazer de contemplar. Ás vezes num poema que vai mais longe que as mãos e os olhos semi cerrados.
Ao fim, despeço-me das letras, sabendo que vou voltar a elas e enche-las de tudo o que passa à frente dos meus pensamentos, dos meus dias possuídos neste corpo que me traz por aqui, e donde saio para poder voar e ver-te, em todos os lados onde tu ficas, imensamente, esperando por mim…

26.5.08

Desespero


foto de Regina Lafay

Tenho o desespero
à minha espera.
Arrumo na bagagem
memórias
destes dias em que o mundo
me entretém,
visões do que me falta
para partir.
Não está frio,
deixo a capa pendurada
e saio a porta
para um encontro
a cada hora anunciado.
Ainda é noite
ainda há tempo
para outro rumo
e os caminhos abrem-se
pedindo aos meus passos
que escolham.
Encosto-me na ombreira
da porta
olhando-te…
Volto a casa
o gelo na espinha
o gato fitando-me
a luz apagada,
sei de cor onde está a capa
pendurada…
O desespero espera.

21.5.08

No calor dos corpos colados

No calor dos corpos colados, no fim de nos termos, a tua pele carmesim, encosta-se a mim, o teu cheiro chega-se, embrenha-se na mistura dos dois. Sinto o doce toque da tua mão no meu corpo, e devolvo teu toque, tocando-te, sentindo teus poros arrepiados. No teu olhar, adivinho os teus segredos que me contas, disponível, dada. Na sala toca jazz, baixinho, adormecendo-nos. O teu corpo continua escaldante, meu. Olho-te irrepetivelmente e na doçura que cresce por entre nossos lábios, deixo os meus desejos, que cumpres, como ordens de um rei a quem te entregas vassala. Os teu riso contagia-me, somos felizes assim, rindo do que temos e do que somos, amando-nos e dando ao torpor dos nossos corpos a melodia singela de um amor que se prolonga em surdina. Depois adormeces, cansada, exausta, feliz… extasio-me na contemplação de ti, dormindo. E eu então adormeço, guardando-te em meu corpo, para depois acordar em teus lábios, que me chamam.

Dor



A Dor não tem peso nem medida,
a dor acolhe-se
em cada palácio
como em qualquer catre,
é de todos
e é só minha.
A dor
aparece às oito no jornal
e aparece quando não apareces
e sai à rua, e bebe uns copos
à conversa com a solidão.
A dor
é das bandeiras a meia-haste
e dos mudos
que se calam e a guardam.
A dor é parida e dói mais
dos filhos já partidos.
A dor
vem das guerras fardadas
dos títulos póstumos
nas medalhas penduradas
a dor vira as costas
à vitória
abraça a derrota
e jorra nas lágrimas
dos meninos
que a choram por fome
e dos que a choram sem saber
e dos que a não têm
por lhes faltar força para a segurar.
A dor está nas gargantas
que morrem à sede
e dos que morrem da água que jorra
sem cessar.
A dor é um poema inacabado
um desespero
um não
e um sim.
A dor fecha portas
a quem não tem dor e lhe dói,
a dor dói
na vastidão de um fim
que não se avista
e dos cegos que querem ver
e dos que vêem e nada são.
a dor permanece
e a cada um dá seu quinhão
nos amigos que se perdem
e de quem não os tem
a dor é a fatia de pão
a dor é só dor,
há-de passar

Ao teu lado


A teu lado…

Ao teu lado,
paralelo às tuas mãos
que me agarraram
outrora,
com a firmeza
que a paixão fortalece…
ao teu lado
percebo a infinita distância
que resta,
ao teu lado,
já não, do teu lado…

5.5.08

Tempo raro





Os sentidos enganam-me
levam-me a lugares
onde não estive,
relembram-me os dias
que são dos teus braços,
onde a brisa
passa pela tardinha
antes mesmo que escureça,
e o tempo
a que nos entregamos
é do tamanho do infinito,
raro
que não passa
nem se gasta
nem ousa morrer.

11.4.08

O meu não


Não,
dizes-me não, como se decidisses
o que o mundo tem a fazer.
Não me olhas nem percebes,
dizes e improperas
teus próprios sons.
De mim solta-se a raiva
que o desespero gera.
Queria ter o poder
que te fizesse não estar,
tenho os traços visíveis
de um tipo cansado,
da inépcia amarga,
gelo enrijecido
que deixa imóvel as vontades.
Já não te olho,
já não te sinto,
és corpo estranho e disforme
num odor de que me afasto
nefasto
execrável –
detesto-te!
…e fazes com que me deteste
por ficar aqui,
gemendo,
rebentando por dentro,
dessas mãos porcas
com que me tapas a boca
e manuseias a tua figura
limpa e contida,
que roça a minha vida
por aquilo que preciso.
por aquilo que me tenho
e não posso deixar
neste meu caminho.

31.3.08

Na sombra de mim...


Dueto com Turtlemoon


I
Com os olhos molhados, reli mais uma vez o papel com vincos bem marcados, que já desdobrara dezenas de vezes: “… Escrevo-te agora com lágrimas de chuva e sorrisos de lua. Sei então que sou sempre tua”. – era assim que começava a carta que me enviaste.
Percebi nas palavras a urgência de nos termos, de largar este país tão longe, onde apenas podia ter as tuas palavras, o teu coração, a memória do teu cheiro, do inconfundível toque dos teus dedos, quando me davas a mão junto ao rio, e nos esquecíamos das horas, do frio, e sentíamos os sorrisos embalando o coração...
Continuei a ler: “… Quis ser água, em teu olhar: transparência de ti, chuva que se queda e te beija, desejo inconstante que tal como as marés, vai e vem, em laivos de loucura e ternura. Escrevo-te, assim, com as lágrimas doces de recordação. Sei que algures, na noite, sou a insónia da tua alma, o sonho do teu espírito e a inquietude do teu corpo…”
Senti na alma o quanto aquele texto me deixava o corpo arrepiado. Percebi a intensa proximidade das nossas almas e corpos, o quanto cada palavra revelava da incontida urgência de amar, de transpor em cada gesto a química inexplicável da paixão, a respiração profunda e ofegante dos que se querem e se amam nos instantes entre um e o próximo, sem quebras sem intervalos.
Dei comigo a telefonar para a agência: necessitava de um bilhete de avião que levasse meu corpo para onde o coração já tinha partido, faz tempo. Arrumei tudo o que precisava - quase nada - e rumei rapidamente ao aeroporto, com um SMS pelo meio: vou a caminho de ti, dos teus braços, dos teus beijos - nos meus olhos só tu repousas, em breve seremos felizes...
Já no avião, desdobrei pela enésima vez a tua carta, e reli as tuas palavras: “… Como se a felicidade não fosse também feita de sonho e imaterialidade... Esqueceste-te de mencionar que a pressa é a da impulsividade, o comboio é o do desejo e o bilhete é o da esperança?!
Sim, por que na verdade, és náufrago na doce chuva que te inunda, e percorre, em paixão mas estás preso ao teu alpendre, magnífico de amor, que te faz refém em trajecto de recordação, assim são as verdadeiras amarras do teu coração...E as águas do teu rio desaguam na profundidade do meu mar, subtilmente velado pela magia do vento, expresso nas lágrimas de chuva e nos sorrisos de lua. Serei sempre tua...fantasia...mistério..e emoção, enquanto a música cantar…”

II
Deitados na cama, exaustos da espera e do frenesim próprio das cidades, foi mais uma vez naquele pequeno canto do céu, que nos deixámos ficar, quietos, dormentes, suados do desejo completo, dos nossos corpos dados, do reencontro dos gestos só nossos, das palavras que apenas os teus ouvidos escutaram, da chuva que caiu apenas para nós de encontro à vidraça, numa melodia que nos abraçou e se reflecte nos teus olhos, nas fantasias que só a mim ousas deixar para que as desenhe no teu corpo.
Rompemos os dias e as noites, num murmúrio quente, deixamos que nossos olhos se encontrem, sem perceber as linhas do teu rosto, apenas nos olhamos e fixamos os momentos, porque na memória não haverá espaço para um poema tão grande.
Amo-te… oiço.
Amo-te – digo, e amamo-nos outra vez, na irrepetível energia dos amantes, como se o amanhã não viesse e a madrugada perdurasse em nós…
Nos teus olhos havia um sorriso do tamanho do Mundo, entraste na minha alma enquanto me segredavas:
Meu amor, escuta a agitação do mundo lá fora, e a dos nossos corações, feita de lugares que se agitam, repousam e entrecruzam, como ondas a bailar em labirinto de mistério, irrepetibilidade e poesia...
Dizes-me dos dias onde não nos pertencemos, lembra-te um suspiro, ao vento! E confessas: - embora a madrugada, oniricamente, me faça tua (pretensa) amada, sei apenas que sou anjo que te inspirou, na parte de ti que desertou, da rotina vazia que mecaniza a tua acção e te restringe a um espaço sufocante em tempo errante...
Agarras-me, sem pudor, no calor das palavras que me transportam como coração de chuva em essência de lua.
Psssttt’, escuta os ecos que gritam "amor", em contornos de impossibilidade e dor...Onde estás, afinal?
Olho nos teus olhos abrindo-me, esventrando-me para ti, e estou aí nas tuas mãos, estou no Vento que sussurra este amor imperceptível, nos pedaços de papel abandonados aos cantos das mesas onde te espero e escrevo a minha pressa, estou no raio de sol que me aquece e não se compara ao conforto dos teus seios, nem à doçura do teu pescoço, onde me perco em beijos longos e calmos. Estou na chuva louca que intimida as vidraças, nos temporais que me assustam da força, que parece tão ténue quando me lembro de como te quero e desejo. Estou por aqui, nos livros onde procuro as palavras que te possam dizer, que te possam descrever, e que apenas se desenham nos traços, nas marcas do rosto, que dizem tudo. Estou por aqui, onde não me ouves, onde não me vês, onde não me sentes, e continuas solene e firme na convicção do teu desejo. Estou por aqui, mesmo ao teu lado, nesta viagem que nunca soubemos donde partiu, nem queremos saber onde um dia acabará.

III
No começo da tarde, dou por ti sentada no alpendre. Dizes-me que te refugias na sombra de mim para que, na quietude da madrugada e no silêncio aparente que me cerca, possas ouvir-me a chamar-te...
- Mas como me escutas – pergunto-te?
É como se fosse um sussurro, ou um grito de alma, não sei; às vezes és desespero e solidão, outras, tão somente, desejo e paixão em destino incerto, és o meu longe e o meu perto.
- E quando te sentiste sozinha? Como te pude deixar, meu amor?
Serenamente, pegas na minha mão e respondes - Abrigo-me diante do mar e fundo-me, em praia...
Um dedo em meus lábios pede que me cale – e continuas:
- Schiuuu, escutas o marulhar? é a minha forma de beijar, como se fosse onda em teu forte, réstia de espuma em teus lábios assim, humedecidos.
Sentes a maresia? É o odor simultaneamente forte, e suave, emanado de corpos fundidos, em areal, assim rendidos. E por isso te aguardo, como anjo de poesia, imbuído de magia.
Quando não estás - Esbato-me, no horizonte, como imagem de solidão mas intensificas a minha presença num elo de sonho misteriosamente descrito na posse das lágrimas e no enlace do sorriso. Vela-te a lua, salpica-te a chuva, sou eu...
E tu, luz que de mim se perdeu?!...
Respondo-te com o coração cheio:
Envolvo-te, rendo-me a ti, e é na sombra onde me perco de ti, que encontro a vontade de te olhar, de cuidar de te tocar sem que o percebas, de trespassar os ódios e os medos que te querem magoar. É na sombra da luz que de ti se perdeu, que deixo os meus olhos abertos e te escuto cantando, que te vejo a dançar, e no teu rosto, encontro o sorriso gémeo da felicidade de te haver. Olho as garças que planam, percebo na aragem tépida o fim da tarde, e a penumbra que chega e me abraça. Deixo que a luz me esqueça e brilhe no teu lado, onde mais tarde ou mais cedo nos espantaremos de outro dia novo, das descobertas das pequenas coisas, das histórias que nos sentam no chão, e nos deixam ficar abraçados, quentes.
Depois meu amor, depois ficamos, com a aventura dos dias que passam um de cada vez, das coisas simples, vestidas do encantamento, e deste destino que nos faz encontrar na praça apenas para nos encontrarmos, e chorarmos e rirmos e nos amarmos outra vez.


FIM

27.3.08

Crónica da Chegada


foto de Judith Tomaz

O tempo cinzento, anunciava a chuva que certamente cairia com o avançar da tarde. Na minha frente, bandos de pardais esqueciam-me de ti, generosos no seu esvoaçar, como loucos, tocando o céu, e em pique procurando o chão e o sustento. As árvores frondosas, bailavam majestosas, elegantes, falando das coisas sábias que as memórias cuidam e guardam. Um cigarro adormecido nos dedos, repetido, esfumava-se na espera, e percebia no fumo, o sentido único dos meus olhos vermelhos, cansados de te esperar. Faltavas-me…
Não sei se foi o teu perfume, se os teus passos que chegaram primeiro e acordaram o meu sorriso, e me fizeram soerguer com a vontade de não lembrar o que já não dói, nem faz sentido. Tu estavas…
Olhei-te com o desvelo de um amante, sedento de ti, faminto do teu corpo, e tu percebeste que chegaras…
E o teu corpo e o meu, voaram. E nos momentos todos que colhemos, fomos um e outro num só, como se o desejo guardado irrompesse, como um rio trespassando os diques mais altos, e na torrente apenas quiséssemos que a foz fosse o destino, onde chegávamos sem destino, que não o que traçámos. E ao chegar, ficámos…

26.3.08

Princesa




No encontro do teu rosto
nesse beijo que me acha
depois da distância vencida
no mistério que perdura
e flui dos teus lábios
como palavra passe
que não me confias.
Deixas-me na entrada do teu
castelo
e insisto em te chamar
princesa
quem sabe, um dia
hás-de franquear teus
ferrolhos
e estender-me a mão,
para entrar nesse teu salão
pronto a encher-se
dos tesouros que só para ti
guardo.

20.3.08

Hoje

foto de Lia Pansy

Hoje meu amor
não te digo nada,
apenas calo
e olho perdido, absorto,
as ruas estendidas
diante dos meus passos.
Hoje meu amor,
o vento trouxe
o odor da carne queimada,
derretida, nas mãos ensebadas
do unto dos gordos,
dos que tudo guardam
dos secos que tudo secam,
dos cegos que nada vêem
dos surdos que nada escutam,
macacos do
circo geral,
dos bancos circulares,
tábuas gastas,
onde me sento
e observo.
Hoje meu amor,
sou apenas terreiro
onde as batalhas
se perfilam
e fuzilam os raios
do sol,
sou um regaço árido
onde
nada nasce,
e os rios fogem
cinzentos, cor do nada
nauseabundos
dos meus restos,
caminho dos navios fantasmas
que me levam a
nenhures.
Hoje por fim,
escondo o rosto
e arrefeço as mãos
neste
grito
das vozes caladas, simples
dos lamentos de mães
das dores e
volúpias pagas
das pegas
que custam mais que o pão
que não tenho nem
como.
Hoje meu amor
não te acordo
neste desabafo,
apenas fico e
retrato
o que não entendo
nem faço.