14.3.08

Rasgo as folhas


foto de Lia Pansy
Rasgo e amasso
as folhas
que escrevo de ti,
rasgo-as,
amarroto estes poemas doces,
onde procuro as palavras
como se fossem tesouros
perdidos
raros,
Hoje sou apenas
um cofre
de agonia e medo,
manchados dos dias e das noites,
os lábios trémulos
encharcados
dos pingos que a tristeza
faz cair,
pelos olhos mortiços
apagados,
das vidas a prazo.
Hoje acabam-se as melodias
suaves
quentes,
sou a camisa
rota, encardida,
o frio das camas
por onde se vê a lua,
e os risos cínicos
dos medrosos
prostrados
no seu prato de ouro,
servido no chão.
Hoje rebento os livros
solto as linhas
que douram as lombadas
e sou um dos que ninguém sabe,
que faz as contas
do que não chega.
Rasgo e destruo
tudo,
o que possa esconder
a mentira,
para depois, enfim,
voltar.

28.2.08

Chegaste



O livro caiu-me das mãos, ainda agora o devorava entusiasmado, e o disco que tocava, emudeceu rendido. Nas ruas já não rebentam as vozes dos inquietos e dos injustiçados, e o autocarro urgente das tantas e tais já passou apressado sem que eu o queira. A chuva caiu e o Sol voltou, como se nunca nada acontecesse, e os tachos ficaram ao lume aquecendo um jantar adiado. Não, não reguei as flores, nem vesti nenhuma das roupas que me prendiam na escolha decisiva. nem me sentei para ver na TV o show que ficou a meio, nem a resposta à pergunta mais difícil, que um dia já não é importante. A memória perdeu-se, e o frio que ainda agora gelava os pés, e o suor que caía deste Estio esgotante e intenso, não são mais que apontamentos de outros dias. As janelas abertas de par em par, não batem nem se fecham, os sinais são de outras cores, nem vermelhos nem verdes, o amarelo não pisca, como meus olhos doridos, chorando, são agora faróis atentos, e os correios e as cartas já não são mais que objectos que se guardam e não se atendem, nem que o telefone toque colérico do desprezo que lhe entrego. O mar abraça-se à areia manso e calmo como se parasse para escutar. As histórias arrumaram-se em fila de espera, nem as palavras se importaram de ficar presas nos lábios, afinal tudo parou, apenas porque chegaste e te sentaste, bem perto de mim.

21.2.08

Chuva


foto de Wlady



Desperto do sono
a chuva cai abundante
como se nunca tivesse caído
desfraldando os becos
levantando os gatos
do sol que ainda há pouco
brincava.
A água turva-me a janela
onde o olhar
poisava
rouba-me o sorriso
do teu meneio
de ancas jovens, fortes
com que me embalava.
Cheira-me a terra adormecida
que se solta
e me abre as narinas
no respirar dos dias antigos,
onde nos deixávamos
possuir e gozávamos
encharcados, como nas histórias,
debruçados
no prazer de estarmos juntos,
possuindo
nosso amor
sem que as nuvens nos olhassem.
- Desperto da chuva
caindo no sono
como se nunca dormisse,
apenas sonhasse
e a chuva
caísse – abundante
e te deixasse
colada a mim.

Eternidade





Nas manhãs acetinadas
em que te oiço respirar
devagar
e aconchego o lençol
aos teus ombros nus,
demorando-me
no olhar com que me entrego
a ti,
desprendo-me do tempo
mergulho na eternidade
e permaneço,
e me arrumo,
colado a esse teu corpo
que nunca se aparta
deste desejo
de por aqui se ficar,
no silêncio e no gozo
do irrepetível.

18.2.08

Outro Prémio - este é da Rosa

O meu blogue recebeu ontem este prémio - "É um blog muito bom, sim senhora".





Este prémio foi-me oferecido pela Rosa, do blogue http://ocantodarosa.blogspot.com/

Rosinha muito obrigado pelo teu carinho e generosidade

As regras são:

1 - Este prémio deve ser atribuído aos blogs que considerem serem bons, entende-se como bom os blogs que costuma visitar regularmente e onde deixa comentários;

2 - Só e somente só se recebeu o 'É um blog muito bom sim senhora", deve escrever um post incluindo: a pessoa que lhe deu o prémio com um link para o respectivo blog; a tag do prémio; as regras; e a indicação de outros 7 blogs para receberem o prémio;

3 - Deve exibir orgulhosamente a tag do prémio no seu blog, de preferência com um link para o post em que fala dele;


Além de atribuir o prémio aos sete blogues que indico a seguir, recomendo que os leiam com atenção. Merecem este prémio.
Muitos outros poderia incluir... mas só podia escolher sete...
Aqui estão eles por ordem alfabética dos autores:

Cheia de tudo, Cheia de nada - http://cheiadetudocheiadenada.blogspot.com/
O canto da Rosa - http://ocantodarosa.blogspot.com/
PoesiaMGD - http://poesiamgd.blogspot.com/
Pétalas Minhas - http://petalasminhas.blogspot.com/
T u r t l e m o o n - http://turtlemoon1973.blogspot.com/
Mei Et Chihiro - http://meninas-a-prova.blogspot.com/
Tália - http://www.nectardaspalavras.blogspot.com/

Um Mimo da Vera


Respondendo ao desafio e agradecendo à Vera (http://prosas-e-versos.blogspot.com/) a distinção, aí vão os meus favoritos entre outros:


Jorge

7.2.08

Amar à desfilada


foto de: Elena Vasileva

Os teus cabelos,
caem no meu peito
trazendo esse teu ar quente
sôfrego
sofrido,
repetem-se molhados
suados
deixando a minha boca
emudecida,
desejando a eternidade
em cada toque da tua pele
nesse teu cheiro
que me embriaga a memória
e me faz testemunha.
da violência meiga das tuas coxas
que se empurram
encontrando meus quadris
onde desfilas em galope,
amazona do meu corpo.
Percorro as tuas pernas
como um vagabundo,
pernoito nas tuas esquinas
e tapo-me com os sorrisos
que me fazem teu:
E na força que nos toma.
E nos permite.
E nos torna louco sem limites.
- beijo as tuas lágrimas
que caem de dentro
deste amor impossível,
de marés revoltas
contra quebra-mares que nos
adoçam
e tornam teu mar
meu porto
minha dança,
na chuva morna
que cai de ti e provo
louco
do desejo de voltar.
E no fim,
quando o desejo se retempera
em abraços calados
sinto-te como se sente
a brisa fresca da tarde
chegando,
num sorriso,
nascido outra vez.

6.2.08

Dantes


foto de RAMARAGO

Os poemas já não são como eram
dantes,
doces,
embrulhados em papel fino,
em laços vermelhos
voluptuosos.
Os poemas andam azedos,
cortam-me os dedos
como o gelo do Inverno,
são burel que não tapa o frio,
são beijos
guardados nas mãos,
empunhadas
sustidas.
São restos de histórias,
ladainhas sem santos,
saldos presos à vontade de ter
mesmo sem querer.
Os poemas já não são como eram dantes,
voltam para partir
emigrantes
de raízes soltas,
hóstias sem bênção
pão sem sabor.
Os meus poemas navegam
nos lagos dos jardins
alugados à hora,
bastardos dos folhetins
sem fim,
sem consolo.
São poemas órfãos
vagabundos da noite
vigiando, guardados dos medos,
são poemas
com segredos
sem destino,
são poemas
sem livros sem estantes,
são instantes
embaraços desta vida,
são poemas
são pedaços,
de tanta palavra vivida.

31.1.08

Morte


foto de: Yan Wang

A morte
não é um corte,
isso é sorte
não, como a morte sempre é.
A morte
só de um golpe,
como quem adormece
e se esquece de acordar,
não é morte -
é só sorte.
Morte não é desejo
nem ensejo,
de quem se despede
e não mede
que nada acaba -
apenas tarda.
A morte
é a consorte
que nos acompanha,
e está presente
enquanto a alma sente,
que por viver
apenas sabe
que um dia
vai morrer,
nas coisas pequenas,
em quem não volta,
nas memórias apagadas,
nas mentiras atraiçoadas,
nos dias sem sentido,
no rosto empedernido,
do que parte, sem sentido.
A morte
não me faz forte
nem me dá sorte - apenas dorme
enquanto eu tenha sorte
de nela, não me abraçar.

24.1.08

Memória fugaz



Percorro os cantos
da memória,
a solidão cobre-me os ombros,
arrepiando-me em versos
cinzentos,
exilados.
Vens-me ao pensamento
Inundando
meu corpo, caminhando
para as noites profundas
na entrega do destino
da minha sorte.
Se ao menos ouvisse a tua
voz…
sussurrando as promessas
dos outros dias,
se te recordasse
quando coraste
com as rosas que te entreguei…

15.1.08

Dias à janela


foto de P. Bondackzuk
Os dias
despedem-se iguais
despem-se.
encobertos na noite
caída das brumas
das angústias de cada amante
que tarda.
O orvalho
assemelha-se a lágrimas
agarradas às janelas
quentes de dentro
do calor dos corpos
incendiados,
gelado de fora
do mundo atravessado
nas gargantas dos calados
dos mudos.
Os dias grandes são iguais
aos menores.
os dias são nossos
na voragem de tudo o que passa
e esquecemos por inteiro.
… E do que fica
e permanece agarrado aos olhos
e se entranha nas roupas
e nos cobre
todos os dias,
são as memórias
sábias
reservadas,
em momentos donos do tempo
curtos e breves,
guardados
como um beijo dado
junto ao entardecer,
prolongado no sabor -
- que guardo de ti
todos os dias.

5.1.08

Doce


Doce,
doce o olhar
que se percebe e gosta,
doce
como o vento norte,
como um imenso mar,
beijando o Sol
na vespertina tarde
avizinhada.

Vento das palavras


O vento sopra violento
não me conhece
não obedece,
resgata à minha pele
o calor que deixaste
lembrança e oferta
do frio que permanece.
Aqueço-me à memória
do teu olhar
inquietante,
trespassante,
janela aberta
que se fecha em palavras
intactas
que abro
desmembrando
em sons
entoados pelo meio do
tempo
que nos leva
como torrente incontida
chuva que brota
convulsiva
das mãos abertas
das dádivas mútuas
que só vê quem percebe
só quem escuta
pode contar.