7.2.08

Amar à desfilada


foto de: Elena Vasileva

Os teus cabelos,
caem no meu peito
trazendo esse teu ar quente
sôfrego
sofrido,
repetem-se molhados
suados
deixando a minha boca
emudecida,
desejando a eternidade
em cada toque da tua pele
nesse teu cheiro
que me embriaga a memória
e me faz testemunha.
da violência meiga das tuas coxas
que se empurram
encontrando meus quadris
onde desfilas em galope,
amazona do meu corpo.
Percorro as tuas pernas
como um vagabundo,
pernoito nas tuas esquinas
e tapo-me com os sorrisos
que me fazem teu:
E na força que nos toma.
E nos permite.
E nos torna louco sem limites.
- beijo as tuas lágrimas
que caem de dentro
deste amor impossível,
de marés revoltas
contra quebra-mares que nos
adoçam
e tornam teu mar
meu porto
minha dança,
na chuva morna
que cai de ti e provo
louco
do desejo de voltar.
E no fim,
quando o desejo se retempera
em abraços calados
sinto-te como se sente
a brisa fresca da tarde
chegando,
num sorriso,
nascido outra vez.

6.2.08

Dantes


foto de RAMARAGO

Os poemas já não são como eram
dantes,
doces,
embrulhados em papel fino,
em laços vermelhos
voluptuosos.
Os poemas andam azedos,
cortam-me os dedos
como o gelo do Inverno,
são burel que não tapa o frio,
são beijos
guardados nas mãos,
empunhadas
sustidas.
São restos de histórias,
ladainhas sem santos,
saldos presos à vontade de ter
mesmo sem querer.
Os poemas já não são como eram dantes,
voltam para partir
emigrantes
de raízes soltas,
hóstias sem bênção
pão sem sabor.
Os meus poemas navegam
nos lagos dos jardins
alugados à hora,
bastardos dos folhetins
sem fim,
sem consolo.
São poemas órfãos
vagabundos da noite
vigiando, guardados dos medos,
são poemas
com segredos
sem destino,
são poemas
sem livros sem estantes,
são instantes
embaraços desta vida,
são poemas
são pedaços,
de tanta palavra vivida.

31.1.08

Morte


foto de: Yan Wang

A morte
não é um corte,
isso é sorte
não, como a morte sempre é.
A morte
só de um golpe,
como quem adormece
e se esquece de acordar,
não é morte -
é só sorte.
Morte não é desejo
nem ensejo,
de quem se despede
e não mede
que nada acaba -
apenas tarda.
A morte
é a consorte
que nos acompanha,
e está presente
enquanto a alma sente,
que por viver
apenas sabe
que um dia
vai morrer,
nas coisas pequenas,
em quem não volta,
nas memórias apagadas,
nas mentiras atraiçoadas,
nos dias sem sentido,
no rosto empedernido,
do que parte, sem sentido.
A morte
não me faz forte
nem me dá sorte - apenas dorme
enquanto eu tenha sorte
de nela, não me abraçar.

24.1.08

Memória fugaz



Percorro os cantos
da memória,
a solidão cobre-me os ombros,
arrepiando-me em versos
cinzentos,
exilados.
Vens-me ao pensamento
Inundando
meu corpo, caminhando
para as noites profundas
na entrega do destino
da minha sorte.
Se ao menos ouvisse a tua
voz…
sussurrando as promessas
dos outros dias,
se te recordasse
quando coraste
com as rosas que te entreguei…

15.1.08

Dias à janela


foto de P. Bondackzuk
Os dias
despedem-se iguais
despem-se.
encobertos na noite
caída das brumas
das angústias de cada amante
que tarda.
O orvalho
assemelha-se a lágrimas
agarradas às janelas
quentes de dentro
do calor dos corpos
incendiados,
gelado de fora
do mundo atravessado
nas gargantas dos calados
dos mudos.
Os dias grandes são iguais
aos menores.
os dias são nossos
na voragem de tudo o que passa
e esquecemos por inteiro.
… E do que fica
e permanece agarrado aos olhos
e se entranha nas roupas
e nos cobre
todos os dias,
são as memórias
sábias
reservadas,
em momentos donos do tempo
curtos e breves,
guardados
como um beijo dado
junto ao entardecer,
prolongado no sabor -
- que guardo de ti
todos os dias.

5.1.08

Doce


Doce,
doce o olhar
que se percebe e gosta,
doce
como o vento norte,
como um imenso mar,
beijando o Sol
na vespertina tarde
avizinhada.

Vento das palavras


O vento sopra violento
não me conhece
não obedece,
resgata à minha pele
o calor que deixaste
lembrança e oferta
do frio que permanece.
Aqueço-me à memória
do teu olhar
inquietante,
trespassante,
janela aberta
que se fecha em palavras
intactas
que abro
desmembrando
em sons
entoados pelo meio do
tempo
que nos leva
como torrente incontida
chuva que brota
convulsiva
das mãos abertas
das dádivas mútuas
que só vê quem percebe
só quem escuta
pode contar.

10.12.07

Magnífico alpendre


No magnífico alpendre, onde as nuvens cobrem os vales, como mantas doces e quentes, tapando o correr dos dias, como se estivesse acima de tudo o que me quisesse, surpreendo-me na perturbação de me entrares por mim e me tomares refém.
O Sol põe-se à conversa, aquece os meus ossos, rígidos, doridos, imóveis; dou pelo meu corpo como um invólucro guardador dos tesouros mais preciosos, raros.
Espero por ti, porque me quero tornar no sorriso que te espera, e em cada abraço revelar o significado de te encontrar, perceber nos teus lábios as tuas vontades, e nos teus olhos saber como a vida se desdobra em momentos iguais e em pequenas centelhas de esperança, de novidades, de inquietação.
A vida perpetua-se em olhares que avançam até às linhas do horizonte, e as minhas mãos ainda que sabendo, nunca agarrarão o futuro, senão quando se achar presente.
Quando te espero, percorro teus sinais, na pequena diferença que te torna desigual e me faz escolher-te, irrepetida no desenho do teu rosto, na capa do livro que sempre te cobre as mãos, nesse doce tom onde as palavras com que dizes as mesmas coisas, soam a histórias frescas e inventadas.Quando te espero, neste magnifico alpendre, sei que as montanhas se movem e o teu caminho é um traço de giz que serpenteia e aclara as planícies onde os vivos se movem, onde me espero na rotina quotidiana de te perceber e te querer. Daqui deste magnífico alpendre onde me hei-de deixar estar, esperando que voltes e permaneças olhando o dia sempre novo.

23.11.07

A tua boca à volta de um beijo




A tua boca move-se,
percorre a distancia larga
que nos faz estrangeiros
na terra das vontades.

A tua boca achega-se
como um íman que me atrai
e me faz dos lábios
teu divã coçado e gasto
onde te aconchegas
e lês as histórias
que guardas
para os momentos mais teus.

A tua boca cola-se
com a minha boca,
entra dentro de mim
e abre-me a janela
onde me encosto
e cresce o desejo
de me deixar ficar

A tua boca deixa-me
e meus olhos
vigiam-te
hipnotizados desse momento
que se guarda
na vontade
de outro e outro.

A tua boca chama-me
e eu parto
na desfilada de um caminho
que percorro
célere
para te voltar a ter
na volta de um beijo.

15.11.07

Náufrago




Desmembro as correntes do vento,
corto o sopro
a cada inconstância
que se percebe nas aragens.
Abro o meu peito
aos desmandos dos desejos,
e sou naufrago
das marés e das sereias,
que me encantem e vencem.
Na imaginária lenda
que corre do meu sangue,
sou tarde de mais
a personagem branda
rectilínea,
que faz parte
de todos os cantos da vida.
No trespassar de cada dia,
dos momentos
que não se deixam esquecer,
sustento em mim
a ténue e frágil
esperança,
de permanecer enfeitiçado,
de me deixar de mim
e ser esse teu ser
que morre em cada alento,
e renasce pronto
a ser -
alimento -
de um último beijo teu.

7.11.07

Num pequeno sussurro


Num pequeno sussurro,
na mais quieta das melodias,
na luz trémula que baila
escondida
sinto-te viva e desperta
e caminho no teu colo,
com os lábios húmidos
deste desejo que se perde
em teus ombros,
e desnuda tua vontade.

Quando te encostas em mim
sem nada que precises de dizer.
és a exacta proporção
do que me falta,
rebentando no meu peito
como onda chegando na areia,
como uma aurora que transfigura
a planície,
como um homem
de punho em riste
gritando liberdade.
.
Num pequeno sussurro
encostas tua boca a mim
dando-me a canção das nossas tardes
e deixando teu beijo
que nos colhe,
e no reclinar dos nossos corpos,
quando nos deixamos
apenas estar,
o dia deixa-se ouvir,

por inventar.

Perco-me


Perco-me em enredos complicados
saturados do pó das viagens
percorrendo os lugares,.
donde embarco nos ventos que sopram
cortantes
secos.
Sopro a história contada
nas infinitas vezes
de quem me pediu um sorriso,
e ergo o queixo
para ver acima de quem
me afronta com a palidez,
dos dias sem cores,
sem cantigas que trauteie
no vaguear dos passos,
no desafio de fazer de cada minuto
um tempo perpétuo
memorial
das coisas que quero
e nunca ousarei.
Sou assim perdido,
sou assim no esquecimento
que ultrapassa
a minha condição mortal
simples,
de viver por estes dias
nesta terra
imensa
sou assim perdido
sem me encontrar.