10.12.07

Magnífico alpendre


No magnífico alpendre, onde as nuvens cobrem os vales, como mantas doces e quentes, tapando o correr dos dias, como se estivesse acima de tudo o que me quisesse, surpreendo-me na perturbação de me entrares por mim e me tomares refém.
O Sol põe-se à conversa, aquece os meus ossos, rígidos, doridos, imóveis; dou pelo meu corpo como um invólucro guardador dos tesouros mais preciosos, raros.
Espero por ti, porque me quero tornar no sorriso que te espera, e em cada abraço revelar o significado de te encontrar, perceber nos teus lábios as tuas vontades, e nos teus olhos saber como a vida se desdobra em momentos iguais e em pequenas centelhas de esperança, de novidades, de inquietação.
A vida perpetua-se em olhares que avançam até às linhas do horizonte, e as minhas mãos ainda que sabendo, nunca agarrarão o futuro, senão quando se achar presente.
Quando te espero, percorro teus sinais, na pequena diferença que te torna desigual e me faz escolher-te, irrepetida no desenho do teu rosto, na capa do livro que sempre te cobre as mãos, nesse doce tom onde as palavras com que dizes as mesmas coisas, soam a histórias frescas e inventadas.Quando te espero, neste magnifico alpendre, sei que as montanhas se movem e o teu caminho é um traço de giz que serpenteia e aclara as planícies onde os vivos se movem, onde me espero na rotina quotidiana de te perceber e te querer. Daqui deste magnífico alpendre onde me hei-de deixar estar, esperando que voltes e permaneças olhando o dia sempre novo.

23.11.07

A tua boca à volta de um beijo




A tua boca move-se,
percorre a distancia larga
que nos faz estrangeiros
na terra das vontades.

A tua boca achega-se
como um íman que me atrai
e me faz dos lábios
teu divã coçado e gasto
onde te aconchegas
e lês as histórias
que guardas
para os momentos mais teus.

A tua boca cola-se
com a minha boca,
entra dentro de mim
e abre-me a janela
onde me encosto
e cresce o desejo
de me deixar ficar

A tua boca deixa-me
e meus olhos
vigiam-te
hipnotizados desse momento
que se guarda
na vontade
de outro e outro.

A tua boca chama-me
e eu parto
na desfilada de um caminho
que percorro
célere
para te voltar a ter
na volta de um beijo.

15.11.07

Náufrago




Desmembro as correntes do vento,
corto o sopro
a cada inconstância
que se percebe nas aragens.
Abro o meu peito
aos desmandos dos desejos,
e sou naufrago
das marés e das sereias,
que me encantem e vencem.
Na imaginária lenda
que corre do meu sangue,
sou tarde de mais
a personagem branda
rectilínea,
que faz parte
de todos os cantos da vida.
No trespassar de cada dia,
dos momentos
que não se deixam esquecer,
sustento em mim
a ténue e frágil
esperança,
de permanecer enfeitiçado,
de me deixar de mim
e ser esse teu ser
que morre em cada alento,
e renasce pronto
a ser -
alimento -
de um último beijo teu.

7.11.07

Num pequeno sussurro


Num pequeno sussurro,
na mais quieta das melodias,
na luz trémula que baila
escondida
sinto-te viva e desperta
e caminho no teu colo,
com os lábios húmidos
deste desejo que se perde
em teus ombros,
e desnuda tua vontade.

Quando te encostas em mim
sem nada que precises de dizer.
és a exacta proporção
do que me falta,
rebentando no meu peito
como onda chegando na areia,
como uma aurora que transfigura
a planície,
como um homem
de punho em riste
gritando liberdade.
.
Num pequeno sussurro
encostas tua boca a mim
dando-me a canção das nossas tardes
e deixando teu beijo
que nos colhe,
e no reclinar dos nossos corpos,
quando nos deixamos
apenas estar,
o dia deixa-se ouvir,

por inventar.

Perco-me


Perco-me em enredos complicados
saturados do pó das viagens
percorrendo os lugares,.
donde embarco nos ventos que sopram
cortantes
secos.
Sopro a história contada
nas infinitas vezes
de quem me pediu um sorriso,
e ergo o queixo
para ver acima de quem
me afronta com a palidez,
dos dias sem cores,
sem cantigas que trauteie
no vaguear dos passos,
no desafio de fazer de cada minuto
um tempo perpétuo
memorial
das coisas que quero
e nunca ousarei.
Sou assim perdido,
sou assim no esquecimento
que ultrapassa
a minha condição mortal
simples,
de viver por estes dias
nesta terra
imensa
sou assim perdido
sem me encontrar.

30.10.07

Esse teu vestido


foto de Carla Maio

Gosto de te ver nesse vestido, simples, negro, as alças que te afagam teus ombros finos, onde repousam tantos dos meus beijos. Em cada olhar, percebo a repetição dos olhares, como um vício que me conforta e do qual não me desprendo. Gosto de te avistar do fundo da rua, onde sempre apareces, como se o mundo viesse de trás de ti, te acompanhasse. Vislumbro, como uma brisa, os teus cabelos curtos, negros – generosos, que dão o enquadramento preciso a esses teus lábios onde paira um misterioso sorriso, que nunca tenho coragem de saber a razão. Contigo, trago sempre a vaidade estampada no rosto, na simples observação dos pequenos detalhes. Contigo é fácil responder à interminável questão – porque amo? – Porque a resposta é sempre este gosto quente e saboroso dos teus olhos a repousar nos meus.

16.10.07

Poemas de ti (X)


Os dias mais pequenos,
trazem a saudade das noites mais curtas,
e do despudor,
quando dormes nua sobre a cama
os lençóis desarrumados
as tuas costas brilhando
no calor que te humedece.
e me incendeia,
dá-me a saudade
das insónias, das inquietas
horas
que só o amor sossega;
e destes dias que chegam
desregrados
outonais e incertos,
chego-me à tua boca
e sinto esse sabor trémulo,
de morangos silvestres
frescos -
colhidos
- na fresca manhã
que não vai tardar.

... Se o arrependimento matasse




Os dias começam sempre da mesma forma - como se o arrependimento matasse.
É hoje à noite que vou deitar-me mais cedo, que vou deixar o raio das coisas que não valem a pena, que me vou concentrar apenas no necessário, e acordar amanhã cheio de vontade de começar cedo. Como se cedo houvesse algo mais importante que fazer, do que de tarde. E depois – quando é que é tarde e quando é que é cedo?
As perguntas bailam à minha volta, enquanto aspiro um iogurte antes de sair de casa. Hum! – Está calor, a malta vai toda de camisa pela rua abaixo, são dez segundos perdidos à janela que valem a pena. Porra, a rua está cheia, vou levar montes de tempo para chegar ao escritório.
A mesma rua, o mesmo edifício, as mesmas cores, os mesmos cheiros, 2ª ou 3ª ou 4ª, ou a porra da vida toda a correr pelas rotinas que afinal, consigo perceber que tanto jeito me dão.
Olho os outros, embasbacado por sentir que o que sinto é meu. Olho os pormenores sem importância e dou importância ao que pormenorizo e deixo entrar na minha vida. Olho as horas, passam infindas ou apressadas, como se eu não estivesse por aqui, o trabalho que se acumula, os papéis e as reuniões, as discussões, as teses mal defendidas, as estratégias, os puxões e empurrões do ódio a mim mesmo por não ter coragem de mandar quem quero dar uma volta ao bilhar grande, p’rá porra de um sítio no quinto dos infernos.
Os dias começam e acabam, como se não houvesse fronteiras entre eles, e a vida fosse um único dia, uma única vida. Ainda é cedo, nunca mais é tarde, nunca mais é noite, onde as vistas se escondem e apenas tu ficas, o teu rosto diante de mim. Amanhã vou acordar mal, é hoje à noite que vou deitar-me mais tarde.

12.10.07

Escrever




Passo os olhos
pelos pormenores,
como se fossem do tamanho do mundo.
Enquadro em pequenas sílabas
as grandes coisas
que ocupam o espaço
que me ocupa.
Sinto a saliva a escorrer,
como um rio
em pleno verão
que se agonia em pranto
enquanto seca e parte.
Os lábios sussurram,
os olhos inclinam-se nas folhas
que me servem,
onde me estendo e gozo
no fluir das coisas
que me explodem nos dedos.
Desconserto o arranjo
das quadras certas,
das frases matemáticas
geométricas.
Sou as palavras despenteadas,
e a força bruta e intemperada
que rompe das angústias,
rotinas de fato e gravata.
Sou o teu amor repentino,
o livro amassado
das noites dormidas à cabeceira,
das palavras obscenas
que me atormentam,
que gozam na irreverência, com que a ternura
chega e cala,
no cansaço de quem se vence.
Sou a escrita
tornada dia,
nas palavras negras
em véu branco,
a prece inventada
por isso mais cara, mais certa
sou eu
nos dias que me faltam
antes que chegue a morte,
e me fique este esboço
que pode viver ainda
além de mim.

8.10.07

Derroto a minha derrota


Para a MJL - uma amiga das letras e do coração


Derroto a minha derrota,
quando fito os olhos
de quem me quer.
e nos teus dedos
repousa a força que faço
em me ter de pé,
e resistir ao vento
que traz desgraças e desventuras.
Sou pardal de um telhado
que não cobre as casas
onde habitam máscaras,
mascaradas de homens.
E nas horas em que me aconselho
a ser adeus
a ser ausência,
noto no ventre que cresce
como pares a esperança,
que depois me chama
e que já não posso largar.
Depois, vou contigo meu amor,
pelos dias chuvosos
com um sol debruado
num sorriso,
com que aqueço a tua boca
e te digo:
estou mesmo aqui,
estou por aqui,

20.9.07

Resposta


foto de Lia Pansy
Não respondes. O teu silêncio corta-me o fôlego, deixa-me descompassado, triste. Irrito-me na proporção do meu egoísmo, na miserável auto-estima de que hoje toda a gente fala. Só sei que não me respondes. Os dedos bailam no teclado, procuro incessantemente o teu nome, as mensagens entradas, as chamadas não atendidas no fim de cada reunião, como se a vida de fora estivesse suspensa.
Procuro o significado de resposta. Procuro perceber o antes e o depois, a pergunta que a sugere e a não pergunta que não a causa.
Aceno que sim a mim próprio. Afinal importa mesmo ser respondido, importam os afectos e os gestos, e as coisas que os livros das psicologias falam, do que me emociona e do sentido do que tomamos como nosso, como meu.
Se gosto ou desgosto, ou não gosto, mas é meu: o meu amigo, o meu inimigo, o meu conhecido, a minha namorada e a minha mulher. Tudo o que vejo e sinto – é meu. E o que é meu, guardo, guardo mesmo sem que seja preciso inventar nada para guardarmos coisas tão grandes e preciosas anos a fio. Insubstituíveis, preciosas, inestimáveis, oxigénio e sangue, carne da nossa carne, e das minhas dores por onde filtro o que realmente me dói. O que é meu.
A não resposta é dor, porque me arranca e violenta o que é meu, aquilo que me torna corpo inteiro, que me faz feliz.
Responde, mesmo uma não resposta é sempre melhor que um silêncio, um vazio, um interminável minuto em que o vento se cala, as luzes se apagam e me torno escuridão, opacidade, invisível.
Responde meu amor, ou pergunta porque estou aqui, na mesma varanda onde um dia me mostraste a tua cidade, os teus muros, pedaços da tua infância e desse teu eu, a que sempre quis responder como meu.
Do outro lado do tempo, na cidade dos porquês, tenho uma sala marcada, esperando sempre pelo teu, que tem a resposta guardada aqui dentro. Um sim despojado e profundo de quem tudo pode dar, porque tudo se entrega a quem de verdade sabe perguntar: Queres ser meu?

14.9.07

Abismo




Como um abismo,
salto cego
para o voo,
procuro que a queda
dure e se prolongue -
que a terra espere.
O desejo desrespeita-me,
tremo na provocação
no desafio
com que
meu peito salta,
ao sentir
que talvez,
por uma vez
te possa ter.
Antes fosses só um corpo.
um único desejo.
Irrompe como um segredo
toma-me,
abrasa-me, violentamente.
nem procuro um olhar
nem doçura nas palavras
só a intensidade da carne
o cheiro que me volta
a pele que me toca
o toque que me desfaz
vontade insuportável
de desferir em cada grito
a violência obscena
que deixa em cada
um
a marca simples dos silêncios
a ausência das memórias
o grito por outros voos
que a terra não possa perceber,
como um abismo
entre mim e ti.

Poemas de ti (IX)




- que posso fazer
se entardece entre nós,
antes que o sol se ponha?
- de que vale o vento amainar
e o prazer que adoça
meu sustento
murmurar a tua falta
em cada pingo de chuva?
- que o meu corpo enlouqueça
em cada pormenor
nos detalhes dos teus pedaços
sussurrados em teu nome?
- que posso tocar em ti
se a tua pele me responde
fria,
e adormece,
e acorda gritando
nos destroços de uma maré solta,
revolta?
- que posso esperar,
mais que guardar meu sonho,
feito pastor,
olhando o céu
esperando a volta
a volta da primavera
dos amores que sempre
voltam
a renascer?