8.10.07

Derroto a minha derrota


Para a MJL - uma amiga das letras e do coração


Derroto a minha derrota,
quando fito os olhos
de quem me quer.
e nos teus dedos
repousa a força que faço
em me ter de pé,
e resistir ao vento
que traz desgraças e desventuras.
Sou pardal de um telhado
que não cobre as casas
onde habitam máscaras,
mascaradas de homens.
E nas horas em que me aconselho
a ser adeus
a ser ausência,
noto no ventre que cresce
como pares a esperança,
que depois me chama
e que já não posso largar.
Depois, vou contigo meu amor,
pelos dias chuvosos
com um sol debruado
num sorriso,
com que aqueço a tua boca
e te digo:
estou mesmo aqui,
estou por aqui,

20.9.07

Resposta


foto de Lia Pansy
Não respondes. O teu silêncio corta-me o fôlego, deixa-me descompassado, triste. Irrito-me na proporção do meu egoísmo, na miserável auto-estima de que hoje toda a gente fala. Só sei que não me respondes. Os dedos bailam no teclado, procuro incessantemente o teu nome, as mensagens entradas, as chamadas não atendidas no fim de cada reunião, como se a vida de fora estivesse suspensa.
Procuro o significado de resposta. Procuro perceber o antes e o depois, a pergunta que a sugere e a não pergunta que não a causa.
Aceno que sim a mim próprio. Afinal importa mesmo ser respondido, importam os afectos e os gestos, e as coisas que os livros das psicologias falam, do que me emociona e do sentido do que tomamos como nosso, como meu.
Se gosto ou desgosto, ou não gosto, mas é meu: o meu amigo, o meu inimigo, o meu conhecido, a minha namorada e a minha mulher. Tudo o que vejo e sinto – é meu. E o que é meu, guardo, guardo mesmo sem que seja preciso inventar nada para guardarmos coisas tão grandes e preciosas anos a fio. Insubstituíveis, preciosas, inestimáveis, oxigénio e sangue, carne da nossa carne, e das minhas dores por onde filtro o que realmente me dói. O que é meu.
A não resposta é dor, porque me arranca e violenta o que é meu, aquilo que me torna corpo inteiro, que me faz feliz.
Responde, mesmo uma não resposta é sempre melhor que um silêncio, um vazio, um interminável minuto em que o vento se cala, as luzes se apagam e me torno escuridão, opacidade, invisível.
Responde meu amor, ou pergunta porque estou aqui, na mesma varanda onde um dia me mostraste a tua cidade, os teus muros, pedaços da tua infância e desse teu eu, a que sempre quis responder como meu.
Do outro lado do tempo, na cidade dos porquês, tenho uma sala marcada, esperando sempre pelo teu, que tem a resposta guardada aqui dentro. Um sim despojado e profundo de quem tudo pode dar, porque tudo se entrega a quem de verdade sabe perguntar: Queres ser meu?

14.9.07

Abismo




Como um abismo,
salto cego
para o voo,
procuro que a queda
dure e se prolongue -
que a terra espere.
O desejo desrespeita-me,
tremo na provocação
no desafio
com que
meu peito salta,
ao sentir
que talvez,
por uma vez
te possa ter.
Antes fosses só um corpo.
um único desejo.
Irrompe como um segredo
toma-me,
abrasa-me, violentamente.
nem procuro um olhar
nem doçura nas palavras
só a intensidade da carne
o cheiro que me volta
a pele que me toca
o toque que me desfaz
vontade insuportável
de desferir em cada grito
a violência obscena
que deixa em cada
um
a marca simples dos silêncios
a ausência das memórias
o grito por outros voos
que a terra não possa perceber,
como um abismo
entre mim e ti.

Poemas de ti (IX)




- que posso fazer
se entardece entre nós,
antes que o sol se ponha?
- de que vale o vento amainar
e o prazer que adoça
meu sustento
murmurar a tua falta
em cada pingo de chuva?
- que o meu corpo enlouqueça
em cada pormenor
nos detalhes dos teus pedaços
sussurrados em teu nome?
- que posso tocar em ti
se a tua pele me responde
fria,
e adormece,
e acorda gritando
nos destroços de uma maré solta,
revolta?
- que posso esperar,
mais que guardar meu sonho,
feito pastor,
olhando o céu
esperando a volta
a volta da primavera
dos amores que sempre
voltam
a renascer?

11.9.07

Piano




Luz e luar
corpos aveludados, de carmim
perturbados
num toque leve, quente
piano
maestro
que pede em
cada escala
o solfejo do teu corpo
que já não lembro
como tocar…

Poemas de ti (8)



Reclinado na tua ausência,
encostado às sombras
que se projectam
nas dobras do lençol,
revolto,
maltratado,
meu corpo jaz,
semi-nú,
ornado de rugas
de vincos desfeitos.
Sou a parte esquecida
de que me recordo,
unhas negras
de esgravatar a areia
que teima em escapar
dos meus dedos,
movimento rítmico,
viagem,
dos lugares onde não estive
para o lugar donde vim,
parado no lugar
onde o desejo me deixou
onde ainda se sente o teu cheiro
e sinto nos meus dentes
a textura doce
dos teus lábios,
trincados
macerados
do teu hálito quente,
da tua boca
calada
em gestos que dizem,
que me dizem
nunca mais.

Soneto do tempo certo

Se fosse agora o tempo certo
De emudecer, e a boca se fechar
Se pelo menos meu peito aberto
Te pudesse sentir mesmo sem poder falar

Não teria razão para tristeza
Porque as palavras que me terias dito
As guardaria como a maior riqueza
E tudo deixaria em memória, escrito

Do tempo que sentisse solidão
E sofresse aberto o coração
Faria das memórias que guardasse

o templo onde por ti esquecido
o amor que por ti se revelasse
Ressoaria no ar eternamente fúlgido

Sei da espera




Sei o quanto sei dizer
sei a que sabe te sentir
sei que te tenho
no meu peito,
sei que tudo o que eu queira
não é mais,
que o tempo a despedir,
as horas que da espera
se vestiram,
de anos de eras
de esperas,
que nada mais marcam
que sentado,
um corpo
requebrado,
um peito ardendo,
de sede
de destroços
deste barco,
que partiu sem se avisar
que o mar revolto,
endiabrado
nada mais queria
que as ondas a brincar,
num cais onde nunca
quis aportar.

Crónicas de Monoamor.


foto de Jorge Casais

Por uma última vez, não volto a perguntar se me queres. Ponto final e não ponto de interrogação.
Arre, que um homem tem uma dignidade, tem uma espinha. Parece que quando te sinto, é mais fácil mentir. É na solidão que me desatino, é na tua ausência que passo ao contra ataque a mim próprio. Porra, os sentimentos são tão parvos, tão ao contrário do que quero. Parece que há gente que nunca tem destes problemas. Afinal, quem vive melhor?
Sinto a forma como desvias o olhar, nem sei o que queres dizer. Pareces fugir, ao mesmo tempo como se te desgostasses de não quereres exactamente o querias querer.
Chatice das palavras. E se falássemos por telepatia? - e se nos entendêssemos sem ser preciso falar?
Que tal inventar uma comunicação mental. Bem, isso não era bom, não podia guardar segredos, seríamos nus a todo o instante.
É de tanto te querer que me calo, que emudeço e paro. Uma vez perguntaste se desisti. Nunca, porque não posso, não porque não queira. Que pode fazer alguém se ama? Não se inventou ainda um chá de desamor, que me tire deste todo, dum corpo pegado a um olhar, dum desejo sereno, às vezes louco. É como uma dor que não sai, mesmo que me queira distrair.
É de tanto querer que me dói o teu não? – Não, não é. É mais, de não encostar o teu não na beira da estrada e seguir. É de me embrulhar nesse teu corpo, lindo, desejado, desse teu rosto, desses teus olhos. Nem me lembro se é lindo, porque não existe onde me apoiar, onde comparar.
Sais de mim, com uma simples frase, o teu movimento é um não movimento, as tuas mãos fecham-se escondidas no meio dos teus braços, encostadas nesse teu peito que queria alcançar e sentir.
Tens as mãos nuas, envergonhadas – olho-me no vazio, na estranha sensação do ridículo, nessa tua expressão vazia de quem nada tem para me oferecer.
Olho o teu rosto – não quero o teu beijo prolongado, não quero estar aí, quando te despedires na lembrança de um adeus, cruel.
A minha esperança são os poemas, o acreditares que vou ter sempre essa pequena luz se quiseres regressar – ao menos terei sempre a esperança que voltes, e tu porque a luz brilhará, mesmo fosca, o convite para te deitares, cansada, gasta de procurar quem te ame mais, ao lado desta pobre paixão inacabada.
Há um ar fresco de fim de Verão que se recalca no final das tardes. O Sol esgueira-se, tu permaneces, cercada da soma dos olhares onde nunca mais dançarás a roda, eu por aqui fico falando ao destino destas histórias. O destino aborrecido, diz que sim, pois é, pois é, complacente, cheio – afinal não há nada de novo nesta história..

24.8.07

O tédio


O tédio – inimigo do olhar,
distrai-me,
faz-me perder
a inquietação
a vontade genuína
da descoberta.
No tédio é que é
pequena
a força da vontade.
Imóvel,
percorro inanimado
todas as letras
porque me alheio
de te conhecer.
No tédio, aborreço-me
da expressão,
de te desenhar
com a vontade
com que meus olhos desejam
o teu corpo
que passa sem me acordar,
deixando o perfume
desenhado no cingir do teu vestido,
dessas tuas curvas que explodem
nos teus seios.
e na luz de um sonho
feita no luar de teu corpo
acetinado - provocante
onde percorro
num dedilhar estranho
este teu mistério
que me desencontra
de todos os meus tédios

24.7.07

Divagação


foto de LiaPansy

Nas ruas que se escancaram
rebatem lentamente as horas,
cadencias das torres sineiras
que não te percebem,
escondida,
nas esquinas desbotadas.
O trânsito das almas
inocentes
desce em direcção às sopas
do jantar,
aos braços dos que ficaram
por esperar.
Subo de encontro à corrente
passo por rostos
intraduzíveis,
perdidos na fotogenía barata
das notícias verdadeiras,
roço-me
por mulheres destinadas
ás camas, de homens
que se deitam mais tarde,
depois que a cozinha se aprume
e o lume se apague.
Meto pelas vielas
que não se deixam encontrar,
abro as solas dos sapatos
nas esquinas dos balcões,
onde me abstenho de mim
e me incorporo, verde
em absintos, que me livrem
de sentir,
a dura caminhada
que ainda tenho por fazer.

23.7.07

Poemas de ti (7)




Na aproximação dos olhares
quando te leio, na implacável
transparência, vítrea,
da tua alma desnudada,
quando te encontro desarmada
e assalto tuas janelas:
Irrompo em tua casa
Sento-me.
Chamo-te.
Tu vens, e sentas-te…
e nos temos.
Como se sempre fosses minha,
e teus lábios
minha casa,
papoilas no meio da seara…
teu ventre
é minha eira,
onde espalho meu trigo mondado
e te lembro,
de fita verde, beijando
teu cabelo loiro - trigal,
começo de sementeira
que deu num Agosto
abundante,
contigo derramada em meus olhos,
cantiga de Maio
num luar grande, iluminado
e sombras de velhos freixos,
escondendo beijos
trazidos no teu cesto, de vime
cheio deste desejo
que me aconchegou em ti.

19.7.07

Poemas de ti (6)




Alijo a carga
estendo no chão os meus pertences.
Deixo que o tempo volte,
me molde,
me faça deixar por esquecer
este ferrão
que me arrepanha a pele,
e me torna escravo
de uma esperança moribunda.
Ainda assim penso em ti,
com a nostalgia
calma e serena de um velho,
um sorriso na ponta do lábio,
uma lágrima fresca escapando.
Penso em ti,
como se pensa nos filhos
abrindo os olhos pela primeira vez,
como num chegar breve
ao entardecer
na foz do rio,
como no avistar de uma paisagem
no cimo de qualquer escalada.
Recordo-te
com a felicidade do primeiro beijo
trocado,
no peito aberto às ruas
na aventura clandestina
de ser teu sem me quereres.
Volto a mim,
as mãos fitam minhas rugas cavadas,
deixo que o olhar se liberte
e procure onde poisar.
O vento traz-me a ausência do teu cheiro,
o teu nada
que me dói mais que tudo.
Ergo-me,
enfrento a estrada,
minha carga tem o peso de mais uma memória,
as costas dormentes,
os pés cansados,
o caminho rindo zombeteiro da descrença em mim.
Ergo-me,
e nos passos seguidos de mais passos,
percebo na aragem
que o Sol devolve pelo findar da tarde,
que nunca escaparás de mim,
desta escrita solta, apaixonada
que fazes nascer
em cada batida do meu coração.
A esperança caminha junto a mim.