11.9.07

Poemas de ti (8)



Reclinado na tua ausência,
encostado às sombras
que se projectam
nas dobras do lençol,
revolto,
maltratado,
meu corpo jaz,
semi-nú,
ornado de rugas
de vincos desfeitos.
Sou a parte esquecida
de que me recordo,
unhas negras
de esgravatar a areia
que teima em escapar
dos meus dedos,
movimento rítmico,
viagem,
dos lugares onde não estive
para o lugar donde vim,
parado no lugar
onde o desejo me deixou
onde ainda se sente o teu cheiro
e sinto nos meus dentes
a textura doce
dos teus lábios,
trincados
macerados
do teu hálito quente,
da tua boca
calada
em gestos que dizem,
que me dizem
nunca mais.

Soneto do tempo certo

Se fosse agora o tempo certo
De emudecer, e a boca se fechar
Se pelo menos meu peito aberto
Te pudesse sentir mesmo sem poder falar

Não teria razão para tristeza
Porque as palavras que me terias dito
As guardaria como a maior riqueza
E tudo deixaria em memória, escrito

Do tempo que sentisse solidão
E sofresse aberto o coração
Faria das memórias que guardasse

o templo onde por ti esquecido
o amor que por ti se revelasse
Ressoaria no ar eternamente fúlgido

Sei da espera




Sei o quanto sei dizer
sei a que sabe te sentir
sei que te tenho
no meu peito,
sei que tudo o que eu queira
não é mais,
que o tempo a despedir,
as horas que da espera
se vestiram,
de anos de eras
de esperas,
que nada mais marcam
que sentado,
um corpo
requebrado,
um peito ardendo,
de sede
de destroços
deste barco,
que partiu sem se avisar
que o mar revolto,
endiabrado
nada mais queria
que as ondas a brincar,
num cais onde nunca
quis aportar.

Crónicas de Monoamor.


foto de Jorge Casais

Por uma última vez, não volto a perguntar se me queres. Ponto final e não ponto de interrogação.
Arre, que um homem tem uma dignidade, tem uma espinha. Parece que quando te sinto, é mais fácil mentir. É na solidão que me desatino, é na tua ausência que passo ao contra ataque a mim próprio. Porra, os sentimentos são tão parvos, tão ao contrário do que quero. Parece que há gente que nunca tem destes problemas. Afinal, quem vive melhor?
Sinto a forma como desvias o olhar, nem sei o que queres dizer. Pareces fugir, ao mesmo tempo como se te desgostasses de não quereres exactamente o querias querer.
Chatice das palavras. E se falássemos por telepatia? - e se nos entendêssemos sem ser preciso falar?
Que tal inventar uma comunicação mental. Bem, isso não era bom, não podia guardar segredos, seríamos nus a todo o instante.
É de tanto te querer que me calo, que emudeço e paro. Uma vez perguntaste se desisti. Nunca, porque não posso, não porque não queira. Que pode fazer alguém se ama? Não se inventou ainda um chá de desamor, que me tire deste todo, dum corpo pegado a um olhar, dum desejo sereno, às vezes louco. É como uma dor que não sai, mesmo que me queira distrair.
É de tanto querer que me dói o teu não? – Não, não é. É mais, de não encostar o teu não na beira da estrada e seguir. É de me embrulhar nesse teu corpo, lindo, desejado, desse teu rosto, desses teus olhos. Nem me lembro se é lindo, porque não existe onde me apoiar, onde comparar.
Sais de mim, com uma simples frase, o teu movimento é um não movimento, as tuas mãos fecham-se escondidas no meio dos teus braços, encostadas nesse teu peito que queria alcançar e sentir.
Tens as mãos nuas, envergonhadas – olho-me no vazio, na estranha sensação do ridículo, nessa tua expressão vazia de quem nada tem para me oferecer.
Olho o teu rosto – não quero o teu beijo prolongado, não quero estar aí, quando te despedires na lembrança de um adeus, cruel.
A minha esperança são os poemas, o acreditares que vou ter sempre essa pequena luz se quiseres regressar – ao menos terei sempre a esperança que voltes, e tu porque a luz brilhará, mesmo fosca, o convite para te deitares, cansada, gasta de procurar quem te ame mais, ao lado desta pobre paixão inacabada.
Há um ar fresco de fim de Verão que se recalca no final das tardes. O Sol esgueira-se, tu permaneces, cercada da soma dos olhares onde nunca mais dançarás a roda, eu por aqui fico falando ao destino destas histórias. O destino aborrecido, diz que sim, pois é, pois é, complacente, cheio – afinal não há nada de novo nesta história..

24.8.07

O tédio


O tédio – inimigo do olhar,
distrai-me,
faz-me perder
a inquietação
a vontade genuína
da descoberta.
No tédio é que é
pequena
a força da vontade.
Imóvel,
percorro inanimado
todas as letras
porque me alheio
de te conhecer.
No tédio, aborreço-me
da expressão,
de te desenhar
com a vontade
com que meus olhos desejam
o teu corpo
que passa sem me acordar,
deixando o perfume
desenhado no cingir do teu vestido,
dessas tuas curvas que explodem
nos teus seios.
e na luz de um sonho
feita no luar de teu corpo
acetinado - provocante
onde percorro
num dedilhar estranho
este teu mistério
que me desencontra
de todos os meus tédios

24.7.07

Divagação


foto de LiaPansy

Nas ruas que se escancaram
rebatem lentamente as horas,
cadencias das torres sineiras
que não te percebem,
escondida,
nas esquinas desbotadas.
O trânsito das almas
inocentes
desce em direcção às sopas
do jantar,
aos braços dos que ficaram
por esperar.
Subo de encontro à corrente
passo por rostos
intraduzíveis,
perdidos na fotogenía barata
das notícias verdadeiras,
roço-me
por mulheres destinadas
ás camas, de homens
que se deitam mais tarde,
depois que a cozinha se aprume
e o lume se apague.
Meto pelas vielas
que não se deixam encontrar,
abro as solas dos sapatos
nas esquinas dos balcões,
onde me abstenho de mim
e me incorporo, verde
em absintos, que me livrem
de sentir,
a dura caminhada
que ainda tenho por fazer.

23.7.07

Poemas de ti (7)




Na aproximação dos olhares
quando te leio, na implacável
transparência, vítrea,
da tua alma desnudada,
quando te encontro desarmada
e assalto tuas janelas:
Irrompo em tua casa
Sento-me.
Chamo-te.
Tu vens, e sentas-te…
e nos temos.
Como se sempre fosses minha,
e teus lábios
minha casa,
papoilas no meio da seara…
teu ventre
é minha eira,
onde espalho meu trigo mondado
e te lembro,
de fita verde, beijando
teu cabelo loiro - trigal,
começo de sementeira
que deu num Agosto
abundante,
contigo derramada em meus olhos,
cantiga de Maio
num luar grande, iluminado
e sombras de velhos freixos,
escondendo beijos
trazidos no teu cesto, de vime
cheio deste desejo
que me aconchegou em ti.

19.7.07

Poemas de ti (6)




Alijo a carga
estendo no chão os meus pertences.
Deixo que o tempo volte,
me molde,
me faça deixar por esquecer
este ferrão
que me arrepanha a pele,
e me torna escravo
de uma esperança moribunda.
Ainda assim penso em ti,
com a nostalgia
calma e serena de um velho,
um sorriso na ponta do lábio,
uma lágrima fresca escapando.
Penso em ti,
como se pensa nos filhos
abrindo os olhos pela primeira vez,
como num chegar breve
ao entardecer
na foz do rio,
como no avistar de uma paisagem
no cimo de qualquer escalada.
Recordo-te
com a felicidade do primeiro beijo
trocado,
no peito aberto às ruas
na aventura clandestina
de ser teu sem me quereres.
Volto a mim,
as mãos fitam minhas rugas cavadas,
deixo que o olhar se liberte
e procure onde poisar.
O vento traz-me a ausência do teu cheiro,
o teu nada
que me dói mais que tudo.
Ergo-me,
enfrento a estrada,
minha carga tem o peso de mais uma memória,
as costas dormentes,
os pés cansados,
o caminho rindo zombeteiro da descrença em mim.
Ergo-me,
e nos passos seguidos de mais passos,
percebo na aragem
que o Sol devolve pelo findar da tarde,
que nunca escaparás de mim,
desta escrita solta, apaixonada
que fazes nascer
em cada batida do meu coração.
A esperança caminha junto a mim.

Há quanto tempo não fumo




Dou por mim sem o cigarro de sempre. as mãos desgovernadas, a dôr intensa de um peito despovoado, os lábios sem a mortalha, sem o calor que tanto me consola.Dou por mim sem o fumo, sem os dois dedos cúmplices, sem o retrato estereotipado do pensador. dou por mim sem cigarros, sem enlouquecer, tantando perceber que sou livre, mas estou preso na saudade. Ai cigarro, que mal fazes, que falta fazes. nem o cachimbo, nem a cigarrilha me vale, é o cigarro que me falta. De nada vale, o cigarro vai ter de me abandonar...

17.7.07

A vida corre


A vida corre
como a aragem morna
num qualquer dia estival;
passa vagarosa,
murmura
silêncios imperceptíveis,
em passos pequenos
calados…
Sinto-te ainda assim,
no sangue que pulsa
das minhas veias,
dos nós roxos dos meus dedos,
com que sustenho
esta nostalgia, parda e apagada,
E deixo que a vida me escape.
Dou a mão ao destino,
o peso do meu corpo
tombado nos ombros.
Deixo que o sorriso
dos olhos marejados,
embale a nostalgia
dos miradouros perdidos
dos lugares secretos
que todos conhecem
mas só tu sabes ser meu.
Esfrego as lágrimas
que toldam o tanto que olho
o pouco que vejo.
De mãos desprendidas
inúteis,
arrasto meu dia,
atraso a vida
na conversa do tempo.
Desculpas das palavras
que me deixam
ficar.
E de volta à cidade,
percebo que não estás,
A vida?
A vida, corre.

9.7.07

No findar da tarde


- No findar da tarde,
quando o sol se assenta
e as aves descansam
nos beirais mais baixos,
desprevenidas.
- No assomar da escuridão,
quando a brisa fulgia
me traz teu cheiro,
e as memórias
que a ausência disfarça
na visão de um ocaso
imaginado.
- Na garganta seca
nas palavras encravadas
onde estalam sons inauditos
rumores de beijos
nunca dados,
e o meu corpo retesado
imóvel
jazendo,
prova da tua falta,
causa do teu crime
carrasco deste coração.
- No findar da tarde
quando a cidade se despe
e ficam à janela
em camisolas de alça
os olhos de quem observa.
- No findar da tarde
antes que a noite me esqueça.

- É que me torno
o uivo de um cão abandonado
de um sonho
que se prendeu nas estrelas
cadentes
breves
é que me torno poeta de ti.

3.7.07

Poema de ti (5)


foto de Sónia Guerreiro

Certeiro o olhar
com que te vejo,
engano
de quase te ter
e me fugires,
como o vento que roda
nos meus dedos,
e se escapa
sem nada para dizer.
Macera-se a tez
na caminhada,
muda de tons e de expressão
e quando te sente
na chegada,
volta-se
perde-se
transfigura-se.
E é de luz
que agora brilha,
deslumbrante, enamorado.
Resplandece o coração
nas memórias do teu cheiro,
do teu corpo permitido,
este desejo
embrenhado
solto, doce, sublime,
de ao menos
te ver
te desejar,
de ser tão teu
como a sombra da verdade.

25.6.07

Crónica da Saudade




Fechei a janela encadeado pelo Sol que já me fustigava os olhos. Acabaras de sair e já tinha saudades de ti. Aspirei lentamente o teu perfume que ainda se passeava pela minha casa, e notei a ausência que já se arrastava nos vazios que deixaras. As gavetas desalinhadas, os espaços onde cabiam teus livros, a minha escova de dentes só e desgraçada. Olhei o espelho, vi nele as rugas marcadas, olhos inchados, vermelhos, uma sombra negra, fantasma do tempo que o futuro ditava assustadoramente real, contornando o vazio de um olhar que não me reconhecia. Quis ver-te onde não estavas, fechei os olhos e senti teus braços apertando-me, o teu sussurro inconfundível, dizendo do quanto tínhamos sido felizes.
Percorri o silêncio que inundava as paredes. Havia momentos espalhados por todos os pequenos detalhes. Nos nossos retratos, os sorrisos que agora são histórias velhas, diziam do quanto o tempo dita a mudança, da ternura que se perdera, das cumplicidades juvenis, dos concertos inolvidáveis onde te olhei e me senti único, das compras a dois num mercado de cores e cheiros que ainda hoje lembro, das flores secas, pedaços de nós que trazíamos para casa ao fim dos longos caminhos.
Sentado na beira da nossa cama, os lençóis amarrotados e velhos, quis saber onde nos tínhamos perdido, onde a vida se nos cruzara, e de fronte nos perdêramos. Ficou a simples explicação que cada ser dá a si próprio. A desmesurada e incontornável força da vida, como maré de Setembro que não perdoa a quem deixa os pés demasiado junto à beira da praia, e traga os incautos que se aventuram no olhar da espuma.
Percebi nos meus ombros gelados, há quanto tempo assim estava, lembrei os poemas que te fizera, o teu sorriso ausente, a expressão do teu olhar, quando ao fim da noite voltava, e os nossos beijos já nada diziam.
Calei-me, na bruta agonia incontornável da viagem já perdida, da eterna dor das saudades que restam e permanecem.
E num esforço derradeiro, soerguendo-me, deixei que a tua música tocasse repetidamente e me embalasse até adormecer.