24.7.07

Divagação


foto de LiaPansy

Nas ruas que se escancaram
rebatem lentamente as horas,
cadencias das torres sineiras
que não te percebem,
escondida,
nas esquinas desbotadas.
O trânsito das almas
inocentes
desce em direcção às sopas
do jantar,
aos braços dos que ficaram
por esperar.
Subo de encontro à corrente
passo por rostos
intraduzíveis,
perdidos na fotogenía barata
das notícias verdadeiras,
roço-me
por mulheres destinadas
ás camas, de homens
que se deitam mais tarde,
depois que a cozinha se aprume
e o lume se apague.
Meto pelas vielas
que não se deixam encontrar,
abro as solas dos sapatos
nas esquinas dos balcões,
onde me abstenho de mim
e me incorporo, verde
em absintos, que me livrem
de sentir,
a dura caminhada
que ainda tenho por fazer.

23.7.07

Poemas de ti (7)




Na aproximação dos olhares
quando te leio, na implacável
transparência, vítrea,
da tua alma desnudada,
quando te encontro desarmada
e assalto tuas janelas:
Irrompo em tua casa
Sento-me.
Chamo-te.
Tu vens, e sentas-te…
e nos temos.
Como se sempre fosses minha,
e teus lábios
minha casa,
papoilas no meio da seara…
teu ventre
é minha eira,
onde espalho meu trigo mondado
e te lembro,
de fita verde, beijando
teu cabelo loiro - trigal,
começo de sementeira
que deu num Agosto
abundante,
contigo derramada em meus olhos,
cantiga de Maio
num luar grande, iluminado
e sombras de velhos freixos,
escondendo beijos
trazidos no teu cesto, de vime
cheio deste desejo
que me aconchegou em ti.

19.7.07

Poemas de ti (6)




Alijo a carga
estendo no chão os meus pertences.
Deixo que o tempo volte,
me molde,
me faça deixar por esquecer
este ferrão
que me arrepanha a pele,
e me torna escravo
de uma esperança moribunda.
Ainda assim penso em ti,
com a nostalgia
calma e serena de um velho,
um sorriso na ponta do lábio,
uma lágrima fresca escapando.
Penso em ti,
como se pensa nos filhos
abrindo os olhos pela primeira vez,
como num chegar breve
ao entardecer
na foz do rio,
como no avistar de uma paisagem
no cimo de qualquer escalada.
Recordo-te
com a felicidade do primeiro beijo
trocado,
no peito aberto às ruas
na aventura clandestina
de ser teu sem me quereres.
Volto a mim,
as mãos fitam minhas rugas cavadas,
deixo que o olhar se liberte
e procure onde poisar.
O vento traz-me a ausência do teu cheiro,
o teu nada
que me dói mais que tudo.
Ergo-me,
enfrento a estrada,
minha carga tem o peso de mais uma memória,
as costas dormentes,
os pés cansados,
o caminho rindo zombeteiro da descrença em mim.
Ergo-me,
e nos passos seguidos de mais passos,
percebo na aragem
que o Sol devolve pelo findar da tarde,
que nunca escaparás de mim,
desta escrita solta, apaixonada
que fazes nascer
em cada batida do meu coração.
A esperança caminha junto a mim.

Há quanto tempo não fumo




Dou por mim sem o cigarro de sempre. as mãos desgovernadas, a dôr intensa de um peito despovoado, os lábios sem a mortalha, sem o calor que tanto me consola.Dou por mim sem o fumo, sem os dois dedos cúmplices, sem o retrato estereotipado do pensador. dou por mim sem cigarros, sem enlouquecer, tantando perceber que sou livre, mas estou preso na saudade. Ai cigarro, que mal fazes, que falta fazes. nem o cachimbo, nem a cigarrilha me vale, é o cigarro que me falta. De nada vale, o cigarro vai ter de me abandonar...

17.7.07

A vida corre


A vida corre
como a aragem morna
num qualquer dia estival;
passa vagarosa,
murmura
silêncios imperceptíveis,
em passos pequenos
calados…
Sinto-te ainda assim,
no sangue que pulsa
das minhas veias,
dos nós roxos dos meus dedos,
com que sustenho
esta nostalgia, parda e apagada,
E deixo que a vida me escape.
Dou a mão ao destino,
o peso do meu corpo
tombado nos ombros.
Deixo que o sorriso
dos olhos marejados,
embale a nostalgia
dos miradouros perdidos
dos lugares secretos
que todos conhecem
mas só tu sabes ser meu.
Esfrego as lágrimas
que toldam o tanto que olho
o pouco que vejo.
De mãos desprendidas
inúteis,
arrasto meu dia,
atraso a vida
na conversa do tempo.
Desculpas das palavras
que me deixam
ficar.
E de volta à cidade,
percebo que não estás,
A vida?
A vida, corre.

9.7.07

No findar da tarde


- No findar da tarde,
quando o sol se assenta
e as aves descansam
nos beirais mais baixos,
desprevenidas.
- No assomar da escuridão,
quando a brisa fulgia
me traz teu cheiro,
e as memórias
que a ausência disfarça
na visão de um ocaso
imaginado.
- Na garganta seca
nas palavras encravadas
onde estalam sons inauditos
rumores de beijos
nunca dados,
e o meu corpo retesado
imóvel
jazendo,
prova da tua falta,
causa do teu crime
carrasco deste coração.
- No findar da tarde
quando a cidade se despe
e ficam à janela
em camisolas de alça
os olhos de quem observa.
- No findar da tarde
antes que a noite me esqueça.

- É que me torno
o uivo de um cão abandonado
de um sonho
que se prendeu nas estrelas
cadentes
breves
é que me torno poeta de ti.

3.7.07

Poema de ti (5)


foto de Sónia Guerreiro

Certeiro o olhar
com que te vejo,
engano
de quase te ter
e me fugires,
como o vento que roda
nos meus dedos,
e se escapa
sem nada para dizer.
Macera-se a tez
na caminhada,
muda de tons e de expressão
e quando te sente
na chegada,
volta-se
perde-se
transfigura-se.
E é de luz
que agora brilha,
deslumbrante, enamorado.
Resplandece o coração
nas memórias do teu cheiro,
do teu corpo permitido,
este desejo
embrenhado
solto, doce, sublime,
de ao menos
te ver
te desejar,
de ser tão teu
como a sombra da verdade.

25.6.07

Crónica da Saudade




Fechei a janela encadeado pelo Sol que já me fustigava os olhos. Acabaras de sair e já tinha saudades de ti. Aspirei lentamente o teu perfume que ainda se passeava pela minha casa, e notei a ausência que já se arrastava nos vazios que deixaras. As gavetas desalinhadas, os espaços onde cabiam teus livros, a minha escova de dentes só e desgraçada. Olhei o espelho, vi nele as rugas marcadas, olhos inchados, vermelhos, uma sombra negra, fantasma do tempo que o futuro ditava assustadoramente real, contornando o vazio de um olhar que não me reconhecia. Quis ver-te onde não estavas, fechei os olhos e senti teus braços apertando-me, o teu sussurro inconfundível, dizendo do quanto tínhamos sido felizes.
Percorri o silêncio que inundava as paredes. Havia momentos espalhados por todos os pequenos detalhes. Nos nossos retratos, os sorrisos que agora são histórias velhas, diziam do quanto o tempo dita a mudança, da ternura que se perdera, das cumplicidades juvenis, dos concertos inolvidáveis onde te olhei e me senti único, das compras a dois num mercado de cores e cheiros que ainda hoje lembro, das flores secas, pedaços de nós que trazíamos para casa ao fim dos longos caminhos.
Sentado na beira da nossa cama, os lençóis amarrotados e velhos, quis saber onde nos tínhamos perdido, onde a vida se nos cruzara, e de fronte nos perdêramos. Ficou a simples explicação que cada ser dá a si próprio. A desmesurada e incontornável força da vida, como maré de Setembro que não perdoa a quem deixa os pés demasiado junto à beira da praia, e traga os incautos que se aventuram no olhar da espuma.
Percebi nos meus ombros gelados, há quanto tempo assim estava, lembrei os poemas que te fizera, o teu sorriso ausente, a expressão do teu olhar, quando ao fim da noite voltava, e os nossos beijos já nada diziam.
Calei-me, na bruta agonia incontornável da viagem já perdida, da eterna dor das saudades que restam e permanecem.
E num esforço derradeiro, soerguendo-me, deixei que a tua música tocasse repetidamente e me embalasse até adormecer.

22.6.07

Nasceste das palavras




Nasceste das palavras, como seara verde, fresca que rompe ao claro da manhã, como a luz das auroras mais claras, foste pássaro que me olhou no beiral e não se recolhe nem foge, antes permanece entoando o canto de conquista.
Dos teus dedos, percebi o toque seguro dos que se encantam e amam com a determinação de um guerreiro, a vontade dos caminheiros que se levantam e querem chegar mais longe. Sinto-te, presente em cada dia, na música que me embala, nos sentidos que se despertam ao perceber-te. Arranco de mim as perguntas para as quais só tu surges como resposta.
Depois vêm as noites que se seguem aos dias intensos, às ruas cheias de gente e de nada, dos nevoeiros densos das chaminés antigas, dos braços caídos de quem vive por viver, das margaridas murchas, desbotadas, dos artifícios dos sorrisos cosméticos, dos enganos de meio mundo a outro mundo mais que meio.
Mas quando a madrugada rompe, e num clarear furtivo, consigo romper na manhã, livre e intensa, no cheiro da brisa que se acorda, cruzo a cidade magnífica, limpa, húmida do silêncio virginal que os adormecidos não entendem Aí estás outra vez, perfeita, magnífica, dada, ao meu amor, rebentando num poema que se desenha, decalcado desse teu rosto, tatuado em mim, só para que os teus olhos se abram, a tua boca sorria, o teu corpo se deite e me diga, que esta paixão, nascida das palavras, é rosa aberta que não morre mais.

21.6.07

Poemas de ti (IV)




Meus olhos nus
revelam
o meu abandono.
Percebes-me
na expressão dos meus lábios
tremendo
quando digo teu nome.
E no teu corpo
entrego-me
febril,
os poros
transpirando desejo
que repeles
na capa da tua memória
desse amor que guardas
e te prende.
Profundamente teu
nos sentidos que não enganam
na incontida vontade
de te dar guarida
neste coração
que te pronuncia
todo o dia,
é quando,
teus olhos por fim me fitam
e sinto a tua pena
dorida
em que me oferece apenas
o carinho de uma mão
amiga,
que sou outra vez outro,
sou poeta
sou estrangeiro
não sou teu
sou apenas meus olhos nus
escondidos.

20.6.07

O tempo parou


foto de: Rui Nabais


O tempo parou
sentou-se
e sentiu o sol
batendo ao de leve no rosto.
percebeu os sons
que corriam apressados
entendeu as cores
e os quadros.
O tempo parou
olhou as ruas geométricas
a nudez do Outono,
os traços profundos
que a vida marca
na cara dos velhos.
Veio o frio
e os dias solarengos,
que disfarçam os medos
e as noites precoces.
E solta-se o verão,
e as copas das árvores
onde nos escondemos
e nos soltamos
das vestes e fazemos amor.
O tempo parou
ao som das músicas
que nos contam histórias
embaladas
pela aragem fresca
que nos cola a um velho banco
amadeirado.
O tempo parou
e eu escrevi mais um poema.

12.6.07

Um momento






A luz da tarde estendia-se ao longe.
pressenti-te,...
sei que me esperavas,
como eu te esperava há muito tempo.
percebi o cheiro dos teus cabelos e toquei-te,
os teus braços envolveram-me
e senti teu peito arfando.
fomos um,
num único beijo envolvente e quente.
demos por nós no meu leito.
tua boca sabia a menta fresca,
tua língua brincava com a minha,
e nossos olhos perdiam-se de mansinho.
perdi meus dedos na tua blusa
e os botões sorriram
saindo das suas casas livre e alegres,
descobrindo
teus seios belos e apetitosos,
que devorei no desejo incontido de te ter.
depois parei
e disse-te o que me saltava do peito
em lufadas de ternura e volúpia.
quis-te como teus olhos me pediam,
e tu quiseste-me,
quando me voltaste e me possuíste
num imenso afago,
junto à minha boca,
deixando teus cabelos caírem por mim,
desprendendo-me das roupas que nos separavam.
Procuras agora meus olhos
e dizes-me o quanto já tarda a espera,
e somos dois,
e somos corpos
e amor desmedido,
encontro tuas coxas macias
e mergulho no teu colo,
brincando em ti,
saboreando todo o fogo que me abres,
e que eu não recuso.
acabamos,
como acaba qualquer história
entre dois amantes
- na partilha e na pertença de dois corpos.
explodimos ao mesmo tempo,
e ainda sorrindo,
percebo
nos teus olhos a vontade de voltar
e repetirmos.
esta sensação de podermos ser felizes
as vezes que a vontade quiser...

11.6.07

Poema de ti (3)...




O teu rosto,
é como um marinheiro
que se despede
do meu peito
como porto
onde não volta no teu barco,
preso
a um cais que não
conheço.
Desta praia
onde sentado
me abandono,
navega um coração
arrancado
da terra firme,
colhido já maduro,
que te fita de perto
e te toca
com a expressão
de um naufrago,
as velas decepadas
pelo vento
que as teimou em trespassar.
Este amor
que se esvazia
quando o céu tem o tom
do negrume, longínquo
que me torna eloquente
nas palavras
e te pronuncia
nos sonhos
efémeros,
é como espuma
morrendo
nos pés que a praia
guarda
calada
sem destino.