25.6.07

Crónica da Saudade




Fechei a janela encadeado pelo Sol que já me fustigava os olhos. Acabaras de sair e já tinha saudades de ti. Aspirei lentamente o teu perfume que ainda se passeava pela minha casa, e notei a ausência que já se arrastava nos vazios que deixaras. As gavetas desalinhadas, os espaços onde cabiam teus livros, a minha escova de dentes só e desgraçada. Olhei o espelho, vi nele as rugas marcadas, olhos inchados, vermelhos, uma sombra negra, fantasma do tempo que o futuro ditava assustadoramente real, contornando o vazio de um olhar que não me reconhecia. Quis ver-te onde não estavas, fechei os olhos e senti teus braços apertando-me, o teu sussurro inconfundível, dizendo do quanto tínhamos sido felizes.
Percorri o silêncio que inundava as paredes. Havia momentos espalhados por todos os pequenos detalhes. Nos nossos retratos, os sorrisos que agora são histórias velhas, diziam do quanto o tempo dita a mudança, da ternura que se perdera, das cumplicidades juvenis, dos concertos inolvidáveis onde te olhei e me senti único, das compras a dois num mercado de cores e cheiros que ainda hoje lembro, das flores secas, pedaços de nós que trazíamos para casa ao fim dos longos caminhos.
Sentado na beira da nossa cama, os lençóis amarrotados e velhos, quis saber onde nos tínhamos perdido, onde a vida se nos cruzara, e de fronte nos perdêramos. Ficou a simples explicação que cada ser dá a si próprio. A desmesurada e incontornável força da vida, como maré de Setembro que não perdoa a quem deixa os pés demasiado junto à beira da praia, e traga os incautos que se aventuram no olhar da espuma.
Percebi nos meus ombros gelados, há quanto tempo assim estava, lembrei os poemas que te fizera, o teu sorriso ausente, a expressão do teu olhar, quando ao fim da noite voltava, e os nossos beijos já nada diziam.
Calei-me, na bruta agonia incontornável da viagem já perdida, da eterna dor das saudades que restam e permanecem.
E num esforço derradeiro, soerguendo-me, deixei que a tua música tocasse repetidamente e me embalasse até adormecer.

22.6.07

Nasceste das palavras




Nasceste das palavras, como seara verde, fresca que rompe ao claro da manhã, como a luz das auroras mais claras, foste pássaro que me olhou no beiral e não se recolhe nem foge, antes permanece entoando o canto de conquista.
Dos teus dedos, percebi o toque seguro dos que se encantam e amam com a determinação de um guerreiro, a vontade dos caminheiros que se levantam e querem chegar mais longe. Sinto-te, presente em cada dia, na música que me embala, nos sentidos que se despertam ao perceber-te. Arranco de mim as perguntas para as quais só tu surges como resposta.
Depois vêm as noites que se seguem aos dias intensos, às ruas cheias de gente e de nada, dos nevoeiros densos das chaminés antigas, dos braços caídos de quem vive por viver, das margaridas murchas, desbotadas, dos artifícios dos sorrisos cosméticos, dos enganos de meio mundo a outro mundo mais que meio.
Mas quando a madrugada rompe, e num clarear furtivo, consigo romper na manhã, livre e intensa, no cheiro da brisa que se acorda, cruzo a cidade magnífica, limpa, húmida do silêncio virginal que os adormecidos não entendem Aí estás outra vez, perfeita, magnífica, dada, ao meu amor, rebentando num poema que se desenha, decalcado desse teu rosto, tatuado em mim, só para que os teus olhos se abram, a tua boca sorria, o teu corpo se deite e me diga, que esta paixão, nascida das palavras, é rosa aberta que não morre mais.

21.6.07

Poemas de ti (IV)




Meus olhos nus
revelam
o meu abandono.
Percebes-me
na expressão dos meus lábios
tremendo
quando digo teu nome.
E no teu corpo
entrego-me
febril,
os poros
transpirando desejo
que repeles
na capa da tua memória
desse amor que guardas
e te prende.
Profundamente teu
nos sentidos que não enganam
na incontida vontade
de te dar guarida
neste coração
que te pronuncia
todo o dia,
é quando,
teus olhos por fim me fitam
e sinto a tua pena
dorida
em que me oferece apenas
o carinho de uma mão
amiga,
que sou outra vez outro,
sou poeta
sou estrangeiro
não sou teu
sou apenas meus olhos nus
escondidos.

20.6.07

O tempo parou


foto de: Rui Nabais


O tempo parou
sentou-se
e sentiu o sol
batendo ao de leve no rosto.
percebeu os sons
que corriam apressados
entendeu as cores
e os quadros.
O tempo parou
olhou as ruas geométricas
a nudez do Outono,
os traços profundos
que a vida marca
na cara dos velhos.
Veio o frio
e os dias solarengos,
que disfarçam os medos
e as noites precoces.
E solta-se o verão,
e as copas das árvores
onde nos escondemos
e nos soltamos
das vestes e fazemos amor.
O tempo parou
ao som das músicas
que nos contam histórias
embaladas
pela aragem fresca
que nos cola a um velho banco
amadeirado.
O tempo parou
e eu escrevi mais um poema.

12.6.07

Um momento






A luz da tarde estendia-se ao longe.
pressenti-te,...
sei que me esperavas,
como eu te esperava há muito tempo.
percebi o cheiro dos teus cabelos e toquei-te,
os teus braços envolveram-me
e senti teu peito arfando.
fomos um,
num único beijo envolvente e quente.
demos por nós no meu leito.
tua boca sabia a menta fresca,
tua língua brincava com a minha,
e nossos olhos perdiam-se de mansinho.
perdi meus dedos na tua blusa
e os botões sorriram
saindo das suas casas livre e alegres,
descobrindo
teus seios belos e apetitosos,
que devorei no desejo incontido de te ter.
depois parei
e disse-te o que me saltava do peito
em lufadas de ternura e volúpia.
quis-te como teus olhos me pediam,
e tu quiseste-me,
quando me voltaste e me possuíste
num imenso afago,
junto à minha boca,
deixando teus cabelos caírem por mim,
desprendendo-me das roupas que nos separavam.
Procuras agora meus olhos
e dizes-me o quanto já tarda a espera,
e somos dois,
e somos corpos
e amor desmedido,
encontro tuas coxas macias
e mergulho no teu colo,
brincando em ti,
saboreando todo o fogo que me abres,
e que eu não recuso.
acabamos,
como acaba qualquer história
entre dois amantes
- na partilha e na pertença de dois corpos.
explodimos ao mesmo tempo,
e ainda sorrindo,
percebo
nos teus olhos a vontade de voltar
e repetirmos.
esta sensação de podermos ser felizes
as vezes que a vontade quiser...

11.6.07

Poema de ti (3)...




O teu rosto,
é como um marinheiro
que se despede
do meu peito
como porto
onde não volta no teu barco,
preso
a um cais que não
conheço.
Desta praia
onde sentado
me abandono,
navega um coração
arrancado
da terra firme,
colhido já maduro,
que te fita de perto
e te toca
com a expressão
de um naufrago,
as velas decepadas
pelo vento
que as teimou em trespassar.
Este amor
que se esvazia
quando o céu tem o tom
do negrume, longínquo
que me torna eloquente
nas palavras
e te pronuncia
nos sonhos
efémeros,
é como espuma
morrendo
nos pés que a praia
guarda
calada
sem destino.

Nada se compara a ti.


foto de Nuno Ferreira
Nada se compara a ti.
Tudo parece imperfeito
Ao teu lado.
Transmites tanto nesse teu olhar,
o teu sorriso contagiante
genuíno, doce.
Olho-te,
Como se fosses um anjo
Somente uma menina doce e bela.
Rendido no tempo,
sempre rendido
na determinação vital,
preciosa, de te achar.
Digo ao vento,
do quanto te quero
e espalho com ele (o vento)
as tuas lágrimas
que se tornam estátuas
imortais.
Sobrevivo na tua mão,
do lado do abismo.
Seguro a vida
como uma rosa espinhada
escrita no fel
amargurada pelo sangue
dada,
na contínua proporção
deste amor que violenta
o Sol
e me torna Lua
de ti.
Ficando apenas o desejar,
o desejar que sejas só
minha e de mais
ninguém...
Fazendo inveja a beleza,
por seres ainda mais bela...
Tornando a estrela mais
brilhante entre tantas
outras... destacando
pela tua simplicidade.
Fazendo de nós dois
um ser só como se
de uma alma gémea,
se tratasse...



Dueto publicado no Luso Poemas com o Bruno

Sempre te espero


Sempre te espero
quando o sol
me toca
pela manhã
e acordo estendida
em teu peito
amarrada nos teus braços
que me fazem sentir mulher.

Quando a tarde
trás meus olhos
cansados
procuro teus beijos
que me consolam
e deixo em ti
a marca de água
indelével
dos teus sentidos.

Diante da procura
das tuas palavras
pelas tuas mãos
nas minhas
pelo teu corpo
no meu,
reclamamo-nos
no prazer da carne
incendiada,
do torpor lânguido
que nos deita
e nos revolve,
até que se esgote
o desejo.

Mas é no embrulhar
das palavras
como ondas salgadas
que te encontro.
Em maré vazia,
com o por do sol.
Estendendo na areia
versos... poemas...
E das nossas histórias
partilhadas
fica o cheiro acre
deste tempo
onde sempre
te procuro
todo o dia.


Dueto publicado no Luso Poemas com a Tália

Duetos - O Sol


A clarabóia aceita o Sol que se derrama
por entre teus cabelos, semeados
perdidos em sonhos, em feitiços
estendendo docemente
a luz por teus olhos,
com que beijas
meus lábios que tanto te querem,
ansiando a fosca sombra
do entardecer.
Pressente-se o calor dos corpos
na doce e terna nudez
com que aventuramos
cada nova descoberta
cada terno e simples entrelaçar
cada toque,
na explosão da alegria
com que saímos de nós e nos olhamos
loucos
felizes.
O mar inveja cada gesto teu,
de tão perfeito que és,
de tão unos que somos.
No céu abre-se a cor
que imita o azul do teu olhar,
e quando nos fitamos,
perdemo-nos no sentido,
tão intenso,
tão verdadeiro,
tão puro,
deste amor de almas
e corpos embriagados
escorrendo
na nudez dos sentidos.
E de nós dois sabe bem
Ficar assim.
Dueto publicado no Luso-Poemas com Vera Silva

5.6.07

Quimera


foto de: Carla Maio
Sinto-te pelas vésperas
trazida por um vento fresco que se assoma,
como se te abraçasse,
e na explosão dos traços
emprestados ao teu rosto,
as palavras nascessem,
do profundo guardado no teu peito.
Há sempre um cheiro novo,
intenso,
que vem na entrega
na partilha,
e me ultrapassa e me provoca
quando te olho, como a um espelho
e te sinto meu lado desigual.
És a mestra que me ensina
o caminho onde vou,
apontando na tua direcção;
recebes meus dedos em delírio
onde te desenho,
nos gestos que procuras
e esfusiante pedes mais e mais ternura,
que eu derramo em ti sem constrangimento.
Nas noites onde
te deitas comigo,
permanece real o meu desejo,
ofereço-te quase tudo o que possuo,
deixando-me embalar no trecho dessa dança
onde teus pés e meus, se cruzam e saltam no meu leito,
felizes dos encontros, de se terem.
e dos poemas que dizemos de cor
e mais os que trocamos sem olhar,
confortam-nos do gelo da saudade
que se derrete,
quando nos chegamos,
bem perto do que sempre
pode acontecer..

Se …


foto de Jorge Casais

Há sempre um se nas nossas vidas, uma ambiguidade própria dos seres que têm a capacidade da escolha, dos que procuram estar e alcançar, o que não têm, o que não sentem. A verdade de cada homem, é momentânea, perene, simples, complexa, fechada e aberta ao mesmo tempo, sem forma de medir horizontes, sem réguas que sejam mais que referência, medidores.
Á minha frente, uma estrada imensa, chamada pensamento. Por isso sou mais que a soma dos átomos que me fecham neste objecto chamado corpo. Mas é do corpo que trato, é dele e nele que vivo e desejo e me excito e sofro. E desta grande chatice não tenho forma de me livrar, quanto muito – olhando os céus e descobrindo a inexistência, a periclitante instabilidade e fragilidade, a imperfeição, o desejo de não ser o que olho, quando me fito num qualquer reflexo. Desejo ser deus infinito, onde me perpetue e me entronize e apenas reste o que quero ter de bom, magnífico, sublime. Como o meu cão, que se baba diante das migalhas do meu prato, procuro infinitamente a felicidade, colocando em cada lugar a marca do que realmente quero. E se o que quero, não é propriamente para mim, encontro nesses gestos, a suprema felicidade de optar pelo mais condicionante dos se, quando a tristeza, a opção, o abandono, o meu desmembramento, é a felicidade do sorriso de quem amo, de optar entre mim, e quem construo na minha liberdade de amar.
O se é a nossa estrada, é a liberdade dos que encarcerados são mais livres que os indigentes, dos que sonham a morte como recompensa de vidas mal vividas, dos seres enamorados, que sempre esperam mais que a luz do sol incidindo nos rostos já passados, das rugas que contam histórias envenenadas pelo futuro sempre a chegar.
O se é a derradeira forma de sorrirmos, sabendo que a escolha é nossa. É a forma sublime de contrariar o destino, de escrevermos palavras que não estas, de nos deixarmos ir sem destino…, se

28.5.07

Um mau momento


A lua encolheu-se de mansinho, dormindo sobre a grande copa do carvalho que me vigiava a vida desde pequeno. Pela minha janela, percebi o Mundo que se espalhava lá fora. Dei conta das horas perdidas, das gargalhadas decepadas pelo mau humor, das faces frescas acolhedoras, transformadas por choros inesperados, traidores. Um copo quase vazio, servia de enfeite à mesa castanha escura, onde uma caneta e um lápis, se chegavam mirando os dedos amarelados que os apertavam a maior parte do tempo. A caneta chorava todos os amigos já perdidos, do tempo que ali passava.Dei-me conta de que passava por mim, mais um mau momento. Os maus momentos que de agudos, tendem a passar a crónicos, como uma doença insidiosa e dura que nunca perceberá o que é a paz de uma vida longa e feliz. Levantei-me ao ritmo de um último trago que o copo me oferecia, os olhos doridos e vermelhos, perceberam a insondável crueza dos dias somados, da fuga que a juvenilidade tomara, cansada das somas duras dos cigarros irrepetíveis, dos bagaços sem conta, das mulheres que nunca repetiam os mesmos lençóis.E vieram as lágrimas e as frases babadas, arrependidas, o copo mordido de seco, a vontade de tudo limpar num olhar marejado, procurando a lua que dormia.Como sempre, acabei estatelado no sofá coçado e cansado de mim, as folhas soltas pela mesa, a eterna ausência de ti, a triste sina de me render, com a razão que me derruba e sabe dizer, quando me olha de soslaio e foge outra vez. Deixa estar, é só um momento mau...

22.5.07

O brilho das horas


foto in: www.fpam.pt
O brilho das horas
vespertinas
contrasta no azul da tua foz,
o meu veleiro sereno, aporta
na bolina da vaga
que o apressa.
Acolhes-me em teu porto
sem amarras,
acosto-me
em teus braços murados
onde lanço os meus
pelo horizonte,
cobrindo de tesouros
o que a vida gasta
conquistou.
Descubro meus desejos
no teu cais,
estendes pelo chão os
meus achados,
acolhes os meus beijos
no teu regaço,
e nas mantas espalhadas
noite fora
tomas-me e pedes
que te dê,
a verdade
que trago guardada,
curtida no sal
das marés vivas,
a que sobrou
da vida a navegar.
Rebentam já as ondas
ancoradas,
onde chego e parto
sem esquecer,
que parto para sentir
a tua ausência,
e volto para matar
minha saudade.