11.6.07

Nada se compara a ti.


foto de Nuno Ferreira
Nada se compara a ti.
Tudo parece imperfeito
Ao teu lado.
Transmites tanto nesse teu olhar,
o teu sorriso contagiante
genuíno, doce.
Olho-te,
Como se fosses um anjo
Somente uma menina doce e bela.
Rendido no tempo,
sempre rendido
na determinação vital,
preciosa, de te achar.
Digo ao vento,
do quanto te quero
e espalho com ele (o vento)
as tuas lágrimas
que se tornam estátuas
imortais.
Sobrevivo na tua mão,
do lado do abismo.
Seguro a vida
como uma rosa espinhada
escrita no fel
amargurada pelo sangue
dada,
na contínua proporção
deste amor que violenta
o Sol
e me torna Lua
de ti.
Ficando apenas o desejar,
o desejar que sejas só
minha e de mais
ninguém...
Fazendo inveja a beleza,
por seres ainda mais bela...
Tornando a estrela mais
brilhante entre tantas
outras... destacando
pela tua simplicidade.
Fazendo de nós dois
um ser só como se
de uma alma gémea,
se tratasse...



Dueto publicado no Luso Poemas com o Bruno

Sempre te espero


Sempre te espero
quando o sol
me toca
pela manhã
e acordo estendida
em teu peito
amarrada nos teus braços
que me fazem sentir mulher.

Quando a tarde
trás meus olhos
cansados
procuro teus beijos
que me consolam
e deixo em ti
a marca de água
indelével
dos teus sentidos.

Diante da procura
das tuas palavras
pelas tuas mãos
nas minhas
pelo teu corpo
no meu,
reclamamo-nos
no prazer da carne
incendiada,
do torpor lânguido
que nos deita
e nos revolve,
até que se esgote
o desejo.

Mas é no embrulhar
das palavras
como ondas salgadas
que te encontro.
Em maré vazia,
com o por do sol.
Estendendo na areia
versos... poemas...
E das nossas histórias
partilhadas
fica o cheiro acre
deste tempo
onde sempre
te procuro
todo o dia.


Dueto publicado no Luso Poemas com a Tália

Duetos - O Sol


A clarabóia aceita o Sol que se derrama
por entre teus cabelos, semeados
perdidos em sonhos, em feitiços
estendendo docemente
a luz por teus olhos,
com que beijas
meus lábios que tanto te querem,
ansiando a fosca sombra
do entardecer.
Pressente-se o calor dos corpos
na doce e terna nudez
com que aventuramos
cada nova descoberta
cada terno e simples entrelaçar
cada toque,
na explosão da alegria
com que saímos de nós e nos olhamos
loucos
felizes.
O mar inveja cada gesto teu,
de tão perfeito que és,
de tão unos que somos.
No céu abre-se a cor
que imita o azul do teu olhar,
e quando nos fitamos,
perdemo-nos no sentido,
tão intenso,
tão verdadeiro,
tão puro,
deste amor de almas
e corpos embriagados
escorrendo
na nudez dos sentidos.
E de nós dois sabe bem
Ficar assim.
Dueto publicado no Luso-Poemas com Vera Silva

5.6.07

Quimera


foto de: Carla Maio
Sinto-te pelas vésperas
trazida por um vento fresco que se assoma,
como se te abraçasse,
e na explosão dos traços
emprestados ao teu rosto,
as palavras nascessem,
do profundo guardado no teu peito.
Há sempre um cheiro novo,
intenso,
que vem na entrega
na partilha,
e me ultrapassa e me provoca
quando te olho, como a um espelho
e te sinto meu lado desigual.
És a mestra que me ensina
o caminho onde vou,
apontando na tua direcção;
recebes meus dedos em delírio
onde te desenho,
nos gestos que procuras
e esfusiante pedes mais e mais ternura,
que eu derramo em ti sem constrangimento.
Nas noites onde
te deitas comigo,
permanece real o meu desejo,
ofereço-te quase tudo o que possuo,
deixando-me embalar no trecho dessa dança
onde teus pés e meus, se cruzam e saltam no meu leito,
felizes dos encontros, de se terem.
e dos poemas que dizemos de cor
e mais os que trocamos sem olhar,
confortam-nos do gelo da saudade
que se derrete,
quando nos chegamos,
bem perto do que sempre
pode acontecer..

Se …


foto de Jorge Casais

Há sempre um se nas nossas vidas, uma ambiguidade própria dos seres que têm a capacidade da escolha, dos que procuram estar e alcançar, o que não têm, o que não sentem. A verdade de cada homem, é momentânea, perene, simples, complexa, fechada e aberta ao mesmo tempo, sem forma de medir horizontes, sem réguas que sejam mais que referência, medidores.
Á minha frente, uma estrada imensa, chamada pensamento. Por isso sou mais que a soma dos átomos que me fecham neste objecto chamado corpo. Mas é do corpo que trato, é dele e nele que vivo e desejo e me excito e sofro. E desta grande chatice não tenho forma de me livrar, quanto muito – olhando os céus e descobrindo a inexistência, a periclitante instabilidade e fragilidade, a imperfeição, o desejo de não ser o que olho, quando me fito num qualquer reflexo. Desejo ser deus infinito, onde me perpetue e me entronize e apenas reste o que quero ter de bom, magnífico, sublime. Como o meu cão, que se baba diante das migalhas do meu prato, procuro infinitamente a felicidade, colocando em cada lugar a marca do que realmente quero. E se o que quero, não é propriamente para mim, encontro nesses gestos, a suprema felicidade de optar pelo mais condicionante dos se, quando a tristeza, a opção, o abandono, o meu desmembramento, é a felicidade do sorriso de quem amo, de optar entre mim, e quem construo na minha liberdade de amar.
O se é a nossa estrada, é a liberdade dos que encarcerados são mais livres que os indigentes, dos que sonham a morte como recompensa de vidas mal vividas, dos seres enamorados, que sempre esperam mais que a luz do sol incidindo nos rostos já passados, das rugas que contam histórias envenenadas pelo futuro sempre a chegar.
O se é a derradeira forma de sorrirmos, sabendo que a escolha é nossa. É a forma sublime de contrariar o destino, de escrevermos palavras que não estas, de nos deixarmos ir sem destino…, se

28.5.07

Um mau momento


A lua encolheu-se de mansinho, dormindo sobre a grande copa do carvalho que me vigiava a vida desde pequeno. Pela minha janela, percebi o Mundo que se espalhava lá fora. Dei conta das horas perdidas, das gargalhadas decepadas pelo mau humor, das faces frescas acolhedoras, transformadas por choros inesperados, traidores. Um copo quase vazio, servia de enfeite à mesa castanha escura, onde uma caneta e um lápis, se chegavam mirando os dedos amarelados que os apertavam a maior parte do tempo. A caneta chorava todos os amigos já perdidos, do tempo que ali passava.Dei-me conta de que passava por mim, mais um mau momento. Os maus momentos que de agudos, tendem a passar a crónicos, como uma doença insidiosa e dura que nunca perceberá o que é a paz de uma vida longa e feliz. Levantei-me ao ritmo de um último trago que o copo me oferecia, os olhos doridos e vermelhos, perceberam a insondável crueza dos dias somados, da fuga que a juvenilidade tomara, cansada das somas duras dos cigarros irrepetíveis, dos bagaços sem conta, das mulheres que nunca repetiam os mesmos lençóis.E vieram as lágrimas e as frases babadas, arrependidas, o copo mordido de seco, a vontade de tudo limpar num olhar marejado, procurando a lua que dormia.Como sempre, acabei estatelado no sofá coçado e cansado de mim, as folhas soltas pela mesa, a eterna ausência de ti, a triste sina de me render, com a razão que me derruba e sabe dizer, quando me olha de soslaio e foge outra vez. Deixa estar, é só um momento mau...

22.5.07

O brilho das horas


foto in: www.fpam.pt
O brilho das horas
vespertinas
contrasta no azul da tua foz,
o meu veleiro sereno, aporta
na bolina da vaga
que o apressa.
Acolhes-me em teu porto
sem amarras,
acosto-me
em teus braços murados
onde lanço os meus
pelo horizonte,
cobrindo de tesouros
o que a vida gasta
conquistou.
Descubro meus desejos
no teu cais,
estendes pelo chão os
meus achados,
acolhes os meus beijos
no teu regaço,
e nas mantas espalhadas
noite fora
tomas-me e pedes
que te dê,
a verdade
que trago guardada,
curtida no sal
das marés vivas,
a que sobrou
da vida a navegar.
Rebentam já as ondas
ancoradas,
onde chego e parto
sem esquecer,
que parto para sentir
a tua ausência,
e volto para matar
minha saudade.

21.5.07

Poemas de ti (2)...


foto de Paulo Medeiros

Sei que vais passar
por cá,
vi-te ao longe
no caminho,
espero-te…
percebo-te
quando me foges
e finges
que ignoras o meu lugar.
Estou aqui,
digo sussurrando!
nem te procuro,
encontro-te;
na tua dança,
no teu modo único
de me fazeres sorrir,
e saber que ainda há tempo
para sonhar.
Sou do teu tempo,
e das margaridas amarelas
que semeias
e nascem do teu ventre,
sou dos teus olhos
das imagens que vejo,
quando os cerro
e fico perto de ti.
Sou dos teus sonhos
e das coisas em que não crês,
e das notas mágicas
onde me encanto
e embalo
e fico,
sabendo que vais passar
por mim.

15.5.07

Poemas de ti...

Assumo de uma vez
este desejo
que se estende pela pele
e me estremece,
e deixo nos teus olhos
meu olhar,
de joelhos
como se fosse uma prece.

Na espuma
onde encontro nosso espaço,
e nos deixamos molhados
em silêncio,
calo a vontade de dizer,
do desabafo,

e de um trago me calo
e te abraço.

Teu corpo nú
humedecido,
tão fino, tão mulher
tão desejado,
é meu refúgio
miradouro dos meus passos,
onde sempre vou
e te contemplo
de um só espanto.

Caio na tua cama
sem a sede,
dos corpos quentes
verdes e precoces,
sou um ritmo de jazz
dissonante
ouvindo teu perfume
que me prende.
E depois que o barco parte
e nos soltamos
na vela aberta
no teu vento,
partimos navegando na bolina,
do desejo
que marca
nosso tempo.

14.5.07

Quem


Quem me diz
que estou por aqui
aperreado e dorido
destas grilhetas
com que a vida me prende
aos dias repetidos?
Quem me tenta a voar
e despedaçar-me
contra este sol
que me encadeia?
Quem me escorraça
desta cidade onde me
planto
e crio raízes que procuram
longe
a água que preciso?
Quem me afaga o pescoço,
e me beija,
e me diz as palavras
que se perdem
em cada véspera,
na desculpa de um amanhã
igual?
Quem me prende
a esta vida,
e me sacode a morte dos ombros,
e me ensina a carregar
as folhas acastanhadas
que o Outono
não escreve?
Quem me dá o descanso
que não seja eterno?
Quem me traz ao nascer-do-sol
a simples alegria
de uma centelha
que nasce e renasce
bem fundo em mim?
Quem me dá sem eu pagar
e me recebe
sem procurar
o quanto deve?
Quem?

8.5.07

Primavera


I...

Nas açucenas
onde te cheiro,
dependura-se ao de leve
um sorriso
pequeno e terno;
sinto-te nas cores do estío
com que vestes teus olhos,
com que me serves
tua cintura estreita,
onde cinjo meus braços
e te desejo minha.
Nas nuvens brancas
viandantes,
viajam meus dias
e a vontade juvenil
de navegar
nessa corrente
fresca,
imparável
que me leva a ti.
Nas planícies
onde me estendo,
escondido no trigo novo,
mergulho na tua boca
e deixo que teu amor
me fale e peça,
que nunca me aparte
de ti.

Triste saudade



Porque me lembro de ti
entranhada na minha pele,
porque os teus beijos
me revelaram
o quanto bebemos
na cumplicidade dos nossos
encontros,
no fortuito prazer
dos nossos segredos,
de como nos amámos
e como cada momento
soube a gotas de chuva
irrepetíveis.
Porque nunca nos bastámos
e sempre faltou
outra razão de ficar.
Porque o nosso amor
foi sempre
ausente
em cada despedida,
e nunca ansiámos mais
que nós os dois.
Assim me deixo hoje
seduzir,
pela memória dos tempos
tidos,
pelas tuas mãos perdidas
noutros,
pelo vento norte
cortante,
fazendo que a razão
dos meus olhos húmidos
envergonhados,
não diga da saudade
de não estares.

6.5.07

Um texto


A noite está cheia de luz. O rádio toca baixinho, diria quase imperceptível para o comum dos vizinhos que se incomodam em dormir. Os dedos agitam-se no teclado, percorrem demoradamente cada palavra e vão alinhando o texto. O cabelo em desalinho, adivinha as horas, percebe a nudez dos pensamentos que se recusam a transpor as mãos esgotadas, as pernas dormentes da posição esquecida em frente ao ecrã. No entanto ele permanece na sua melancólica desdita de escrever. Há nele um sorriso misterioso, imperfeito e louco, que nada explica.
Já é quase madrugada, o dia foi tão longo, como todos os dias teimam em ser, como todas as caminhadas se tornam dolorosas, quando os pés se recusam a obedecer, e as mãos incham de se arrastarem atrás de nós, sem uso, sem expressão. Não é o caso; - o escritor permanece no uso da escrita; defronte dele, não se nota um ecrã, mas olhos vidrados, pedaços de água, que caem de vez em quando, da luz que lhe rói as pupilas, das imagens que desenrolam o filme que lhe atravessa a alma.
Há desejos escondidos no esconso de um coração solitário e clandestino.
Ela lá estava; - permaneceu inquieta e feminina, sem nada para ousar, os pés bem assentes nessa terra de onde se recusa a partir. Ficou uma flor no cabelo, e um gesto bem desenhado com o dedo indicador, por baixo do seu lábio, como se a escrevesse, como se a inventasse. Afinal nada mais foi que o pedir de um beijo, sempre adiado, sempre questionado.
No coberto da tarde, quando permanecia diante dela, as águias costeiras voaram em redor dos dois. No voo picado, na procura de alimento, percebeu o escritor, o quanto é difícil sobreviver sem luz, o quanto o rosto daquela mulher lhe atormentava o caminho, e ao mesmo tempo o empolgava na certeza de um terno e simples olhar, na macieza das palavras que o confundiam e inebriavam, como se um simples gesto tivesse o efeito de uma gola macia que protege um colo ao vento gelado que vem do mar.
Do rosto inexpressivo do escritor, descobriu ela uns olhos mendigos, incessantemente cravados no mais puro que o coração dela continha, e ela, no espaço das sete ondas requebradas na areia, soube estender a mão e deixar-se levar bem junta ao ombro do homem que a queria.
A noite já se vai despindo. Molha o rosto, e olhando o espelho, percebe as rugas de tantas vezes se olhar. O escritor olha pelo canto do olho, a sua cama completa. Nela, nessa cama infinitamente despida, repousa hoje um corpo diáfano, um corpo com o sabor das marés, com o gosto breve dos desejos satisfeitos, com lábios que se deixaram calar. Pelo canto do olho, percebe o escritor, que escreve o discurso simples e directo, dos que se encontram e se amam, e das suas mãos, voam as palavras que nunca saberá dizer, mas que se colam nestas folhas, onde se retrata de toda a sua paixão.