15.5.07

Poemas de ti...

Assumo de uma vez
este desejo
que se estende pela pele
e me estremece,
e deixo nos teus olhos
meu olhar,
de joelhos
como se fosse uma prece.

Na espuma
onde encontro nosso espaço,
e nos deixamos molhados
em silêncio,
calo a vontade de dizer,
do desabafo,

e de um trago me calo
e te abraço.

Teu corpo nú
humedecido,
tão fino, tão mulher
tão desejado,
é meu refúgio
miradouro dos meus passos,
onde sempre vou
e te contemplo
de um só espanto.

Caio na tua cama
sem a sede,
dos corpos quentes
verdes e precoces,
sou um ritmo de jazz
dissonante
ouvindo teu perfume
que me prende.
E depois que o barco parte
e nos soltamos
na vela aberta
no teu vento,
partimos navegando na bolina,
do desejo
que marca
nosso tempo.

14.5.07

Quem


Quem me diz
que estou por aqui
aperreado e dorido
destas grilhetas
com que a vida me prende
aos dias repetidos?
Quem me tenta a voar
e despedaçar-me
contra este sol
que me encadeia?
Quem me escorraça
desta cidade onde me
planto
e crio raízes que procuram
longe
a água que preciso?
Quem me afaga o pescoço,
e me beija,
e me diz as palavras
que se perdem
em cada véspera,
na desculpa de um amanhã
igual?
Quem me prende
a esta vida,
e me sacode a morte dos ombros,
e me ensina a carregar
as folhas acastanhadas
que o Outono
não escreve?
Quem me dá o descanso
que não seja eterno?
Quem me traz ao nascer-do-sol
a simples alegria
de uma centelha
que nasce e renasce
bem fundo em mim?
Quem me dá sem eu pagar
e me recebe
sem procurar
o quanto deve?
Quem?

8.5.07

Primavera


I...

Nas açucenas
onde te cheiro,
dependura-se ao de leve
um sorriso
pequeno e terno;
sinto-te nas cores do estío
com que vestes teus olhos,
com que me serves
tua cintura estreita,
onde cinjo meus braços
e te desejo minha.
Nas nuvens brancas
viandantes,
viajam meus dias
e a vontade juvenil
de navegar
nessa corrente
fresca,
imparável
que me leva a ti.
Nas planícies
onde me estendo,
escondido no trigo novo,
mergulho na tua boca
e deixo que teu amor
me fale e peça,
que nunca me aparte
de ti.

Triste saudade



Porque me lembro de ti
entranhada na minha pele,
porque os teus beijos
me revelaram
o quanto bebemos
na cumplicidade dos nossos
encontros,
no fortuito prazer
dos nossos segredos,
de como nos amámos
e como cada momento
soube a gotas de chuva
irrepetíveis.
Porque nunca nos bastámos
e sempre faltou
outra razão de ficar.
Porque o nosso amor
foi sempre
ausente
em cada despedida,
e nunca ansiámos mais
que nós os dois.
Assim me deixo hoje
seduzir,
pela memória dos tempos
tidos,
pelas tuas mãos perdidas
noutros,
pelo vento norte
cortante,
fazendo que a razão
dos meus olhos húmidos
envergonhados,
não diga da saudade
de não estares.

6.5.07

Um texto


A noite está cheia de luz. O rádio toca baixinho, diria quase imperceptível para o comum dos vizinhos que se incomodam em dormir. Os dedos agitam-se no teclado, percorrem demoradamente cada palavra e vão alinhando o texto. O cabelo em desalinho, adivinha as horas, percebe a nudez dos pensamentos que se recusam a transpor as mãos esgotadas, as pernas dormentes da posição esquecida em frente ao ecrã. No entanto ele permanece na sua melancólica desdita de escrever. Há nele um sorriso misterioso, imperfeito e louco, que nada explica.
Já é quase madrugada, o dia foi tão longo, como todos os dias teimam em ser, como todas as caminhadas se tornam dolorosas, quando os pés se recusam a obedecer, e as mãos incham de se arrastarem atrás de nós, sem uso, sem expressão. Não é o caso; - o escritor permanece no uso da escrita; defronte dele, não se nota um ecrã, mas olhos vidrados, pedaços de água, que caem de vez em quando, da luz que lhe rói as pupilas, das imagens que desenrolam o filme que lhe atravessa a alma.
Há desejos escondidos no esconso de um coração solitário e clandestino.
Ela lá estava; - permaneceu inquieta e feminina, sem nada para ousar, os pés bem assentes nessa terra de onde se recusa a partir. Ficou uma flor no cabelo, e um gesto bem desenhado com o dedo indicador, por baixo do seu lábio, como se a escrevesse, como se a inventasse. Afinal nada mais foi que o pedir de um beijo, sempre adiado, sempre questionado.
No coberto da tarde, quando permanecia diante dela, as águias costeiras voaram em redor dos dois. No voo picado, na procura de alimento, percebeu o escritor, o quanto é difícil sobreviver sem luz, o quanto o rosto daquela mulher lhe atormentava o caminho, e ao mesmo tempo o empolgava na certeza de um terno e simples olhar, na macieza das palavras que o confundiam e inebriavam, como se um simples gesto tivesse o efeito de uma gola macia que protege um colo ao vento gelado que vem do mar.
Do rosto inexpressivo do escritor, descobriu ela uns olhos mendigos, incessantemente cravados no mais puro que o coração dela continha, e ela, no espaço das sete ondas requebradas na areia, soube estender a mão e deixar-se levar bem junta ao ombro do homem que a queria.
A noite já se vai despindo. Molha o rosto, e olhando o espelho, percebe as rugas de tantas vezes se olhar. O escritor olha pelo canto do olho, a sua cama completa. Nela, nessa cama infinitamente despida, repousa hoje um corpo diáfano, um corpo com o sabor das marés, com o gosto breve dos desejos satisfeitos, com lábios que se deixaram calar. Pelo canto do olho, percebe o escritor, que escreve o discurso simples e directo, dos que se encontram e se amam, e das suas mãos, voam as palavras que nunca saberá dizer, mas que se colam nestas folhas, onde se retrata de toda a sua paixão.

3.5.07

Aguas calmas


Aguas calmas
Chegam lentamente
À enseada
Inundam a minha praia
Sem aviso
Sem um som que me
Desperte
Já fogem os bichos descontentes
E a areia
Fica húmida e fria
Colora de tons
Escuros
O brilho do dia
Que ainda resta.
Chegas ao meu peito
Nesse mesmo jeito
Que percebo
Roubas ao espaço
Cercas o tempo
E sou ouvido
Sou boca
Sou teu estuário
Onde te deitas
E fazes desta
Praia
Um oceano azul
e manso.

Os meus passos


Risco a cidade
em passos ousados;
aprumo meu destino
numa aresta deste
telhado
sobressaído.
Olho,
com o olhar de quem olha,
com o olhar de quem procura
um olhar.
Na minha face,
viaja um sorriso
tentando agarrar
outro sorriso.
A rua está farta
cheia,
gente passa
e com ela
as histórias
pressentem-se, vivem-se.
Rasgo a cidade
e notam-se
histórias por contar
e outras já contadas,
e no desenho do caminho
que invento,
sou maior
que o tamanho
dos meus passos
e da cidade descoberta.

Dentro de mim


Dentro de mim
onde as coisas contam,
iguais,
imortais,
somos nós,
somos medos,
casa insondada,
segredos navegando livres.
Dentro de mim,
está o nosso reino encantado,
incontido
irrevelado,
que me divide,
sem dar a quem não quero,
dando quanto quero.
Dentro de mim,
somos tudo o que queremos:
passos de dança,
poemas,
cetim,
rosas vermelhas,
cidades cheias de luz,
ruas largas,
avenidas,
mulheres de beijos serenos,
crianças de risos largos,
cestas de fruta;
aventura,
sou mendigo.
Dentro de mim,
sou mar,
montanhas,
sou tudo
o que eu persigo
nado vivo, modo próprio
cru.
Dentro de mim
verbo e verdade final.

23.4.07

A Foto


foto de Hugo Amador

Folheava aquele livro que nunca mais conseguia acabar. Reli a contracapa, e distraído deixei-o cair, numa das minhas noites em claro, pedindo ao sono que me levasse. Uma foto bem antiga, caíu de dentro, mal revelada, disforme, confusa. Percebi-te nela, relembrei o momento e o local. Lembrei-me porque a tinha guardado, ao percebermos que era só nossa, que só nós a entenderíamos.
Tu, com aquela blusa que eu gostava de te despir, nos fins das tardes, quando voltavamos ao nosso quarto pequeno, naquela pequena pensão, que mais ninguem sabia conhecer, a nossa janela redonda, bafa, onde espreitávamos as gaivotas voando de encontro ao vento. As nossas tardes e os nossos banquetes de vinho e queijo com as bolachas roubadas da cozinha da Dª Lucília.
Lembrei-me de tudo, do teu rosto que ria, nas palavras que me oferecias como beijos, incessantes, quentes, lentos, infindáveis. Olhei a foto, porque já nada se percebia, desfocado, o teu rosto tinha a aparência dos dias de hoje, dos dias em que já não estavas, das memórias atraiçoadas pelo caminho onde as nossas vidas se voltaram a descruzar.
Olho outra vez a nossa foto, percebo teus braços que me chamam, que não se querem separados por memórias, que agora percebo, nunca vencem o tempo. Percebo a foto, e as histórias que sempre ficam, apenas escritas, apenas fotos, desfocadas do tempo, difíceis de guardar, como as nossas vidas, que um dia caíram do livro, já antigas, já passadas, mas vivas.
A tua foto, sem ti, está já num envelope, o teu nome escrito a negro, quem sabe, se um dia o abrirás de novo, e te lembres e te encontres comigo, junto às gaivotas que continuam a voar de encontro ao vento.
Não esqueças o vinho. - o queijo e as bolachas hão-de arranjar-se.

No meio das minhas mãos


foto de Yan Mcline

Enroscado no teu destino,
sinto teus braços
deslizar por mim,
sorvo esse perfume dos teus cabelos,
flores livres e amarelas
nascidas do Sol,
que me trazes
nos teus sorrisos.
Sabe-me bem olhar-te
quando te deixas adormecer
sobre o meu peito
e um sorriso se estende
na tua boca
cor de cereja – aberta,
esperando pelos nossos dias.
No calar do teu sono
sou teu guardador infinito;
arranco do fosco traço de luz
que nos alumia,
a história
que as nossas vidas
haveriam de contar.
Estremeces no teu sonho,
e eu, vigil
apenas te afago
apenas velo.
que durmas,
que te quedes por aqui,
dormindo
no meio das minhas mãos,
no encanto de te ter
na sublime aparência
deste romance que não começa
nem sabe onde irá.
Dormindo no meu peito
junto do teu coração.
onde te guardo
refugiado de mim.

Entra


Entra,
tens a chave,
sabes
que podes vir;
ousa entrar,
quando ousares,
tens os meus discos
que podes escutar
tens os meus livros
e o meu sofá,
onde te estendes e adormeces
na minha espera.
Entra,
a sala é tua
e o meu copo
espera o teu
para que se encham
nos nossos olhos colados
abertos no desejo
de nos termos.
Entra,
abre as janelas,
debruça-te na varanda
que se dobra
beijando a rua
onde o amor nos encontrou.
Entra
que eu saberei que chegaste.
A casa está iluminada,
a porta entreaberta,
a toalha estendida,
o jantar servido.
Entra,
a casa é tua.

12.4.07

Na metade da minha cama


Na metade vazia,
do lado frio da minha cama
na farta solidão
que alaga e vence
a tua ausência,
recolho-me no meu canto
onde me perco,
os joelhos retesados
no meu peito,
os olhos fechados
nas memórias,
as mãos percorrendo
o lado
onde devias
estar.
Na metade da minha cama,
do lado onde estarias,
deixo um poema
com o desenho do teu nome,
e acordado
percorro a noite,
estendido
deixado,
na revolta surda
de saber
quanto perdi.

28.3.07

Quando chegas


Quando chegas
na surpresa de eu não te saber,
lembras a chuva
caindo sem aviso,
as marés
galgando muralhas,
o breu da noite
cobrindo num ápice
a luz já mortiça
dos finais dos dias.
Quando te chegas
a mim,
quando chegas sem notícia
tenho
a casa desarrumada
a barba de um par de dias
a mesa coberta das sobras
estragadas
as folhas
jazendo no chão,
amarrotadas,
onde já a paixão
nos derrubou,
em momentos sem retorno,
num poema por terminar.
Quando apareces
sem me dar conta,
as lágrimas soltam-se,
os sorrisos
desprendem-se,
os braços estendem-se
e só me importo de ti
no prazer inesperado,
no sobressalto,
de vires por mim.