28.3.07

Quando chegas


Quando chegas
na surpresa de eu não te saber,
lembras a chuva
caindo sem aviso,
as marés
galgando muralhas,
o breu da noite
cobrindo num ápice
a luz já mortiça
dos finais dos dias.
Quando te chegas
a mim,
quando chegas sem notícia
tenho
a casa desarrumada
a barba de um par de dias
a mesa coberta das sobras
estragadas
as folhas
jazendo no chão,
amarrotadas,
onde já a paixão
nos derrubou,
em momentos sem retorno,
num poema por terminar.
Quando apareces
sem me dar conta,
as lágrimas soltam-se,
os sorrisos
desprendem-se,
os braços estendem-se
e só me importo de ti
no prazer inesperado,
no sobressalto,
de vires por mim.

26.3.07

Ausência


foto de Yan Mcline


Quero entender
se entendo este sentir,
com que sinto
este vazio.
Quero sentir o frio,
na falta do teu calor,
de angustiar
pelo teu corpo,
de me morrer de sede
pelos lábios
com que me provocavas de longe
no entendimento
desse teu olhar profano,
no vazio dos teus olhos
com que preenchias
as histórias
em que nos perdemos,
clandestinos
desse navio
agora já partido.
Faltam-me teus olhos
e a ternura
embalada no silêncio
das músicas que ouvimos,
dos códigos que qualquer paixão
inventa.
Tenho saudades das palavras
simples,
ditas por qualquer mulher,
dos bilhetes escritos,
da pressa do nosso encontro
que tarda,
e nunca acontece,
de me dizeres saudade,
e eu gritar que te desejo.
Esta estranha e misteriosa
fortuna
de te sentir perto
de me provocares
na ausência que sinto
de te ter aqui.
dentro do meu peito
perdida,
sem te querer encontrar.

21.3.07

Poesia

Homenagem ao Dia Mundial da Poesia


foto de Deadhead - Brisa Deseños

No teu rosto de mulher
resplandece,
entrecortada
pela dor
pela memória.
teu corpo é de seda,
brando e fino,
como a velhice longa
das histórias.
Da tua boca,
dos sorrisos,
nascem sons,
nascem marés,
sentidos percorrem teus cabelos;
imaginas ou sonhas,
a magia dos instantes
fabricados,
onde as horas param para escutar.
Teus filhos,
poemas de mulher
são parto;
são um beijo,
um vulcão que renasce,
uma lágrima,
uma flor,
gente derramada pelas ruas
igrejas, pontões
areia branca,
são o filho de um homem
sempre ausente,
um chá, uma mesa, uma folha,
momento gravado,
cantiga de embalar,
madrasta das guerras,
minha mãe,
meu amor
poesia.



20.3.07

Ousar



Ouso
fazer tremer teu peito,
ouso,
mais que um desafio
mais que transbordar margens
onde sou rio,
ouso,
na estranha inquietação
brotando em estrondo
de dentro de mim próprio,
ouso,
em querer teu hálito
perfumando a minha boca
ouso
quando te toco mais dentro
quando as palavras proibidas
se ousam no nosso olhar,
ouso
quando faço do ousar
o verbo que conjugo
em teu cetim estendido,
quando me perco
nas músicas que me arrepiam
e escrevo versos
sem os ler.
ouso
na tristeza dorida
na alegria com que contenho
esta vontade de amar;
ouso
esta dor que atormenta
ouso
quando me amarras ao destino
e me fazes galgar
fogueiras, fronteiras,
maneiras.
ousadas de não ousar,
ainda assim
ouso.

19.3.07

Momentos


foto de Luisa Louro

Momentos
são peças,
com que juntamos a vida,
chaves da minha memória
entalhes que marcam,
elos desta corrente,
com que prendo a vida
ao mundo.
Os momentos
são pedaços de nós
alimento do cinzel
esculpindo marcas,
deixadas em cada ruga
de expressão.
Os momentos são cantigas
sorrisos,
são dores e dias cinzentos,
são poemas
escritos do pôr-do-sol
à madrugada
quando acordo sem ti.
São filmes
e livros
engolidos pelo tempo,
gente perdida e encontrada,
licores e vinhos,
mágoas abertas
em peitos de encontro ao vento,
são camas, onde me
deito
sem saber onde estou.
Os momentos
são bocas sedentas
chuva inesperada,
são momentos do nada
e do tudo,
são palavras juradas,
sou eu, quando te digo minha
és tu,
quando me dizes teu,
os momentos
são poemas
onde me escrevo eu.

16.3.07

São horas


foto de Nuno Ferreira

São horas de te querer,
horas do tempo
parar,
de nos termos
no trespasse dum olhar perdido,
na vaga vontade
de te tocar os dedos.
Já são horas
de esquecer o sabor doce
dos teus seios,
de me perder no meio das tuas coxas,
de beber dos teus olhos marejados,
quando por fim
explodes
no amor que sempre acontecia.
Já são horas
de erguer meu alforge
de carregar no meu ombro
a tristeza
de um adeus imenso.
São as horas
dos dias que nascem
para aliviar o passado
de caminhar por ti
sem te ter,
de te amar ao longe,
como fosses mar onde não estive.
Já são horas
de te voltar a querer.

15.3.07

Tu chegas


foto de Luisa Louro
As searas verdes
percebem na primavera
os começos de um novo ciclo – semeado;
As ondas requebrando-se na areia
vão estendendo-se
denunciam
pés descalços
gozando o Sol despertado
das sombras –
anunciado.
Pássaros azuis
tecem nos ramos
futuros
que com eles
hão-de desenhar
outros riscos
outros firmamentos mais azuis.
A tua imagem
destapa-se
como rebento de rosa –
abrindo,
esfusiante lembrança
dum Inverno
já passado.
Tu chegas
na volta da pena,
seara verde
onda requebrada
pássaro azul – tu chegas

Meiguice



Meigo,
esse teu olhar –
entrega-se
no silêncio
do pouco que dizes
na quietude
do que não fazes.
Meigo
esse teu olhar,
Amor,
contado na história
calado,
dizendo tudo.

O Mar


foto de Manuela Vaz

O mar
não me engana,
vai
volta,
volta e nunca
fica.
o mar
vagabundo
companheiro
da quieta pacatez
dos dias
sem ida
sem partida
sem enganos.

Dias amarelos


Foto de Tasmaturo


Vão os tempos semeados,
avizinham-se nos dias
amarelos,
e o calor das recordações,
lê-se
na nudez dos teus ombros
que se deixam beijar,
quando te colas no meu peito
e te entregas.

Vão as marés serenando
e as rochas
são bancos de sentar
onde me torno
cor de mar;
e nos pensamentos
que rebentam selvagens,
tu és espuma quebrada
aspergindo o ar;
és a louca e insensata
sensação
que me faz amante
dos dias amarelos
dos dias que sempre espero.

vão meus olhares
fechando
comigo a dentro
que de dentro é que tornas
para me voltar a olhar

12.3.07

Num dia de Sol


foto de Nuno Ferreira

A memória acorda,
lembra-me
quando o tempo foi nosso,
e senti a tua pele
de seda fina,
tremendo do desejo
que nos rasgava.
Retomo os dias,
como se o vento
Sião
tornasse,
em palavras de areia,
fustigando
os nossos caminhos
sempre encontrados.
A memória, irmã do hoje,
filha de ontem,
sabe quem és,
aperta-te nas minhas mãos,
e gritas meu nome,
nua,
teu corpo retesado
de prazer.
A memória fala
do teu cheiro
selado nesta liturgia
de gestos e cumplicidades,
e teus beijos
pronunciam mil Primaveras
chegando,
com poemas,
desenhos da vida
deixados em papéis
pelas mesas.
São passado de dois,
momentos feitos do tempo,
da inconstância dos seres,
do fogo esmorecido,
das paixões viajantes,
de sorrisos perdidos;
- A memória acordou hoje
pronta a tomar-te,
em meus braços,
num dia em que fez Sol.

8.3.07

Soneto do dia da Mulher



Mulher dos olhos azuis, infinitos
Teus braços são a cama, são carinho
Tua voz embala e chora, cala o grito
Do mundo que não sabe andar sozinho

Mulher da coragem e da dor, da fé
Dos cabelos soltos, mar de prazer, dada
Sempre mãe, sempre pronta, sempre ré
Das noites sem fim, sempre acordada

Mulher amante, corpo do meu desejo
Do meu filho, da vontade do meu beijo
Fonte das minhas palavras, meu caderno

Minha rocha, meu poema sempre lido
Meu ultimo lugar, meu fim eterno
Onde morro e um dia fui parido.

De volta


Foto de Bruno Brás Monteiro

A lua partira mais cedo,
nos meus lábios,
o gosto do nosso gozo
rápido,
incompleto,
de uma noite clandestina.
Ajudas-me,
sempre me ajudas,
a compor o casaco,
onde me torno o homem
de todos os dias;
abraças-me
na porta exacta
onde já deixei o teu lugar
e a rua
se ajeita para me colher.
A chuva bate de frente
lavando meu rosto,
de toda a tua verdade
que colaste nos teus beijos.
Curvo-me
perante o esplendor
de uma madrugada a nascer,
percebo
no vazio dos meus próprios passos
que aqui escrevo o meu regresso,
neste olhar
com que inquieto meus dias
no desdito fado
de sempre voltar aqui.