15.3.07

Dias amarelos


Foto de Tasmaturo


Vão os tempos semeados,
avizinham-se nos dias
amarelos,
e o calor das recordações,
lê-se
na nudez dos teus ombros
que se deixam beijar,
quando te colas no meu peito
e te entregas.

Vão as marés serenando
e as rochas
são bancos de sentar
onde me torno
cor de mar;
e nos pensamentos
que rebentam selvagens,
tu és espuma quebrada
aspergindo o ar;
és a louca e insensata
sensação
que me faz amante
dos dias amarelos
dos dias que sempre espero.

vão meus olhares
fechando
comigo a dentro
que de dentro é que tornas
para me voltar a olhar

12.3.07

Num dia de Sol


foto de Nuno Ferreira

A memória acorda,
lembra-me
quando o tempo foi nosso,
e senti a tua pele
de seda fina,
tremendo do desejo
que nos rasgava.
Retomo os dias,
como se o vento
Sião
tornasse,
em palavras de areia,
fustigando
os nossos caminhos
sempre encontrados.
A memória, irmã do hoje,
filha de ontem,
sabe quem és,
aperta-te nas minhas mãos,
e gritas meu nome,
nua,
teu corpo retesado
de prazer.
A memória fala
do teu cheiro
selado nesta liturgia
de gestos e cumplicidades,
e teus beijos
pronunciam mil Primaveras
chegando,
com poemas,
desenhos da vida
deixados em papéis
pelas mesas.
São passado de dois,
momentos feitos do tempo,
da inconstância dos seres,
do fogo esmorecido,
das paixões viajantes,
de sorrisos perdidos;
- A memória acordou hoje
pronta a tomar-te,
em meus braços,
num dia em que fez Sol.

8.3.07

Soneto do dia da Mulher



Mulher dos olhos azuis, infinitos
Teus braços são a cama, são carinho
Tua voz embala e chora, cala o grito
Do mundo que não sabe andar sozinho

Mulher da coragem e da dor, da fé
Dos cabelos soltos, mar de prazer, dada
Sempre mãe, sempre pronta, sempre ré
Das noites sem fim, sempre acordada

Mulher amante, corpo do meu desejo
Do meu filho, da vontade do meu beijo
Fonte das minhas palavras, meu caderno

Minha rocha, meu poema sempre lido
Meu ultimo lugar, meu fim eterno
Onde morro e um dia fui parido.

De volta


Foto de Bruno Brás Monteiro

A lua partira mais cedo,
nos meus lábios,
o gosto do nosso gozo
rápido,
incompleto,
de uma noite clandestina.
Ajudas-me,
sempre me ajudas,
a compor o casaco,
onde me torno o homem
de todos os dias;
abraças-me
na porta exacta
onde já deixei o teu lugar
e a rua
se ajeita para me colher.
A chuva bate de frente
lavando meu rosto,
de toda a tua verdade
que colaste nos teus beijos.
Curvo-me
perante o esplendor
de uma madrugada a nascer,
percebo
no vazio dos meus próprios passos
que aqui escrevo o meu regresso,
neste olhar
com que inquieto meus dias
no desdito fado
de sempre voltar aqui.

Onde andas?


Foto de: Patrícia Cohen

Pressagio-te,
desconfiado da tua ausência;
diviso nas ombreiras
das janelas viradas a Norte,
teu vulto sibilino
escapando.
Há em cada reflexo,
em cada simples e pequeno
facto – a tua falta.
Não te sei dizer,
como se meus braços e língua
fossem cortados,
e cada músculo se obstasse
a dizer-te,
e eu nada mais fosse
nada mais ousasse.
Indago teu nome,
de longe
na poeira desta estrada
que jamais acaba;
dou por ti à minha beira,
num momento pensando,
outro passando,
uma palavra a nascer,
um poema que cresce
e se finda,
contigo, Poesia
amiga do meu caminho.

27.2.07

De teu corpo


Foto de ABrito

Dependurado em teu corpo
nu,
que se estende absoluto
em teu leito,
dou-me conta dos pedaços de ti,
descobertos a cada
abrir de mão,
em cada beijo
profundo,
soletrado das palavras
que juro em teu colo,
saboreando teus segredos.
Descubro-te
em cada afago
e nos gestos meigos e cheios
com que me devolves
teu corpo,
tentando meus olhos;
e do teu lado
na nudez da nossa entrega,
uma lágrima brota,
crua,
repleta da vontade
de sempre querer
estar contigo.

19.2.07

Devedor

Devo-te palavras
que as cartas não sabem
conter,
devo-te o odor da tristeza
que tolhe as mãos
e nos amassa as folhas
esgatanhadas,
de rabiscos e intenções.
Devo-te este sinal
das ausências
prolongadas,
as faltas do que já não tenho
e das coisas que não escrevo
por não sentir.
Devo-te este poema
escrito no frio
mantendo-me acordado,
olhando a tua porta
que nunca abrirás
certa que não chego,
certo que não toco.
Sentados de cada um dos lados,
invisíveis,
as lágrimas manchando
esta tinta,
esborratando este amor que te devo
e nunca te pagarei.

Murmúrios

Soltam-se da boca
murmúrios surdos
imperceptíveis;
falam de ti
e dos desejos que me tomam.
Tento esventrar a tua memória,
cravada em mim,
esquecer teu corpo quente
e esse teu cheiro
de amêndoas e mel
com que cobres a volúpia
em cada acto nosso
de carne e cama.
Percorro as nossas ruas,
revisito cada bar,
onde nos perdemos
entre taças, de um qualquer especial licor.
Atravesso os cais
onde as despedidas
eram dores paridas
rasgadas
de não nos termos.
Passo breve,
a florista
não me estende as rosas
de sempre,
lendo meus olhos vazios
desenredados.
O cego que toca o violino
na esquina onde te deixava,
toou ainda mais triste.
a melodia sem destino.
Oiço meus passos ao longe,
a vida esquecida, o tempo que passa,
os murmúrios calados,
o coração sentou-se estafado.

7.2.07

Nesse lugar

Enviado por Claudia em 10/10/2006 para a Escrita Criativa

Não te movas.È aí...exactamente nesse sítio que eu quero me deitar e adormecer, diria, quase para sempre..."quase" porque lamentaria profundamente, embora adormecida em ti, perder a visão táctil e consciente do Ser que és aos meus trémulos sentidos.Se Deus criou o mundo...também te criou a ti...para mim.E é como se nada mais importasse, nem nada mais existisse...Para quê palavras...abraça-me apenas.

dos mais belos textos que a Claudia publicou...

Saudade

Homenagem ao dia da Saudade

Olhei a saudade
bem de frente,
olhei-a nos olhos encovados e tristes
cheios de memória
percebi seus lábios tremendo
balbuciando palavras d’ontem,
tremendo na espera
do que nunca está presente;
sentei-me com ela
pedi-lhe uma história,
e no tempo em que nos perdemos,
o peito aberto
como folha alva, virgem
recebendo-a,
a saudade foi despedida,
foi espera,
foi partida e desespero,
ausência,
foram lábios mordidos,
perca e lágrimas,
e sorrisos de te lembrar:
A saudade foste tu,
teu nome que nunca
deixo,
teu rosto que nunca esqueço,
teu amor que nunca parte
teus olhos que não se despedem,
a saudade foi história,
presente sempre presente
futuro onde morre por ti.

Meu porto

Um terceto composto em homenagem ao sítio Luso-Poemas, onde participo regularmente


Faço desta casa meu porto
onde me acolho e abrigo
e os versos que transporto

são poemas que persigo
na vontade da partilha
onde me encontro contigo.

Lemos a mesma cartilha
abrimos a alma à esp’rança
largados da nossa ilha,

com coração de criança
amamos nossos poemas,
num rio que nunca alcança

a foz de todos os temas,
que nos fazem imaginar
palavras, sons, fonemas.

Descanso enfim o olhar
Descobrindo nesta tela
onde sei me confiar;

e então o mundo é janela,
de saudades e de amor,
da vida que passa por ela

e chorando a tua dor,
dou-te as mãos envergonhado
sou poeta e sou escritor.

escrevo p’ra ti este fado
em folhas brancas sem uso
dou por mim apaixonado,

e culpado eu m’acuso
entrego-me nesta prisão
entrego-me a ti, sítio Luso.

O tempo passado

Destes anos que me levo
dos que perdi no caminho,
daqueles que já não lembro
e dos que trago comigo,
ficou tanto por falar
por viver e encontrar.
Tantas histórias perdi,
que nem sei bem se as vivi,
se as encontrei,
apenas sei
que não marcou,
não me lembro – já passou;

E a vida que trago agora
que carrega o passado,
deste presente que passa;
e das histórias que escrevo,
não é já grande fardo,
é apenas o acervo
das coisas que hoje presentes,
não são coisas que passaram,
são histórias
com o sustento,
de quem as vê no futuro.

Do que fica,
do que tenho,
não choro o passado perdido;
que as lembranças que não tenho
são ausências,
só são falta
por desdenhar do que passa
nos dias,
que agora tenho.

Dentro do teu peito


foto de José Gama
Dentro do teu peito,
há um lugar disfarçado
onde me escondes em silêncio,
onde entro e pernoito
descansando dos dias vazios,
dos dias cheios de nada,
bem ao teu lado,
embriagado do teu cheiro
de mulher que quer
e me deseja.
Serves-te do meu coração
e procuras as palavras
que nunca tenho comigo,
as que guardo e não te entrego.
as que sempre faço por esquecer,
certo de que sempre as procuras.
Olhas-me na intensidade
de um olhar verdadeiro,
afrontando as máscaras
com que me disfarço,
com que arrefeço teus seios
no toque frio do simples desejo.
Deixo-te todas as horas
com um beijo
que maltrata tua boca,
e espicaça as coisas
que sempre se calam,
os segredos
com que me cubro nas noites
sem ti.
E quando me aparto,
e meu desejo se despega do teu colo,
sou teu fugitivo
irremediavelmente voltando
na busca do teu peito,
onde me escondo
e encontro
o descanso dos dias sem ti