27.2.07

De teu corpo


Foto de ABrito

Dependurado em teu corpo
nu,
que se estende absoluto
em teu leito,
dou-me conta dos pedaços de ti,
descobertos a cada
abrir de mão,
em cada beijo
profundo,
soletrado das palavras
que juro em teu colo,
saboreando teus segredos.
Descubro-te
em cada afago
e nos gestos meigos e cheios
com que me devolves
teu corpo,
tentando meus olhos;
e do teu lado
na nudez da nossa entrega,
uma lágrima brota,
crua,
repleta da vontade
de sempre querer
estar contigo.

19.2.07

Devedor

Devo-te palavras
que as cartas não sabem
conter,
devo-te o odor da tristeza
que tolhe as mãos
e nos amassa as folhas
esgatanhadas,
de rabiscos e intenções.
Devo-te este sinal
das ausências
prolongadas,
as faltas do que já não tenho
e das coisas que não escrevo
por não sentir.
Devo-te este poema
escrito no frio
mantendo-me acordado,
olhando a tua porta
que nunca abrirás
certa que não chego,
certo que não toco.
Sentados de cada um dos lados,
invisíveis,
as lágrimas manchando
esta tinta,
esborratando este amor que te devo
e nunca te pagarei.

Murmúrios

Soltam-se da boca
murmúrios surdos
imperceptíveis;
falam de ti
e dos desejos que me tomam.
Tento esventrar a tua memória,
cravada em mim,
esquecer teu corpo quente
e esse teu cheiro
de amêndoas e mel
com que cobres a volúpia
em cada acto nosso
de carne e cama.
Percorro as nossas ruas,
revisito cada bar,
onde nos perdemos
entre taças, de um qualquer especial licor.
Atravesso os cais
onde as despedidas
eram dores paridas
rasgadas
de não nos termos.
Passo breve,
a florista
não me estende as rosas
de sempre,
lendo meus olhos vazios
desenredados.
O cego que toca o violino
na esquina onde te deixava,
toou ainda mais triste.
a melodia sem destino.
Oiço meus passos ao longe,
a vida esquecida, o tempo que passa,
os murmúrios calados,
o coração sentou-se estafado.

7.2.07

Nesse lugar

Enviado por Claudia em 10/10/2006 para a Escrita Criativa

Não te movas.È aí...exactamente nesse sítio que eu quero me deitar e adormecer, diria, quase para sempre..."quase" porque lamentaria profundamente, embora adormecida em ti, perder a visão táctil e consciente do Ser que és aos meus trémulos sentidos.Se Deus criou o mundo...também te criou a ti...para mim.E é como se nada mais importasse, nem nada mais existisse...Para quê palavras...abraça-me apenas.

dos mais belos textos que a Claudia publicou...

Saudade

Homenagem ao dia da Saudade

Olhei a saudade
bem de frente,
olhei-a nos olhos encovados e tristes
cheios de memória
percebi seus lábios tremendo
balbuciando palavras d’ontem,
tremendo na espera
do que nunca está presente;
sentei-me com ela
pedi-lhe uma história,
e no tempo em que nos perdemos,
o peito aberto
como folha alva, virgem
recebendo-a,
a saudade foi despedida,
foi espera,
foi partida e desespero,
ausência,
foram lábios mordidos,
perca e lágrimas,
e sorrisos de te lembrar:
A saudade foste tu,
teu nome que nunca
deixo,
teu rosto que nunca esqueço,
teu amor que nunca parte
teus olhos que não se despedem,
a saudade foi história,
presente sempre presente
futuro onde morre por ti.

Meu porto

Um terceto composto em homenagem ao sítio Luso-Poemas, onde participo regularmente


Faço desta casa meu porto
onde me acolho e abrigo
e os versos que transporto

são poemas que persigo
na vontade da partilha
onde me encontro contigo.

Lemos a mesma cartilha
abrimos a alma à esp’rança
largados da nossa ilha,

com coração de criança
amamos nossos poemas,
num rio que nunca alcança

a foz de todos os temas,
que nos fazem imaginar
palavras, sons, fonemas.

Descanso enfim o olhar
Descobrindo nesta tela
onde sei me confiar;

e então o mundo é janela,
de saudades e de amor,
da vida que passa por ela

e chorando a tua dor,
dou-te as mãos envergonhado
sou poeta e sou escritor.

escrevo p’ra ti este fado
em folhas brancas sem uso
dou por mim apaixonado,

e culpado eu m’acuso
entrego-me nesta prisão
entrego-me a ti, sítio Luso.

O tempo passado

Destes anos que me levo
dos que perdi no caminho,
daqueles que já não lembro
e dos que trago comigo,
ficou tanto por falar
por viver e encontrar.
Tantas histórias perdi,
que nem sei bem se as vivi,
se as encontrei,
apenas sei
que não marcou,
não me lembro – já passou;

E a vida que trago agora
que carrega o passado,
deste presente que passa;
e das histórias que escrevo,
não é já grande fardo,
é apenas o acervo
das coisas que hoje presentes,
não são coisas que passaram,
são histórias
com o sustento,
de quem as vê no futuro.

Do que fica,
do que tenho,
não choro o passado perdido;
que as lembranças que não tenho
são ausências,
só são falta
por desdenhar do que passa
nos dias,
que agora tenho.

Dentro do teu peito


foto de José Gama
Dentro do teu peito,
há um lugar disfarçado
onde me escondes em silêncio,
onde entro e pernoito
descansando dos dias vazios,
dos dias cheios de nada,
bem ao teu lado,
embriagado do teu cheiro
de mulher que quer
e me deseja.
Serves-te do meu coração
e procuras as palavras
que nunca tenho comigo,
as que guardo e não te entrego.
as que sempre faço por esquecer,
certo de que sempre as procuras.
Olhas-me na intensidade
de um olhar verdadeiro,
afrontando as máscaras
com que me disfarço,
com que arrefeço teus seios
no toque frio do simples desejo.
Deixo-te todas as horas
com um beijo
que maltrata tua boca,
e espicaça as coisas
que sempre se calam,
os segredos
com que me cubro nas noites
sem ti.
E quando me aparto,
e meu desejo se despega do teu colo,
sou teu fugitivo
irremediavelmente voltando
na busca do teu peito,
onde me escondo
e encontro
o descanso dos dias sem ti

30.1.07

Na minha carne

É na minha carne que eu te sinto,
nos sonhos inventados
por um Janeiro frio a dentro.
É na carne magoada,
pelas cicatrizes saradas
à força da saudade,
de te lembrar cravando teus dedos
no meu dorso,
sentindo teu sangue
pulando do teu hálito doce,
segredando esta paixão violenta, secreta,
nossa,
nas palavras cúmplices, enormes.
É na minha carne que eu te sinto,
brincando no teu peito
onde sempre me esqueço
embalado nos teus ais,
desejos,
amplexos de tudo o que nos damos.
É na minha carne que te sinto,
quando a paixão desventra nossos corpos
e os comete em gestos
inimputáveis,
enrodilhados
nos lençóis manchados
de tanto suor estafado.
É na minha carne,
que eu sinto a vontade
de escapar e te deixar dormir,
de esquecer esta dor,
e expurgar este cobarde sentido
de não te querer
e te desejar.
É na minha carne que eu sou
desconhecido,
quando te pressinto
e me deixo ficar,
é na tua carne que desminto,
a vontade de ser eu.

29.1.07

Do lado de cá

Percorro a cidade
num passo novo,
de mudança
para o outro
lado da vida.
Bares e estátuas
iluminadas,
roseiras novas
florindo
nas janelas,
crianças rindo
sonhos que lembram
a vida.
Deste lado de cá,
és tu
de mãos dadas
com o meu
tempo,
abrindo-me
a porta
estendendo a mão.
Uma fonte fresca
cheira a nuvens
rasgadas,
à urgência de amar
sempre -
- sempre mais.
É manhã, meu amor,
o Sol entra na janela
e acordo-te com um beijo.
Vale a pena abrir
os olhos -
nos braços um do outro -
nunca vai chegara madrugada.

Cada dia

E cada dia
o meu amor por ti,
cresce,
como o loiro trigo
que se colhe depois maduro,
para nosso alimento.

Lisboa II


foto de: PCastro

Lisboa acordou meia despida
aconchegando-se na fria madrugada
envolta numa luz, ténue, sombria
em silêncios, cúmplices, inesperados.

Caminham homens pelos becos
soltando em cada passo seus destinos
há já tabernas franqueadas
mas seguem adiante peregrinos

Busca-se o pão por conquistar
mãos nos bolsos, prontas e firmes
eloquentes formas de viver
de quem trocou o mundo por um fado
fazendo da vida um saber.

Guerras

Há carros de combate
em todas as ruas,
capacetes metálicos
de olhos escondidos,
e outros de faces
cheias e duras
gritando ordens e ordens,
de bastão empunhado.
Começou a guerra
na minha cidade,
e as torres das igrejas
são estandartes torpes
das tropas inimigas,
dos fantasmas e sonhos
dos livros da escola.
Que morram os heróis,
diz alguém de face hirsuta,
e dedos fechados,
e por cada letra
de uma palavra,
morre um soldado
sem se saber bem porquê.
Há um miúdo,
sozinho – pateticamente
seguro
de fuzil de pau
em punho,
desafiando as balas
que passeiam perto
do medo,
e cheiram a pólvora e a sangue,
odor próprio dos generais.
Alguém grita lancinante,
e eu digo – é a mãe.
E depois um estrondo
e outro
e mais outro
e ainda um último (trabalho competente)
e no chão, largado o fuzil,
chorando a mãe, como
qualquer guerreiro,
de olhos grandes e fortes,
abre os seus braços órfãos
e murmura,
mãezinha… quem cuidará de mim!