É na minha carne que eu te sinto,
nos sonhos inventados
por um Janeiro frio a dentro.
É na carne magoada,
pelas cicatrizes saradas
à força da saudade,
de te lembrar cravando teus dedos
no meu dorso,
sentindo teu sangue
pulando do teu hálito doce,
segredando esta paixão violenta, secreta,
nossa,
nas palavras cúmplices, enormes.
É na minha carne que eu te sinto,
brincando no teu peito
onde sempre me esqueço
embalado nos teus ais,
desejos,
amplexos de tudo o que nos damos.
É na minha carne que te sinto,
quando a paixão desventra nossos corpos
e os comete em gestos
inimputáveis,
enrodilhados
nos lençóis manchados
de tanto suor estafado.
É na minha carne,
que eu sinto a vontade
de escapar e te deixar dormir,
de esquecer esta dor,
e expurgar este cobarde sentido
de não te querer
e te desejar.
É na minha carne que eu sou
desconhecido,
quando te pressinto
e me deixo ficar,
é na tua carne que desminto,
a vontade de ser eu.
As palavras, revelam pensamentos. Os pensamentos revelam a alma, e cada alma, o verdadeiro ser que faz deste mundo um constante devir...
30.1.07
29.1.07
Do lado de cá
Percorro a cidade
num passo novo,
de mudança
para o outro
lado da vida.
Bares e estátuas
iluminadas,
roseiras novas
florindo
nas janelas,
crianças rindo
sonhos que lembram
a vida.
Deste lado de cá,
és tu
de mãos dadas
com o meu
tempo,
abrindo-me
a porta
estendendo a mão.
Uma fonte fresca
cheira a nuvens
rasgadas,
à urgência de amar
sempre -
- sempre mais.
É manhã, meu amor,
o Sol entra na janela
e acordo-te com um beijo.
Vale a pena abrir
os olhos -
nos braços um do outro -
nunca vai chegara madrugada.
num passo novo,
de mudança
para o outro
lado da vida.
Bares e estátuas
iluminadas,
roseiras novas
florindo
nas janelas,
crianças rindo
sonhos que lembram
a vida.
Deste lado de cá,
és tu
de mãos dadas
com o meu
tempo,
abrindo-me
a porta
estendendo a mão.
Uma fonte fresca
cheira a nuvens
rasgadas,
à urgência de amar
sempre -
- sempre mais.
É manhã, meu amor,
o Sol entra na janela
e acordo-te com um beijo.
Vale a pena abrir
os olhos -
nos braços um do outro -
nunca vai chegara madrugada.
Cada dia
E cada dia
o meu amor por ti,
cresce,
como o loiro trigo
que se colhe depois maduro,
para nosso alimento.
o meu amor por ti,
cresce,
como o loiro trigo
que se colhe depois maduro,
para nosso alimento.
Lisboa II

foto de: PCastro
Lisboa acordou meia despida
aconchegando-se na fria madrugada
envolta numa luz, ténue, sombria
em silêncios, cúmplices, inesperados.
Caminham homens pelos becos
soltando em cada passo seus destinos
há já tabernas franqueadas
mas seguem adiante peregrinos
Busca-se o pão por conquistar
mãos nos bolsos, prontas e firmes
eloquentes formas de viver
de quem trocou o mundo por um fado
fazendo da vida um saber.
aconchegando-se na fria madrugada
envolta numa luz, ténue, sombria
em silêncios, cúmplices, inesperados.
Caminham homens pelos becos
soltando em cada passo seus destinos
há já tabernas franqueadas
mas seguem adiante peregrinos
Busca-se o pão por conquistar
mãos nos bolsos, prontas e firmes
eloquentes formas de viver
de quem trocou o mundo por um fado
fazendo da vida um saber.
Guerras
Há carros de combate
em todas as ruas,
capacetes metálicos
de olhos escondidos,
e outros de faces
cheias e duras
gritando ordens e ordens,
de bastão empunhado.
Começou a guerra
na minha cidade,
e as torres das igrejas
são estandartes torpes
das tropas inimigas,
dos fantasmas e sonhos
dos livros da escola.
Que morram os heróis,
diz alguém de face hirsuta,
e dedos fechados,
e por cada letra
de uma palavra,
morre um soldado
sem se saber bem porquê.
Há um miúdo,
sozinho – pateticamente
seguro
de fuzil de pau
em punho,
desafiando as balas
que passeiam perto
do medo,
e cheiram a pólvora e a sangue,
odor próprio dos generais.
Alguém grita lancinante,
e eu digo – é a mãe.
E depois um estrondo
e outro
e mais outro
e ainda um último (trabalho competente)
e no chão, largado o fuzil,
chorando a mãe, como
qualquer guerreiro,
de olhos grandes e fortes,
abre os seus braços órfãos
e murmura,
mãezinha… quem cuidará de mim!
em todas as ruas,
capacetes metálicos
de olhos escondidos,
e outros de faces
cheias e duras
gritando ordens e ordens,
de bastão empunhado.
Começou a guerra
na minha cidade,
e as torres das igrejas
são estandartes torpes
das tropas inimigas,
dos fantasmas e sonhos
dos livros da escola.
Que morram os heróis,
diz alguém de face hirsuta,
e dedos fechados,
e por cada letra
de uma palavra,
morre um soldado
sem se saber bem porquê.
Há um miúdo,
sozinho – pateticamente
seguro
de fuzil de pau
em punho,
desafiando as balas
que passeiam perto
do medo,
e cheiram a pólvora e a sangue,
odor próprio dos generais.
Alguém grita lancinante,
e eu digo – é a mãe.
E depois um estrondo
e outro
e mais outro
e ainda um último (trabalho competente)
e no chão, largado o fuzil,
chorando a mãe, como
qualquer guerreiro,
de olhos grandes e fortes,
abre os seus braços órfãos
e murmura,
mãezinha… quem cuidará de mim!
18.1.07
A minha vida sentou-se

Foto de Paulo César
A minha vida sentou-se
na soleira do albergue
que me atende.
despediu-se da morte
com o mesmo sorriso
com que escarnou da lama
que hoje lh’é companheira.
Já se foram as compaixões
e os gestos de amor,
e cada leito, não tem sentido
de coito, nem do acto,
apenas esteira
onde descarrega
o que pesa e não faz falta.
A minha vida está sentada
esperando não sei o quê…
olho os dedos
que se estendem dum pedaço
de carne inerte e queimada
dos pedaços de sonhos
que ajeito entre uma mortalha
de papel
de pano roxo
de pinho.
A minha vida sentou-se
porque se desfez no cansaço
de ser diferente e ser louco,
de amar a miragem e o insensato
e só escutar dos lábios
o que traz o sangue do coração.
É sempre carne que fala
dinheiro, vantagens
poder, luxo, perfídia,
demais para quem se obriga a ficar só.
Mas a minha vida sentou-se
talvez para voltar donde saíu,
do pó
do sangue, e um amor
que por estar morto
não sabe dizer mãe,
e d’outros amores que eu teria
ficou-me um pedaço de terra
onde sei pode crescer um sonho,
mesmo sentando-se a vida.
A minha vida sentou-se
olhos cansados,
ficou a morte
a seus pés, brincando de menina.
na soleira do albergue
que me atende.
despediu-se da morte
com o mesmo sorriso
com que escarnou da lama
que hoje lh’é companheira.
Já se foram as compaixões
e os gestos de amor,
e cada leito, não tem sentido
de coito, nem do acto,
apenas esteira
onde descarrega
o que pesa e não faz falta.
A minha vida está sentada
esperando não sei o quê…
olho os dedos
que se estendem dum pedaço
de carne inerte e queimada
dos pedaços de sonhos
que ajeito entre uma mortalha
de papel
de pano roxo
de pinho.
A minha vida sentou-se
porque se desfez no cansaço
de ser diferente e ser louco,
de amar a miragem e o insensato
e só escutar dos lábios
o que traz o sangue do coração.
É sempre carne que fala
dinheiro, vantagens
poder, luxo, perfídia,
demais para quem se obriga a ficar só.
Mas a minha vida sentou-se
talvez para voltar donde saíu,
do pó
do sangue, e um amor
que por estar morto
não sabe dizer mãe,
e d’outros amores que eu teria
ficou-me um pedaço de terra
onde sei pode crescer um sonho,
mesmo sentando-se a vida.
A minha vida sentou-se
olhos cansados,
ficou a morte
a seus pés, brincando de menina.
Carta - Retrato
Aqui fica uma carta
Escrita com a força dos anos coloridos de ti.
aqui fica uma palavra
que adoça a boca
no trago mais amargo que permanece.
Aqui ficam todos os gestos, musicas e passos
aqui ficam todas as dores e sorrisos e visões,
todas as exclamações, prazeres, todos os sonhos
tristezas, triunfos e decisões, impasses
loucuras.
ficam os tempos e as esperas
a ternura, a ingratidão, fracassos e projectos
realidades e fantasias, ficam mesmo
todas as outras faces que me vestem
e todos os que me despem, desnudam e invadem.
aqui fica tudo,
porque tudo pode ficar e descansar.
A poesia é eterna quando fala de amor.
Aqui fica um poema
porque existem palavras que se gravam
aqui fica o meu coração,
como gravura,
gravada em ti,
aqui fico eu.
Escrita com a força dos anos coloridos de ti.
aqui fica uma palavra
que adoça a boca
no trago mais amargo que permanece.
Aqui ficam todos os gestos, musicas e passos
aqui ficam todas as dores e sorrisos e visões,
todas as exclamações, prazeres, todos os sonhos
tristezas, triunfos e decisões, impasses
loucuras.
ficam os tempos e as esperas
a ternura, a ingratidão, fracassos e projectos
realidades e fantasias, ficam mesmo
todas as outras faces que me vestem
e todos os que me despem, desnudam e invadem.
aqui fica tudo,
porque tudo pode ficar e descansar.
A poesia é eterna quando fala de amor.
Aqui fica um poema
porque existem palavras que se gravam
aqui fica o meu coração,
como gravura,
gravada em ti,
aqui fico eu.
Dia novo
Hoje apeteceu-me criar
o quadro mais simpático, cinéfilo
de todos os momentos gastos,
repetidos nas telas,
e nas mentes de quem inventa sonhos:
uma sala,
uma lareira,
um bom sofá,
uma aguardente velha
um cigarro
eu,
uma folha branca,
e tu.
a quem o poema entregar.
porque hoje quero criar
a melodia e o poema
que quebrem
a teia informe do dia mais quotidiano
que existe.
Hoje quero ser louco
fugir da própria vida
hoje apenas te quero do meu lado,
o amor jorrando dos teus lábios
incendiado em gestos,
inundado na ternura
com que me ofereces teu peito,
me abres teu colo,
derramando a loucura selvagem
das tuas coxas, prendendo as minhas.
Porque hoje meu amor,
hoje apenas quis,
inventar-te.
somente amar-te.
o quadro mais simpático, cinéfilo
de todos os momentos gastos,
repetidos nas telas,
e nas mentes de quem inventa sonhos:
uma sala,
uma lareira,
um bom sofá,
uma aguardente velha
um cigarro
eu,
uma folha branca,
e tu.
a quem o poema entregar.
porque hoje quero criar
a melodia e o poema
que quebrem
a teia informe do dia mais quotidiano
que existe.
Hoje quero ser louco
fugir da própria vida
hoje apenas te quero do meu lado,
o amor jorrando dos teus lábios
incendiado em gestos,
inundado na ternura
com que me ofereces teu peito,
me abres teu colo,
derramando a loucura selvagem
das tuas coxas, prendendo as minhas.
Porque hoje meu amor,
hoje apenas quis,
inventar-te.
somente amar-te.
Triste tristeza
A tristeza
deve ser o sentimento
mais lúcido
porque se embrenha na própria
solidão de cada um,
e a
solidão
é sentir
que
não
temos,
quem
queremos
mesmo ter
deve ser o sentimento
mais lúcido
porque se embrenha na própria
solidão de cada um,
e a
solidão
é sentir
que
não
temos,
quem
queremos
mesmo ter
Meus filhos
Meus filhos são tesouros
que nenhum rei já possuiu.
São a força,
e a alegria,
o meu sustento de palavras,
e o sabor novo provado em cada manhã.
Olho-os
na contemplação secreta do prazer,
agradecido à vida,
em cada sorriso
cada gesto
cada gota que enche
o vaso pleno da sabedoria.
Uma mão estendida – vale um pôr-do-sol
Um sorriso - um poema.
Meus filhos,
São pedaços de vida inacabados
Livros incompletos
Inexplicados.
Meus filhos, são dois homens
Meus filhos – são meus filhos
que nenhum rei já possuiu.
São a força,
e a alegria,
o meu sustento de palavras,
e o sabor novo provado em cada manhã.
Olho-os
na contemplação secreta do prazer,
agradecido à vida,
em cada sorriso
cada gesto
cada gota que enche
o vaso pleno da sabedoria.
Uma mão estendida – vale um pôr-do-sol
Um sorriso - um poema.
Meus filhos,
São pedaços de vida inacabados
Livros incompletos
Inexplicados.
Meus filhos, são dois homens
Meus filhos – são meus filhos
Troca
Em vez do preço amargo da virtude,
- dou-te um novo suco a provar:
a desmedida opulência dos costumes,
a saborosa novidade da ternura,
despida de impudores
de si, tão só, tão nua,
como a Natureza
no Outono,
sabe ser.
- dou-te um novo suco a provar:
a desmedida opulência dos costumes,
a saborosa novidade da ternura,
despida de impudores
de si, tão só, tão nua,
como a Natureza
no Outono,
sabe ser.
17.1.07
Á Mulher de uma rua
Eram não sei,
quantas horas da noite,
o vento requebrava as folhas
de mansinho
e punhas de encontro à face
o teu casaco côr de mel.
Passeavas estranhamente pela
borda
de um passeio, onde sapatos
apressados
olhavam de soslaio os teus pés
inquietos e cansados.
Do outro lado de que dispunhas
sobranceiro ao macadame
poluído,
milhões de quilos de minério
convertido em astutas
viaturas,
conversavam lado a lado
sem decência
o preço das loucuras e velocidades.
uma ou outra que abrandava
dispunha de um pescoço
requentado
que posto fora da janela
reduzia o ridículo e a marcha,
e simplesmente grunhia -
- quanto?
e tu comercialmente digna,
afirmavas ponto a ponto o teu
valor,
aos olhos dos outros apontado
aos teus próprios ignorado
que mais não tinhas de suster
senão
de pronta ao teu ofício
sentinela de sonhos imundos
dos castrados
gola alta no teu lugar
pronta ao frio dos que te gelam.
quantas horas da noite,
o vento requebrava as folhas
de mansinho
e punhas de encontro à face
o teu casaco côr de mel.
Passeavas estranhamente pela
borda
de um passeio, onde sapatos
apressados
olhavam de soslaio os teus pés
inquietos e cansados.
Do outro lado de que dispunhas
sobranceiro ao macadame
poluído,
milhões de quilos de minério
convertido em astutas
viaturas,
conversavam lado a lado
sem decência
o preço das loucuras e velocidades.
uma ou outra que abrandava
dispunha de um pescoço
requentado
que posto fora da janela
reduzia o ridículo e a marcha,
e simplesmente grunhia -
- quanto?
e tu comercialmente digna,
afirmavas ponto a ponto o teu
valor,
aos olhos dos outros apontado
aos teus próprios ignorado
que mais não tinhas de suster
senão
de pronta ao teu ofício
sentinela de sonhos imundos
dos castrados
gola alta no teu lugar
pronta ao frio dos que te gelam.
A Janela

foto de Hugo Amador
Recostado no meu sofá, chamei o João, e uma pequena palavra soltou-se-me da boca:
- João, abre-a.
O João sentou-se aos meus pés. A luz pulsou em incontida energia, e a sua pequena boca soltou um ah de enormidade.
Todas (ou quase todas) as tardes, o nosso pequeno gesto se repetia. Por aquela janela, toda a perfeição e sonho se construía. Mesmo em intervalos de distracção, debruçávamo-nos de inveja no carro prateado, na sopa de sabor único, no sabonete sem cheiro que nos deixava loucos de felicidade, e o João dizia: - Pai, compra-me! Pai dá-me! Então voltávamos ao que passava na janela, já com mais atenção. Sim ali tudo era verdade. Nua e crua, como nunca se teria visto sem aquela janela aberta.
– Para quê a matemática, ou o esforço? Para quê o trabalho? O calor? O frio? Para quê uma viola ou um livro? Bastava a janela aberta, a mão crispada do João perante as personagens que nos piscavam o olho ali mesmo ao pé. Sabem, já sou íntimo de uma tartaruga reconvertida a humana, e inimigo feroz de uma ratazana que quer destruir um lago.
Um casal acaba de fazer amor. O homem olha uma suposta janela e afirma vir a Primavera, a mim, que desgraçadamente sinto o Inverno a bater nos vidros.
Ignorante que eu sou – olhei outra janela. Como posso agora agarrar as sensações, inverter as cores. Vestir-me de mágico ou correr num autódromo.
- Olhar outras janelas é já incontidamente uma revolta! Desconcentro-me e perco as massas de malabarista, o dom da palavra de qualquer político. Sinto-me mal na gabardina de qualquer treinador de futebol.
- Pai! Pai! – Volto os olhos, o João olha-me na nudez dos seus poucos anos, interrogando-me, num olhar esquisito, cómico, invulgar. Sorrio, contagiando-me até às gargalhadas. O miúdo saltita-me no colo. – Tu estavas a dormir, Pai. Já a fechei! – Tenho aqui o livro. Pai lê!
Peguei-lhe a mão. Abri de par em par a janela da varanda. Peguei-lhe ao colo e abracei-o. Sim, que eram janelas, e prédios que se viam das janelas, mas era a maior sensação de liberdade e de ternura que sentia. Olhei-o e olhei para dentro do mundo, olhei as horas perdidas no sofá, e dei comigo sentado no chão, pernas cruzadas, lendo-lhe o livro, imaginando como aquela flauta mágica tocava só para nós dois.
Entretidos, ouvimos ao longe uma voz de mãe, chamando – então hoje não se janta?
Olhámo-nos os dois e dissemos em coro: Mãe anda, o jantar sabe esperar.
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