29.1.07

Guerras

Há carros de combate
em todas as ruas,
capacetes metálicos
de olhos escondidos,
e outros de faces
cheias e duras
gritando ordens e ordens,
de bastão empunhado.
Começou a guerra
na minha cidade,
e as torres das igrejas
são estandartes torpes
das tropas inimigas,
dos fantasmas e sonhos
dos livros da escola.
Que morram os heróis,
diz alguém de face hirsuta,
e dedos fechados,
e por cada letra
de uma palavra,
morre um soldado
sem se saber bem porquê.
Há um miúdo,
sozinho – pateticamente
seguro
de fuzil de pau
em punho,
desafiando as balas
que passeiam perto
do medo,
e cheiram a pólvora e a sangue,
odor próprio dos generais.
Alguém grita lancinante,
e eu digo – é a mãe.
E depois um estrondo
e outro
e mais outro
e ainda um último (trabalho competente)
e no chão, largado o fuzil,
chorando a mãe, como
qualquer guerreiro,
de olhos grandes e fortes,
abre os seus braços órfãos
e murmura,
mãezinha… quem cuidará de mim!

18.1.07

A minha vida sentou-se


Foto de Paulo César
A minha vida sentou-se
na soleira do albergue
que me atende.
despediu-se da morte
com o mesmo sorriso
com que escarnou da lama
que hoje lh’é companheira.
Já se foram as compaixões
e os gestos de amor,
e cada leito, não tem sentido
de coito, nem do acto,
apenas esteira
onde descarrega
o que pesa e não faz falta.
A minha vida está sentada
esperando não sei o quê…
olho os dedos
que se estendem dum pedaço
de carne inerte e queimada
dos pedaços de sonhos
que ajeito entre uma mortalha
de papel
de pano roxo
de pinho.
A minha vida sentou-se
porque se desfez no cansaço
de ser diferente e ser louco,
de amar a miragem e o insensato
e só escutar dos lábios
o que traz o sangue do coração.
É sempre carne que fala
dinheiro, vantagens
poder, luxo, perfídia,
demais para quem se obriga a ficar só.
Mas a minha vida sentou-se
talvez para voltar donde saíu,
do pó
do sangue, e um amor
que por estar morto
não sabe dizer mãe,
e d’outros amores que eu teria
ficou-me um pedaço de terra
onde sei pode crescer um sonho,
mesmo sentando-se a vida.
A minha vida sentou-se
olhos cansados,
ficou a morte
a seus pés, brincando de menina.

Carta - Retrato

Aqui fica uma carta
Escrita com a força dos anos coloridos de ti.
aqui fica uma palavra
que adoça a boca
no trago mais amargo que permanece.
Aqui ficam todos os gestos, musicas e passos
aqui ficam todas as dores e sorrisos e visões,
todas as exclamações, prazeres, todos os sonhos
tristezas, triunfos e decisões, impasses
loucuras.
ficam os tempos e as esperas
a ternura, a ingratidão, fracassos e projectos
realidades e fantasias, ficam mesmo
todas as outras faces que me vestem
e todos os que me despem, desnudam e invadem.
aqui fica tudo,
porque tudo pode ficar e descansar.
A poesia é eterna quando fala de amor.
Aqui fica um poema
porque existem palavras que se gravam
aqui fica o meu coração,
como gravura,
gravada em ti,
aqui fico eu.

Dia novo

Hoje apeteceu-me criar
o quadro mais simpático, cinéfilo
de todos os momentos gastos,
repetidos nas telas,
e nas mentes de quem inventa sonhos:
uma sala,
uma lareira,
um bom sofá,
uma aguardente velha
um cigarro
eu,
uma folha branca,
e tu.
a quem o poema entregar.
porque hoje quero criar
a melodia e o poema
que quebrem
a teia informe do dia mais quotidiano
que existe.
Hoje quero ser louco
fugir da própria vida
hoje apenas te quero do meu lado,
o amor jorrando dos teus lábios
incendiado em gestos,
inundado na ternura
com que me ofereces teu peito,
me abres teu colo,
derramando a loucura selvagem
das tuas coxas, prendendo as minhas.
Porque hoje meu amor,
hoje apenas quis,
inventar-te.
somente amar-te.

Triste tristeza

A tristeza
deve ser o sentimento
mais lúcido
porque se embrenha na própria
solidão de cada um,
e a
solidão
é sentir
que
não
temos,
quem
queremos
mesmo ter

Meus filhos

Meus filhos são tesouros
que nenhum rei já possuiu.
São a força,
e a alegria,
o meu sustento de palavras,
e o sabor novo provado em cada manhã.
Olho-os
na contemplação secreta do prazer,
agradecido à vida,
em cada sorriso
cada gesto
cada gota que enche
o vaso pleno da sabedoria.
Uma mão estendida – vale um pôr-do-sol
Um sorriso - um poema.
Meus filhos,
São pedaços de vida inacabados
Livros incompletos
Inexplicados.
Meus filhos, são dois homens
Meus filhos – são meus filhos

Troca

Em vez do preço amargo da virtude,
- dou-te um novo suco a provar:
a desmedida opulência dos costumes,
a saborosa novidade da ternura,
despida de impudores
de si, tão só, tão nua,
como a Natureza
no Outono,
sabe ser.

17.1.07

Á Mulher de uma rua

Eram não sei,
quantas horas da noite,
o vento requebrava as folhas
de mansinho
e punhas de encontro à face
o teu casaco côr de mel.
Passeavas estranhamente pela
borda
de um passeio, onde sapatos
apressados
olhavam de soslaio os teus pés
inquietos e cansados.
Do outro lado de que dispunhas
sobranceiro ao macadame
poluído,
milhões de quilos de minério
convertido em astutas
viaturas,
conversavam lado a lado
sem decência
o preço das loucuras e velocidades.
uma ou outra que abrandava
dispunha de um pescoço
requentado
que posto fora da janela
reduzia o ridículo e a marcha,
e simplesmente grunhia -
- quanto?
e tu comercialmente digna,
afirmavas ponto a ponto o teu
valor,
aos olhos dos outros apontado
aos teus próprios ignorado
que mais não tinhas de suster
senão
de pronta ao teu ofício
sentinela de sonhos imundos
dos castrados
gola alta no teu lugar
pronta ao frio dos que te gelam.

A Janela


foto de Hugo Amador

Recostado no meu sofá, chamei o João, e uma pequena palavra soltou-se-me da boca:
- João, abre-a.
O João sentou-se aos meus pés. A luz pulsou em incontida energia, e a sua pequena boca soltou um ah de enormidade.
Todas (ou quase todas) as tardes, o nosso pequeno gesto se repetia. Por aquela janela, toda a perfeição e sonho se construía. Mesmo em intervalos de distracção, debruçávamo-nos de inveja no carro prateado, na sopa de sabor único, no sabonete sem cheiro que nos deixava loucos de felicidade, e o João dizia: - Pai, compra-me! Pai dá-me! Então voltávamos ao que passava na janela, já com mais atenção. Sim ali tudo era verdade. Nua e crua, como nunca se teria visto sem aquela janela aberta.
– Para quê a matemática, ou o esforço? Para quê o trabalho? O calor? O frio? Para quê uma viola ou um livro? Bastava a janela aberta, a mão crispada do João perante as personagens que nos piscavam o olho ali mesmo ao pé. Sabem, já sou íntimo de uma tartaruga reconvertida a humana, e inimigo feroz de uma ratazana que quer destruir um lago.
Um casal acaba de fazer amor. O homem olha uma suposta janela e afirma vir a Primavera, a mim, que desgraçadamente sinto o Inverno a bater nos vidros.
Ignorante que eu sou – olhei outra janela. Como posso agora agarrar as sensações, inverter as cores. Vestir-me de mágico ou correr num autódromo.
- Olhar outras janelas é já incontidamente uma revolta! Desconcentro-me e perco as massas de malabarista, o dom da palavra de qualquer político. Sinto-me mal na gabardina de qualquer treinador de futebol.
- Pai! Pai! – Volto os olhos, o João olha-me na nudez dos seus poucos anos, interrogando-me, num olhar esquisito, cómico, invulgar. Sorrio, contagiando-me até às gargalhadas. O miúdo saltita-me no colo. – Tu estavas a dormir, Pai. Já a fechei! – Tenho aqui o livro. Pai lê!
Peguei-lhe a mão. Abri de par em par a janela da varanda. Peguei-lhe ao colo e abracei-o. Sim, que eram janelas, e prédios que se viam das janelas, mas era a maior sensação de liberdade e de ternura que sentia. Olhei-o e olhei para dentro do mundo, olhei as horas perdidas no sofá, e dei comigo sentado no chão, pernas cruzadas, lendo-lhe o livro, imaginando como aquela flauta mágica tocava só para nós dois.
Entretidos, ouvimos ao longe uma voz de mãe, chamando – então hoje não se janta?
Olhámo-nos os dois e dissemos em coro: Mãe anda, o jantar sabe esperar.

As saudades

As saudades não são nada.
è apenas o dorido do espaço
a impaciência do tempo...
não é nada.
São as mãos que tremem, vazias.
São lábios secos, sem beijar,
não é nada.
As saudades
é a linguagem de quem não
sabe estar só.
Quem sabe que vem alguém,
tão certo ou tão incerto
como o Sol brilhar
amanhã.
As saudades não são nada,
o amor, esse é muito.

Por Ela

Olhei-a de soslaio, sem deixar entender meus olhos fitados nela. A sua beleza descrevia o entardecer magnífico de um qualquer campo de trigo amarelo, amadurecido no pincel de um qualquer Van Gogh. Derramava dela a brutal incompreensão do absoluto, um mar de solstício de Setembro, forte e rude, belo e vital.
A presença dela, inundava a luz das coisas em que tocava, inventando áureas mágicas, texturas forradas a prazer, entregando-se nos gestos que compunha – banais – como se fossem momentos únicos, actos solenes, deíficos, imaginando (eu) que seus beijos fossem obras de autor, ternos consolos de quem se sentia um Cesário perdido nos braços da sua amada.
Foi então, sim foi então que a desejei. Desejei-a como se deseja no íntimo de cada alma, ansiando a plenitude, resgatando gestos, olhares, pedindo os cabelos, as pernas, as mãos, os seus seios. E fui então o maior dos poetas, compus oitavas de génio, falando de amor e solidão, incontornável veste de poeta, da muita solidão – e falei de todas as ruas onde a queria levar. Pintei o seu nu com a arte que se arroja e a decência inocente dos anjos. Cantei o madrigal mais terno e leve que se deseja cantar, quando o seu rosto por fim repousar no meu ombro.
Parei. E o meu peito arfava. Havia tecnicamente, como que a impossibilidade de respirar. Num esgar, o meu rosto contraiu-se, os olhos humedecidos pedindo – como qualquer pedinte que se verga a pedir do desespero de nada ter. Decidido, ergui-me. Ergui-me, como qualquer homem se ergue no meio da noite do leito da sua amante, arrefecendo no caminho os pés que o levarão de volta à cama conjugal, sempre quente.
Olhei-a uma última vez, na doçura de um quadro pintado pelo melhor dos artistas, lembrou-me uma bailarina de Degas.
A história chegava assustadoramente a um eminente fim, quase possível, evidentemente clássico. Os meus passos transportavam o sorriso dos conformados, ébria virtude de quem sofre da mais profunda imaginação, e se perdoa diante dos santos, que riem de todas as preces com a mesma terna e impassível candura.
É agora que se inventa um final feliz. Logo ela virá correndo, quem sabe, perguntando as horas, um endereço. Depois, porque não, conversaremos, marcaremos o encontro no café, que será o de todas as vésperas, e o amor, o que move e desenha palavras, nascerá perene e doce, até ao fim deste conto. Ela, será forçosamente a razão do sonho de um homem, a razão, de sempre se perder a razão – por uma paixão.

16.1.07

A noite

São horas da madrugada,
há um pássaro
louco e triste
cavalgando na lua.
Cada esquina tem
um companheiro
e cada silêncio
compra-se ao som da
solidão.
É noite,
cada ventre tem sombra
cada delírio, um sonho,
Há uma bica
esquecida e fria
onde navegam beatas
tristes, encharcadas de um poeta
sem sono.
Grito, às vezes…
sonhos que não se
desfazem.
Loucos, polícias
tristes e ingénuos
pedem a madrugada.
Há razões e sentidos
nas mãos dos noctívagos
vagueantes.
olhos solitários de rapina
ansiando o banco da avenida,
já ocupado,
e o leito que ficou por fazer
com as notícias da manhã.
Ali ao lado
a luz está acesa
e o linho do leito
desventrado
tem o perfume do amor
que a noite faz.
A noite embala e canta
inunda tudo,
cada vidraça, cada esquina;
até o mar se encheu da noite.
A noite não é já breu, escuro,
apenas nostalgia das diferenças,
apenas o que fica quando
o sol se vai,
e cada um tem de ir
mais longe, procurando,
somente procurando….

15.1.07

No teu jardim

No teu jardim,
há uma rosa de cheiro,
vermelha.
Cada pétala é uma folha branca
com um poema escrito,
cada folha verde,
a esperança que baila
e canta com o vento
a nossa canção.