17.1.07

As saudades

As saudades não são nada.
è apenas o dorido do espaço
a impaciência do tempo...
não é nada.
São as mãos que tremem, vazias.
São lábios secos, sem beijar,
não é nada.
As saudades
é a linguagem de quem não
sabe estar só.
Quem sabe que vem alguém,
tão certo ou tão incerto
como o Sol brilhar
amanhã.
As saudades não são nada,
o amor, esse é muito.

Por Ela

Olhei-a de soslaio, sem deixar entender meus olhos fitados nela. A sua beleza descrevia o entardecer magnífico de um qualquer campo de trigo amarelo, amadurecido no pincel de um qualquer Van Gogh. Derramava dela a brutal incompreensão do absoluto, um mar de solstício de Setembro, forte e rude, belo e vital.
A presença dela, inundava a luz das coisas em que tocava, inventando áureas mágicas, texturas forradas a prazer, entregando-se nos gestos que compunha – banais – como se fossem momentos únicos, actos solenes, deíficos, imaginando (eu) que seus beijos fossem obras de autor, ternos consolos de quem se sentia um Cesário perdido nos braços da sua amada.
Foi então, sim foi então que a desejei. Desejei-a como se deseja no íntimo de cada alma, ansiando a plenitude, resgatando gestos, olhares, pedindo os cabelos, as pernas, as mãos, os seus seios. E fui então o maior dos poetas, compus oitavas de génio, falando de amor e solidão, incontornável veste de poeta, da muita solidão – e falei de todas as ruas onde a queria levar. Pintei o seu nu com a arte que se arroja e a decência inocente dos anjos. Cantei o madrigal mais terno e leve que se deseja cantar, quando o seu rosto por fim repousar no meu ombro.
Parei. E o meu peito arfava. Havia tecnicamente, como que a impossibilidade de respirar. Num esgar, o meu rosto contraiu-se, os olhos humedecidos pedindo – como qualquer pedinte que se verga a pedir do desespero de nada ter. Decidido, ergui-me. Ergui-me, como qualquer homem se ergue no meio da noite do leito da sua amante, arrefecendo no caminho os pés que o levarão de volta à cama conjugal, sempre quente.
Olhei-a uma última vez, na doçura de um quadro pintado pelo melhor dos artistas, lembrou-me uma bailarina de Degas.
A história chegava assustadoramente a um eminente fim, quase possível, evidentemente clássico. Os meus passos transportavam o sorriso dos conformados, ébria virtude de quem sofre da mais profunda imaginação, e se perdoa diante dos santos, que riem de todas as preces com a mesma terna e impassível candura.
É agora que se inventa um final feliz. Logo ela virá correndo, quem sabe, perguntando as horas, um endereço. Depois, porque não, conversaremos, marcaremos o encontro no café, que será o de todas as vésperas, e o amor, o que move e desenha palavras, nascerá perene e doce, até ao fim deste conto. Ela, será forçosamente a razão do sonho de um homem, a razão, de sempre se perder a razão – por uma paixão.

16.1.07

A noite

São horas da madrugada,
há um pássaro
louco e triste
cavalgando na lua.
Cada esquina tem
um companheiro
e cada silêncio
compra-se ao som da
solidão.
É noite,
cada ventre tem sombra
cada delírio, um sonho,
Há uma bica
esquecida e fria
onde navegam beatas
tristes, encharcadas de um poeta
sem sono.
Grito, às vezes…
sonhos que não se
desfazem.
Loucos, polícias
tristes e ingénuos
pedem a madrugada.
Há razões e sentidos
nas mãos dos noctívagos
vagueantes.
olhos solitários de rapina
ansiando o banco da avenida,
já ocupado,
e o leito que ficou por fazer
com as notícias da manhã.
Ali ao lado
a luz está acesa
e o linho do leito
desventrado
tem o perfume do amor
que a noite faz.
A noite embala e canta
inunda tudo,
cada vidraça, cada esquina;
até o mar se encheu da noite.
A noite não é já breu, escuro,
apenas nostalgia das diferenças,
apenas o que fica quando
o sol se vai,
e cada um tem de ir
mais longe, procurando,
somente procurando….

15.1.07

No teu jardim

No teu jardim,
há uma rosa de cheiro,
vermelha.
Cada pétala é uma folha branca
com um poema escrito,
cada folha verde,
a esperança que baila
e canta com o vento
a nossa canção.

Madrugada

Quem dera fosse já a madrugada,
e o vento passasse devagar,
pelo sussurro das folhas
eu diria
a urgente instância de calar,
a força grande e sublime,
que torna as pontas dos meus dedos
mensageiros perdidos,
em teus cabelos,
que se moldam em doces leitos
dos meus beijos.
A noite adensa a liberdade
dos gestos, ternuras e desejos,
e faz a loucura se despir
brincando de novo de menina.
Estão nuas nossas faces, nossos olhos
gritam de mansinho
a melodia,
que lhe ensinámos há tempos
encostados
na varanda que dá
para o novo dia.
Faz-se noite a dentro, a noite escura.
o silêncio cobre a luz, dá-lhe magia;
faz de cada canto
uma figura
projectada em sombras,
histórias encantadas
que já ouvimos.
- E quando o Sol vem por fim beijar a madrugada,
Ela desprendida se debruça,
Nos olha, estejamos nós como estivermos –
Eternamente falando do nosso amor.

Vaguear

Vagueio
entre os dias mais pardos
que a existência
se lembrou de conhecer.
São dias iguais
onde o Sol
não se abraça sobre a Lua
e as almas se embalam
num torpor velho
inanimado,
os cotovelos coçados,
as calças esgaçadas do banco onde se sentam
o tempo todo.
Passas por mim
trazes o perfume
que se levantou de madrugada,
e o cheiro das cidades
que acordam
ainda antes das sirenes,
destapando os corpos dos lençóis
cheirando ao calor das noites
húmidas,
prontas para o novo dia.
Renasço nessa mão gentil,
Estendida,
Percorremos os espaços
Que sempre tive,
avistamos o sol que nos conhece,
sonhamos e escrevemos
a diferença,
somos os mesmos dias iguais,
somos os mesmos dias
somos outros dias
vestidos de liberdade.

10.1.07

Um momento

Dobram-se as noites de luar
deita-se o sol,
acordam todas as luzes
entoadas à claridade,
e repassa no orvalho
a simplicidade de cada
silêncio,
e dos sons espontâneos,
inventados.
De pé, olhando o que
ninguém sabe
um homem por desvendar
espera a aurora
e uma mão de mulher
que lhe entregue a noite
num beijo.

5.1.07

Relógio

Olho o relógio,
gastador do tempo,
pastor das horas que passaram
e das que hão-de nascer.
Acerto-lhe os zeros
como se fosse Deus,
anfitrião
do meu tempo,
e a memória das horas,
se apagasse num estalar
de dedos.
olho o relógio
uma vez mais,
tem a côr do recomeço
e os números
tingem-se de um verde
esperança,
renascida,
talhada na alma
sonhadora,
coração aberto e largo,
num eterno devir
de um tempo
que não pára.

2.1.07

É natal

É natal,
dia de nascer,
dia em que todos os dias
são a soma dos desprezos,
de todos os dias.
Em que as correntes que nos prendem
aos sonhos
se quebram com o vigor
da raiva e dos olhos inchados
marejados do sangue
gasto
no sofrimento do frio,
com que estalam os dedos,
a brusca arritmia
com que fugimos dos beijos
e dos abraços,
que nos vestem -
- hipocrisias
deste dia estabelecido.
É natal,
e rebentam as rolhas
nas cabeças dos furtivos
barretes,
há sorrisos
e gente que quer nascer de novo:
e tentamos:
- Diferimos dos diferentes,
somos prendas, que afinal são embrulhos.
Somos festa de família
cheios de prendas, sem laços,
somos a contradição nascida
das vontades
e dos desejos;
É Natal
descem as sombras,
sobem balões de ar quente,
oxigénio de uma noite travestida,
ilusão que sabe bem,
por um sonho
por um dia
é Natal.

Sonho de Inverno

Apago a luz
que ilumina a minha mesa,
recolho os reflexos
que a noite me oferece.
baixo os olhos
recosto-me na cadeira e sinto-te…
esperas-me:
Entro no teu salão,
cheira-me a madeira, nobre,
imolada,
na nossa lareira,
cúmplice
dos nossos silêncios,
quando,
esgotados,
descansamos nas imagens que o fogo desenha.
A nossa canção
envolve-me nos teus braços,
perfeita,
na estereofonía com que
nos deleita.
O teu vestido plissado,
roda no espanto dos meus olhos,
mergulho no decote
onde o teu vestido negro
ilumina o recorte dos teus seios, belos.
No teu cabelo
sobra um laço que desaperto,
tuas madeixas caem pelo teu rosto,
encostam-se nos teus lábios,
onde minha boca
se antecipa
com a sede de um beduíno
que alcança seu oásis,
e depois olhando teus olhos,
percebo o sonho,
despeço-me de ti,
e ergo-me cansado,
correndo certo para ti.

Breve olhar

Já percebi em teus olhos,
Os desejos que me roubas
Já me perco em teus escolhos
Onde sinto, sempre ousas

Junto meu corpo ao teu
Oiço teus lábios beijar
Jurando que me dás teu céu
Onde me queres guardar

Justo teu corpo, me cinge
Obra tua, teu encanto
Jogas, teu corpo me atinge

Ócio teu, e minha pena
Janela do meu poema
Onde contigo me espanto.

Consoada

Teus olhos vermelhos, cansados,
descansam agora
na madrugada envolta
de fitas e papéis,
caixas de papelão vazio
mascarando o chão frio
num imenso lago de coisas
(objectos)
abertos
mãos sôfregas,
sorrindo de fartura.

Teus olhos fecham-se,
Fugindo de um tempo louco
correndo nas escolhas
por templos onde te arrastas,
arrastando teu corpo
procurando razões
sinais de sorrisos
de uma noite.

Dizes adeus à euforia,
ganhas tempo na desculpa
carregas na memória
o tempo das inutilidades
que neste tempo
ganham razão
e o peso inadiável
do que todos precisam gostar.

Teus olhos abrem-se doridos,
estou diante de ti,
os dois
mãos que são nossas, vazias
agarram o novo amanhecer
onde o amor, como sempre
chegará,
apenas dentro de nós,
sem fitas, sem papéis
desembrulhado.

Paixão vs morte lenta

A paixão sai de mim como se fossem cavalos selvagens que nenhuma cerca segura. – nem sempre - às vezes a vida apanha-nos, cerca-nos com os mais grossos elos de aço, as mais finas cordas, e o medo, o medo de virar mesas e cadeiras, de partir à procura da verdade, de entregá-la no colo de quem queremos.
Ficam as coisas belas, derretendo nas mãos, queimando-nos os dedos, enrugando de tanta espera. Inventamos as palavras e, perdemo-nos...
Às vezes um gesto seria tudo, uma mão sobre a outra de outra, um sorriso talvez…
uma carícia mais ousada, com uma desculpa de permeio. Mas existem as palavras. Então, rodamos em círculos e círculos, e inventamos as rotundas da nossa vida, donde nem sempre sabemos por onde sair, ou não queremos, ou não podemos, ou esta hora já não pode ser mais longa, porque pode perigosamente dizer, o que o coração teima e a razão proíbe.
É preciso contrariar a morte lenta.
Aproveitar as verdades que vêm de dentro de nós, as emoções e a química que os outros nos provocam, e da paixão, da infinita e malvada paixão que nos devora.
Às vezes o amor parece ser uma coisa mais bonita e serena, mas é construído, e tudo o que é construído tem planos e projectos...
A paixão é no fundamental aquilo que nos aguenta, nos transforma, nos faz viver com os olhos encharcados de alegria,
às vezes inventando
às vezes enlouquecendo,
de sermos ou termos de ser tão racionais e pragmáticos. Depois existem as horas, os filhos, os atilhos e os empecilhos, a família, o carro e o arranjo do carro, a TV e a TV cabo, os vizinhos e o barulho, e a lista do supermercado, e o fato novo e a camisola velha, e existem aqueles seres especiais a quem nada nos liga, mas que nos ligam ao imaginário e ao amanhecer com fome e com vontade de não morrer lentamente...