2.1.07

É natal

É natal,
dia de nascer,
dia em que todos os dias
são a soma dos desprezos,
de todos os dias.
Em que as correntes que nos prendem
aos sonhos
se quebram com o vigor
da raiva e dos olhos inchados
marejados do sangue
gasto
no sofrimento do frio,
com que estalam os dedos,
a brusca arritmia
com que fugimos dos beijos
e dos abraços,
que nos vestem -
- hipocrisias
deste dia estabelecido.
É natal,
e rebentam as rolhas
nas cabeças dos furtivos
barretes,
há sorrisos
e gente que quer nascer de novo:
e tentamos:
- Diferimos dos diferentes,
somos prendas, que afinal são embrulhos.
Somos festa de família
cheios de prendas, sem laços,
somos a contradição nascida
das vontades
e dos desejos;
É Natal
descem as sombras,
sobem balões de ar quente,
oxigénio de uma noite travestida,
ilusão que sabe bem,
por um sonho
por um dia
é Natal.

Sonho de Inverno

Apago a luz
que ilumina a minha mesa,
recolho os reflexos
que a noite me oferece.
baixo os olhos
recosto-me na cadeira e sinto-te…
esperas-me:
Entro no teu salão,
cheira-me a madeira, nobre,
imolada,
na nossa lareira,
cúmplice
dos nossos silêncios,
quando,
esgotados,
descansamos nas imagens que o fogo desenha.
A nossa canção
envolve-me nos teus braços,
perfeita,
na estereofonía com que
nos deleita.
O teu vestido plissado,
roda no espanto dos meus olhos,
mergulho no decote
onde o teu vestido negro
ilumina o recorte dos teus seios, belos.
No teu cabelo
sobra um laço que desaperto,
tuas madeixas caem pelo teu rosto,
encostam-se nos teus lábios,
onde minha boca
se antecipa
com a sede de um beduíno
que alcança seu oásis,
e depois olhando teus olhos,
percebo o sonho,
despeço-me de ti,
e ergo-me cansado,
correndo certo para ti.

Breve olhar

Já percebi em teus olhos,
Os desejos que me roubas
Já me perco em teus escolhos
Onde sinto, sempre ousas

Junto meu corpo ao teu
Oiço teus lábios beijar
Jurando que me dás teu céu
Onde me queres guardar

Justo teu corpo, me cinge
Obra tua, teu encanto
Jogas, teu corpo me atinge

Ócio teu, e minha pena
Janela do meu poema
Onde contigo me espanto.

Consoada

Teus olhos vermelhos, cansados,
descansam agora
na madrugada envolta
de fitas e papéis,
caixas de papelão vazio
mascarando o chão frio
num imenso lago de coisas
(objectos)
abertos
mãos sôfregas,
sorrindo de fartura.

Teus olhos fecham-se,
Fugindo de um tempo louco
correndo nas escolhas
por templos onde te arrastas,
arrastando teu corpo
procurando razões
sinais de sorrisos
de uma noite.

Dizes adeus à euforia,
ganhas tempo na desculpa
carregas na memória
o tempo das inutilidades
que neste tempo
ganham razão
e o peso inadiável
do que todos precisam gostar.

Teus olhos abrem-se doridos,
estou diante de ti,
os dois
mãos que são nossas, vazias
agarram o novo amanhecer
onde o amor, como sempre
chegará,
apenas dentro de nós,
sem fitas, sem papéis
desembrulhado.

Paixão vs morte lenta

A paixão sai de mim como se fossem cavalos selvagens que nenhuma cerca segura. – nem sempre - às vezes a vida apanha-nos, cerca-nos com os mais grossos elos de aço, as mais finas cordas, e o medo, o medo de virar mesas e cadeiras, de partir à procura da verdade, de entregá-la no colo de quem queremos.
Ficam as coisas belas, derretendo nas mãos, queimando-nos os dedos, enrugando de tanta espera. Inventamos as palavras e, perdemo-nos...
Às vezes um gesto seria tudo, uma mão sobre a outra de outra, um sorriso talvez…
uma carícia mais ousada, com uma desculpa de permeio. Mas existem as palavras. Então, rodamos em círculos e círculos, e inventamos as rotundas da nossa vida, donde nem sempre sabemos por onde sair, ou não queremos, ou não podemos, ou esta hora já não pode ser mais longa, porque pode perigosamente dizer, o que o coração teima e a razão proíbe.
É preciso contrariar a morte lenta.
Aproveitar as verdades que vêm de dentro de nós, as emoções e a química que os outros nos provocam, e da paixão, da infinita e malvada paixão que nos devora.
Às vezes o amor parece ser uma coisa mais bonita e serena, mas é construído, e tudo o que é construído tem planos e projectos...
A paixão é no fundamental aquilo que nos aguenta, nos transforma, nos faz viver com os olhos encharcados de alegria,
às vezes inventando
às vezes enlouquecendo,
de sermos ou termos de ser tão racionais e pragmáticos. Depois existem as horas, os filhos, os atilhos e os empecilhos, a família, o carro e o arranjo do carro, a TV e a TV cabo, os vizinhos e o barulho, e a lista do supermercado, e o fato novo e a camisola velha, e existem aqueles seres especiais a quem nada nos liga, mas que nos ligam ao imaginário e ao amanhecer com fome e com vontade de não morrer lentamente...

4.12.06

Destinação

Embora o meu ser te reconheça
E entenda nos teus braços o prazer;
Não posso, nem quero, nem mereço
Tudo o que m’entregas por querer.

Não te ouso dizer aquilo que sinto,
E se por acaso és tu que quer fugir,
No teu sorriso eu m’escondo e minto
E teus beijos e teu colo sei pedir.

Há um sabor amargo quase cínico
Que diz que contigo me perdi
Destino mágico, feitiço químico

Histórias comuns de toda a terra
Q’um amor impossível sempre encerra
No futuro dos amantes que eu já li.

Um beijo

De tudo o que um beijo
quer dizer,
do que passou
do que se viu….
um beijo que sabe
a tudo
e muito pouco…
nas palavras mudas
incandescentes
lume fátuo
que me resta,
me arranca dos medos,
respostas breves
ternura semeada
sem arado que se meta
à terra –
- que a prepare.
e o carmim dos lábios
os lençóis acetinados
o cheiro morno dos teus seios
o torpor vago das tuas coxas
se espraiando em mim
o adeus que morre nas tuas mãos abertas
desprendendo-me das certezas
dívidas e duvidas que saldamos
no adeus e na volta
que sempre chegam
e tu pagas.
De tudo o que um beijo
quer dizer
resta o próprio sabor
tomado a gosto
quanto baste,
numa tarde de chuva
num ermo sombrio
onde tudo é nada
e o norte se perde
e o beijo
subsiste.

Cheiro de hortelã


Entro na tua casa,
cheira-me ao chá de hortelã
que perfuma os beijos
com que me recebes
e me prendes junto a ti.
O calor de Inverno
sobra da salamandra
que se esconde ao canto
da tua sala.
Uma tranquila ternura
irradia da tua pele de
amante, agora nua,
mulher plena,
onde a luz do fim da tarde
desenha teu vulto
no encantamento com
que me contas teus dias.
Somos dois corpos dormentes
Rastejando nos vincos
do pano acetinado,
moldado
ao nosso prazer,
duas taças sempre meias
na noite que nos espera,
duas almas que se querem
no intenso aroma dos corpos
insaciados,
somos nós,
e o tempo dos relógios,
sorrindo do tempo
que resta,
e da vontade
de voltarmos
à eterna busca
dos sorrisos
e dos momentos,
onde nos achamos…
felizes.

29.11.06

As estrelas

As estrelas procuram horizontes
abertos
onde se possam espreguiçar e ser
camas de luz
candeeiros de uma terra
escura,
onde a noite é cúmplice
de cada raio derramado.
Nas esquinas das ruas
onde se acotovelam os bares de má fama
existe sempre um ser embriagado
conspurcando um chão de si já sujo
e onde a gente dos dias sem estrelas
nunca se atreve a passar.
As estrelas passam a noite a conversar
e no barulho que fazem
alumiando quem quer
e quem não quer
perdem aos pontos com
uma pequena rocha
amiga da maior estrela
que de noite se esconde
e deixa a lua ser o que não é.
As estrelas gastam-se em desenhos
em problemas que só as constelações
sabem que têm,
e é ver os namorados adivinharem
e nomearem,
e pensarem o que cada estrela tem,
que nunca lhe vão chegar,
- à lua já todos chegamos:
por telegrama
por TV
ou num poema que um lobo
uivando
deixou por aí
À lua, sua estrela.

Aqui sentado


Foto de Jorge Casais

Aqui sentado, escrevendo,
dou-me conta do demónio
que me toma
e me torce as palavras
rebentando-me por dentro
em instantes colhidos
em sentimentos soltos, desventrados,
numa opaca e sublime toga
dos sacerdotes
guardadores de templos
onde nunca ninguém foi adorado.
Aqui sentado, escrevendo
as palavras roçam na mesa
arrepiando os cabelos
como se tivessem areia nas solas,
ou guinchassem em cristais molhados
tocados em círculo.
As palavras tolhem-me
arredondam o meu passo
e desmentem o que quero dizer e não sei.
Sou um surdo-mudo que esperneia
um vendedor de sonhos
em cima de um palanque
gritando de megafone
a gente que me compre
o que quero dar a entender.
Vendo livros de capa rija
bordados das noites em claro
dos pictogramas inexpressivos
das ruas cheias de néon
demoradas de escuridão.
Aqui sentado, pensando
deixo as palavras brincar à minha beira
tocando-as e afagando-as
chamando-as
quando se afastam
decorando seus nomes uma a uma,
sentado junto ao demónio
que não se esconde
nem se disfarça.
Aqui sentado, quieto
deixo as palavras subir em meu colo,
que a noite vai chegando
e todas se querem recolher.

24.11.06

E de um poema nasceu... II

Deixou um poema em cima da mesa e saiu. Sabia que ela, ao sentir o frio do outro lado da cama, saltaria pronta, procurando onde tinham feito amor, a mesa nua e fria, ainda quente do seu corpo, sulcos de si própria espalhados nela, e assim, perceberia a folha cheia, acolhendo palavras para si.
Não, não era um recado, nem uma justificação, nem concerteza razões expressas de forma polida e omnisciente, desculpando-se. Era um poema, zurzido da consciência do impossível, dos pedaços dos dois, que ainda ontem pareciam não conseguir se despegar, iluminados da loucura que os prazeres quando libertados, emprestam aos corpos e lhes dão aquele brilho, que só os amantes sabem contar e explicar dentro dos seus corações.
Uma dolorosa e delicada expressão de amargura, empalideceu seu rosto, sentindo a solidão dos amantes traídos; olhou de lado a sua cama, desarrumada, os lençóis descaídos e soltos, as roupas espalhadas pelo chão, como um mapa, com pontos demarcados e uma história apensa a cada um.
Já sentada na beira da cama, contida no seu próprio corpo, escondendo seus seios em seus braços, as pernas geladas, vermelhas, unidas na estupefacção do seu próprio ruído interior, procuraram nas palavras uma nova força, um destino, uma alma.
Encontrou-o mais uma vez. Como sempre, arquitecto de palavras, demasiadamente doce para a sua manhã, o rosto dele na sua memória - definhando, e foi lendo, e lendo, sem compreender onde chegava.
Era a carta de um homem com medo do amor, como se não lhe tivesses deixado os seus portões abertos para entrar, era a carta de um homem preso ao espaço e à resignação do mundo que trouxera atrás de si, como se ela alguma vez tivesse ousado tocar em seus haveres, ou pronunciado a palavra passado. Era ele e seu mundo, e a irrazoável forma de dizer adeus cobardemente, como se num último rebate, abandonasse a prancha mais alta e recusasse o salto para um mar maior e mais azul.
Ela sorriu, arrumou o quarto, tremeu de frio, e percebeu o quanto tinha estado nua, agasalhou-se sentindo o conforto do seu xaile de seda, onde tantas vezes repousara o seu amante, e sorrindo mais uma vez, abriu a janela que dava para o meio da rua, o rio entrando pelas suas narinas, extasiado do fresco ar húmido e salgado que a abraçava, e convidando o Sol a entrar, escutou no seu rádio a sua música favorita, trauteando um novo canto, sem saudade, sem rancor. O amor, o seu amor haveria de chegar outra vez.Ele, parado no meio da rua, queria perceber o que tinha escrito, a impulsividade que o dominava, o medo de magoar, de prolongar sonhos sem esperança. Doía-lhe o peito e a saudade dos lábios dela. A manhã não lhe dava tréguas, de ter sido acordada tão cedo, enregelou-lhe os ossos, como querendo que ele voltasse ao leito que tinha deixado. Sentia o perfume dela, abraçando-o, mas soube que a outra história devia estar destinado. Final de história, os passos levavam-no em frente. Sorriu na compreensão, do quanto ela ficaria no seu peito, na sua memória, e amou esse momento na plenitude de um grande final e do quanto os momentos são diferentes na medição do tempo e dos seus segundos. Veio-lhe à memória a mesma canção, que tocava em todas as janelas abertas, a sua canção, espalhada por todos os rádios, esperando que ela também o tivesse ligado, trauteou baixinho para ela, que o amor nunca irá partir, um dia o amor, o seu amor haveria de chegar outra vez.

22.11.06

Tenho

Tenho os dedos marcados
desta escrita,
que por vontade própria
me conduz impunemente a ti.
Tenho os olhos cansados
de os abrir, noite fora,
murmurando nos silêncios,
procurando em relances de luz,
o teu vulto,
tua figura.
Tenho a minha boca ardendo
seca, dorida
das palavras que não disse
e das que repito a cada
minuto,
do teu nome.
Tenho o peito encovado,
arfando,
procurando outro ar
que respire,
solto do cheiro
com que teu corpo
me atormenta.
Tenho a vida despegada,
das portas onde
não entro,
das estradas que não percorro,
dos rostos felizes
que não visito.
Tenho-te a ti,
e…
basta-me.

21.11.06

Errante

Errante,
procuro as cores que o
Mundo pinta;
atrevo-me em passos céleres,
prosélito
de todos os lugares
onde se alcance um copo,
e as canções escorram
amenas,
pelos sorrisos
de homens velhos, batidos.

Nómada,
aperto-me em braços
de mulheres alcunhadas,
tocando-as de cor
melodias repetidas
sem olhar.

Transviado
procuro a estrada que deixei
sem tempo
sem marcas,
gestos e olhar gastos,
tacteando no coração
teu endereço
onde quero voltar
e me aconchegar
deste erro eterno
de te buscar.